A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 138

A Virtude do Demônio

A voz de Enka continuou soando nas orelhas de Eiro, como se ele estivesse gritando bem ao lado de sua cabeça. Mas isso foi tudo, ele não se sentiu influenciado pela voz. <O Diabo> mencionou que monstros ‘artificiais’, como Eiro, têm um valor base de Força de Vontade natural alto. Agora que ela chegou a 100, junto com essa habilidade extra, parecia ser o suficiente para resistir à habilidade ‘Voz Encantadora’.

— Eu não sei do que você está falando. Nos encontramos antes? — O Demônio perguntou com um leve sorriso, enquanto ele se levantava. Quando colocou muito peso em sua perna esquerda, ele quase caiu. Ele mal percebeu, apesar de toda a dor que a sede de sangue lhe causou, mas parecia que sua perna estava quebrada. A parte central da marca da bênção que estava em seu peito também havia sumido, substituída por pele queimada e sangue.

— Oh, sério? Não acho que haja tantos Diabretes com três Cartas por essas áreas. Estranho. — Enka respondeu com um pequeno sorriso no rosto, mas Eiro o encarou de volta com um olhar penetrante. Ele estava ciente de que era inútil tentar esconder, já que Enka estava mais do que confiante com sua informação.

— Como você sabe?

Com um leve sorriso, Enka olhou para Eiro e colocou as mãos atrás das costas.

— Certo, fui informado de que você seria bastante curioso. Então, deixe-me te entreter por um tempo. — Ele apontou e então procedeu para explicar algo que deixou óbvio para Eiro que a promessa anterior de Enka era uma farsa, afinal, não havia como Enka permitir que alguém com uma informação tão vital e secreta saísse com vida.

— Veja bem, a organização da qual faço parte tem muitos pesquisadores ótimos. Eles são capazes de criar versões falsas de meia dúzia de cartas que temos e isso significa que eles também são capazes de recriar a habilidade mais básica que um portador de Carta possui, e isso é a capacidade de sentir outros portadores. — Enka explicou, e Eiro estreitou os olhos. Então, o que ele sentiu naquele brinco era a aura de uma carta.

‘Uma carta que para o tempo, hein…?’

— Muito bem, obrigado por me contar como eu posso conseguir mais seis cartas no futuro. — O demônio disse, e Enka parecia se divertir bastante.

— Acho que para tornar isso justo, eu deveria contar algumas informações sobre mim também. — Ele refletiu, e Enka pareceu intrigado.

— Hmm, interessante. Continue. — Enka respondeu, e Eiro sorriu leve.

— Meus status: 197 de Força, 98 de Constituição, 181 de Resistência, 245 de Agilidade, 76 de Evasão, 196 de Destreza, 159 de Inteligência, 144 de Sabedoria, 102 de Percepção, 71 de Força de Vontade e 265 de Carisma. — Eiro disse com um tom claro, embora logo tenha levado a mão até a boca em choque. — Oh, não! Me desculpe, cometi um erro aqui, esses não são os meus status, eles são…

— Meus… — Enka interrompeu com um olhar afiado. — Como você sabe os meus status? — O homem questionou, perdendo um pouco da compostura.

Com um leve sorriso, Eiro levantou o indicador e puxou a pele do olho direito para baixo.

— Eu tenho uma visão muito boa, sabia? — Ele comentou, e Enka compreendeu o que estava acontecendo.

— Você está tentando dizer que quando me pediu para abrir o meu status, aproveitou a chance para ler o reflexo nos meus olhos? — Enka perguntou e, com um pequeno sorriso, Eiro assentiu.

— Isso. — Ele respondeu. — E agora, deixe-me te contar a conclusão a que cheguei. — O Diabrete disse. — Parece ser uma tradição de família bater no seu filho para que ele obedeça, mas como você nunca teve permissão, não tem ideia de como é se esquivar. Você não consegue. O trauma é uma merda, não é? Sua força de vontade tão baixa serve para mostrar que você tem alguns problemas nisso. Claro, você parece bastante esperto, mas isso, com sua agilidade destreza e carisma, são apenas os acréscimos naturais que você recebe através da sua classe. ‘Pugilista Encantador’ parece ser bastante interessante, aliás.

— Cale a boca. — Enka disse com um tom de comando, mas Eiro balançou a cabeça em resposta.

— Prefiro não, mas obrigado pela sugestão. — Ele respondeu.

Cerrando os dentes, Enka o encarou mais uma vez.

— Eu disse para calar a boca. — Dessa vez, a voz dele fez com que Eiro se sentisse completamente tonto. O mundo começou a girar ao redor, e o Demônio teve dificuldade para abrir os lábios.

Mas Eiro escolheu fazer algo bastante diferente. Ele abriu seu status e colocou mais trinta pontos em resistência, seu menor atributo por muito, e o deixou em 50, para conseguir um pouco mais de vantagem nesse sentido. Não era muito, mas sua resistência também ajudava sua resistência mental. Entretanto, os atributos que de longe mais o ajudariam nesta situação eram outros dois.

Eiro colocou 90 pontos em sabedoria e 85 em inteligência, deixando ambos em 200.

[Sua inteligência ultrapassou a marca de 200 pontos! Habilidade <Processamento de Pensamentos> atualizada para <Processamento de Pensamentos Rápido>!

[Sua sabedoria ultrapassou a marca de 200 pontos! Habilidade <Aprendizado Acelerado> atualizada para <Aprendizado Mais Rápido>!

Com um sorriso no rosto, Eiro olhou para o topo do seu status.

[Nome – Eiro]

[Raça – Diabrete Colecionador Azul Gelo]

[Nível – 35]

[Vida – 6.423/30.750]

[Mana – 40.135/77.500]

Ele tinha quase dobrado a mana que tinha nessa manhã. Parece que, apesar da onda assassina da qual não tinha controle, ele conseguiu muitos níveis hoje. Na verdade, parecia bastante surreal quantos ele recebeu.

Mas isso não importava agora. Por conta dos seus novos status, a taxa com que sua mana era recuperada era muito mais alta também. E a mana que ele estava empurrando pelo seu corpo em um círculo também ajudou nisso. Eiro tinha que aguentar um pouco mais para que conseguisse decidir o que fazer para pelo menos ter uma chance contra Enka.

Seu corpo era uma bagunça agora, então não havia como ele ser capaz de fazer algo contra ele em uma luta física. Nelli estava fazendo o seu melhor para curar Eiro, mas mesmo isso demoraria um tempo.

Mas Eiro pelo menos tinha uma ideia do que poderia usar para lutar. A água que costumava fazer parte dos cadáveres das Náiades estava misturada com o sangue das pessoas que Eiro matou, tornando-a muito mais fácil de manipular. O Demônio pretendia continuar fingindo que as palavras de Enka conseguiam controlá-lo, enquanto o homem em questão se aproximava dele pensando que já havia vencido.

— Agora, como eu disse antes, me diga onde diabos estão as crianças. — Enka comandou, mas suas palavras causaram nada além de um leve zumbido nas orelhas de Eiro.

O Demônio fez com que sua mana se espalhasse o máximo que conseguia, fazendo-a viajar pelo sangue para alcançar qualquer parte possível, enquanto puxava tudo o que estava longe para perto deles.

— Elas estão… perto do lago… — Eiro anunciou, agindo como se tivesse sido forçado, e Enka se virou para olhar e observar a grande massa de água. Entretanto, Eiro usou essa chance para aproveitar. Ele moveu a ponta de sua cauda para trás das suas próprias costas e a utilizou para retirar uma das suas Cartas da sua Tesouraria, ativando-a. O líquido dentro do Ás de Copas foi controlado, enquanto Eiro fazia a carta desaparecer ao mesmo tempo que guardava a carta na tesouraria de novo.

E enquanto Enka ainda olhava para o algo, Eiro fez o líquido preto se mover abaixo do sangue vermelho-escuro, misturando-se.

O homem se virou, mesmo que sentisse que algo estranho estava acontecendo.

— Você acabou de pegar uma das suas cartas, não é? Me responda honesta. — Ele perguntou com um olhar profundo, com o máximo de mana possível infundida em sua voz, e Eiro respondeu.

— Não, não peguei.

Parecia que Enka pensava que Eiro estava sob seu controle, então pensou que imaginou errado. E enquanto o sangue dos corpos ao redor desaparecia da percepção de Enka, sem ele perceber que deveria haver sangue ali, o Diabrete sorriu enquanto Enka ficava de costas para Eiro.

— Ótimo. Vamos lá, me mostre onde elas- — Enka ordenou e virou a cabeça para olhar para o Demônio, apesar de que, no instante em que fez isso, percebeu que ele havia sumido.

Eiro havia coberto seu corpo com uma fina camada da mistura de sangue de Náiade, sangue e a poção do Ás de Copas. Isso o fez desaparecer da visão de Enka, e isso era tudo o que ele precisava.

Ao ver Enka surtando por ele ter desaparecido, o Diabrete olhou para o seu Espírito que ainda conseguia perceber ele assim como o líquido especial em que estava coberto, e tentou avisá-la para que ela fizesse o que pudesse para distrair Enka por um momento, no outro lado da praça.

Ela fez como pedido e lutou até ali para causar um pequeno barulho usando sua água, arremessando-a contra a parede em alta velocidade. Enka se virou e encarou a fonte do som e, com uma voz irritada, exclamou:

— Eu iria te deixar sair, mas agora você tem que morrer. Encontrarei essas crianças sem precisar da sua ajuda! — Ele exclamou, e Eiro olhou para as costas de Enka, enquanto caminhava até o outro lado da praça, caminhando silenciosamente até o lado de uma construção para se reposicionar em algum lugar onde conseguisse uma vantagem.

Claro, isso era muito difícil de fazer enquanto arrastava sua perna, mas como conseguia ajudar seus movimentos com a ajuda da água e sangue ao redor dele, estava bem. Ele foi até um beco próximo e começou a espalhar a água invisível,  formando um círculo mágico no ar para criar algumas lanças de gelo invisível.

Não demorou muito para que o Diabrete conseguisse fazer isso até certo ponto, e o líquido sob o controle de Eiro foi utilizado como base para essas lanças, como queria que acontecesse, e no instante seguinte meia dúzia delas foram disparadas em direção a Enka.

Mas, quando foram disparadas, Eiro tentou se reposicionar enquanto as lanças viajavam pelo ar, uma após a outra, perfurando os membros de Enka. O homem caiu no chão, confuso, desde que não percebeu que as lanças estavam ali por conta da poção misturada no sangue e na água, mas elas definitiva estavam, não havia dúvidas sobre isso. Eiro recebeu algumas notificações de dano causado por isso, afinal.

E apesar de não ter causado tanto dano como gostaria, elas-

Os pensamentos foram interrompidos de repente.

Ele não estava prestando mais atenção a isso e, na verdade, era muito difícil perceber o exterior através da fina camada de líquido, mesmo para Eiro, mas parecia que… Lugo havia voltado à praça.

Com Arc e Felix em suas costas.

Comentários