
Volume 3 - Capítulo 123
A Virtude do Demônio
Solomon subiu no palco de forma digna, aparente tendo mudado de um pai preocupado para um governante rígido, sem afastar o seu olhar do homem que estava no comando.
— Liberte imediata esse espírito e devolva cada pedaço que você tirou do corpo dele. — O Rei de Skyhart disse com um olhar penetrante, e o comerciante tentou ajustar o seu corpo para se curvar.
— R-Rei Solomon, certo? Me desculpe, mas esse espírito é como eu ganho a vida! Você não pode apenas tomá-lo de mim!
— Oh? — Eiro murmurou, estreitando o aperto que tinha ao redor do pescoço do homem. — Então está tudo bem se eu abrir a sua barriga e pegar o seu coração, fígado e estômago para vendê-los ao mercado negro? — O Demônio questionou, e imediata escutou o coração do homem acelerar.
— V-Você não ousaria! Nós estamos em frente a um Rei, você não pode- — O comerciante parecia querer protestar, pensando que ficaria seguro contanto que estivessem na frente de Solomon, porém ele estava muito errado. Pois, no instante seguinte, Eiro pisou na mão dele o mais forte que pôde, fazendo com que ela estalasse alto.
— Eu não posso o quê? Me desculpe, não entendi direito o som das suas besteiras. — Eiro disse com um tom claro e o comerciante olhou para o Gnomo ainda flutuando fraca ao lado, embora agora estivesse sendo apoiado por Nelli.
— V-Venha aqui… — O comerciante comandou, e o gnomo começou a se mover lentamente na direção dele, até flutuar na frente do seu rosto. — Eu l-libero o contrato… — Ele disse com um tom claro, esticando a mão para frente e, assim que se tocaram, o Espírito foi envolvido em uma luz fraca e algo se desfez nele, mesmo que fosse algo físico. Foi como se a camada de magia que o envolvia tivesse se quebrado.
— Nelli, pode me dizer se o contrato está quebrado? — Eiro perguntou para a Náiade, que assentiu.
— Sim, mas… Precisamos encontrar um lugar que pode se tornar a casa dele, ou ele morrerá aqui…
— Não se preocupe com isso. Primeiro, deixe-me livrar disso. — O Diabrete disse, segurando o comerciante pelo colarinho mais uma vez e o jogando nas cadeiras em que a audiência estava sentada agora há pouco.
Eiro se sentou de pernas cruzadas na frente do Gnomo.
— Consegue me entender? — Eiro perguntou, mas ele não reagiu. O Demônio pegou um pequeno pedregulho em sua mão e o colocou nas costas da mão dele. — Consegue levantar isso? — O Demônio perguntou e o pequeno pedregulho levitou alguns centímetros e depois caiu novamente.
— Certo, parece que você consegue me entender, afinal… — Eiro disse baixinho, colocando o pedregulho de volta nas costas da sua mão. — Da sua perspectiva, mova esse pedregulho para a direita para sim e não para a direita, certo?
O pedregulho caiu para o lado da mão de Eiro, para o lado direito se visto da perspectiva do Espírito. Como espíritos imaturos eram incapazes de falar, eles tinham que confiar em algo desse tipo por enquanto.
— Você está com dor? — Eiro perguntou, e ele moveu o pedregulho para confirmar isso.
— Sabe onde está o resto do seu corpo? — Infelizmente, a resposta foi não.
— Quer que eu te ajude? — Após alguns momentos de hesitação, o pedregulho se moveu na direção para ‘sim’ novamente, então Eiro sorriu.
— Quer formar um contrato comigo assim que se tornar um Espírito maduro? — O Demônio perguntou, mas o Espírito não moveu o pedregulho. E Eiro entendeu o motivo — Não se preocupe, não será como aquele que te aprisionou até agora. Eu não serei o seu dono. Você será meu parceiro, assim como Nelli é. Iguais. — Eiro explicou ao Espírito e, em resposta a isso, o comerciante levantou o seu corpo do solo e tentou contestar.
— Is-Isso não é possível! — Ele exclamou. — Espíritos não formam contratos para serem iguais a alguém! Gnomo, ele está mentindo para você! Eu te tratei tão mal assim? — O comerciante gritou, mas isso foi um erro muito tolo da parte dele. Com a ajuda de Nelli, Eiro formou um pedaço de gelo e o fez flutuar ao redor da cabeça do homem.
— Não ouse dizer outra palavra. — O Diabrete disse com um rosnado profundo olhou de volta para o Gnomo. Nelli se aproximou de Eiro.
— Pode confiar nele, nós temos um contrato de igualdade. Posso te ajudar a formar um, se não souber como. — A Náiade disse tranquila e, alguns segundos depois, o Gnomo moveu o pedregulho para que dissesse ‘sim’.
Eiro se levantou e estalou seus dedos.
— Então é isso. Nelli, quantos anos você acha que o Gnomo tem? — O Demônio perguntou, e Nelli olhou para baixo.
— Ele deveria estar na idade certa para evoluir… Mas, parece que não consigo descobrir o nome dele por causa das partes faltantes em seu corpo.
— Entendi. Todos vocês que estão aqui, entreguem de volta as partes do corpo dele, por favor? — Eiro disse com um olhar profundo, olhando para cada uma das pessoas com quem sabia que estava com um pedaço do corpo do Gnomo.
Mas, como nenhuma delas real agiu, o Rei Salomão se virou para eles.
— Façam como ele diz. Posso não ter jurisdição sobre esse lugar, mas não permitirei que façam o que quiserem. — O Rei disse com um olhar penetrante e, imediatamente, cada um deles voltou até o palco e devolveu as bolsas que haviam comprado, apesar de que uma mulher em particular tenha estendido a mão, esperando algo.
— Sua mão está vazia. O que você quer de mim? — Eiro comentou, e a mulher apenas o encarou.
— Eu paguei por isso! Agora que o devolvi, quero o meu dinheiro de volta! — Ela exclamou, e Eiro olhou confuso para ela e, após isso, balançou a cabeça.
— Me desculpe, nós temos uma política de não-devolução de dinheiro.
— O quê? Isso é um absurdo! Eu não fiz nada errado! — A mulher gritou, e Eiro se inclinou ligeira para frente.
— Quer saber, desde que você me pediu tão gentilmente, farei uma exceção. — Eiro disse com um leve sorriso sob sua máscara e, com uma expressão presunçosa, a mulher se virou para os seus ‘amigos’.
— Viram? Eu disse que todos os homens me escutam. — Ela riu, embora logo tenha sentido algo quente e úmido acertar sua mão.
E quando se virou, percebeu que ainda havia um fino fio de cuspe saindo da minha mão até a parte inferior da máscara de Eiro.
— O q-O que você está fazendo?! — Ela gritou, confusa, tentando se livrar do cuspe que ela tão gentilmente recebeu do Demônio, que olhou para ela com a cabeça inclinada para o lado.
— Quem disse que a exceção era te devolver o dinheiro? — Ele questionou. — A exceção era eu não me meter com você por literal pegar a parte do corpo de um ser vivo. Vá embora, se puder, antes que minha adaga corte sua cara feia, certo? — Eiro questionou com uma risada estranha e alegre, começando a coletar o resto do corpo do Gnomo que estava aqui.
Parecia que já havia recuperado uma boa parte, mas a maioria do corpo dele ainda estava faltando. Ele tinha que perguntar ao homem quem mais comprou para tornar a sua busca mais fácil, mas o duque de antes, em quem Eiro jogou a pedra, saiu da multidão e parou na frente da mulher.
— Como você ousa falar com a minha esposa dessa forma! — Ele exclamou, e Eiro o encarou de volta, observando entre o marido e a esposa.
— Hmm, isso é estranho. — O Demônio apontou, fazendo o duque olhar confuso para ele.
— O que você quer dizer?
— Oh, nada, eu tinha pensado que ela era a esposa daquele guarda ali, afinal, eles tem o mesmo cheiro um do outro. — Eiro disse, apontando para o guarda que estava na direta, atrás do duque. Ambos, ele e a duquesa, se encarassem por um instante, com o rosto do último corando.
— Do que você está falando?! — A duquesa questionou, e Eiro apenas se inclinou na direção dela.
— Você sabe exatamente sobre o que eu estou falando. Agora, saia, por favor, há outras coisas que preciso resolver. — Eiro disse, olhando para Solomon. — Me desculpe pela situação ter escalado um pouco.
— Não se preocupe. Não é imerecido. — Ele comentou, encarando a multidão se reunindo na frente do palco. Aliviado que isso não arruinou as chances de conseguir a ajuda de Solomon, o Demônio olhou para o comerciante.
— Solomon, consegue de alguma forma fazer com que ele nos diga para quem vendeu as rochas do Gnomo? Acho que talvez ele queira falar mais com você do que comigo. E… — Eiro disse, olhando para o homem cujos braços haviam pegado fogo quando tentou atacar Eiro.
Depois que ele encontrou o olhar de Felix, ele rasgou as cortinas em que estava preso e foi até ele.
E enquanto Solomon fazia o que Eiro sugeriu, o Diabrete se dirigiu ao garoto que não suportava nem um pouco, e ao homem que apenas poderia assumir ser o pai dele. Eles tinham feições faciais bastante semelhantes e tinham um cheiro quase idêntico, o que o fez supor isso.
— Bem, olá. — Eiro disse enquanto parava atrás do homem, que se virou.
— Huh? É você? Me desculpe, mas se quiser continuar nossa luta, teremos que fazer isso outra hora.
— Não irei lutar contra você. Posso acabar te esfaqueando dependendo de como as coisas se desenrolarem, então não lutarei com você. — Eiro apontou, e o homem apenas começou a rir em resposta, pensando que ele estava fazendo uma piada, embora as quatro crianças, que recordavam vividamente do que aconteceu quando se encontraram com Eiro, assim como quando foram sequestradas pelos Demônios, não pensassem que isso era tão divertido. Elas sabiam que ele falava sério, afinal.
— Você é um cara divertido, gosto disso. E parece que, dependendo de como as coisas acontecerem, seremos uma família em breve, eh? — Ele disse com uma piscadela, olhando lenta para o seu filho, que o encarou de volta horrorizado.
— Eu li-literal conheci Sammy há algumas horas, não há nada entre nós! Absoluta nada, de jeito nenhum! — Felix exclamou, aparente não apenas intimidado, mas profunda aterrorizado ao saber do que Eiro era capaz de fazer.
Claro, Sammy, por outro lado, que escutou elogios de Felix durante o dia todo e estava sendo influenciada pela magia de voz dele, simples o encarou confusa, embora tenha ficado em silêncio e, leve desapontada, se afastado para ficar atrás de Rudy, como se para se esconder de Felix.
— Eu te ensinei a tratar uma dama dessa forma? — O pai de Felix questionou com uma carranca profunda. — Desculpe-se pelo que acabou de dizer. — Ele disse e, nessa altura, Felix estava incerto de quem deveria temer mais.
Mas, para a sorte e desgraça dele, ele não precisou escolher. Pois Eiro concordou.
— Sim, peça desculpas agora. E, dessa vez, sem usar essa habilidade na sua voz.
…