A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 129

A Virtude do Demônio

Sammy e Rudy encararam Eiro em confusão enquanto o Demônio terminava de falar. O próprio Felix ficou sem palavras, não sabendo como reagir a essa terceira opção.

— Você está considerando ajudá-lo? — Rudy perguntou e Eiro assentiu.

— Estou. Ele agiu dessa forma por conta do seu pai e, embora aos meus olhos isso não seja uma desculpa viável para evitar toda a punição, ele também não é totalmente culpado. — O Demônio explicou, vestindo a máscara enquanto soltava o pescoço de Felix.

— Então, qual opção será? Primeira, segunda ou terceira? — Eiro perguntou mais uma vez e, com uma expressão nervosa, ela disse o que pensava.

— … A terceira, é claro… — Sammy murmurou enquanto olhava para Felix, que ainda soluçava no chão. Parecia muito patético no momento, mas isso porque ele pensou que estava prestes a morrer. Ela entendia como ele se sentia, de verdade, afinal Sammy ainda não esqueceu o que aconteceu nos primeiros nove anos de sua vida.

— Beleza então. Felix, fique com essa cama. Ficarei aqui pela noite apenas no caso, mas duvido que alguém consiga chegar até aqui com todos esses batedores. — Ele comentou, enquanto ia até a porta do outro quarto e a abria para chamar Clementine e Arc.

— Oh, você está de volta! — Arc exclamou. — Podemos, tipo, tirar um tempinho para caçar um pouquinho amanhã? Por favor? — O garoto perguntou animado, ainda segurando suas novas armas em mãos com um sorriso largo.

— Claro, mas não é sobre isso que quero conversar agora. E fique quieto, Leon e Avalin estão dormindo, não estão? — Eiro comentou enquanto empurrava Arc até o outro quarto e Clementine seguiu logo atrás.

— Oops, me desculpe. Só fiquei um pouco animado, hehe. — Ele murmurou, e Eiro suspirou enquanto apontava para Felix, que recebia ajuda de Rudy para ficar de pé.

— A partir de amanhã, ele ficará conosco por um tempo. Ficarei de olho nele, então não se preocupe com a habilidade dele. — O Diabrete explicou, e Arc olhou para Felix com um sorriso.

— Legal. Finalmente tem outro menino para sair! — Ele exclamou, embora Rudy tenha o encarado.

— Ei, o que isso deveria significar?!

Com uma leve risada, Arc caminhou até ele e colocou o braço ao redor do ombro de Rudy.

— Você é meu irmão, mas também sei que nem sempre você quer sair comigo. — Arc riu alto, e logo toda a conversa entre os dois se transformou em brincadeiras contínuas.

Com um leve suspiro, Eiro olhou para fora da janela e tentou avistar um dos batedores que parecia pertencer a Solomon, abrindo a janela.

— Estarei de volta em um instante. Um de vocês, por favor, fique com Leon e Avalin. — O Demônio disse, e então inseriu muito da sua Força Vital nas suas pernas e envolveu o seu corpo com Magia de Vento, impulsionando-se contra a borda da janela para pular o mais longe possível.

Claro que ele não conseguiu atravessar toda a rua com um único pulo, então pousou em cima de uma carruagem por um instante e depois pulou para a lateral de uma construção no outro lado para escalá-la. Em cima do telhado, ele subiu até a chaminé para se aproximar do batedor que estava escondido ali.

Ele parecia bastante surpreso que Eiro o encontrou tão fácil, mas como o batedor sabia que ele estava entre aqueles que deveria proteger, não tentou se esconder de Eiro.

— Como posso ajudá-lo, Mestre Eiro? — O batedor perguntou enquanto se ajoelhava na frente do Demônio. Eiro coçou a nuca, bastante desconfortável com a palavra ‘Mestre’, mas não queria se incomodar em corrigi-lo então deixou para lá. Eles não conversariam muito mais além disso, afinal.

— Fui informado pelo seu Rei que ele estava preparando algo para nós. Você sabe quando isso chegará aqui? Queremos sair o mais cedo possível.

— Sim, Mestre Eiro. Deve chegar antes do amanhecer para que você consiga se preparar para partir. — O batedor explicou e Eiro assentiu a cabeça em satisfação.

— Entendo, bom saber. Obrigado. — O Diabrete respondeu, muito curioso com que tipo de presente um Rei daria. Com um sorriso satisfeito, ele se virou. — Diga para Solomon que aprecio isso. E obrigado por nos vigiar esta noite. — Eiro disse e pulou do telhado para voltar até a pousada, entrando pela mesma janela de antes.

— Todos vocês, tentem dormir. Acordaremos antes do nascer do sol. — O demônio disse para eles enquanto fechava a janela, e os outros olharam confusos para ele.

— O que você quer dizer? Por que partiremos tão cedo? — Arc perguntou, pronto para protestar. Eiro explicou enquanto batia nas paredes com seus punhos em posições diferentes.

— Bem, Enka definitiva tentará alguma coisa. Quero sair assim que possível, e o presente de Solomon ficará pronto logo ao amanhecer, então será nessa hora que partiremos. Ele nos ajudará durante a nossa viagem, portanto devemos esperar por isso. — Eiro explicou, encontrando uma entrada para um local oco atrás da parede e enfiando um dos seus cinzéis onde a ‘fechadura’ parecia estar, para abri-la por este lado, empurrando o cinzel entre as tábuas de madeira.

Parecia que todos ficaram bastante surpresos com o que ele fazia, embora Felix estivesse surpreso por uma razão diferente. De qualquer forma, Eiro logo conseguiu abrir à força a porta oculta e então olhou dentro do corredor atrás da parede.

— Como você…

— Como eu sabia que havia inúmeras passagens ocultas dentro dessa pousada? Não foi tão difícil de imaginar. — Eiro interrompeu Felix, que havia conseguido se acalmar um pouco, mas ainda estava perplexo com como Eiro conseguiu achá-la tão fácil.

De qualquer forma, o Demônio se virou e olhou para os outros.

— Vamos lá, durmam. Todos vocês. Ficarei bem aqui, então não se preocupem. — Eiro disse, e então se sentou de pernas cruzadas dentro do corredor escondido e, como se isso fosse muito natural, Sammy caminhou até o outro quarto, onde Clementine, Arc e Rudy se preparavam para dormir, enquanto Felix ainda continuava sentado na cama, nervoso.

Enquanto isso, Eiro tentava se concentrar na forma dos caminhos ocultos. Claro, ele conseguiu perceber que havia passagens ocultas mesmo do exterior, mas não conseguiu distinguir o quão intrincadas elas eram.

Ele queria ver onde elas estavam conectadas, mas não queria deixar as crianças sozinhas, então pensou nisto:

— Nelli, tenha certeza de que Felix não tente espiar aqui dentro. — Eiro disse para a Náiade. Como a cama em que o garoto estava ficava na mesma parede que a passagem oculta, ele não conseguia espiar facilmente, então Eiro pensou que poderia retirar sua máscara.

Enquanto Nelli flutuava em frente ao Diabrete, observando Felix, ela falou com Eiro depois de entrar no espaço intermediário onde apenas ele conseguia vê-la e escutá-la.

— Por que você quer levá-lo conosco? — Ela perguntou, e o Demônio suspirou em resposta, sussurrando.

— Não sou um grande fã dessa ideia, mas apenas pense dessa forma: nosso pequeno Gnomo aqui não foi vendido peça por peça, mas, em vez disso, foi forçado a atacar e matar uma pessoa sem querer. Isso seria muito diferente da situação de Felix? — Eiro perguntou, e o Espírito olhou para ele.

— Essa é uma comparação injusta. O Gnomo é apenas uma criança… Felix tem… o quê, dezoito, dezenove anos? — Nelli comentou, e Eiro assentiu.

— Como tal, ele foi criado nessa posição pelos últimos dezoito anos. Como eu disse antes, ele não pode jogar toda a responsabilidade em Enka, mas você o viu. Ele ficou aterrorizado quando eu mencionei a primeira e a segunda opção, e muito aliviado quando mencionei a terceira. Na verdade, ele ficou mais assustado com a segunda, já que isso significava que ele teria que enfrentar o seu pai amanhã.

Nelli olhou em silêncio para Felix e depois para Arc, enquanto ele se deitava na cama, adormecendo na hora.

— Entendi… se você não tivesse salvado, ou melhor, sequestrado eles naquele momento, eles também seriam pessoas bem diferentes hoje, né? — A Náiade murmurou. Com uma reação imediata, Eiro respondeu:

— Sim. Eles teriam sido criados como ferramentas de guerra. Não acho que Felix seja por natureza uma criança má, não é como se ele estivesse mentindo quando chamou Sammy de bonita, ou quando disse que queria passar o máximo de tempo com ela.

— É…? — Nelli questionou de repente. — Como você sabe?

Com uma leve carranca, Eiro olhou para o Espírito e riu de leve.

— Após toda a prática com Sammy para ajudar a prepará-la para quando sua habilidade for liberada, compreendi um pouco sobre como as mentiras funcionam. Não posso estar sempre certo, mas posso pelo menos dizer quando alguém está falando sério sobre algo ou não. É assim que sei que posso confiar em Solomon por se importar tanto com o seu filho, e eu também fui capaz de dizer que Felix dizia a verdade quando falou com Sammy. — O Demônio explicou, embora Nelli tenha olhado para ele ainda mais confusa do que antes.

— Então, por que você está ficando tão irritado? Pensei que você estava bravo porque ele estava brincando com a Sammy? — Ela questionou, e Eiro olhou para ela com um suspiro, como se a resposta devesse ser muito óbvia.

— Ele ainda estava usando aquela habilidade para fazer com que Sammy fosse afetada muito mais, e acima de tudo… — Eiro explicou, batendo no chão em que estava sentado. — Ele estava flertando com a minha filha. Isso me irritou.

Com um sorriso sarcástico, Nelli continuou olhando para Eiro, como se não esperasse esse tipo de resposta. Apesar disso, ela ainda riu.

— Bem, acho que isso é algo assustador que os pais têm que passar, né? — Nelli riu, e Eiro a encarou com uma carranca.

— Assustador? Não, não, mais como algo nojento. Não deixarei que ninguém com más intenções chegue perto das minhas crianças.

— E como você julgará quais têm boas e quais têm más intenções? — Nelli perguntou com uma risada, e Eiro fechou os olhos em preparação para tentar sentir o interior das passagens ocultas nesta pousada.

— Farei essas escolhas caso a caso, quando chegar a hora. — O Demônio comentou, embora Nelli tivesse quase certeza de que sabia que a maioria das escolhas ‘caso a caso’ acabariam do mesmo modo.

De qualquer forma, embora isso fosse definitiva algo importante que Eiro deveria manter em mente, por ora ele tinha que mapear o lugar.

Deixando sua mana fluir através do seu corpo em fluxos circulares, Eiro tentou acelerar a sua regeneração de mana o máximo possível e continuou expirando respirações infundidas com Magia de Vento para tentar marcar o que conseguisse do local.

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