
Volume 3 - Capítulo 133
A Virtude do Demônio
— Uma habilidade de armazenamento? — Rudy questionou, ficando muito animado com a sugestão, e Eiro assentiu.
— Sim, eu acho que sim… Você meio que tem esse cheiro em você, pelo menos. O mesmo cheiro que eu tenho, assim como minha bolsa. — Eiro explicou, e então fechou os olhos e se inclinou um pouco mais perto, tentando cheirar de novo. — Embora o seu seja muito mais concentrado… não mais forte, apenas… mais nítido. — O Demônio apontou, e Rudy continuou preparando comida na pequena mesa improvisada que fizeram com algumas caixas e uma tábua de madeira, enquanto franzia as sobrancelhas.
— Hmm… Como você usa a sua habilidade de Tesouraria? — Rudy perguntou, e Eiro explicou.
— É muito fácil, na verdade. Basicamente tenho a imagem de um quarto na minha cabeça, e esse quarto tem algumas prateleiras, exibidores, uma mesa e tudo mais. Quando eu quero tirar algo desse quarto, apenas me imagino na frente dele e tento pegá-lo no mesmo local onde o deixei antes. — O Demônio explicou e demonstrou, ao esticar sua mão e tirar um dos livros de sua Tesouraria, como se o retirasse de uma prateleira.
— É assim. Depois de usar por um tempo, peguei o jeito e compreendi muito as regras de como tudo funciona. Então, tente. — Eiro sugeriu, e então olhou para as mãos de Rudy com um sorriso. — Precisa de ajuda com alguma coisa?
Após pensar um pouco, o jovem assentiu e então olhou para a carruagem.
— Na verdade, sim. Poderia pegar uma grelha de metal e algumas panelas? — Ele perguntou e Eiro fez como pedido, entrando na carruagem e retirando esses itens de metal de baixo dos assentos, levando-os para fora, e então reparou que Felix estava inclinado contra uma árvore próxima de onde estavam.
Arc e Clementine cuidavam das duas Arias, Rudy cozinhava e Sammy olhava as crianças, mas Felix não tinha o que fazer agora. Então, com um leve suspiro, Eiro olhou para o garoto.
— Oi, faça algo de útil por favor? — O Demônio disse e Felix ficou um pouco assustado ao ser chamado enquanto pensava. Rudy olhou de volta para Eiro com uma expressão vazia.
— Poderia pegar alguma lenha? Não se preocupe, não há monstros ou animais perigosos por aqui, também não notei nenhuma outra pessoa. — Eiro disse de forma tranquilizadora e Felix assentiu, dando alguns passos para frente se aprofundar na floresta, enquanto olhava para o chão.
Enquanto isso Eiro já havia colocado a grelha de metal no chão e preparado a borda com rochas para a fogueira, colocando os potes ao lado da figueira. E assim que notou que Felix estava longe, Eiro se apressou em direção a Avalin.
— Venha, querida, vamos tirar essas lentes de contato, me desculpe por fazer você usá-las durante essa manhã. — Eiro disse na defensiva, mas Avalin só balançou a cabeça com um sorriso grande.
— Tudo bem! Eu não me importo! — Ela explicou, então Eiro acariciou o cabelo dela e sorriu, enquanto a ajudava a retirar suas lentes colocá-las de volta dentro da caixa fina, a qual armazenou dentro da bolsa nova.
— Mas Felix não vai acabar vendo? — Sammy perguntou um pouco preocupada, e Eiro assentiu a cabeça.
— Ele vai, mas não é bom que Avalin use as lentes o tempo todo dessa forma. Não se preocupe, farei o meu melhor para que Felix não perceba. — O Diabrete apontou, e Sammy olhou nervosa para a jovem garota com uma carranca.
Leon começou a resmungar enquanto olhava para Eiro.
— Papai… está coçando de novo… — Ele murmurou baixinho e, sem hesitação, Eiro empurrou a mão contra o lado da bolsa e pegou uma das garrafas de Leon. Nesse momento, elas estavam espalhadas para que todos tivessem acesso fácil a pelo menos uma das garrafas de Sammy ou de Leon a qualquer momento, com Eiro carregando o resto delas para mantê-las seguras.
Fazia sete dias desde que Leon teve que tomar a poção, então o Demônio já esperava que algo assim acontecesse. Eiro abriu a garrafa e olhou para Leon, que estava mais do que pronto para reclamar.
— Não! Essa coisa nojenta… — Leon protestou, mas Eiro retirou a sua máscara e olhou para Leon com um leve sorriso.
— Não se preocupe, você tem que beber isso mais algumas vezes e daí nunca mais, beleza?
— Hmm… — O jovem resmungou e olhou cansado para a garrafa com o líquido escuro dentro dela. — Posso beber por todas as vezes que eu preciso agora para que eu não tenha que fazer isso de novo? — Ele perguntou, mas com uma leve risada, Eiro negou com a cabeça.
— Eu gostaria que fosse assim. Vamos lá, apenas faça a coceira sumir, certo? — Eiro disse e o menino concordou. O Demônio levou a garrafa em direção à boca de Leon. O garoto contorceu o rosto em antecipação ao sabor da poção e Eiro derramou o conteúdo da garrafa na boca dele.
Assim que tudo acabou, Leon levou as mãos à boca, mas Eiro conseguia dizer que a poção ainda estava parada ali.
— Vamos lá, engula, Leon. — O Demônio disse, e o garoto acenou com a cabeça e, como se tivesse que forçar todo o seu corpo para fazer isso, engoliu o líquido.
Depois que Eiro confirmou que esse tinha sido o caso, ele sorriu para Leon e acariciou a cabeça dele.
— Bom trabalho. Aqui, tome um pouco de água. — Eiro sugeriu e retirou uma garrafa cheia de água da sua bolsa, entregando-a para Leon, que bebeu para se livrar do gosto ruim.
— Obrigado. — Leon disse depois de entregar a garrafa de volta para Eiro, que a guardou e vestiu sua máscara.
— Agora, volte a brincar com Avalin, certo? — O Demônio sugeriu e Leon concordou em silêncio. Nesse ponto, parecia que Felix havia conseguido pegar alguma lenha boa e a trazido de volta.
Eiro a pegou e a colocou dentro do lugar que havia feito com as pedras, pegando os acendedores de fogo que Armodeus entregou para eles ontem e colocando-os em seus dedos de madeira. Com um estalo alto, faíscas voaram e se transformaram em uma pequena chama que ele pressionou na lenha.
Isso recebeu um pouco de atenção de Felix, entretanto.
— Como… Como sua mão não está pegando fogo? Ou pelo menos ficando queimada?
Com um leve encolher de ombros, Eiro olhou para sua mão de madeira enquanto controlava para que o fogo crescesse.
— Este é um tipo especial de madeira. O mesmo tipo usado em alguns tipos de cajados. Se você for um piromante com um cajado inflamável, isso não seria nada bom, certo? Mas, mesmo assim, os melhores cajados ainda são sempre feitos de madeira. — Eiro apontou. — Tem relação com a mana que foi inserida dentro da árvore durante seu crescimento. Como a mana é algo que pode ser usado para desafiar as leis da natureza, esse mesmo princípio se aplica a essa madeira. É uma madeira que não reage ao fogo. Apesar disso, a única razão verdadeira para isso é por causa da minha afinidade com o elemento fogo, e… — O Demônio continuou explicando, embora logo tenha notado que Felix estava um pouco sobrecarregado ao escutar isso. Então, parou e esfregou a sua nuca, com uma leve risada.
— Desculpa, desculpa, é um hábito. — Eiro se desculpou, mas Felix balançou a cabeça.
— Estou bem, eu-… eu real não ligo, de verdade. — Ele respondeu baixinho, e Eiro assentiu e virou a cabeça em direção a Rudy para ver se ele precisava de ajuda com mais alguma coisa.
— Apenas pergunte a qualquer um se tem algo em que você pode ajudar, se você ficar entediado. — O Diabrete sugeriu enquanto saía, e Felix continuou ali em silêncio, sentindo que todos no grupo estavam o encarando.
Eiro sabia que Felix estava se sentindo desconfortável, mas o Demônio preferiria que ele se sentisse assim do que morto. Considerando que ontem mesmo Eiro era aquele que queria matar Felix.
De qualquer forma, por ora Eiro decidiu ajudar Rudy a preparar alguma comida. Não demorou muito apesar de ter sido um pouco prolongado pelo fato de Rudy tentar armazenar objetos dentro do espaço de armazenamento que ele ainda não sabia como acessar. Habilidades de armazenamento eram raras, então era difícil encontrar informações sobre elas. Desde que essa era uma habilidade que se originou de uma Classe Única que Rudy só conseguiu obter através da combinação de suas duas habilidades únicas muito potentes, provavelmente não havia ninguém que conseguiria responder qualquer tipo de pergunta sobre essa habilidade. Teriam que esperar para ver.
Mas Rudy não era o único que recebeu uma habilidade nova. Então, enquanto comiam, Eiro perguntou a todos sobre suas novas habilidades.
O primeiro a falar foi Arc, que explicou com orgulho o nome de sua habilidade.
— É chamada de Desvanecer! Não tenho ideia do que isso faz, mas parece maneiro! — Ele explicou, e embora Eiro pensasse que Desvanecer soasse estranho como o nome da habilidade de um Berserker, que poderia ser visto como o desvanecimento de tudo ao seu redor e atacar qualquer coisa dentro do seu alcance, ele tinha certeza de que não seria isso… Pelo menos era o que esperava.
A seguir, Sammy explicou.
— A minha é chamada de ‘Chamado da Sereia’. É relacionada com a voz, mas eu real não sei… — Ela comentou, e Eiro assentiu. Mesmo que ela soubesse, talvez não fosse capaz de usá-la corretamente, desde que a habilidade foi originada de sua classe, e aquela habilidade não estava disponível para ela.
— A minha é chamada de ‘Olhar Aguçado da Curandeira’! — Clementine exclamou, e agora parecia haver uma habilidade com o nome que explicava o que a habilidade fazia. Eiro acenou a cabeça, com um suspiro aliviado que não conseguiu conter.
— Escutei que alguns curandeiros conseguem habilidades para discernir ferimentos diferentes. Parece ser algo do tipo. — O Diabrete explicou e Clementine sorriu brilhante.
— Hehe, isso será ótimo! — Ela respondeu alegre, e Eiro pensou sobre isso um pouco mais. Talvez fosse algo que a permitisse perceber quais tipos de habilidade seriam problemáticas para Clementine. Mesmo que devesse ser quase impossível para ela morrer, mesmo se assumisse o ferimento de alguém cuja garganta foi cortada, um tipo de ferimento que trazia muito problema para os outros.
Claro, ela tinha uma compatibilidade incrível com cura, tanto que qualquer ferimento dela poderia ser curado sem problemas, mas Eiro ainda não queria ver aquela jovem alegre sentir uma dor como essa.
Enquanto Eiro ainda estava em profunda contemplação, parecia que Felix assumiu a iniciativa de tentar se integrar ao grupo, e então olhou para o Demônio com um sorriso nervoso e tentou começar uma conversa.
— Sei que pode não ser da minha conta, mas qual é a sua classe? Você parece ter uma habilidade interessante com ela.
…