A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 135

A Virtude do Demônio

Com um resmungo irritado, Eiro abriu os olhos e sentou ereto. Ele estava apoiado contra a galhada de Lugo e tirou um cochilo para compensar o sono que não teve noite passada.

— Bom dia! — Arc exclamou da carruagem, e Eiro assentiu cansado, embora logo tenha ficado surpreso.

— Por que Avalin está aqui fora com você? — O Demônio perguntou, e a garota acenou com sua mãozinha.

— Oi, papai! — Ela exclamou. Eiro suspirou e levantou um pouco sua máscara para mostrar um sorriso.

— Olá, Avalin! — Ele respondeu, soltando a máscara e esperando pela resposta de Arc.

Estava ficando cada vez mais frio e parecia que a primeira neve chegaria cedo, então Eiro não queria que Avalin ficasse aqui fora, afinal, ela vestia apenas vestidos e não tinha tantas roupas grossas.

— Ela só queria sair um pouco, e eu não consegui dizer não. — O jovem riu e o Diabrete balançou a cabeça, desapontado.

— Certo. Quão longe estamos? — Eiro perguntou para mudar o tópico, ele meio que entendia o que Arc queria dizer… ele poderia ter dito para Arc parar e levar Avalin de volta para a carruagem, mas ela tinha um sorriso tão feliz no rosto que ele não conseguiu dizer nada.

— É… estamos perto daquele lago grande do mapa, eu acho. Podíamos vê-lo há um tempo. — Arc apontou e Eiro fechou os olhos, tentando ver se percebia o lago, algo que conseguiu confirmar quase imediatamente depois de escutar o som da água do rio correndo para lá, com o cheiro leve lamacento e rançoso de água estagnada.

— Então, devemos estar nos aproximando da cidade em breve. Devemos estocar ingredientes frescos. — O Demônio comentou e tentou comparar o terreno com o que recordava dos mapas que olhou da área. — Deve haver uma bifurcação daqui a alguns minutos, apenas escolha o caminho da direita. Há uma cidade construída logo ao lado do lago.

— Entendi. — Arc respondeu. Eiro pensou em quão longe estavam da cidade. Parecia que Avalin já estava usando suas lentes de contato, então ele não tinha que se preocupar chegar na cidade para colocá-las nos olhos.

Entretanto, o que mais o preocupava era algo diferente. Ele estava preocupado com o fato de que, durante os últimos dias, começou a sentir ainda mais que estavam sendo perseguidos. Algumas vezes, alguns batedores tentaram encontrar a posição deles, e quase conseguiram, mas Eiro se livrou deles e tentou esconder seus cadáveres.

Claro, conseguiu subir de nível uma vez, mas além disso tudo isso gritava notícias muito ruins. Ele colocou os dez pontos de status que recebeu em percepção, o que aumentou o alcance em que conseguia perceber os outros. Isso fez com que sentisse uma leve dor de cabeça por algumas horas, mas, ao anoitecer, desapareceu.

Eles tinham que se apressar e chegar à cidade o mais rápido que conseguissem, comprar o que precisavam e continuar se movendo dentro de uma hora ou duas.

Assim que o grupo chegou à cidade, parecia que as notícias de que Eiro estava seguindo nessa direção ainda não haviam chegado a este lugar. Ou pelo menos ninguém suspeitou deles, apesar de ser muito difícil não os perceber, especialmente quando havia duas Arias presas à carruagem.

Eiro mandou Arc estacionar a carruagem na frente de uma mercearia enquanto ele entrava e fazia um pedido, relaxando enquanto fazia isso. A loja parecia ter tudo o que precisavam, então conseguiriam partir ainda mais cedo do que Eiro pensava. Mas enquanto o balconista preparava o pedido, o Demônio notou que algo bastante problemático estava acontecendo nesta pequena cidade ao lado do lago.

Ele já havia notado isso antes, mas aparente havia algumas Náiades vivendo nesse algo e elas estavam seguindo em direção ao local em que Eiro estava. Com uma leve carranca, o Demônio olhou para o lado em direção ao espírito que estava no espaço intermediário e esperou que ela falasse algo.

— O quê? Eiro, você tem uma bênção da antiga Rainha Náiade e da Dama do Inverno, que correspondeu ao elemento água. Você acha que não seria atraente para as Náiades? — Ela questionou e, com um resmungo profundo, Eiro olhou para o balconista.

— Apenas perguntando, mas Náiades são algum tipo de existência especial nesta cidade? — Eiro perguntou, e o balconista olhou para ele, surpreso.

— Existência especial? Eu diria que não… Não mais especiais do que Espíritos em qualquer lugar, eu presumo? Sabemos mais sobre elas do que em outros lugares, desde que tantas vivem aqui perto. — O balconista explicou, e Eiro assentiu com um suspiro aliviado.

— Bom. — O Diabrete apontou se virar. — Apenas leve o pedido para fora, se puder. Esperarei lá. — Eiro anunciou e saiu para as ruas enquanto parava incomodado ao lado da carruagem, olhando na direção de onde notou talvez uma dúzia ou mais de espíritos se aproximando de onde estava.

— Eiro? Tudo certo? — Rudy perguntou preocupado ao vê-lo parado ali, e Eiro deu de ombros em resposta.

— Eu ainda não sei. — Ele apontou. E apenas alguns segundos depois, as pessoas que caminhavam pelas ruas até agora pararam e olharam para a visão de muitos Espíritos flutuando pela cidade, algo que é incomum para eles fazerem.

— Ora, ora, o que temos aqui? — Uma Náiade fêmea, aquela que chegou primeiro até Eiro, perguntou algo e passou os dedos pelo peito. — Ei, garoto, está interessado em formar um contrato? — Ela perguntou com um tom sedutor, apesar de ter apenas meio metro de altura e ser feita principalmente de água.

Mas no momento seguinte outra Náiade se juntou, dessa vez um macho, que flutuou até as costas de Eiro e se inclinou sobre os ombros dele, como se estivesse pendurado.

— Como se fosse querer formar um contrato com uma vadia como você! Ele precisa de um homem para mostrar o caminho, não é?

Depois disso, mais dez Espíritos também tentaram se agarrar a Eiro e convencê-lo a formar um contrato com ele, enquanto o Demônio continuava encarando o Espírito que continuava escondido ao mesmo tempo que ria muito.

Com um resmungo profundo, Eiro fechou os olhos e começou a falar.

— Se vocês continuarem me tocando, vou transformá-los em caldo, seus espíritos malcriados. — O Diabrete comentou e imediatamente dúzias de Náiades congelaram suas ações.

— O qu- O quê…? — Uma delas perguntou, confusa. Aparente, nunca falaram com elas dessa forma.

— Vocês me ouviram, vão se foder e voltem para a água nojenta e fedida de vocês, e me deixem em paz. Eu já tenho um espírito contratado. — Eiro anunciou, e as Náiades olharam ao redor e viram Nelli flutuando ali.

— Oh…? Você já tem um espírito contratado…? — Uma das Náiades murmurou desapontada, embora uma delas ainda estivesse com algumas suspeitas. — Mas, então, por que você está falando conosco dessa forma tão desrespeitosa? Nós Espíritos somos-

— Idiotas completos que não conseguem nem mesmo dizer se alguém já tem um contrato igualitário? Sim, eu sei. Agora, nos deixem em paz, ou façam algo de útil e limpem a casa de vocês. — Eiro disse, e todos os Espíritos encararam Eiro e Nelli.

— Igualitário? Você formou um contrato igualitário com um De- — Uma das Náiades perguntou, mas Eiro sacou sua adaga e a colocou em frente ao corpo dela para interrompê-la.

— Não ouse terminar essa sentença. Sei que você está ciente de quem e o que eu sou, mas se você ousar proferir uma palavra sobre isso, você não vai virar caldo, em vez disso, será água de banho.

— Certo, certo! Eu entendi! — O espírito gritou. — Apenas afasta essa coisa maldita! — Ela exclamou irritada. — Maldito… poderia ter usado um contrato tão útil… que desperdício, um contrato igualitário com alguém desse tipo… aposto que a mana dele tem um gosto incrível! — Outra murmurou desapontada, mas Eiro continuou a encarando. No entanto, logo depois disso, parecia que um dos Espíritos teve outra ideia.

— Oh! Eu acho que há algumas pessoas do outro lado procurando por esse cara… — A Náiade apontou, e Eiro a encarou.

— Não ouse.

— Hmm, não ouse o quê? — O Espírito perguntou animado. — Eu tive uma ideia… que tal vocês dois quebrarem o contrato de vocês, e então você formar um contrato comigo? Se não, um grupo de pessoas pode acabar descobrindo onde você está… — A Náiade ameaçou, e Eiro rosnou profunda.

— Ahh… Quer saber? Ótimo. Todos vocês, Espíritos que estão interessados em fazer um contrato comigo, venham comigo. — O Diabrete disse, olhando irritado para Nelli para ter certeza de que ela compreendesse o que estava fazendo, e então olhou para as crianças. — Já paguei por tudo. Saiam da cidade assim que receberem pelo que eu paguei, estarei logo atrás de vocês. — Eiro anunciou. — Lugo, venha. — Ele adicionou e então começou a caminhar em direção a um lugar com menos pessoas, mesmo que houvesse algumas os seguindo. O que mais importava para Eiro era que não havia nenhum guarda ao redor.

Por talvez cerca de meia hora, Eiro tentou ganhar tempo, dando tarefas aleatórias e idiotas para os Espíritos que eles deveriam fazer para serem escolhidos como o próximo Espírito de Eiro. Da perspectiva deles, um deles definitiva seria contratado, desde que o Demônio não quisesse que a posição dele fosse dita aos perseguidores, mas da perspectiva de Eiro… não havia chance. Estava brincando com eles porque eles os irritaram.

Logo as crianças dirigiram a carruagem para fora da cidade, e Eiro começou a sorrir.

— Certo, última tarefa para decidir quem formará um contrato comigo. — Eiro disse, e aquele que todos os Espíritos assumiram estar na liderança, o mais velho entre eles, se moveu até a frente de Eiro.

— Claro que todos sabemos quem será. Vamos lá, me diga o que fazer. — O Náiade macho comentou, e o Diabrete suspirou, pegou sua adaga e a esfaqueou no corpo dele.

Algo que poucas pessoas sabiam era que a Força Vital de um Espírito não diminuía, contanto que ainda tivessem mana. Durante a última meia hora, Eiro tentou diminuir constantemente a mana que havia no corpo deles, dando-lhes tarefas idiotas. Dessa forma, eles não poderiam atacá-lo, já que não teriam mais mana sobrando. Como estavam longe do lago, também não poderia recuperar sua mana.

Eiro atacou o corpo do Espírito, partindo-o em pedaços, enquanto a Náiade lutava para manter o seu corpo unido. Ele acabou usando o que lhe restava de mana e logo caiu no chão na forma de uma poça.

[Dano letal causado a Narciss Nockt Narim]

[Você subiu de nível!]

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