A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 137

A Virtude do Demônio

Pele foi rasgada, sangue foi espalhado. Ossos foram quebrados e cadáveres caíram. Mais e mais, o ar ficou cheio com o cheiro de carne queimada e cabelo, enquanto os gritos histéricos e de pânico diminuíam cada vez mais.

Mas logo quando Eiro estava para rasgar um cadáver que ainda estava se contorcendo um pouco, o Demônio notou algo mais. O som de metal batendo contra metal se tornou mais alto e, no geral, muitos passos se aproximavam dele. Com um sorriso amplo, Eiro se viu para se deliciar com a fonte de experiência que se aproximava.

Basicamente sobre as quatro patas, Eiro escalou as caixas e barris que as pessoas tentaram usar para bloquear o caminho dele e pulou pelos telhados para continuar correndo. Assim que viu um reflexo de luz refletindo contra alguma armadura, Eiro pulou em direção à fonte do reflexo e empurrou suas ‘garras’, que eram as lâminas do Três de Espadas, através da armadura fina de metal.

Ela funcionou perfeitamente com os guardas de antes, os poucos que vestiam uma armadura adequada, mas agora… Eiro ficou preso na armadura. Ele olhou para o homem a quem pertencia a armadura e logo o viu balançando seu braço para baixo, com uma maça em sua mão.

O ataque foi severa enfraquecido pelo escudo de água que Nelli criou para Eiro, mas o Diabrete ainda tinha que pensar o que fazer a seguir.

Mas ele não conseguia. Nesta altura, seu corpo estava agindo por instinto. Então, com a mão presa no corpo do homem, o Demônio usou esse ponto seguro e passou a perna esquerda sobre o ombro esquerdo do homem, atrás de sua cabeça e depois sobre seu ombro direito, ficando sentado sobre os ombros do soldado.

Eles estavam encapsulados por uma camada espessa de água criada por Nelli para que nenhum dos ataques das outras pessoas os atingisse, mas de qualquer forma Eiro não se importava com o que acontecia ao seu redor. Ele passou as pernas em volta da garganta do soldado e pressionou os dedos da sua mão direita nas fendas do elmo dele, que deveriam servir para ele olhar, e puxou o mais forte que conseguiu tentando retirar o elmo, extraindo a mana do seu Três de Espadas.

Suas adagas ainda continuavam presas na armadura, mas agora tinha as duas mãos enquanto reativava a carta e as quatro lâminas que apareceram na mão esquerda de Eiro cravaram imediata na parte de baixo da cabeça do soldado, atravessando sua boca e perfurando o seu cérebro, fazendo-o cair. E quando Eiro puxou a mão para o lado e sangue espirrou de novo pela sua pele, o Demônio retirou ambas as adagas que estavam presas no corpo do soldado.

Ele ainda não conseguiu pensar o suficiente para considerar conectar as lâminas do Três de Espadas com as duas adagas novas. Em vez disso, ele apenas as segurou em sua mão, além de empunhar as lâminas do Três de Espadas, desde que quase não sentia medo no momento, não se importava muito.

O demônio apenas continuou atacando qualquer coisa que apareceu em sua visão.

— O que é isso?! — Um dos soldados gritou. — Isso não deveria ser um Diabrete? Um Diabrete não consegue se mover dessa forma! — Ele gritou, vendo seu companheiro cair no chão, enquanto sua vida se esvaía.

— Sacerdotes, façam alguma coisa! — E outro exclamou em direção às três pessoas vestidas em vestes brancas e douradas no fundo do grupo, que já estavam orando e conjurando, nervosas. Como se o apelo do soldado fosse algo que precisavam para prosseguir, os três levantaram seus cajados dourados em direção a Eiro enquanto um círculo mágico brilhante começava a se formar no ar.

Quando o círculo mágico foi ativado um brilho intenso preencheu todo o lugar e todos afastaram o olhar depois de serem cegados. Esse foi o primeiro ataque em que até mesmo Eiro percebeu que tinha que ser cauteloso.

A energia sagrada continuou queimando sua pele, mas esse tipo de ferimento poderia ser curado com facilidade depois. Porém, por alguma razão, a maldição não o afetou. Ele conseguiria passar por isso contanto que conseguisse matar os sacerdotes.

O que mais o incomodou entretanto era o brilho intenso que impossibilitava de manter os olhos abertos.

— Agora, ataquem! — Um dos sacerdotes gritou. — Ele está atordoado!

Assim que um dos soldados se aproximou e tentou atacá-lo, ele descobriu que… não estava atordoado. Ele estava balançando seus braços na direção que se lembrava de ver os sacerdotes, e como esses ataques eram sem lógica, feitos com o alcance e velocidade relativa grandes do Três de Espadas, o soldado foi incapaz de se defender e logo caiu no chão, depois de ter o rosto cortado.

— N-Não, mas… como?! — O líder dos sacerdotes gritou, enquanto os outros dois se viravam e fugiam para longe do Demônio que aparentava não ser muito afetado pela energia sagrada. Depois disso, ele não conseguiu continuar a pensar na resposta, pois teve o peito aberto pelo Três de Espadas e caiu no chão, apenas para ter o crânio aberto por um chute de Eiro.

Os outros dois sacerdotes não estavam muito melhores, pois nenhum deles morreu de forma bonita ou agradável. Enquanto Eiro estava parado acima dos cadáveres dilacerados dos dois, Nelli começou a curar a camada de pele que foi queimada pela luz sagrada, a qual desapareceu depois que todos os sacerdotes morreram.

A respiração ofegante de Eiro, combinada com o sorriso amplo que apenas um lunático poderia ter, pareceu causar uma reação em todos. Embora fossem soldados bem treinados e equipados, nem mesmo eles conseguiam ignorar a cena infernal que acontecia ao redor deles, causada por este único ser.

Felizmente parecia que eles não tinham mais o que se preocupar. Com passos pesados que pareciam ecoar através de todo o ambiente assustadoramente silencioso, um certo homem caminhou em direção ao demônio.

Suas mangas estavam queimadas e sua pele coberta por fuligem, enquanto seus cabelos vermelhos e bagunçados caíam sobre seu rosto. Foi o cheiro dele que deu início a isso tudo. Então, com uma expressão de desgosto, Eiro se virou e olhou para Enka, que o encarava de volta. Era óbvio que era apenas um ator, mas o Diabrete não se importava.

No instante seguinte, Eiro avançou na direção dele com toda a força que conseguia reunir, mas enquanto ainda estava no meio do ar, parecia que todo o mundo havia congelado e o único que ainda conseguia se mover era Enka. Muito casualmente, ele caminhou até Eiro e colocou a mão no peito do Demônio.

— Me desculpe por isso, mas vamos brincar um pouquinho, okay? — Enka sugeriu, chamas grandes surgindo ao redor do corpo do homem e inundando Eiro.

E você teria perdido isso se tivesse piscado, mas no instante seguinte o corpo de Eiro colidia com a parede de um prédio no lado mais distante da praça, enquanto chamas enormes cobriam o caminho por onde o Demônio passou.

[-25.125 de Vida]

[Aviso! Sua vida está baixa!

[Tentando encerrar a sede de sangue…]

[Tentativa falhou]

[Tentando encerrar a sede de sangue…]

[Tentativa falhou]

[Tentando…]

[Tentativa falhou]

[Usando 70 dos 290 pontos de status disponíveis para aumentar a Força de Vontade para 100]

[Sua força de vontade ultrapassou a marca de 100 pontos! Habilidade <Vontade de Ferro> adquirida!]

[Tentando encerrar forçada a sede de sangue…]

[Tentativa bem-sucedida. Sede de sangue encerrada.]

De repente, a mente de Eiro clareou novamente.

Todo o seu corpo estava doendo muito, ao ponto em que era quase incapaz de se mover, mas pelo menos conseguia pensar de forma racional de novo. Bem, talvez fosse melhor se não conseguisse pensar de forma racional, pois agora tinha que enfrentar o resultado do genocídio que havia cometido. E esse resultado não era muito legal de se ver.

As ruas que eram pavimentadas com rochas cinzas agora estavam vermelhas e pretas devido ao sangue. Seria bom se houvesse espaço livre para ver o chão abaixo do mar de cadáveres, órgãos e membros decepados.

Não era uma visão bonita. Eiro não se importava que tantas pessoas houvessem morrido, afinal tinha pouca ou nenhuma simpatia por aqueles que não conhecia, mas não gostava de ter feito isso sem estar no controle de si mesmo. Essa parte sobre isso o fez se sentir muito errado, e era tudo o que Eiro conseguia descrever.

E então havia Enka.

Eiro ainda sentia muito desgosto e irritação de vê-lo aqui, mas o que piorava ainda mais era o fato de que ele conseguiu feri-lo tanto com tanta facilidade. Pelo menos conseguiu descobrir qual era o item que o permitiu atacá-lo como se o tempo tivesse parado: o brinco na sua orelha esquerda. Parecia que Nelli também havia notado que algo de estranho estava com ele e confirmou, depois que chegou até Eiro.

Mas em vez disso o Demônio compreendeu essa parte de uma forma diferente. O brinco emitia uma sensação estranha. Era parecida com a sensação que os outros portadores de Carta emitiam, mas isso veio apenas do brinco. Eiro não gostou nada disso. Ele sabia que isso era perigoso, mas não conseguia fugir e seguir os outros. Agora que Enka estava na sua frente. Era muito perigoso. Talvez devesse subir nas costas de Lugo e cavalgar em alguma outra direção?

Essa era uma boa ideia, havia apenas um problema fatal nela. O cervo não estava em lugar nenhum. A princípio, Eiro não tinha certeza de onde estava, o que era estranho porque tinha pelo menos uma vaga ideia de onde seu familiar deveria estar ao passar com sucesso pela cerimônia. Embora não tenha demorado muito para que Eiro descobrisse onde Lugo estava.

Ele estava perto de onde as crianças deveriam estar agora, mas havia algo o incomodando. Lugo não estava seguindo as crianças, mas voltando até Eiro, e com uma velocidade incrível.

— O que esse idiota está fazendo? — O Diabrete murmurou para si enquanto olhava na direção que sentia Lugo, mas antes de conseguir fazer algo, Enka se aproximou dele.

— Oh? Me ignorando agora? Na verdade, me sinto meio insultado… — Ele disse com um leve sorriso. Parecia que todos os soldados haviam recuado um pouco para tratar aqueles que foram feridos por Eiro, então Enka deixou de atuar.

— Vamos lá, onde estão as crianças? Se você me contar, eu te deixo ir, sabia? — Enka apontou, mas Eiro o encarou de volta, cerrando os dentes e fazendo com que Enka risse. — Foi uma boa tentativa. Mas honestamente fiquei bastante surpreso quando me contaram que você é na verdade um Diabrete. Vocês são bons em enganações, certo? Mas, eu não sabia que você era do tipo que sequestrava crianças.

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