
Volume 3 - Capítulo 134
A Virtude do Demônio
— Minha classe? — Eiro repetiu depois de escutar a pergunta de Felix, e o jovem assentiu nervoso enquanto era encarado por todos.
— S-Sim, ou é demais para mim perguntar sobre isso…? — Ele perguntou para Sammy, que ainda estava chateada por ser enganada por Felix, e começou a encará-lo.
— Quer saber? É sim. Não pergunte sobre coisas que não é da sua conta. — Ela disse com um tom raivoso, e os ombros de Felix caíram enquanto ele olhava para o chão. Eiro sabia que Sammy estava tentando mudar o rumo da conversa desde que ele ainda não tinha uma classe, mas não era como se o Demônio não tivesse pensado sobre isso antes. E como Felix passaria bastante tempo com eles, Eiro não queria que as crianças ficassem brigando entre si o tempo todo.
— Tudo bem, Sammy. — Eiro disse de forma tranquilizadora enquanto olhava para a garota ao lado dele. Ele estava ciente de que Sammy ainda estava chateada com ele, mas pelo menos ela ainda tentou o seu melhor para compreender Eiro. — Mesmo assim, obrigado. — O Diabrete sorriu, apesar de que Sammy não conseguisse vê-lo debaixo da máscara, e o Demônio assentiu.
— Minha classe é ‘Colecionador’. Não é nada especial, de verdade. — Eiro explicou, mas parecia que Felix ficou mais do que só impressionado.
— Colecionador? — Ele questionou, grato que Eiro o respondeu, e o Demônio acenou a cabeça em resposta.
— Sim. Daí eu adquiri essa habilidade de armazenamento. — Ele apontou. Com um leve sorriso, Felix assentiu a cabeça e então olhou de volta para o chão.
— Minha habilidade de classe é algo desnecessário. É algo chamado de ‘Língua do Encantador’… Ela me deixa escolher minhas palavras com mais facilidade, embora apenas me forneça frases vergonhosas… — Felix admitiu, e Eiro não pôde deixar de rir um pouco.
— Sim, percebi. Elas são bastante… extraordinárias. — Ele comentou, e Felix sorriu.
— Hahah, sim… eu sei, me desculpe por isso. Foi assim que acabou, na verdade. Apesar dessa habilidade, eu não tenho uma compatibilidade alta com classes do tipo encantador. — O garoto explicou, e para tentar fazê-lo sair da concha em que ele se escondeu ontem, Eiro o encorajou mais um pouco.
— Então onde está o seu talento real? — O Diabrete questionou e, com um leve sorriso, Felix continuou olhando para o solo.
— Certo, mas… não ria, tá? É bem embaraçoso…
— Aaaa apenas nos conte! — Arc exclamou. — Não pode ser tão ruim! — Ele riu um pouco depois de ver o que Eiro tentava fazer, aparentemente tentando ajudá-lo.
Com uma expressão nervosa, Felix assentiu.
— Erm… Meus maiores talentos são… pintar e esculpir… — O menino explicou com os olhos fechados e ficou em silêncio, até que abriu os olhos para ver expressões confusas nas pessoas ao redor.
Com um sorriso irônico, Clementine olhou para os outros para ver se eles poderiam confirmar seus pensamentos.
— E o que há de embaraçoso nisso? Na verdade, é muito legal. — Ela comentou, e Felix ficou surpreso de escutar isso. Rudy assentiu.
— Sim, de fato. Sou bom com as minhas mãos, mas só consigo fazer coisas como cozinhar, costurar e esculpir coisas básicas. Não sou bom pintando… — O garoto apontou com um pouco de ciúmes enquanto respirava fundo, e agora foi a vez de Felix ficar confuso.
— O quê…? — Ele murmurou, e Eiro tentou chamar a atenção de Felix. Sob sua máscara, ele estava franzindo o cenho e dava um olhar penetrante com a insinuação do que Felix disse.
— Quem te disse que isso era motivo para sentir vergonha? Se esculpir é vergonhoso, então entalhar eu também seria. E eu não me sinto nada envergonhado com o que faço. Não tenho um bom olho para arte, mas pelo que sei um bom pintor é visto como um tesouro para os nobres. Não consigo entender por que isso deveria ser vergonhoso. — Eiro explicou, e Felix balançou a cabeça, tentando refutar o que ele disse.
— Não, não, mas é constrangedor, não é? O que você disse pode ser verdade, mas pintores são apenas um motivo de chacota para todos, certo? Foi isso que meu pai… — Felix disse, e então parou enquanto tentava escolher que palavra usar. — Enka disse.
— Deveria ter imaginado. — O Demônio suspirou, tentando acalmá-lo. — Só… Vamos dar um jeito se você quiser trabalhar como pintor ou escultor, se você quiser. — Eiro sugeriu, mas parecia que Felix ainda não tinha certeza.
— Sério? Você tem certeza de que isso não é estranho?
— Não é, não se preocupe. — O Diabrete apontou de forma tranquilizadora e então se levantou de onde estava sentado. — Pensaremos em algo. — Ele adicionou e foi em direção à carruagem. De uma das caixas que estavam presas a ela, Eiro pegou um pequeno pedaço de madeira e depois entrou na carruagem para pegar uma pequena faca de entalhe.
Ele voltou até Felix e entregou o pedaço de madeira e a faca.
— Aqui. Sempre que quiser, apenas tente entalhar um pouco. Como eu disse, esculpir e entalhar são muito similares. Então, tente descobrir se é algo que gosta de fazer. — Eiro sugeriu e sentou enquanto Felix olhava para os dois objetos em suas mãos e encarou de volta para Eiro.
— Obrigado… — Felix respondeu e Eiro suspirou.
— Não se preocupe com isso.
Depois disso, ficou um pouco mais quieto, desde que o clima havia ficado um pouco estranho depois que foi revelado que o trabalho dos sonhos de Felix não era uma carreira inútil e desprezada, ao contrário da sua crença anterior, mas um pouco depois parecia que todos terminaram de comer e as Arias estavam prontas de novo. E então começaram a limpar tudo enquanto Arc e Clementine conectavam as duas Arias à carruagem.
Mas quando os outros iriam voltar para a carruagem e Eiro carregava a sonolenta Avalin e Leon, Felix perguntou algo que o preocupava um pouco.
— Você não comeu nada, certo? Por conta de sua máscara? — Ele questionou, e Eiro olhou surpreso para ele, sem esperar que Felix prestasse atenção a algo tão pequeno como isso. — Quero dizer, você não precisa esconder o que quer que esteja escondendo de mim…
Com um aceno rápido da cabeça, o Demônio refutou o que Felix sugeriu.
— Me desculpe, não acho que seja algo que eu possa mostrar para você ainda. É melhor para nós dois se você não souber o que está aqui embaixo, eu diria. — O Diabrete explicou e Felix apenas assentiu e franziu o cenho com uma expressão triste, enquanto também seguia em direção à carruagem.
Por que Felix ficou triste por não ver o rosto de Eiro? Talvez fosse porque ele soubesse que Eiro ainda não confiava nele? Era óbvio que o Demônio não confiaria nele do nada, isso seria a coisa mais idiota de todas, confiar cegamente em alguém que Eiro nem mesmo conhecia.
Com um resmungo, O Diabrete subiu na frente da carruagem, desde que dirigia durante a noite, enquanto Lugo se espreguiçou e ficou ao lado dele.
— Bem, tente nos acompanhar, certo companheiro? — Eiro perguntou com um sorriso e, assim que recebeu a resposta berrada do Cervo, fez com que as Arias se movessem.
Não demorou muito para que acelerassem, apesar de que Lugo conseguia as acompanhar muito fácil. Eiro começou a relaxar um pouco e pegou a pequena caixa de madeira ao seu lado, onde estava a sua comida. Rudy havia empacotado um pouco das sobras para ele, e Eiro as apreciou com entusiasmo depois de retirar sua máscara.
E dali em diante, continuaram por mais seis horas, mais ou menos calmas até que fosse a hora de todos dormirem. Arc e Clementine saíram para que ajudassem Eiro a prender as Arias em uma árvore próxima e voltou para dentro enquanto Arc, Rudy e Felix ficaram do lado de fora e construíram uma pequena tenda ao lado da carruagem, onde passariam a noite.
Enquanto isso, Eiro ficou encostado contra o enrolado Lugo na frente da fogueira e escolheu ficar a noite toda acordado de novo, para ficar de vigia.
Afinal, era o único que conseguia fazer isso. Considerando a situação em que estavam, não podiam se dar ao luxo de não estar em constante busca por qualquer coisa perigosa para eles. Eiro tinha muita certeza de que seriam seguidos ou algo do tipo, afinal.
Com sua raiva crescendo dentro de si, Eiro não pôde deixar de pensar no que Enka estava fazendo neste momento, provavelmente sentado com uma expressão boba no rosto.
😈😈😈
— Você está brincando? Você os perdeu?! — Enka gritou, sentando-se ereto depois de receber o relatório de um dos guardas. — Esse cara matou Irensen e sequestrou meu próprio filho, o que diabos você está dizendo com ‘os perdeu’? — Ele exclamou e se levantou, enquanto batia na mesa à sua frente.
— Envie mensagens para qualquer cidade nesse país! Há uma recompensa pela cabeça desse cara. Pense em um bom valor por conta própria. — O homem rugiu profunda, e o guarda acenou a cabeça, nervoso.
— C-Claro, Sr. Markos! Mort-
— Vivo! De preferência quase morto, quero que ele sofra! — O Guerreiro Chefe gritou com fúria em sua voz, fúria que nenhum desses guardas conseguia dizer que era absoluta falsa. Claro, Enka ficou um pouco surpreso que Eiro conseguiu fugir, mas isso não importava. Ele acabaria morto, e Enka conseguiria as Cartas de Eiro, com sorte.
Logo, os guardas saíram do cômodo para deixar que Enka se livrasse da sua raiva sozinho, e o guerreiro-chefe apenas rosnou quando eles saíram.
— Merda. Que incômodo. — Suspirou profundamente.
— Ah, é muito difícil continuar atuando como um pai carinhoso, não é? — A voz de uma mulher de aparência madura, mas ainda jovem, soou. Virando a cabeça, Enka avistou a origem daquela voz.
— Oh, que prazer. A quem devo o prazer da visita da grande feiticeira da pedra de sangue?
— Não seja tão condescendente comigo, garoto. — A mulher avisou, mas Enka apenas riu e olhou na direção dela.
— Condescendente? Eu não ousaria. Era uma situação séria, entende? — Ele perguntou, mas a mulher o encarou de volta com um sorriso sem graça.
— Você deixou um demônio fugir com o seu filho. — Ela comentou. — Você não consegue nem mesmo cuidar de um ser tão miserável por conta própria. Só queria ver se havia algum motivo para isso, ou se você é um inútil como eu assumi.
— Demônio? — Enka riu. — Claro, ele era um pouco extremo em suas ações, mas isso não significa que ele era um demônio. Um título como este deveria pertencer a alguém como você, não é? — O homem apontou, com um sorriso artificial que permaneceu inalterado desde que ela entrou nesse quarto do além.
— Eu deveria ter imaginado, você pode controlar tolos, mas você mesmo não é muito melhor. — Ela explicou desapontada. — Eu quis dizer o que eu disse: aquela coisa era um demônio, garoto. Para ser mais específica, um Diabrete por incrível que pareça. Você foi enganado por um demônio que não deveria ser mais inteligente do que um peixe.
…