
Volume 3 - Capítulo 125
A Virtude do Demônio
— Boa noite, senhores. Como eu posso ajudá-los essa noite? — Um homem vestido em um terno preto com uma camisa branca por baixo perguntou enquanto se curvava para frente.
— Quero falar com Irensen. — Eiro disse sem hesitar. Apesar disso, o homem que os cumprimentou olhou para o Demônio com um leve sorriso.
— Não acho que isso será possível. Lorde Irensen é um homem ocupado, nem mesmo o Sr. Guerreiro Chefe e o Sr. Armodeus teriam permissão para vê-los. — O homem explicou. Eiro o encarou com um olhar profundo, olhando em seguida para o interior da loja.
Logo notou o som de algum trabalho sendo realizado nos quartos fundos, embora não tivesse certeza de qual deles Irensen estava.
— Então você pode nos mostrar um daqueles itens mágicos feitos recentemente? — Armodeus perguntou, e o homem assentiu com uma leve reverência.
— Como deseja, Sr. Armodeus. — Ele respondeu, entrando na loja. — Sigam-me, por favor. — O homem adicionou, e o trio fez isso. Ele foi mostrando para eles uma dúzia de lâminas, varinhas e cajados diferentes, mas… o cheiro era estranho. Não havia um único traço do cheiro do Gnomo nelas.
Antes mesmo que Eiro pudesse falar algo, essa tarefa foi assumida por Armodeus.
— Oh, você está me dizendo que essas armas de baixa qualidade foram feitas por Irensen? Vou me repetir, quero ver as armas mágicas especiais que contêm um certo material especial. — O Anão Ancião explicou, apontando para o Gnomo que flutuava ao lado de Eiro.
O homem estreitou os olhos em resposta e então assentiu.
— Entendo, então você está ciente. Como esperado. — O homem disse. — Então, sigam-me até o segundo andar, por favor. — Ele continuou, e o trio o seguiu escadas acima ao lado da entrada da loja para chegar ao segundo andar.
Lá em cima Eiro deu mais uma olhada ao redor e achou imediatamente o que procurava. Embora para ter certeza, Eiro olhou para o Gnomo e o cheirou, atravessando a sala em seguida.
— Nossa seleção de itens de alto nível de compatibilidade está aqui. — O homem explicou. — Apesar de que nem eu sei quais delas contêm o ingrediente ‘especial’ e quais não. — Ele adicionou, e Armodeus deu de ombros em resposta.
— Tudo bem. Tenho certeza de que ele já as descobriu. — O Anão Ancião comentou com um sorriso, olhando para o Demônio que caminhava pela loja enquanto se recordava dos códigos dos itens que continham parte do corpo do Gnomo.
Assim que terminou de caminhar pelo quarto, ele retornou aos outros três e encarou o funcionário.
— S234D. 3H23A. 9IBVT. 46G- — Eiro disse com uma voz clara, embora o funcionário o olhasse com um pouco de confusão.
— Sr., sobre o que você está falando? — Ele perguntou, e Eiro olhou para ele com uma carranca, mesmo que ela estivesse escondida pela sua máscara.
— Os códigos para as coisas que foram feitas com o corpo do Gnomo. — Ele explicou, e o funcionário levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Você os memorizou tão rápido?
Parecia que até mesmo Armodeus estava muito curioso sobre essa parte, e Eiro assentiu.
— Eu me lembro de tudo o que vi, cheirei ou escutei durante a minha vida como se tivesse acabado de acontecer.
O funcionário, muito intrigado, colocou as mãos atrás das costas e formou um leve sorriso.
— É mesmo?
— Isso mesmo. Agora me dê essas coisas antes que eu corte voc-
— Antes que nós reclamemos ao Lorde. — Armodeus interrompeu, com a intenção de impedir que Eiro começasse uma situação em uma loja de armas, e o Demônio olhou para ele desapontado.
— Certo, algo assim. — Ele resmungou, e o funcionário sorriu leve para Armodeus.
— Não acho que isso será possível. Temos uma política de um item por pessoa. — Ele explicou, então Eiro deu de ombros.
— Está bem. Gnomo, vamos lá. — O Diabrete disse, ajudando o Espírito a se aproximar do primeiro item.
— Nelli, você pode ajudá-lo a refinar o seu corpo de volta? — Eiro perguntou para a Náiade ao lado dele, e ela colocou a mão na espada curta à sua frente.
— Pelo menos posso tentar.
— Com licença, mas o que você está fazendo? — O funcionário questionou um pouco confuso, e Eiro o encarou de volta.
— pegando de volta o que é por nosso por direito.
Logo, Nelli envolveu sua Magia de Água ao redor da lâmina para agir como um condutor para o refinamento espiritual do Gnomo. Depois de um tempo, desde que nada pareceu acontecer de verdade, o funcionário riu.
— Parece que o que você tentou fazer não funcionou. — Ele apontou, e Eiro, sem nem mesmo olhar para ele, respondeu.
— Foi o que pareceu para você, huh?
Confuso com o que Eiro disse, não apenas o funcionário mas até mesmo Enka e Armodeus caminharam até ele e se aproximaram do objeto, tentando repetir a mesma coisa, mas, assim que o funcionário colocou as mãos na espada curta, ele se virou para Eiro e tentou fazer com que ele se afastasse dos próximos itens.
— Você está banido desta loja e dos outros estabelecimentos. Depois que pagar o preço total dessa espada, saia imediatamente. — O funcionário disse com um tom estreito, e Eiro voltou sua atenção para a espada e a pequena placa presa ao seu suporte.
— Hmm, então se eu deixar essas coisas inúteis, posso sair, contanto que pague pelos danos? — Eiro perguntou, e o funcionário olhou para ele com uma carranca profunda.
— O que você quer dizer? Sr., sei que você pode estar acompanhado pelo Sr. Armodeus e o Sr. Guerreiro Chefe, mas eu não acredito que entenda o custo dos itens que vendemos. Duvido que alguém como você consiga pagar sequer um deles. Entretanto, temos planos de pagamento. — O funcionário explicou e, com um suspiro, Eiro olhou para Enka.
— Você é o guerreiro-chefe, então é algum tipo de guarda ou oficial, certo? — O Demônio perguntou para ele e, com um aceno, Enka respondeu.
— Tecnicamente, embora um pouco mais alto na hierarquia. Por quê?
— Poderia me fazer um favor e começar um longo questionamento com a equipe da loja sobre a utilização do corpo do Espírito nos itens deles? — Eiro perguntou. — E, por favor, com o máximo de prioridade possível.
Com um leve sorriso, Enka olhou para o funcionário, colocando os braços ao redor dos ombros dele e o arrastando para longe.
— Essa é uma ideia muito boa, na verdade. Que tal irmos até ali para isso? — Enka sugeriu, levando o homem com o que poderia ser descrito como “à força”, enquanto Armodeus ficava aqui com Eiro. Ele estava um pouco confuso sobre o que aconteceu, embora tenha entendido quando deu uma olhada mais atenta à espada curta.
— Ela ficou… inútil. — Armodeus murmurou, e Eiro levantou as sobrancelhas.
— Inútil? Nós arrancamos um pedaço do corpo do Gnomo, grão em grão. Não deveria estar tão danificada, certo?
— Não, ele ficou literalmente inútil. Vai se quebrar durante sua primeira batalha. Como um artesão, me sinto um pouco mal com isso, já que é uma lâmina tão incrível, mas, como uma pessoa, eu teria a destruído de qualquer forma. — O Anão Ancião explicou, e Eiro deu de ombros.
— Isso está bem por mim. Há mais sete objetos com partes do corpo do Gnomo. Agora eu conheço o cheiro dos diferentes metais quando eles estão misturados, então devo ser capaz de encontrar as pessoas que compraram as outras armas.
— E o que você fará se encontrar essas pessoas? — Armodeus questionou e, como se fosse óbvio, o Demônio prosseguiu para o próximo item e deu de ombros.
— Farei com que o Gnomo extraia o seu corpo delas.
— Sabe que esses itens são muito caros, certo? Obviamente as pessoas que conseguem comprar nessa loja são muito ricas, mas isso não significa que elas podem jogar dinheiro pela janela.
— O que isso tem a ver comigo?
— Nada, eu acho. Eu disse que não me sinto muito bem em punir alguém que nem mesmo sabe a verdade sobre o item que comprou.
— A culpa é deles por serem ignorantes.
— Não é ignorância se-
— Eu não ligo. Não me importo com outras pessoas. Não me importo com o dinheiro deles, seus sentimentos ou suas razões. Se eles não me derem o que quer que seja que compraram, os matarei e então tomarei deles. Não tenho problemas com tais coisas, Armodeus. — O demônio comentou. — Por que eu deveria me importar?
Com uma carranca profunda, o Anão Ancião olhou de volta para o Demônio.
— Isso é errado. Você não pode matar as pessoas dessa forma. Isso torna você-
Eiro cerrou os dentes.
— Então, matar monstros está bem e te torna uma grande pessoa, mas matar pessoas te torna um monstro? Armodeus, Jura uma vez me disse que eu não tenho que escolher um lado. Que eu deveria escolher o meu próprio lado. Desde então, não sou nem um monstro nem uma pessoa. Não me importo com origens, raça, inteligência, coisas do tipo. Se você me ferrar, vou te matar.
Bastante bravo e desapontado, Armodeus parou bem na frente de Eiro e encarou o lugar onde seus olhos deveriam estar sob a máscara.
— Não acho que seja isso que Jura queria quando te disse sobre isso.
— Talvez não, mas é assim que é, só porque eu sou gentil com minhas crianças não significa que de repente me tornei um humano. — Eiro disse, e então viu a expressão de Armodeus. Ela estava cheia de tristeza, frustração e uma angústia pura e absoluta com o que Eiro acabou de contar para ele.
— Cinco Orcs, sete Aranhas da Floresta, três Goblins, dois Elementais de Chama, um- — Eiro começou a listar, mas Armodeus olhou para ele confuso.
— O que você está dizendo? Esses são os seres que você já matou?
Com um resmungo irritado, Eiro balançou a cabeça.
— Não, essa é a quantidade mínima e o tipo de monstro que morreu para fazer as coisas nessa loja. — O Diabrete revelou, e Armodeus arregalou os olhos em surpresa, enquanto Eiro continuou. — Para as pessoas, monstros são uma ameaça, mas também são um recurso importante. Para os monstros, é a mesma coisa. Pessoas são ameaças às suas vidas, e então eles matam e comem humanos, usam seus corpos como ninhos ou rituais estranhos. Quando eu decidi ser nenhum dos dois, eu tive que fazer uma escolha. Eu deveria rejeitar ambas as perspectivas ou aceitá-las? Ambos, monstros e pessoas, são ameaças para mim. Então, por que eu deveria vê-los de formas diferentes?
Armodeus começou a entender o cerne da questão aqui, mas ainda não significava que ele concordava.
— Eu não me importo. Eiro, você não pode matar as pessoas sempre que elas te incomodam. Isso é-
— Você é um completo idiota? — Eiro questionou irritado, e Armodeus olhou para ele com um leve sobressalto. — Você acha que eu seria burro o suficiente para fazer isso? Eu quero, claro, eu não me sentiria mal em matar esses pedaços de merda também, mas considerando que minhas crianças ainda são pessoas, e os pecados dos pais recaem sobre suas crianças, não posso usar os meus padrões o tempo todo. — O demônio explicou.
— E mesmo que eu diga que não me importo de matar pessoas, isso não significa que eu mataria qualquer um. Eu tenho amigos que são pessoas, afinal. Como não há nada neste mundo que eu não me importaria de matar, também não há nada neste mundo a quem eu não daria a chance de se aproximar.
…