
Volume 3 - Capítulo 126
A Virtude do Demônio
Enquanto Armodeus permanecia ali, perplexo com tudo o que Eiro disse para ele, o Demônio, seu Espírito atual e seu futuro Espírito estavam trabalhando na extração do corpo do Gnomo de todas as armas que estavam aqui. Felizmente ele foi capaz de terminar seu trabalho antes que o funcionário da loja se ‘livrasse’ do guerreiro chefe Enka.
Ele olhou para os diferentes itens em choque, pegando todos para examiná-los, encarando Eiro com um olhar profundo e sombrio.
— Você! O que você fez?! Já chega, eu chamarei os guardas agora! Você será preso! — O funcionário exclamou, mas Eiro olhou para ele um pouco surpreso.
— Pensei que isso aconteceria apenas se eu não pagasse pelos danos. — Eiro apontou, e o funcionário assentiu.
— Claro que sim, mas não há a menor chance de você pagar por elas, nem mesmo precisamos considerar essa opção! Ou o quê, você tem as duas moedas de ouro que isso lhe custaria? — O funcionário perguntou, de modo que mostrava sua opinião de ‘De jeito nenhum’.
E ao ver a reação de Eiro, que abaixou a cabeça, o funcionário sorriu triunfante.
— Viu? Venha comigo.
— Isso deve ser uma piada. — Eiro suspirou. — Você está fazendo um fiasco por causa de duas moedas de ouro? Você quer dizer duas moedas de ouro normais, não as grandes, certo? — O Demônio perguntou enquanto colocava a mão na sua bolsa, e o funcionário parou de falar, com uma expressão complexa, enquanto Eiro retirava três pequenas moedas de sua bolsa.
— Aqui. Isso é para todos os danos. — Eiro disse para eles, e o funcionário olhou para as três moedas como se tivesse visto um fantasma.
— E-Em, Sr., estas são três moedas. Acho que você contou errado. — O funcionário comentou, tentando ser gentil depois de ver que ele tinha o dinheiro, mas o Demônio balançou a cabeça, irritado.
— Não. Eu disse que elas são para todos os danos, certo? Isso inclui os danos que virão. — Assim que Eiro disse isso, ele caminhou pelo quarto em direção à porta de madeira pesada nos fundos, embora o trabalhador não tivesse certeza do que ele estava falando. Armodeus, por outro lado, compreendeu.
— Ele… ele está aqui nos fundos? — Ele perguntou, e o Demônio assentiu a cabeça.
— Sim. Duvido que ele deixaria outra pessoa trabalhar no corpo do Gnomo, então eu sei qual é o cheiro dele depois de pegar todos esses itens.
Enquanto Eiro movia a sua Força Vital pelo seu corpo para fortalecer o poder de suas pernas o máximo possível, Nelli ajudava o Gnomo a preparar algumas rochas mágicas que Eiro utilizou para cobrir sua perna com uma camada grossa e estável.
E, com o máximo de força que conseguiu reunir, Eiro chutou sua perna contra a fechadura da porta. Com um estalo alto, a porta se abriu, quase voando para fora das dobradiças.
Com passos pesados, Eiro deixou as rochas mágicas se desfazerem, ao mesmo tempo que liberava a Força Vital de volta para o seu corpo. E enquanto a dor fluía através dele, ele continuou avançando em direção ao homem parado dentro da sala, diante das chamas.
— Irensen. Esse é você, certo? — Eiro perguntou com um olhar profundo, e o homem, que parecia ser um humano do outro lado assentiu com a cabeça.
— Eu sou, mas quem diabos é você? — Depois que Irensen colocou seu martelo e a lâmina em que trabalhava em cima da bigorna, ele se aproximou de Eiro.
— Como você ousa invadir esse lugar desse jeito?! — Ele questionou, mas Eiro continuou o encarando enquanto caminhava em direção à forja. Logo em seguida, Nelli e o Gnomo entraram na sala, e Irensen entendeu a situação. — Por que você está aqui?
— Não é bastante óbvio? — Eiro perguntou, segurando a mão sobre as brasas. Era feita com carvão mineral, então Eiro foi capaz de manipulá-las com sua magia muito bem, desde que tinha uma afinidade alta tanto com Magia de Terra quanto com Magia de Fogo.
Enquanto as rochas brilhantes flutuavam ao redor de Eiro, o Demônio as manipulou com movimentos de mãos muito simples.
— Huh, legal. — Eiro disse com um leve sorriso no rosto, e então voltou sua atenção para o homem à sua frente. — Agora, acho que nós dois sabemos que você usou essas mesmas chamas para colocar as partes do corpo do Gnomo nas coisas que fez. Em vez disso, que tal eu usá-las para queimar todo esse prédio junto de você, um ser nojento? — O Diabrete perguntou com uma leve risada enquanto levava as brasas para mais perto de Irensen.
— Claro, eu não farei isso se você me entregar o resto do corpo do Gnomo que você tem e me contar sobre cada pessoa que comprou algo feito com ele. — Eiro sugeriu. Era óbvio que Irensen já estava sentindo o calor das chamas, devido ao quão nervoso estava ficando.
— Ar-Armodeus! — Irensen gritou enquanto olhava através do batente quebrado. — Você tirou o meu título de mim, e agora está deixando que esse louco venha atrás de mim?! O que há de errado com você? — Ele gritou, e com um olhar, Eiro passou uma das brasas sobre o braço de Irensen. Isso não parecia ter causado tantos danos à sua saúde, mas isso doeu para caralho.
Uma parte da pele de Irensen foi queimada, afinal.
— Não ouse tentar empurrar a sua culpa nos outros. O motivo para eu estar aqui é você, porque você é um pedaço de merda que tira partes do corpo de um gnomo. — O demônio comentou. — Eu não me importaria se você tivesse feito isso com um monstro ou uma pessoa, mas um espírito?
Com uma expressão confusa, Irensen segurou seu ferimento e olhou para Eiro.
— Que diferença isso faz? Você é um daqueles protetores de espíritos ou algo do tipo?!
— Eu te direi a diferença que isso faz. — Eiro rosnou. — Um monstro ou uma pessoa não consegue sentir as partes do seu corpo depois que elas são decepadas. Claro, existe a dor fantasma, mas elas não sentem de verdade o que acontece com suas partes faltantes. Espíritos são diferentes. eles sentem constantemente cada parte de seu corpo, não importa quão distantes elas estejam. Eles sentem o calor, os toques, como cada parte de si é triturada ou dilacerada. — O Diabrete explicou para Irensen. Esse era um tipo de informação que nem todos tinham acesso.
Afinal, nem todos os Espíritos gostariam que sua fraqueza fosse conhecida, embora Nelli tenha informado tudo sobre isso quando ela e Eiro firmaram seu contrato.
— Então me entregue cada mínimo pedaço do Gnomo de volta. — Eiro disse com um olhar penetrante, e Irensen encarou o funcionário da loja.
— Pegue a caixa, agora! — Ele exclamou, temendo por sua vida e o funcionário fez como ordenado. Ele correu pela oficina e abriu um pequeno espaço oculto escondido atrás de um escudo, do qual retirou uma pequena caixa de madeira.
Eiro já conseguia dizer que ela continha parte do corpo do Gnomo. O funcionário levou a caixa em direção a Irensen, que não hesitou em abri-la. Ele revelou um pequeno pedaço de rocha do tamanho de um punho: a maior parte faltando no corpo do Gnomo.
No instante em que o Espírito notou a rocha, ele flutuou na direção dela e a absorveu de volta em seu corpo. Isso sozinho pareceu dar a ele muito mais energia do que ele tinha antes. Ele flutuou alegre ao redor, até mesmo ‘se aconchegando’ em Eiro, mesmo que tudo o que ele estivesse fazendo fosse arranhar a pele dele, considerando que o corpo dele era feito de rochas. Mas algo estava errado.
— Ele não parece um pouco alegre demais? Ainda não deveria estar faltando muito? — Eiro perguntou, e Nelli negou com a cabeça.
— Acho que não… Espere, você! Você já vendeu algum dos itens feitos com isso? — Ela questionou enquanto flutuava na frente do corpo de Irensen, e o artesão negou com a cabeça e fez uma carranca profunda.
— Não vendemos… Porque ninguém conseguiu usá-los adequadamente. — Irensen explicou. — Não existem muitos guerreiros baseados em magia como você espera. Por conta do corpo desse espírito, todas as diferentes armas requeriam uma quantidade enorme de afinidade com a terra, mas os poucos que têm isso não são os guerreiros, mas magos! Eu estava para começar a trabalhar no pedido de um cajado que incluía o corpo do Espírito, mas agora eu não consigo nem mesmo fazer isso…
Com um leve suspiro que continha tanto alívio como exaustão, Eiro se virou em direção ao Gnomo ao lado dele.
— Entendo… Mas, isso significa que não há muitas outras pessoas que compraram partes do corpo dele? Eu pensei… — Eiro começou, mas Irensen explicou, já que queria que todos fossem embora o mais rápido possível.
— Eu contratei diferentes pessoas para que eu conseguisse comprar o máximo do corpo dele que eu conseguisse! O comerciante já havia feito uma grande exceção para me deixar comprar aquela quantia, mas como ele disse que ficaria na cidade por apenas alguns dias, eu tive que tentar conseguir o máximo do corpo dele! Afinal, era uma oportunidade que eu não poderia perder! — Irensen explicou.
Para Eiro, parecia que ele esperava que os outros concordassem com os seus pensamentos, mas, no fim, o Demônio apenas o encarou com um claro desprezo em seus olhos.
Ele fechou a sua mão, e todos os carvões em brasa caíram no chão, queimando-o. Isso não faria com que o lugar todo queimasse ou algo do gênero, mas isso deixaria algumas marcas feias e partes das faíscas queimaram mais um pouco do corpo de Irensen.
— Eu estou saindo. Vamos. — Eiro disse com um resmungo furioso, saindo pela porta que quebrou mais cedo, e, mais uma vez, foi seguido por Enka e Armodeus, que parecia bastante supremo com como tudo isso se desenrolou. Afinal…
— Você tem tanto controle sobre três elementos? — O Guerreiro Chefe perguntou com suspeita, e Eiro olhou para ele em silêncio. Enka começou a rir.
— Bem, não que isso seja problema meu, mas eu nunca vi ninguém que conseguisse controlar o carvão de tal forma. Isso foi algo muito interessante. — Ele comentou, e Eiro suspirou, irritado.
— Obrigado. Essa é a minha razão para existir. Ser interessante para você. — Eiro respondeu, e enquanto Enka ria ruidosamente, Armodeus encarou o homem… a coisa, ao seu lado. Ele ainda não tinha certeza do que pensar.
‘O que Eiro realmente é?’
…