
Volume 3 - Capítulo 131
A Virtude do Demônio
Eiro não se importou nem um pouco com essas notificações. Apenas deixou que flutuassem à sua frente dentro da água, rasgando-as com os seus dedos.
De repente a bolha de gelo cercando a bolha de água efervescente quebrou e a água quente começou a cobrir o solo, enquanto Eiro continuava ali, olhando ao redor ao mesmo tempo que o gelo derretia e a água quente esfriava para se ajustar à temperatura ambiente. Ela foi refinada e tais mudanças ocorreram rapidamente.
Enquanto Eiro olhava para o céu com os dentes cerrados, Nelli se adiantou e retirou toda a água de dentro das roupas de Eiro para secá-lo, e o Demônio expirou devagar. De alguma forma, era difícil controlar sua temperatura e sua magia parecia perder o controle de forma similar, afinal, sua respiração havia sido aquecida o suficiente para criar um vapor incrível e espesso, apesar de agora não estar tão frio.
E então, do nada, Eiro percebeu mais uma coisa. A lua estava em uma posição diferente. Por alguma razão, ver isso o ajudou a despertar, então ele se virou para Nelli.
— Por quanto tempo eu fiquei ali? — O demônio perguntou, e ela respondeu.
— Três horas, eu acho. — Ela explicou, e Eiro estreitou os olhos enquanto olhava para ela.
— Três horas sem respirar? — Ele respondeu, mas Nelli deu de ombros.
— Você ficou dentro de água refinada, e você não é um ser comum. Talvez a mana tenha fornecido a você o que precisa para sobreviver? — Nelli sugeriu. — Não é como se eu respirasse, e ainda estou viva.
Eiro olhou para o chão e acenou com sua mão de madeira para o lado para reunir a água, mas dessa vez também reuniu as rochas refinadas grosseiras feitas pelo Gnomo.
Eiro fez as rochas cobrirem sua mão de madeira, como se vestisse uma manopla de rocha, criando um pilar de gelo espesso com toda a água que tinha disponível.
Enquanto manipulava sua Força Vital para fornecer a ele quanta força ele conseguira reunir, Eiro se posicionou e golpeou o seu punho coberto por rochas no pilar de gelo. Ele não tinha a menor ideia do que estava fazendo, mas bateu no pilar de gelo o mais forte que conseguia, como se quisesse desabafar toda a sua fúria e frustração.
Afinal não conseguia fazer isso com Enka. Enka era um inimigo que Eiro não conseguia nem mesmo sonhar em derrotar num futuro próximo. Ele sabia disso, mas isso não o livrava do ódio indescritível que sentia por ele. Até agora, havia apenas outro ser por quem Eiro sentiu tanta raiva ou desgosto, e este era Zaragon.
Eles eram iguais em uma coisa: o fato de serem intocáveis para Eiro. Claro, ele ficou mais forte durante os últimos sete anos, mas isso não significava que algo como Zaragon fosse um oponente fácil para Eiro. Ele ainda seria morto quase instantaneamente se tentasse enfrentá-lo. E o Diabrete tinha certeza de que essa situação não seria muito diferente se tentasse enfrentar Enka.
Mas isso não era o ponto em que os pensamentos de Eiro se sobrepuseram. A própria existência de Enka era uma ameaça à paz de Eiro e daqueles com quem ele se importava. Isso ainda não incluía Felix, mas o fato de que Felix deveria sequestrar Sammy.
Todos os outros que ousassem pensar sobre isso morreriam, mas Enka tinha que continuar livre. Isso o fez sentir fúria, culpa e frustração imensas.
De novo e de novo, Eiro continuou esmurrando o pilar de gelo, enquanto continuava tentando manter seus sentidos concentrados nos dois quartos em que as crianças dormiam, até que outra coisa entrou em sua percepção.
Na frente da pousada, uma carruagem dirigida por bestas que Eiro não reconhecia chegou, e parecia que um dos batedores escondidos, na verdade aquele com quem Eiro falou no meio da noite, aproximou-se do homem que dirigia a carruagem.
Pelo que ele conseguiu escutar, o motorista foi instruído a levar a carruagem para os fundos da pousada, e ele fez isso enquanto era acompanhado pelo batedor. O Demônio fez o pilar de gelo se transformar em água, enquanto fazia as rochas caírem do seu punho, ao mesmo tempo que olhava na direção da entrada do pátio.
Assim que Eiro conseguiu ver a carruagem, ele ficou bastante surpreso ao ver o que era. Notou que havia algo errado sobre isso, mas não conseguiu dizer o que era.
O corpo principal da carruagem era, na verdade, bastante discreto. Claro, havia algumas decorações, mas sua cor era apenas marrom escuro e não havia nenhuma decoração metálica como as carruagens caras tinham. Entretanto parecia que as partes mais especiais sobre a carruagem eram suas rodas e eixos.
Eiro não tinha certeza sobre o significado disso, mas havia algumas leves gravuras rúnicas por toda parte. Ele não conseguiu encontrar tantos livros sobre Inscrições Rúnicas e Arcanas, então tudo o que conseguiu fazer foi identificar que eram desse tipo e, quando se virou para Nelli, o Espírito confirmou que havia magia percorrendo as rodas e eixos.
Havia as duas coisas mais óbvias na frente da carruagem. As duas criaturas que a puxavam.
Ambas eram de um vermelho-escuro ao ponto de quase ser possível chamá-las de pretas, e eram criaturas reptilianas bípedes. Claro que não eram humanoides, e sim mais o que se esperaria de um pequeno dragão, se ele tivesse patas traseiras massivas e proeminentes, com patas dianteiras bem menores. Estranhamente, Eiro lembrou da imagem de um coelho de pé sobre suas patas traseiras, pelo menos em termos de estatura.
Com um olhar silencioso direcionado ao batedor, Eiro escolheu esperar pela explicação, a qual ele logo recebeu. O batedor se aproximou com um pequeno sorriso e então olhou para a carruagem e as duas criaturas.
— Mestre Eiro, aqui está o presente que o Rei Skyhart deseja conceder a você. — O batedor explicou com uma leve reverência, e Eiro olhou muito confuso para ele.
— Ele deseja me dar uma carruagem? Nós já temos uma. — O Diabrete apontou, e o batedor assentiu a cabeça e começou a explicar.
— Estamos cientes disso, sim, mas essa aqui é feita para longas viagens. — O batedor começou. — Para começar, a parte mais importante são essas duas lindas criaturas. Elas são bestas mágicas inferiores da variante dragão terrestre. São chamadas de Aria. — Ele explicou, e Eiro ficou um pouco mais intrigado.
Bestas mágicas eram seres bastante especiais. Elas eram fortes e inumanas, algo que estava um nível acima de animais comuns, ao mesmo tempo que não eram monstros, mas uma entidade diferente. Claro, isso não significava que todas eram bondosas, mas podiam ser vistas como animais que possuem magia. Era daí que vinham os nomes delas, todas são bestas, então também não podiam ser humanoides.
Bestas mágicas cresciam como animais e não tinham o benefício das classes que as pessoas possuíam, nem a evolução que os monstros tinham. Eram mais como Espíritos, na verdade, desde que podiam possuir magias fortes que representavam, e podiam até mesmo transcender a natureza.
Elas eram bastante raras, então Eiro nunca as viu antes.
— Então é assim que bestas mágicas se aparecem…? — O Demônio perguntou baixinho, e o batedor assentiu, aliviado que Eiro não recusou o presente de imediato.
— Entendi, então quais são os benefícios delas comparados aos meus cavalos? — O Diabrete perguntou. O batedor explicou.
— Os maiores benefícios são a força e velocidade avassaladoras que possuem. Dependendo do terreno em que estão, Arias conseguem correr com o dobro da velocidade que cavalos comuns conseguem enquanto puxam carruagens. Claro, isso aumenta bastante quando você as monta. Selas também foram fornecidas na carruagem.
Eiro arregalou os olhos. Se elas fossem tão rápidas, então ele não teria mais com o que se preocupar, não é mesmo? Conseguiriam chegar ao local em que precisavam sem preocupações. Toda a raiva e ódio que reuniu dentro de si mais cedo desapareceram ao escutar essas ótimas notícias.
— Além disso, elas também precisam de muito menos descanso do que cavalos. Enquanto um cavalo precisa de uma pausa a cada três ou quatro horas, além do tempo que precisam para dormir, uma Aria consegue correr por 10 horas seguidas, precisando de uma breve pausa, além do tempo que precisam para dormir, o qual é semelhante ao de um cavalo. O único ponto negativo é que elas precisam comer mais do que um cavalo precisa. — O batedor explicou. — Mas, elas são onívoras, então pode alimentá-las com qualquer coisa. Foram criadas para terem estômagos fortes e possuem alta resistência a venenos e derivados, então podem alimentá-las com coisas que não gostariam de comer mais.
— Isso é incrível… — Eiro murmurou, incapaz de suprimir o sorriso sob sua máscara, enquanto o batedor continuava de forma relaxada, agora que estava certo de que Eiro aceitaria.
— Realmente é, Mestre Eiro. Claro, a carruagem foi modificada para suportar a velocidade e força que essas duas aplicarão, ao mesmo tempo que foi feita para ter uma aderência mais forte em terrenos acidentados. — O batedor explicou e então olhou para o homem que dirigia a carruagem, que entregou uma pequena caixa de madeira para Eiro.
O Diabrete a recebeu e a abriu, encontrando um broche decorativo dentro dela. Ele a segurou e deu uma olhada mais atenta, se virando para o batedor, procurando uma explicação.
— Como Arias são muito raras e superiores, você só consegue viajar com elas se for um nobre ou estiver viajando no nome de um desses nobres. Aqui está um broche que significa que você está viajando em nome do Rei Solomon Sigurd Skyhart. Como é impossível falsificar esses itens, você não terá problemas viajando. A caixa em que ele está é encantada com magia de Furtividade para não atrair a atenção daqueles que não sabem sobre ela, para que não seja roubada. — O batedor explicou, mas Eiro balançou a cabeça.
— Estou bem, não preciso da caixa. — Ele explicou, esticando a mão para o lado como se estivesse colocando o broche em outro lugar, o objeto desaparecendo dentro da sua Tesouraria. — Eu tenho um método mais seguro. — O Demônio disse e, com um sorriso surpreso, o batedor assentiu.
— Entendo. Você ainda pode manter a caixa, ela pode ser útil em algum outro momento. — O batedor explicou, e Eiro sorriu.
— Certo, não rejeitarei outro presente. — Ele riu.
— Então, posso agradecê-lo. E, por favor, agradeça a Solomon também. Sei que ele disse que está em dívida comigo, mas agora eu que estou em débito com ele. Com isso, ele pode ter acabado e salvar a vida de duas das minhas crianças, afinal. — O Demônio ressaltou, olhando em direção aos estábulos.
— Vocês têm alguma ideia do que podemos fazer com nossa carruagem atual? Não temos muito tempo sobrando para ficar aqui e vendê-la, e não quero abandoná-la. — Eiro explicou para eles, e o batedor assentiu imediata.
— Sim, Mestre Eiro. Rei Skyhart nos instruiu a levar essa carruagem de volta conosco para o domínio pessoal do Rei. Ela será armazenada ali, e os seus cavalos serão cuidados. Portanto, o Rei gostaria que você visitasse a capital de Skyhart quando terminar os seus negócios.
Com outro sorriso leve, Eiro olhou de volta para o batedor.
— É claro.
…