A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 127

A Virtude do Demônio

Assim que saíram da construção, Eiro se virou para o lado e olhou para os dois Espíritos flutuando ali. O Gnomo parecia bastante alegre e energético, mas ainda assim…

— Você não disse que conseguiria encontrar o nome dele quando ele conseguisse o seu corpo de volta? — Eiro perguntou, preocupado com o que ocorria.

Apesar disso, Nelli o assegurou.

— Não se preocupe, isso é normal. Isso não é tão simples quanto suas evoluções são. Dentro de alguns dias, ele deve ser capaz de aprender seu nome, então, por enquanto, vamos levá-lo conosco. — A Náiade disse ao Demônio, que sorriu e assentiu a cabeça em resposta.

— Okay, faremos isso? — Eiro respondeu, se virando e olhando para os dois homens que o encaravam com curiosidade. — Obrigado pela ajuda, eu diria. De alguma forma, isso foi muito mais fácil do que eu imaginava. — Ele comentou e, com um suspiro profundo, Enka concordou.

— Você pode dizer isso de novo? As expressões daqueles caras eram divertidas de olhar, mas além disso… Muito menos divertido do que eu achei que seria. — O guerreiro-chefe murmurou, mas Armodeus apenas o encarou.

— Você leva o seu trabalho a sério? Teria preferido que a situação escalasse em uma luta? — Armodeus perguntou para Enka, e então olhou para Eiro. — Vamos, eu te levarei até o portão da primeira camada. Não quero que os guardas te questionem sobre a sua presença aqui. — O Anão Ancião ressaltou, então Eiro acenou com a cabeça e se virou, caminhando em direção ao lugar que sabia onde ficava o portão, enquanto Enka acenava para os dois com um sorriso animado.

— Foi um prazer te conhecer, cara! — Ele gritou com um sorriso grande. O rosto, cabelo e trajes de Enka estavam muito bagunçados por conta da fuligem de quando as cortinas queimaram. Ele atraiu muita atenção de todos os transeuntes, mas não se importava. Enka apenas continuou encarando as costas de Eiro.

E então, ficou ali.

Ele permaneceu ali e continuou acenando com um sorriso brilhante que deixaria muitas pessoas desconfortáveis, o que de fato deixou. Assim que Eiro e Armodeus saíram do seu alcance de visão, o sorriso de Enka desapareceu subitamente.

Com um sorriso irritado, ele se virou e começou a caminhar pelas ruas. Sua postura curvada de antes, que o permitia ficar na mesma altura daqueles dois, havia sumido e, agora, suas costas estavam o mais eretas possível, com o pescoço esticado e com os ombros pressionados para trás.

Enka continuou esperando por um tempo, e assim que não havia ninguém ao redor dele, ele cobriu as mãos com chamas e as passou sobre o rosto e cabelo. Com esse movimento rápido, ele queimou a fuligem e arrumou o cabelo, deixando-o arrumado. Parecia ter levado horas para ficar desse jeito.

— Nojento. — Enka murmurou quando pressionou a palma no seu peito, fazendo com que as chamas se espalhassem por suas roupas, mas em vez de queimarem, elas mudaram. Sua camisa bagunçada e suja, com as mangas queimadas, transformou-se em uma camisa preta abotoada. E, como se pegasse algo do ar, Enka esticou a mão para frente e fez um paletó surgir, formado pelas chamas.

No instante em que as chamas desapareceram, tudo o que ele tinha em mãos era um paletó preto que envolveu ao redor da parte superior do seu corpo. Então, segurou ambas as mãos em frente ao seu pescoço e mais chamas apareceram, umas que logo se ‘ajustaram’. Assim que elas desapareceram também, restava apenas uma gravata vermelha, e toda a imagem do homem mudou.

Era tão diferente que talvez nem mesmo Eiro o reconhecesse, pois o odor dele mudou também. Antes, ele tinha um cheiro estranho, fétido e sulfúrico no seu corpo, mas agora ele tinha o perfume normal de um homem.

A figura de Enka mudou de redonda e brilhante para sombria e angular, enquanto olhava para o ambiente. E com essa expressão, o guerreiro-chefe entrou pelas portas da loja do artesão Irensen, e os olhos de cada pessoa ali se arregalaram.

Quando ele esteve ali com Eiro e Armodeus, todos o ignoraram, como se ele não estivesse ali. Claro, o funcionário havia falado com ele, mas se tivesse sido questionado amanhã, provavelmente teria esquecido sobre o fato e que Enka esteve ali, mesmo que tenham tido uma breve conversa em particular.

Apesar disso, não era como se tivessem falado sobre algo importante. Afinal, Enka não o havia questionado sobre o uso do corpo do Gnomo, em vez disso apenas sussurrou algo para ele.

Havia alguns outros clientes aqui, alguns até mesmo acompanhados por guardas, e todos os olhos estavam focados em Enka, que colocou as mãos nos bolsos da calça e olhou para frente.

— Saia. — Ele disse com um tom claro. Apesar disso, sua voz foi carregada pelo espaço, como se Enka estivesse falando da frente de cada pessoa presente. Como se seus corpos fossem controlados por alguma força externa, elas pararam o que quer que estivessem fazendo e passaram por Enka e saíram da loja. Isso incluiu até mesmo os funcionários.

Todas as pessoas saíram, com exceção do funcionário que os liderou pela loja antes, que ainda estava junto de Irensen.

Assim que todos saíram, Enka fechou a porta e usou qualquer arma aleatória parecida com um bastão que encontrou para impedir que ela fosse aberta por alguém do lado de fora.

Com passos que ecoaram por toda a loja, como se ele estivesse pisando com toda a sua força, Enka subiu as escadas e parou na frente da porta que Eiro quebrou.

— Esse maldito… Quem diria que ele era…?! Como ele ousa me ameaçar?! — Irensen gritou furioso, e o funcionário apenas continuou na frente dele com uma expressão vazia. — Ele não era nada mais do que plebeu. Se o Sr. Se Armodeus não estivesse aqui, nós poderíamos ter nos livrado dele. Posso pesquisar onde ele está hospedado atualmente, e podemos recuperar o corpo todo do Gnomo. — O funcionário sugeriu e, com um sorriso amplo, Irensen assentiu.

— Sim! Sim, faça isso agora! — Ele gritou. — Não permitirei que alguém assim me roube! Mostrarei que sou o melhor artesão que essa cidade… não, que esse mundo tem a oferecer! Eu juro!

Então, Enka não conseguiu conter sua risada depois de escutar algo tão ridículo. Depois deste dia, ele não conseguiria trabalhar mais.

Ambos, o funcionário e Irensen, ficaram surpresos com a figura de Enka parada no batente, embora nenhum deles tenha a reconhecido como uma das pessoas que acompanhou o ‘plebeu’ de antes.

— Me desculpe, me desculpe. Acabei de ouvir algo bastante divertido. — Enka riu enquanto entrava pela porta quebrada, vendo que os dois o encararam em silêncio. — Ah, continuem. Eu gostaria de escutar sobre o que vocês queriam fazer com aquele plebeu. — Enka disse de forma tranquilizadora, e Irensen assentiu e olhou de volta para o funcionário.

— Nós deveríamos matá-lo, certo? — Irensen questionou, como se Enka não estivesse ali, e o funcionário acenou a cabeça. — Acho que esse é o melhor caminho que podemos adotar. Embora talvez tenhamos que ser cuidadosos, como um conhecido do Sr. Armodeus, pode ser difícil esconder o desaparecimento súbito dele.

— Ah, acabe logo com isso! — Irensen exclamou irritado e, mais uma vez, Enka interrompeu a conversa.

— Oh! Eu acho que posso ter uma ideia muito boa para vocês! — Ele comentou e Irensen e o funcionário olharam para ele, mas dessa vez eles não estavam apenas confusos ou surpresos. Parecia como se ele sempre tivesse sido parte da conversa.

— Como você acha que pode ser capaz de nos ajudar? — O funcionário questionou e, com uma leve risada, Enka atravessou a sala e olhou ao redor.

— Em vez de matá-lo, você pode ‘se livrar’ dele de outra forma. Apenas mandem prendê-lo. Ele não é nada mais do que um plebeu comum, afinal. Você deve ter fama e contatos mais do que suficiente para fazer com que isso aconteça. — Enka disse, passando os dedos por alguns dos objetos espalhados no cômodo, como os materiais espalhados, ou até mesmo alguns itens finalizados.

— Mas nós não podemos fazer isso se ele está sendo protegido por Armodeus! — Irensen exclamou. — Eles confiarão mais na palavra daquele demônio do que na minha!

Com um aceno, Enka pegou uma adaga pequena que encontrou pendurada na parede e a segurou em sua mão.

— Verdade. Armodeus é muito mais confiável do que você, por bons motivos, inclusive. Você é um dos mais baixos dos mais baixos dessa cidade. — Segurando o queixo entre o seu indicador e polegar, Enka ficou pensativo por um tempo.

Em resposta, parecia que nem Irensen nem o funcionário conseguia negar o que Enka acabou de falar e apenas continuaram parados ali, esperando pela opinião do homem ou o que deveria fazer. E, com um estalo de dedos e pequeno sorriso, Enka começou a rir.

— Claro, claro! Por que eu não pensei nisso antes? — Enka perguntoU. — Não vamos deixar ninguém falar mal de você, para que consigamos aproveitar apenas os benefícios da sua fama e contatos!

Como se essa solução fosse a mais óbvia que alguém poderia ter pensado, o homem olhou para os outros dois e esperou pelas respostas deles. Com sorrisos brilhantes e animados, ambos assentiram.

— Essa é uma ideia incrível! — Irensen exclamou, e o funcionário olhou para Enka com os olhos arregalados.

— E como exata faremos isso? — Ele perguntou. Enka se aproximou devagar com a adaga apontada na direção de Irensen.

De forma muito agonizante, Enka empurrou a adaga no peito do homem que a criou. O próprio Irensen, entretanto, continuou ali. Ele encarou os olhos de Enka, e logo quando a vida dele sumiu e seu corpo caiu, o funcionário compreendeu o que estava ocorrendo e começou a estremecer.

— M-Mestre Irensen! — Ele gritou nervoso e caiu de joelhos para tentar ajudá-lo a se levantar ou se sentar, enquanto Enka colocava a adaga ensanguentada no chão na frente dele e olhava para o funcionário.

— É muito fácil, não é? Não se fala mal dos mortos. — Enka explicou, mas o funcionário o encarou com uma expressão temerosa e irritada.

— Por que você fez isso?! O que há de errado com você? Por quê?

— Diga-me, quem matou Irensen? — O homem perguntou, mas o funcionário o olhou confuso, falando devagar.

— Foi você!

— Como eu me pareço? — E Enka questionou, e o funcionário mais uma vez respondeu, irritado.

— Você é alto, tem cabelo e olhos vermelho-escuros! Você está vestindo uma camisa preta como breu! Tem uma voz calma, profunda e penetrante, e tem um cheiro agradável como um campo aberto! — Ele exclamou, com uma voz sofrida, uma que parecia o oposto de uma resposta tão elaborada.

— Não. Esse não sou eu. De que outra forma eu poderia parecer? — Enka perguntou mais uma vez com uma voz calma e, imediata, o funcionário se acalmou. 

— Não é assim que você aparece? Me desculpe… Eu acho que você tem uma altura comum. Seu rosto é obstruído por uma máscara em branco e todo o seu corpo está escondido por uma capa preta, com exceção de uma mão de madeira e outra coberta por uma luva preta. Sua voz é discreta e emotiva, e você não cheira a nada… Está certo? — O funcionário perguntou e, com uma leve risada, Enka se virou e mais uma vez atravessou a porta quebrada.

— Exatamente assim.

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