A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 122

A Virtude do Demônio

— Todos têm as suas classes agora, eu presumo? — Solomon perguntou com um sorriso, olhando para Eiro.

— Existe mais alguma coisa que gostaria de mim? — O Rei questionou e Eiro assentiu a cabeça, embora tenha olhado primeiro para Felix.

— Há, mas antes disso… — Eiro começou e Felix, que esteve em silêncio durante todo o tempo em que estiveram aqui, encarou o Demônio com um pouco de medo com tudo o que estava acontecendo. Felix sabia que Eiro tinha ciência do que ele fez antes na ponte, então presumiu que seria denunciado, mas, em vez disso, o Diabrete balançou a cabeça. — Deixa para lá, posso lidar com isso por conta própria. Apesar de que, há uma coisa que eu gostaria. — Eiro disse com um leve suspiro. Ele não sabia como lidar com Felix agora.

Parecia que Sammy estava bastante apaixonada por ele e estava sorrindo desde que o encontrou, então Eiro pensou que ele poderia ficar com eles por um tempo… mas, por outro lado, ele não era nada além de um ladrão e um bajulador que queria ficar com Sammy por conta da aparência dela. Eiro tomaria sua decisão depois de ver o que aconteceria na pousada.

Claro, as escolhas estavam entre deixar cicatrizes em Felix para que ele nunca mais mexesse com outra pessoa, e dar algumas pancadas em sua cabeça para que ele pare de ser um idiota. Ele realmente queria socar Felix.

Mas havia algo mais importante, algo que Nelli também tentava dizer a Eiro.

— Na segunda camada, há alguém vendendo partes do corpo de um Gnomo. — Eiro ressaltou com um suspiro e não apenas Solomon, como Armodeus, olharam para ele, confusos.

— Espere, você quer dizer o Espírito ou uma pessoa? — Armodeus perguntou, mas, logo em seguida, balançou a cabeça. — Quer saber, isso não importa. Vamos lá.

— Espere. — Solomon disse enquanto levantava a mão na frente do Anão Ancião, enquanto se dirigia até a porta. — O que você quer que falemos, Eiro? — O Rei perguntou ao Demônio, que sorriu.

— Convença o homem a vender o resto do estoque. — Ele comentou e Solomon assentiu.

— Entendo. Então, leve-nos até lá. — Solomon disse de forma honrosa, e Eiro acenou com a cabeça e caminhou em direção à porta.

— Armodeus, você também vem?

— Heh, o que você acha? — O Anão disse com uma carranca furiosa, então Eiro se virou e escolheu manter a porta aberta para que suas crianças saíssem primeiro. Ele liderou o caminho em direção ao portão que os levaria à segunda camada e, como o Rei Solomon estava atrás dele, os guardas abriram o portão sem hesitar, enquanto o grupo descia para a cidade da segunda camada. Não era muito longe, apenas uma caminhada de cerca de dez minutos, e Eiro conseguiu escutar algo à distância.

— … o fim por hoje à noite, senhoras e senhores, obrigado… — O comerciante exclamou, e Eiro olhou para Solomon.

— Irei em frente. Nelli liderará o rosto do caminhão. — Ele disse para eles e avançou com a ajuda da Magia de Vento, enquanto adicionava uma informação ao Rei. — Me desculpe se eu acabar quebrando alguns ossos.

Dessa forma, Eiro escalou o lado de uma das casas, pulando sobre as ruas e as diferentes placas e decorações para chegar ao palco o mais rápido possível. Dentro de um minuto, o Demônio já conseguia ver o palco. O grupo de pessoas assistindo já havia aumentado muito e tentavam comprar o máximo que conseguiam do corpo do Gnomo.

Pensando que seria um desperdício de tempo vendê-los, o que fazia com que Eiro tivesse que ir atrás de mais pessoas e comprá-las de volta, o Demônio fez uma escolha… muito arriscada.

Em vez de esperar e avaliar a situação, ele pulou do telhado em direção ao comerciante e o chutou no rosto. Enquanto Eiro sentia o impacto no seu pé, ele chutou com o máximo de força que conseguiu reunir, fazendo o comerciante cair no chão, enquanto Eiro impedia sua queda.

— Me desculpe por isso, mas parece que nenhum de vocês conseguirá comprar isso hoje. — Eiro disse com um leve sorriso no rosto, olhando em direção ao Gnomo, que flutuava ao seu lado, aparente perto de se despedaçar e morrer, enquanto o comerciante se recuperava do ataque repentino.

— O que você acha que está fazendo? Quem você pensa que é?! — O comerciante questionou com uma frustração profunda e furiosamente, e Eiro se virou na direção dele e o chutou no estômago.

— Cale a boca, seu pedaço de merda. — Eiro rosnou e virou para as pessoas na plateia, algumas das quais já tinham começado a sair, depois de ver que o homem foi atacado.

— Não ousem tentar, posso sentir o cheiro das partes do Gnomo a milhas de distância. Vocês não serão capazes de se esconder de mim. Apenas voltem aqui e me entreguem isso. Entenderam? — Eiro gritou, notando que os poucos nobres que haviam comprado algo pararam de se mover, mas, naquele instante, Eiro notou algumas lanças sendo apontadas em sua direção.

— Parado! Quem você acha que é?! — Um guarda da cidade exclamou, e Eiro o encarou de volta.

— O cara que vai rasgar sua garganta se você não afastar esse palito de dente. — Eiro respondeu e, enquanto o guarda estremecia, o Demônio se virou para o comerciante que mais uma vez tentou se levantar. Sem sucesso, Eiro o chutou na lateral do rosto e o derrubou de novo.

— Fique onde você pertence. No chão. Se você tentar se levantar, está acabado. — O Diabrete anunciou, mas, naquele instante, o guarda que acabou de falar estocou sua lança em direção a ele. Se comparado às estocadas do fantoche, essa foi muito lenta.

Com um passo rápido para o lado, Eiro desviou e agarrou a lança, usando um pouco da água que tinha em sua garrafa para congelar sua mão na superfície da lança, para que o guarda não conseguisse puxá-la, ao mesmo tempo que manipulava sua Força Vital para conseguir um posicionamento sólido no chão.

E um momento depois, quando o guarda tentou puxar sua lança com toda a força que conseguiu reunir, um homem falou com uma leve risada.

— Que interessante. Jovem, você está mesmo tentando defender esse espírito meio morto e incompleto? Você tem um bom coração, mas está o usando para a coisa errada, né?

Antes que o homem pudesse terminar, Eiró já havia retirado uma pedra mágica de terra da sua Tesouraria e inseriu sua mana para cobrir a pedra mágica com uma camada de rocha dura, e então a jogou no estômago do homem.

— Cale a boca. Ele está meio morto por causa desse pedaço de merda aqui. E não é um Espírito ‘incompleto’, é apenas jovem. Você está dizendo que todas as crianças são pessoas incompletas? Bem, as suas crianças podem ser, mas isso porque elas herdaram a falta de cérebro que você claramente parece não ter. — Eiro rosnou, olhando para o homem enquanto se encolhia e vomitava no chão depois do ataque súbito.

Não era suficiente para causar qualquer dano sério, mas, como foi um acerto crítico, teve algum tipo de efeito negativo no homem, e vomitar era um dos mais básicos que sempre poderiam acontecer em qualquer situação.

Parecia que isso era algo que ninguém apreciava e, com uma risada, outro homem se levantou de uma das cadeiras. Diferente de todas as outras pessoas aqui, ele não estava vestido em roupas de luxo, mas em roupas rasgadas. Até mesmo levemente chamuscadas nas mangas.

— Hah, que interessante. Você acabou de arremessar uma pedra no estômago do duque. Gosto de você, garoto. Lute, caralho!

— Pelo menos o deixe terminar de falar, seu babaca!

Após o homem começar a falar, Eiro fez o seu melhor para juntar algumas das pedras ao redor, reuni-las em sua mão e jogá-las no homem, mas ele conseguiu desviar. Tudo correu bem, desde que as pedras acertaram o homem que fez o comentário idiota antes.

— O que importa se eu acabei de acertar o duque? Ele poderia ser um rei, qualquer um que faz um comentário de merda, como esse, pode se foder. — Eiro comentou com um tom caloroso e, nessa altura, o homem apenas continuou a rir.

— Oh, sim, você é bem interessante. — O homem disse e bateu os seus punhos juntos, criando uma faísca que queimou ao redor de ambos os seus braços.

Após ver isso, Eiro ficou sem palavras.

— Hah, ficou impressionado, não é?! — O homem exclamou, mas, sem hesitação, Eiro balançou a cabeça.

— Não, só fiquei maravilhado com essa cena idiota. — Eiro comentou. — Qual o motivo para cobrir as suas mãos com isso? Você pode, claro, criar faíscas sem ferramentas. Por que não as acender depois de atingir alguém? Você não desperdiçaria tanta mana, como está gastando agora, e ainda não teria que se preocupar com a sua pele queimando. Estou bastante impressionado que você não está sendo queimado vivo agora, admito. — Eiro disse com uma carranca profunda e, com uma expressão irritada, o homem avançou.

— Cai fora! — Ele exclamou, mas Eiro não se importava com isso. O homem estava usando tudo o que tinha para acelerar o máximo que conseguia, então, sem hesitar, Eiro empurrou o Gnomo para o lado e pulou para longe no último segundo, fazendo o homem pousar no palco, quase queimando as roupas que vestia.

E no momento seguinte, o homem balançou os braços e tentou acertar Eiro, mas o Diabrete já estava preparado para isso. Com um movimento rápido, puxou as cortinas vermelhas para frente dele e, assim que o homem acertou, elas se enrolaram ao seu redor. As cortinas logo pegaram fogo e, depois que Eiro as cortou, havia uma massa de chamas se debatendo no chão, com o homem tentando escapar.

Foi nesse momento que o Rei Salomão chegou. Os guardas do duque correram até os guardas reais, tentando conseguir a ajuda deles, e até mesmo o duque olhou para o rei.

— Meu Rei! Esse homem tentou assassinar todas essas pessoas importantes! Por favor, faça algo! — O duque exclamou, e Eiro olhou para Solomon.

— Eh? Esse cara é de Skyhart? Pela forma como ele falou, pensei que fosse de Zhurgard ou algo assim.

— Ele costumava ser, sim. — Solomon suspirou e então olhou para o Duque. — Esse homem é o meu benfeitor. Ele não está aqui para assassinar alguém. Na verdade, ele está aqui para impedir a morte de um ser jovem e inocente. Quem está no comando aqui? — Rei Solomon perguntou e, sem hesitar, quando as chamas se apagaram, o Demônio pegou o comerciante pelo pescoço e o empurrou para frente.

— Esse cara está no comando. — Eiro explicou, apesar disso, nesse instante, ele estava focado em outra coisa… E era o fato de que o homem com os braços flamejantes e Felix se encararam, ambos parecendo confusos com a presença do outro.

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