
Volume 3 - Capítulo 136
A Virtude do Demônio
— Hmm, Espíritos dão bastante experiência, hein? — Eiro murmurou, e Nelli apenas resmungou em resposta e olhou para o Demônio como se fosse óbvio.
— Claro que sim, nós, Espíritos, somos especiais, sabia? E não seria tão fácil matar um espírito, mas… esses caras aparentemente são idiotas. — Ela comentou, e Eiro assentiu e esticou a mão para retirar um item de sua tesouraria, o acendedor de faíscas, e então o colocou nos seus dedos.
— Oh, claro. — O Diabrete respondeu. — Então, vamos aproveitar, não é? — Eiro sugeriu, e então estalou os dedos para criar algumas faíscas que se transformaram em chamas, as quais se envolveram nos corpos dos Espíritos, que eram lentos demais para reagir.
Eiro não apenas tentou aquecer os corpos deles com as chamas, ação esta que continuou drenando a mana deles, mas também continuou os fatiando com suas duas adagas. Foi um pouco estranho descobrir a tática para empunhar duas adagas de uma vez, mas seu corpo logo conseguiu reagir por conta própria.
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
As notificações continuaram aparecendo, enquanto Eiro continuou matando os Espíritos mesmo que um deles parecesse ser especialmente evasivo. Eiro tentou eliminá-lo o mais rápido possível, enquanto evitava que as pessoas que viviam nesta cidade o olhassem horrorizadas.
Não parecia que o Espírito conseguiria chegar ao lago desde que Eiro já conseguia ver notificações o informando que estava causando danos reais a ele.
A adaga de Eiro estava para esfaquear o corpo dele uma última vez, quando o Demônio ficou tenso. Como se tivesse sido atingido por um ataque petrificante, algo que o forçou a ficar parado.
Mas foi só um leve cheiro que Eiro sentiu. Um cheiro que, de alguma forma, o fez sentir tão enojado que ele foi incapaz de reagir devido ao fedor. Era pior do que qualquer coisa que pudesse e iria apodrecer, algo que Eiro não suportava sentir. E isso era muitas, muitas vezes pior. Apesar disso não era tão ruim, era apenas o cheiro de uma pessoa ‘normal’.
Foi esse cheiro que fez algo ferver dentro de Eiro. Era algo que ele não queria experienciar mais. Espere… não, isso estava errado. Na verdade, ele sentiu isso muitas vezes antes, só havia uma grande diferença agora.
Enquanto o peito de Eiro quase começava a queimar e rasgar, ele conseguiu ver a última Náiade mergulhar no algo, enquanto Eiro viu uma grande torre de chamas brilhando à distância, do outro lado do lago.
E foi quando percebeu por que esse cheiro o fez sentir tão… bravo.
Ele estava começando a escutar sussurros, embora não se importasse com a origem desses sussurros. Eles existiam? Eiro estava os imaginando? Havia mais alguém aqui? O que Eiro estava fazendo? Por que ele estava… Por que ele estava… Por que ele estava…
[A Marca da Ira está falando com você. Está te dizendo para se livrar da fonte da sua ira.]
— Fonte da… minha ira…? — Eiro murmurou sem pensar enquanto olhava para a notificação, ignorando o som de Nelli tentando despertá-lo, ao mesmo tempo que os guardas se aproximavam do Demônio.
Mas Eiro só conseguia fazer uma coisa agora. Toda sua mente, todo seu ser estava ocupado tentando entender o que era a fonte da sua ira.
E então, a ficha caiu quando um dos guardas se aproximou de Eiro, pensando que a ‘explosão’ dele havia acabado e que ele havia se rendido. A arma do guarda estava apontada para baixo para que conseguisse prendê-lo.
Logo em seguida, o guarda sentiu uma dor afiada no seu peito enquanto o Diabrete enfiou sua adaga na roupa fina que servia como a ‘proteção’ do guarda.
— Ah, eu sei… estou bravo porque sou mais fraco do que ele… porque alguém mais forte do que eu está tentando tirar tudo de mim de novo… — Eiro disse, enquanto uma risada baixa tomava conta de todo o seu corpo e um sorriso amplo cobria metade do seu rosto. — Pode me ajudar com isso… — O Demônio falou enquanto se virava para o guarda parado ali com os olhos enlouquecidos, apesar de estarem escondidos pela sua máscara. Era como se toda a sua existência o aterrorizasse. E isso apenas se intensificou quando Eiro terminou sua sentença. — … meu pequeno saco de experiência?
No instante seguinte, sem que ninguém mais percebesse, Eiro afundou ainda mais a adaga dentro do peito do guarda até que ela ficou presa entre as frestas dos ossos dele, depois que ela perfurou o coração dele.
Eiro continuou e levantou sua mão até o rosto do guarda, estalando os dedos. O gerador de faíscas que ainda estava em seus dedos gerou uma faísca que se espalhou em grandes chamas que devoraram o rosto do guarda. E quando o corpo dele caiu no chão, Eiro focou sua visão na notificação.
E esta era um pouco estranha. A caixa em si era vermelho-sangue, tanto que por um momento Eiro ficou incerto se não era apenas sangue respingado, mas logo afastou esse pensamento quando a escrita azul começou a se destacar.
[A Marca da Ira o colocou no estado de sede de sangue. Até que esse estado diminua, você começará a perder vida se não causar dano suficiente aos outros.
[Sede de sangue fará com que todos os seus status e dano básico aumentem consideravelmente, mas o dano que sofrerá aumentará de forma similar. Quanto mais tempo ficar no estado de sede de sangue, maiores serão os efeitos negativos no seu próprio corpo.]
No fim, enquanto Eiro lia essas notificações algumas vezes, não as registrou. Claro, havia uma dor profunda no centro do seu corpo, e sim, ele sentia isso, mas, ao mesmo tempo, não sentia. Era como se ele soubesse que ela estava ali e que não era nada além disso, era simplesmente… indolor.
Apesar do calor que ele sentiu que estava para queimar, não havia nenhuma dor.
Eiro olhou para o seu corpo para ter certeza de que não havia sofrido algum dano, mas, como estava bem, continuou olhando ao redor, mesmo que sentisse que algo bastante incômodo estava o obstruindo agora.
Com uma mão em sua máscara e outra em sua capa, Eiro retirou ambas as vestimentas e as guardou em sua Tesouraria, ao mesmo tempo que desenrolou sua cauda da cintura.
— Muito melhor… — O Demônio murmurou e começou a tirar a luva da mão esquerda, enquanto se livrava dos seus sapatos. De alguma forma, sentiu que não precisava deles.
E até mesmo se livrou de sua bolsa por um tempo, ainda que tivesse apenas a prendido na bolsa que Lugo estava carregando. A seguir, enquanto o calor em seu corpo aumentava, Eiro pisou no corpo do guarda que acabou de matar e empurrou um dos pés para retirar a adaga.
Com uma expressão satisfeita e enlouquecida, Eiro olhou ao redor enquanto uma pequena carta aparecia em suas mãos, desaparecer em uma luz brilhante e de repente Eiro estava vestindo dois anéis em cada mão.
O anel ao redor do indicador da sua mão esquerda estava conectado à lâmina mais nova de Eiro, a adaga oca, enquanto o anel ao redor do indicador da outra mão estava conectado à sua adaga regular. E enquanto começava a olhar para os guardas ao redor, todos os quais estavam sobrecarregados por tal situação, o diabrete exibiu seus dedos em um sorriso louco.
Esta cidade costumava ser bastante pacífica, na verdade.
Especialmente devido a tantos Espíritos vivendo neste lago, apesar de que agora esse número diminuiu bastante. De qualquer modo não havia muitos monstros que se aproximavam desta cidade, então os guardas eram inexperientes e de baixo nível. Claro, pelo menos receberam algum treinamento básico e conseguiram subir um pouco de nível por conta disso, mas a maioria dessas pessoas nunca esteve em uma luta. E, de repente, havia um demônio enlouquecido com sangue parado na frente deles? Não havia como eles conseguirem lutar contra Eiro.
E, sem dizer mais nada, o Demônio começou. Ele deu um passo para frente e a água que costumava formar os corpos das Náiades mortas se reuniu ao redor dele e começou a borbulhar, enquanto flutuava acima dele.
Essa água fervente e mágica voou em direção aos três guardas parados na frente de Eiro. Ele tentou seu melhor para manter a água borbulhando enquanto a disparava no corpo dos guardas apenas porque agora isso causaria mais danos do que gelo.
Mas no instante em que conseguiu atravessar suas peles, Eiro começou a congelar a água e fez o gelo se espalhar por todo o corpo deles. Alguns guardas começaram a avançar para tentar matá-lo, mas o Diabrete estava um passo à frente deles. Ele já havia pulado em direção a esses guardas e empurrou o Três de Espadas no corpo de dois guardas e pulou no terceiro e último daquele grupo, com os pés na frente.
No instante em que seu pé conseguiu uma base sólida no peito desse guarda, que era o mais pesado entre os três, Eiro deu um chute para trás enquanto fazia suas lâminas balançarem para cima. Enquanto duas cabeças voavam, o Demônio se recompôs e aproveitou o momento para avançar em direção ao primeiro dos três guardas que estava tentando matar com o corpo das Náiades, enquanto Nelli observava Eiro fazer o que queria por um tempo.
E a ‘coisa’ que esse demônio estava fazendo agora era um massacre total. Ele moveu os dois anéis de sua mão direita para sua esquerda e fez os fios se envolverem ao redor dos seus dedos, de maneira que tivesse quatro garras afiadas como adagas, que usou para rasgar o rosto de um dos guardas enquanto empurrava a outra mão para retirar o gelo do corpo dele.
Ele já estava morto, e Eiro atacou o rosto do guarda mais uma vez apenas porque sentiu que gostava disso e, nesse ponto, começou a ser engolido completamente pela sede de sangue.
…