
Volume 3 - Capítulo 119
A Virtude do Demônio
— Okay, você precisa confiar em mim agora, certo? Seja lá o que sentir, aceite. Não lute, ou isso não funcionará. — Eiro disse para o jovem, que havia se deitado na mesa que Armodeus providenciou, afinal, ele também queria ver o processo.
Ao ver que o jovem concordou, Eiro arregaçou a calça da perna dele o suficiente para descobrir o coto e, com um leve toque, pressionou a pele ali.
— Você sente isso? — O Demônio perguntou, e o jovem assentiu nervosa, então Eiro colocou o braço na bolsa que deixou no chão e pegou uma garrafa pequena que estava bem no fundo. Solomon e seus guardas ficaram um pouco surpresos ao ver o braço dele chegar tão fundo dentro da bolsa bastante pequena, mas Armodeus já esperava isso, afinal, foi ele quem transformou a bolsa espacial original nessa bolsa.
Após pegar a garrafa, retirou a tampa e extraiu um pouco da água mágica, aplicando-a no toco. E, depois de alguns minutos de espera, Eiro pressionou o toco mais uma vez.
— Sentiu isso? — Ele perguntou de novo, mas o jovem levantou a cabeça e olhou para a sua perna.
— Sentir o quê? — Ele respondeu, e Eiro olhou para Solomon.
— Certo, posso começar agora. Não se preocupe, ele não sentirá nada, mas, por favor, continue conversando com ele para distraí-lo. — O Diabrete explicou, então o Rei assentiu e fez como pedido, tentando distraí-lo o máximo possível do que aconteceria a seguir.
Eiro pegou uma faca e cortou, devagar, a camada externa do toco, para reabrir o ferimento da forma mais limpa possível. Ele empurrou um pouco da sua mana no sangue, tentando impedi-lo de vazar enquanto trabalhava, depois posicionou a perna protética contra o toco.
Após isso, derramou uma garrafa de água refinada no local em que o ferimento aberto e a prótese se encostaram, controlando-a e, com a ajuda de Nelli, começou o processo de cura.
— Naiad, logris urtur krus thul orgum, jiad harr wass. Jiadis Naia. — Eiro murmurou, concentrando-se ao máximo no processo de cura, ao mesmo tempo que criava um círculo mágico pequeno e simples para auxiliar.
Não demorou muito; cerca de vinte minutos depois, parecia que o ferimento havia se fundido corretamente com a madeira, e Eiro passou a mão sobre a parte em que estavam conectados.
— Hmm, parece bom o suficiente. — O Diabrete murmurou e começou a passar a palma sobre a perna do jovem, tentando se preparar para a manipulação da Força Vital dentro do corpo dele.
Seria difícil preencher a perna toda com isso, já que Eiro não era bom manipulando a Força Vital dos outros, mas, se criasse pelo menos uma abertura na prótese, ela conseguiria se preencher sozinha. Como se perfurasse o fundo de um balde para encher uma tigela.
Era lento se comparado a derramar o balde normal, mas, pelo menos, era mais fácil de controlar.
— Isso pode machucar um pouco. — O Demônio disse e começou a injetar Força Vital na prótese, observando enquanto o corpo do jovem se contraía de dor. — Aguente firme, mais alguns momentos. Você se acostumará com isso. — Eiro disse, tranquilizando-o e, logo, o jovem acenou a cabeça e rangeu os dentes enquanto fechava os olhos, tentando aguentar essa dor imensa o máximo que conseguia, e seu corpo pudesse relaxou.
— Pronto. Assim que o anestésico passar, tentaremos caminhar um pouco, mas, primeiro, vamos continuar com o seu braço. — Eiro disse, contornando a mesa em direção ao lado dele. — Você está pronto?
Com respirações profundas e fortes, o jovem acenou a cabeça de novo.
— Termine logo com isso…
— Não se preocupe, você conseguirá suportar a segunda mais fácil. Eu acho.
— Você acha? — O jovem questionou com choque em sua voz, e Eiro pegou a garrafa de anestésico nova. Com Magia de Água, retirou um pouco e a moveu até o toco, sob o cotovelo do jovem, esperando mais alguns minutos para ela funcionar.
— Consegue sentir isso? — Eiro perguntou enquanto pressionava o toco, e o jovem balançou a cabeça, sentindo-se muito nervoso para falar. Então, Eiro pegou sua faca e cortou a pele, cortando a camada mais externa.
Assim que a pele foi removida do toco e Eiro parou o sangramento com magia, ele colocou a prótese no ferimento e começou a curá-la, e, com a ajuda de Nelli, injetar Força Vital nele.
— Pronto. — O Demônio disse com um leve sorriso sob sua máscara, olhando para Solomon enquanto fazia isso. — Em alguns momentos, estará pronto. Vai doer um pouco pelos próximos dias, e você não conseguirá andar por um bom tempo no começo, mas, pelo menos, pode começar a praticar. — Eiro explicou, e Solomon mal conseguiu conter a alegria que sentia percorrer todo o seu corpo.
— Vai levar um tempo para tudo passar e ele se acalmar, então, até lá, com licença. Gostaria de conversar com Armodeus, se não se importar. — Eiro explicou, e Solomon concordou.
— Claro, claro, leve o tempo que precisar! — Ele exclamou animado, e Eiro olhou para o Anão Ancião, passando por um Felix confuso e assustado, enquanto entravam no quarto dos fundos.
Ele parecia ser muito bem isolado, então, talvez, ninguém conseguisse escutar a conversa deles. Lá dentro, Eiro retirou sua máscara e a colocou em sua Tesouraria, ao mesmo tempo que retirava o capuz de sua cabeça.
— Agora, é um prazer final conhecê-lo, Armodeus. — Eiro disse com um leve sorriso e, com uma risada alta, o Anão cruzou os braços.
— Um Demônio de verdade, hein? Quem teria pensado? Quando Jura me disse sobre você, eu te imaginei sendo muito mais frio, mais cruel, sabia? — Ele comentou e Nelli, que estava flutuando ao lado de Eiro, olhou para Armodeus com um sorriso irônico.
— Ele matou mais de trinta homens dentro de quinze minutos, há duas semanas. E tentou matar um deles, ao prendê-lo em uma rocha gigante de gelo que fez com o sangue das pessoas que matou antes disso. — Nelli ressaltou, e Eiro a encarou, confuso.
— Por que você disse isso? — Ele perguntou, e o Espírito deu de ombros.
— Não sei. — Ela disse muito direta, mas Armodeus ficou bastante assustado com a revelação.
— Bem… Então, acho que deveria ficar do seu lado bom, né? — O anão perguntou, e o Diabrete balançou a cabeça.
— Não se preocupe, você é amigo de Jura, não há como eu te matar.
— Heh… Isso me faz sentir um pouco melhor, na verdade. Bem, estou feliz que está cuidando tão bem de todos os itens que fiz para você. — Armodeus riu um pouco, tentando mudar o tópico, e Eiro levantou as sobrancelhas, intrigado.
— Então, foi você que fez todas essas coisas? A bolsa, as ferramentas e até mesmo a capa? — Ele questionou, bastante curioso, e Armodeus acenou a cabeça.
— Claro que sim. Ninguém mais consegue fazer peças como essas, sabia? — Ele comentou com uma piscadela, fazendo Eiro sorrir em resposta.
Ele estava ciente de que todos eram itens incríveis, mas não sabia que eram feitos por alguém tão incrível como Armodeus. Eiro não tinha muita certeza do que toda aquela história de ‘Rei dos Artesãos’ que Felix falou significava, mas agora sabia. Todas as espadas, escudos, cajados e tudo mais que estavam espalhados não na frente da casa, mas aqui atrás também, estavam em outro nível se comparado a qualquer coisa que Eiro já viu antes.
— Na verdade, preciso te agradecer. Eu poderia fazer coisas bem interessantes para todos vocês. Claro, não falarei disso agora, por razões óbvias, mas, assim que Solomon e seus guardas partirem, explicarei.
— Então tá. Agora, sobre o que você estava falando antes, por favor. Sobre Jura e o Rei dos Monstros. — Eiro pediu, e Armodeus coçou a sua nuca.
— Bem, não é como se fosse um segredo. Se quiser saber, pode descobrir sobre isso em qualquer biblioteca grande. Eiro, você sabe que tipo de ser é o atual Rei dos Monstros?
— Um ser que ameaça a paz do mundo? — Ele perguntou, e Armodeus balançou a cabeça.
— Não é isso. Bem, tecnicamente sim, mas não é sobre isso que quero falar. Eu quero dizer literal. O atual Rei dos Monstros. Ele é um Monstro Único.
— Bem, era o que eu esperaria. Até mesmo eu sou aparente um Monstro Único, certo? — O Jovem Diabrete apontou, e Armodeus cruzou os braços enquanto se sentava na borda da mesa atrás dele.
— Claro, mas, mais uma vez, não é isso que quero dizer. Ele não evoluiu até virar um Monstro Único, sua raça base era única. Seu pai era um Goblin Lorde que ascendeu ao papel de <O Imperador>, e sua mãe era uma Criatura das Sombras que ascendeu ao papel de <A Imperatriz>.
— Então ele seria um híbrido? O que deveria ser, um Goblin das Sombras? — Eiro perguntou, curioso. Com uma leve carranca, Armodeus resmungou.
— Geralmente, sim, mas, logo antes da imperatriz dar à luz ao Rei, ela matou o imperador. Tipicamente, o lugar do Imperador ficaria vago e um candidato digno ascenderia depois de um tempo, mas, em vez disso, ele simples foi para o Rei ainda não nascido. — O Anão Ancião explicou, olhando para o chão com uma carranca profunda.
— O processo de despertar causou a morte da Imperatriz também. E, de alguma forma, o Rei ganhou a posse das duas Cartas do Arcano Maior. Claro, isso é impossível, então o corpo do Rei mudou drasticamente dentro do útero de sua mãe morta, sem rejeitar ambas as Cartas. O Rei se transformou em uma criatura única que nunca existiu antes nesse mundo, e talvez nunca exista novamente, mas, assim que aquela jovem criança monstro conseguiu sair do corpo de sua mãe, ela continuou vagando pela floresta em que nasceu. — Armodeus explicou. — Até que um dia, ela encontrou um jovem. Este jovem era Jura.
— E nenhum deles tentou matar o outro? — Eiro questionou com uma carranca profunda, e Armodeus balançou a cabeça.
— Claro que não. O Rei era um recém-nascido, ele não sabia nada sobre o mundo. E era muito inteligente para agir com base em seus instintos. E Jura… bem, ele sempre foi bastante excêntrico quando se tratava de coisas como essa.
— Então Jura se tornou o traidor do mundo porque acolheu o atual Rei dos Monstros? — Eiro perguntou com uma carranca. O que faria sentido, pelo menos em alguma extensão, mesmo que não gostasse disso, mas, o Diabrete ficou mais do que confuso quando Armodeus não assentiu ou concordou com ele.
— Na verdade… Não foi por isso que ele se tornou conhecido como um traidor. O motivo para isso foi que, para que o último grande herói conseguisse matar o antigo Rei dos Monstros, ele quase matou o atual Rei dos Monstros, que perdeu quase todo o seu corpo… todo o seu ser. E Jura criou um novo corpo para ele, mas perdeu sua visão depois que o Rei o atacou, imediatamente depois disso… E então, o atual Rei dos Monstros matou o herói, transformando todo um país em uma terra desolada, e matou o antigo Rei dos Monstros de forma que nenhum dos Nobres ousou revidar.
…