
Volume 3 - Capítulo 120
A Virtude do Demônio
— E por isso, Jura foi rotulado como um traidor para o mundo? — Eiro perguntou com uma carranca profunda e, como se fosse óbvio, Armodeus assentiu.
— Claro, o que mais você esperava? O último herói era o mais amado em centenas de anos, e ele foi morto como se fosse um inseto. As pessoas não veem muita esperança em derrotar o Rei, então elas jogaram a culpa para a única pessoa em quem podiam. Jura. — Enquanto o Anão Ancião comentava isso, Eiro começou a ficar cada vez mais irritado.
— Hmm, então talvez eu deva acabar com aqueles que fizeram isso a ele? — O Demônio murmurou, mas Armodeus respondeu rapidamente.
— Isso significa que você teria que destruir o mundo, algo que eu duvido que você consiga, mas há mais uma coisa que eu gostaria de falar com você. — O artesão apontou, e Eiro levantou as sobrancelhas.
Ele ainda estava bravo, mas não era como se pudesse mudar algo que já aconteceu. Ele tentaria mudar a reputação de Jura após a morte dele, se conseguisse, mas não havia sentido em tentar matar todo mundo.
Eiro olhou para Armodeus e esperou que ele falasse.
— Quais cartas você tem?
Com uma leve carranca, Eiro olhou para ele, surpreso.
— Por que você quer saber sobre isso? — Ele questionou, e Armodeus sorriu.
— Curiosidade. Como você provavelmente já percebeu… — O Anão começou, entretanto, antes que conseguisse terminar, Eiro falou.
— Você também tem uma Carta. Sim, eu percebi. — Ele respondeu, e Armodeus riu.
— Bem, então acho que devo começar, né? A minha é a Oito de Ouros, nomeada de ‘Mãos de Deus’.
— Faz sentido. Essa deve ser a carta perfeita para alguém como você. — Eiro apontou, pensando na história da primeira pessoa que recebeu essa carta.
Não era tão trágica como as outras histórias, mas ainda era bastante interessante. Era a história de um jovem e prodigioso artesão, cujas mãos foram esmagadas após ser acusado injustamente de roubar algo de um nobre.
Desesperado com esse fato, o artesão tentou se suicidar, mas o Comerciante Arcano apareceu diante dele e entregou a Carta que mudou sua vida para melhor. Agora, ele conseguia mover suas mãos ainda melhor do que antes de serem esmagadas e as usou para criar uma espada que conseguia matar qualquer criatura.
Essa lâmina foi então usada para matar o nobre que o acusou, mas devido à sua malícia na criação da espada, ela se tornou amaldiçoada e o matou junto do nobre.
— Claro, é a Carta feita para os artesãos! — Ele exclamou, olhando para Eiro com curiosidade. — Agora me diga, quais são as suas Cartas? — Armodeus questionou o Demônio, que suspirou e se inclinou contra a parede.
— Ás de Copas, Três de Espadas e Cinco de Ouros. — Eiro explicou, fazendo Armodeus exibir um sorriso largo.
— Ora, ora… nunca esperei ver um Portador de Carta triplo durante a minha vida. Mas, Três de Espadas, né?! Isso explica o que você disse antes… — Armodeus murmurou. Ao escutar isso, Nelli olhou para Eiro, confusa.
— Por quê? O que você disse antes? — Ela perguntou ao Diabrete, que suspirou irritado, pois não estava no clima de brigar por algo como isso agora.
— Estávamos falando sobre a causa dos ferimentos daquele garoto, e Solomon mencionou que poderia ter sido uma carta, o Três de Espadas. E eu acabei dizendo que não poderia ser o caso. Eu não contei a eles que era impossível, pois é a minha carta, então se acalme.
— Isso ainda é uma das coisas menos espertas que você já fez…
— Eu sei, mas me senti mal pela criança, ele perdeu o braço e a perna. Conheço pelo menos uma parte do que ele sente. Não queria dar a eles pistas erradas. — Eiro comentou e, nesse ponto, Nelli não conseguiu continuar reclamando.
— Contando que não diga a eles que é o Portador da Carta, deve ficar tudo bem… — A Náiade respondeu, e Armodeus ficou olhando para Eiro em silêncio.
— Ainda é bastante estranho para mim. Um monstro com compaixão genuína? Claro, não é como se isso fosse inédito, mas isso aconteceu algumas poucas vezes durante toda a história registrada… — Armodeus comentou, e Eiro simples deu de ombros.
— Sim, também não ouvi falar muito sobre isso, mas, pessoal, estou mais curioso sobre o que você fez para as crianças. Não podemos ficar muito tempo, então eu gostaria de saber, antes de partir.
Surpreso, o Anão Ancião cruzou os braços.
— Vocês já estão partindo? Não ficarão na cidade por um tempo?
— Por enquanto, não, me desculpe. Tenho certeza de que Jura contou sobre isso, mas as habilidades únicas do garoto mais novo e da garota mais velha estão seladas. O selo de Leon já está começando a quebrar o corpo dele, e não deve demorar muito para que o mesmo aconteça com Sammy.
— Já começou?! — Armodeus questionou com um grito alto. Ele olhou preocupado para o Demônio à sua frente. — Você ainda tem as poções que Christoph fez, certo? Aquelas que impedem isso de acontecer?
— Tenho, não se preocupe, e estamos adiantados no nosso cronograma, então tudo deve correr bem. Partiremos amanhã de manhã, assim que o sol nascer. Hoje à noite, quero conseguir as armas que você fez para as crianças e que as crianças consigam suas classes. — Eiro explicou. — Então, por favor, não quero ser rude, mas depois que fiz essas próteses não temos muito tempo sobrando para ir à Igreja. Poderia nos dizer sobre as armas?
Com um leve resmungo, Armodeus acenou a cabeça.
— Claro, mas eu acho que posso ter uma solução para os seus problemas. Reis possuem seus próprios Cristais de Mudança de Classe, já que seus guardas reais sempre precisam estar em sua melhor forma. Você é o benfeitor dele, então ele certamente deixará que usem o cristal. — Armodeus explicou, e Eiro levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Oh, isso pode funcionar! — Ele exclamou. — Vamos tentar. — O Diabrete disse, com um sorriso satisfeito, e Armodeus riu, seguindo o pedido de Eiro.
— Bem, de qualquer forma. Tudo o que fiz foram coisas simples no formato das armas de treinamento que você deu para eles. Duas espadas, um cajado, arco e flechas e um escudo que concentra os danos… além disso, fiz algumas armaduras para todos. Para Arc e Sammy, que são focadas em permitir que se movam. A de Rudy é grande e volumosa, mas leve, pois é para exibição, para que ninguém suspeite de algo quando ele não sofrer danos ao receber ataques fortes. Clementine recebeu vestes especiais, tecidas para que permitam que ela se cure facilmente caso use sua habilidade única. — Armodeus disse e se virou, enquanto se aproximava de uma caixa colocada sobre a mesa, a qual ele abriu.
— Então, também há algumas outras coisas. Panelas e frigideiras para a viagem, itens mágicos para familiarizar a vida de vocês e algumas coisas simples, como geradores de faíscas, pedras de amolar, fios, sobras de tecidos, coisas do tipo. — O Anão adicionou, tirando todos esses itens da caixa olhar para a mesa ao lado dele.
— E há algo para você. — Armodeus ressaltou, enquanto pegava uma adaga pequena e vermelha, brilhando.
— É uma ‘Adaga Presa de Drake’. No geral, ela aprimora qualquer tipo de Magia de Fogo. Esse deve ser o seu forte, certo? — O Anão Ancião perguntou, mas Eiro olhou para ele com os olhos semicerrados.
— Oh, por que diz isso? E O Espírito de Água flutuando ao meu lado?! Ou como eu usei Magia de Água antes?! Ou as partes azuis nos meus chifres e mãos?! — O demônio respondeu, mas Armodeus ficou um pouco confuso.
— O quê? O que você quer dizer? — O Anão perguntou, e Eiro suspirou enquanto esticava a mão em direção a Nelli, enquanto ela produzia uma pequena esfera de água para a demonstração de Eiro.
— Eu certa uso qualquer magia que tenha à disposição, mas utilizo Magia de Fogo principalmente para ferver a água… — Eiro declarou, e a esfera de água começou a borbulhar e emitir vapor, congelando de imediato logo depois. — Para que eu consiga congelá-la mais rápido. Meu forte não é fogo, é gelo. Fui abençoado pela antiga rainha Náiade e pela Dama do Inverno.
…
Em silêncio, Armodeus encarou Eiro por um tempo, fechando os olhos e expirando, irritado.
— O quê? — Ele perguntou, confuso, e Eiro olhou de volta para ele com um sorriso.
— Sim, me desculpe, essa adaga parece muito boa, mas… quando se trata de infusão de chamas, ainda continuarei com essa, eu acho. — Eiro explicou, esticando a mão pelo ar para pegar sua adaga da Tesouraria, fazendo com que uma adaga decorada com a Pedra Mágica vermelha em seu cabo aparecesse em sua mão de madeira.
E, assim que Armodeus viu isso, ele arregalou os olhos.
— P-Posso dar uma olhada nela? — Ele perguntou baixinho. Eiro franziu o cenho e entregou a adaga para ele, nervoso.
— Claro… mas seja cuidadoso, essa coisa é um tesouro para mim, mas, agora que você mencionou isso, uma segunda adaga parece uma ótima ideia. Posso dar uma olhada no que mais você tem aqui? — Eiro perguntou, enquanto colocava a adaga na mão de Armodeus, que levantou a cabeça devagar.
— Hm? Oh, claro, claro. Eu deixo as adagas bem ali, encostadas naquela parede ao fundo. Escuta, você se importa se eu amolar um pouco? Afiar correta e remover alguns dos cortes e arranhões?
Com um suspiro profundo, Eiro coçou sua bochecha e assentiu.
— Claro? Contanto que não quebre nada…
— Humph, com quem você pensa que está falando? — Armodeus perguntou com um estalo de língua, enquanto ia até a roda de amolar colocada no canto do cômodo, ao mesmo tempo que Eiro caminhava pelo quarto para procurar pelas adagas que o Anão Ancião mencionou.
Havia algumas que eram muito interessantes, mas nenhuma parecia especial o suficiente para ele as usar. Claro, algumas delas tinham alguns truques e propriedades interessantes, mas não havia nenhuma que o fizesse ter vontade de usar em uma batalha.
Isto até ele encontrar uma certa adaga preta. Por fora, ela não parecia tão interessante, pelo menos não mais do que as outras adagas encostadas na parede ou colocadas na mesa, mas, pelo que Eiro conseguia dizer, havia algo especial sobre ela.
Isso porque a lâmina em si tinha um núcleo oco e alguns pequenos furos saindo dela. Assim que a segurou, notou que, apesar de aparentar carecer de uma boa quantidade de metal, ela ainda era um pouco mais pesada do que as outras adagas, algo que Eiro gostava.
O cabo em si também parecia ser oco e podia ser preenchido com algum líquido, se necessário. Após dar uma olhada mais de perto nos furos e nas bordas da adaga que pareciam entalhes decorativos, para quem não tinha a capacidade visual de Eiro, ele notou que o metal estava mais fundo do que parecia, sendo pressionado para dentro, o que impediria que o líquido que estivesse dentro escorresse.
No mínimo, não poderia ser dessa forma, mas quando Eiro esfriou o metal com sua Magia de Gelo, viu que os pequenos furos se abriram.
Com um sorriso no rosto, Eiro segurou essa arma bastante interessante em sua mão e tentou balançá-la algumas vezes, para ver quão bem ela se encaixava em sua mão, sorrindo em satisfação. Parecia que encontrou uma arma muito interessante para si.
Mas, quando Eiro se virou para perguntar para Armodeus sobre a adaga que gostaria de usar no lugar da ‘Adaga Presa de Drake’, ele viu que o Anão Ancião encarava a sua adaga, como se ela fosse um tesouro perdido.
…