A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 130

A Virtude do Demônio

Eiro se concentrou no caminho que os assobios silenciosos que sua respiração causaram dentro do corredor escondido, assim como as vibrações no ar que ele fortaleceu para ser capaz de captar o formato desse lugar. Os passos e vozes dos outros clientes e dos funcionários também contribuíram bastante. Levou cerca de 15 minutos para ele compreender a construção e o mecanismo das passagens ocultas, mas havia um espaço que ele ainda não conseguiu decifrar.

Parecia haver um trecho abaixo do prédio e havia vários túneis que se espalhavam em ambas as direções. Ele sabia que eles poderiam ser muito úteis, mas Eiro esperava que partissem sem que precisassem usá-los.

Com um leve resmungo, Eiro expirou para organizar seus pensamentos e levantou o seu corpo do chão, enquanto vestia a máscara e saía do corredor escondido, fechando a porta atrás dele. Parecia que os outros, exceto Felix, estavam dormindo, enquanto Felix estava nervoso demais para até mesmo tentar dormir.

Pensando que era fútil tentar ‘animá-lo’, algo que Eiro não queria fazer mesmo se pudesse, o Demônio se sentou em uma das cadeiras do quarto, retirou um dos seus livros da Tesouraria e começou a lê-lo.

Eles não conseguiram outros itens além daqueles que receberam de Armodeus, então teriam que parar em alguma outra cidade para conseguir livros novos. Se tivessem tempo para isso, claro.

Enquanto Eiro lia, o Gnomo flutuou ao longo ao lado dele, encarando-o com curiosidade. Apesar disso o Diabrete não sabia o que deveria fazer para entretê-lo. O tempo todo, inúmeras migalhas de terra e pedras caíram do corpo do Gnomo, se desfazendo em mana e voltando ao corpo dele.

Nelli também tinha algumas gotas de água flutuando ao seu redor, apesar disso, ela tinha tanto controle sobre elas que elas não se desfizeram em mana. Parecia que o Gnomo receberia um poder bem forte assim que descobrisse o seu nome. Eiro esperava que isso acontecesse em breve, pois, de outra forma, significava que eles teriam que encontrar um lugar ao qual o Gnomo poderia chamar de ‘Lar’. Como nem todos os lugares eram bons para isso, encontrar um adequado poderia ser bem complicado.

Pensando que não havia sentido em continuar pensando sobre isso agora, Eiro continuou lendo por um tempo, talvez por uma ou duas horas, até que percebeu Felix se levantando da cama.

— Algo errado? — Eiro perguntou baixinho, tentando fazer com que o seu sussurro chegasse até Felix por meio da sua Magia de Vento, e o jovem olhou para Eiro com um leve sobressalto.

— O-Oh, sim… eu não sei… Eu… — Felix murmurou, obvia incapaz de organizar seus pensamentos. — Queria me desculpar, eu acho…

Com uma leve carranca e um resmungo, Eiro fechou o livro que segurava e o guardou de volta na Tesouraria, se virando na direção de Felix.

— Você acha? — Eiro respondeu, suspirando e abrindo a porta para o corredor da pousada e acenar para Felix, para que pudessem ter uma conversa apropriada.

— Certo, agora me diga. — O Diabrete começou. — Pelo que você quer se desculpar?

Felix se virou e segurou seu próprio braço, nervoso.

— Por tentar encantar Samantha para sequestrá-la… — Ele explicou de forma surpreendente direta, e Eiro riu em resposta ao quão ridículo isso era.

— Não se preocupe com isso. Não é como se eu fosse deixar que qualquer mal chegar até ela.

Felix se virou e olhou para Eiro com uma expressão surpresa.

— Você não está bravo comigo…?

— Huh? Quando eu disse isso? — Eiro perguntou com uma leve carranca. — Claro eu estou, estou tão irritado que eu poderia arrancar a sua cabeça sem nenhum tipo de remorso, mas pela centésima vez, embora você não possa escapar de toda a culpa, a maior parte dela recai sobre Enka. — O Demônio ressaltou. — Como poderiam muito bem ter sido aquelas crianças ali dentro na sua posição, eu não acho que deveria ser tão rígido com você.

Agora, Felix ficou ainda mais confuso, encarando Eiro para tentar compreender o que ele disse.

— O que você… — Ele perguntou, e a resposta que recebeu foi um suspiro.

— Você sabe que aqueles seis que não se parecem em nada e têm, em sua maioria, apenas alguns meses de idade de diferença, não são meus filhos biológicos, certo? — Eiro comentou, mas Felix o encarou de volta, como se essa fosse uma revelação que nunca esperaria. Apesar disso, agora que Eiro mencionou, o garoto havia pensado algo semelhante antes.

— Eles… Eles sabem, certo? — Felix perguntou, e Eiro assentiu.

— Eu os acolhi com sete anos de idade, é claro que eles sabem. — O Diabrete disse, e parecia que Felix se sentiu ainda mais complicado sobre tudo isso.

Ele agarrou o seu peito e começou a ofegar, enquanto seus batimentos aceleravam. Confuso com o que estava acontecendo de repente, Eiro observou enquanto o jovem escorregava pela parede do corredor e escondia o rosto atrás dos seus joelhos, olhando para baixo.

— Eles nem mesmo são suas crianças de verdade, e você ainda os trata assim…? — Felix questionou enquanto começava a estremecer ainda mais. — Você deve estar brincando comigo… — Ele praticamente soluçava agora, e Eiro olhou para ele.

Ele não conseguia acreditar que isso estava acontecendo, mas se sentiu mal por Felix. Como não gostava do que estava sentindo por essa criança que nem mesmo conseguia ficar de pé, Eiro só queria que ele ficasse quieto, se agachando na frente dele e colocando a mão na cabeça do garoto.

— Não se preocupe. Você não precisará ter mais medo de Enka daqui para frente. — O demônio disse de forma tranquilizadora. — Nós te levaremos a um lugar seguro.

Felix levantou a cabeça e olhou para Eiro, com os olhos vermelhos devido ao choro, e o corpo do menino fraquejou. Parecia que ele não estava bem. Com um resmungo silencioso, Eiro suspirou e se sentou logo ao lado de Felix.

Eiro recordou que há alguns anos, houve uma época na qual Clementine tinha pesadelos imensos todas as noites, por um período de algumas semanas. Ele ficou sentado ao lado da cama dela para ter certeza de que ela não surtasse no meio da noite. Eles nunca descobriram por que ela teve tais pesadelos, então tudo o que Eiro pôde fazer foi se sentar ali e ter certeza de que Clementine estava bem.

O Demônio realmente não gostava de Feliz.

Ele sentia muita fúria com a ideia do que poderia ter acontecido com Sammy se não tivesse sido cauteloso. E mesmo que, em sua opinião, Enka fosse o principal culpado, Felix ainda era irritante, mas ele também se sentia mal pelo garoto. Ele era apenas uma criança assustada e se imaginasse uma das suas crianças nesta situação, sabia o que queria que fizessem por elas.

Eiro esticou a mão para o lado e puxou o ombro de Felix em sua direção.

— Como eu disse, não precisa ter mais medo. Não deixarei que nada aconteça com você. — Assim que esse demônio disse essas palavras de conforto, pareceu que um fardo foi retirado dos ombros de Feliz.

Enquanto fazia o seu melhor para ter certeza de que sua capa não fosse manchada pelas lágrimas e ranho de Felix, o Diabrete se sentou e teve certeza de que o garoto conseguisse se acalmar, mas a cada momento que ficavam sentados ali, uma emoção específica continuou se fortalecendo dentro de Eiro.

No começo era apenas uma centelha, mas como se uma dessas conseguisse acender um feno seco, ela se transformou em uma chama furiosa que Eiro mal conseguiu controlar. Ele ficou muito irritado por conta do garoto idiota ao lado dele.

Com um resmungo profundo, Eiro olhou para o lado e notou que Felix caiu inconsciente devido à exaustão, então o Demônio se levantou e colocou as mãos sobre o corpo de Felix para levantá-lo e carregá-lo de volta para o quarto. Depois de trancar, ele empurrou a porta para abrir o corredor escondido e entrou.

Assim que entrou no corredor, Nelli apareceu ao seu lado, curiosa.

— O que você vai fazer? — Ela perguntou, e Nelli olhou para ele, que resmungou.

— Vou praticar um pouco para me resfriar. — O Diabrete explicou, logo descendo algumas escadas quebradas até que chegou a uma porta oculta que levava ao pátio.

O pátio em si tinha apenas um pouco de grama, cascalho e os estábulos, assim como um pequeno poço no canto que eles pareciam usar para suprir os estábulos.

— O que você praticará? — O Espírito perguntou mais uma vez, mas Eiro deu de ombros.

— Nada, especificamente. Que tal começarmos a refinar um pouco de água do poço? O máximo que conseguirmos. — O Demônio disse, e Nelli flutuou até ali e começou a extrair água para começar o refinamento.

Durante isso, parecia que o Gnomo havia os seguido e queria fazer o que Nelli estava fazendo, e começou a reunir um pouco de terra do solo para refiná-la em um pouco de rocha. Ele havia aprendido a como refinar através da ajuda de Nelli, afinal.

Apesar disso, como Eiro achava que o Gnomo não era capaz de lidar com tudo isso, ele inseriu um pouco da sua mana e tentou fornecê-la para o Gnomo, sem um contrato. O Gnomo aceitou com gratidão e continuou o refinamento.

Logo, havia uma bolha de água alta refinada com um diâmetro tão largo quanto a altura de Eiro flutuando na frente dele, enquanto havia alguns pedaços de rocha refinada de forma grosseira reunidos no chão. Eiro estendeu a mão em direção à bolha com sua mão de madeira e a água começou a praticamente devorá-lo.

O Demônio agora estava ali, dentro da bolha d’água, uma que logo começou a borbulhar de dentro para fora devido ao calor imenso que recebia. De alguma forma, Eiro foi capaz de pensar sobre tudo muito bem dentro da bolha de água efervescente.

Ele se sentou de pernas cruzadas e transformou a camada mais externa da bolha em gelo, enquanto o interior continuava borbulhando. Claro, isso só foi possível pelo fato de ser água refinada. Eiro se sentou ali dentro da água, observando através dela o exterior em profunda contemplação.

‘Pedaço de merda’, Eiro pensou para si mesmo. ‘Eu quero te matar…’ Ele adicionou.

‘Desgraça. Abominação. Atrocidade.’

Os pensamentos de Eiro começaram a acelerar e ficar mais complexos. Sua mente serena ficava cada vez mais sobrecarregada em seu estado de concentração, enquanto tentava se livrar desses pensamentos por meio da meditação.

Mas isso não importava. Não importava o que fizesse, ele continuou se sentindo cada vez pior e irritado. Era como se quisesse dilacerar o próprio corpo para se livrar disso, ou ainda melhor, fazer isso com Enka. Eiro queria matá-lo, destruí-lo, torná-lo miserável. Ele queria que Enka sentisse toda a dor que ele causou a Felix e qualquer outra pessoa que tenha ameaçado ou tratado de forma ainda pior.

E depois que o peito de Eiro continuou aquecendo de forma que não era causada pela água efervescente em que estava sentado, ele sentiu uma facada profunda no centro do seu coração.

[Mana desconhecida armazenada dentro do seu corpo foi usada de alimento para a <Marca do Diabo>]

[<Marca do Diabo> produziu a <Marca da Ira>]

[Ódio infinito existe dentro do seu corpo. Você tem a clareza para controlá-lo, mas seja cuidadoso para não se cegar.]

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