A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 118

A Virtude do Demônio

— Sério? Você acredita mesmo nisso? — Solomon perguntou com um sorriso brilhante, e o jovem Demônio acenou a cabeça em reposta.

— Sim, eu acho. Não há motivo para que ele não deva. O problema agora é o fato de que ele não se adapta muito bem à cura. — Eiro explicou, olhando para o homem quieto sentado aqui.

Com um sorriso irônico e a voz trêmula, finalmente falou pela primeira vez.

— Oh… Então você não deseja me tratar…? Pois eu deveria estar morto, é isso? Eu entendi, todos são assim… apenas me deixe morrer, então… — Ele murmurou baixinho e, com um olhar profundo, encarou Eiro, que percebeu o coração de Solomon acelerar, seus lábios tremerem, enquanto suas pernas estremeciam.

Assim que notou isso, Eiro estendeu a mão para frente e segurou o queixo do jovem, levantando-o para cima para que ele olhasse para o rosto do Demônio… ou melhor, para sua máscara. Eiro não queria que ele continuasse olhando para o chão.

— Hmm, não acho que as pessoas queiram você morto porque não é fácil te curar, mas porque você é um merdinha. — O Diabrete disse de forma direta, e um dos guardas restantes se ofendeu com a linguagem usada, mas, antes que pudesse fazer algo, Solomon o impediu, querendo que Eiro continuasse. — Se tudo o que você faz é agir dessa forma e se conformar com a sua própria agonia, então como das outros deveriam reagir? O quê, você quer que os outros acreditem em você, se nem você acredita em si? Quão importante você acha que é? Todos têm problemas. Claro, os seus são um pouco piores do que os dos outros, mas isso não significa nada. Eles te destruíram, então por que deveriam se arriscar com você ao trocar os seus problemas pelos deles? — Eiro disse. Obviamente exagerando um pouco com o seu tom, enquanto continuava apertando leve o queixo do jovem para conseguir algum tipo de reação.

Isso pareceu funcionar muito bem.

— O que diabos você sabe?! Como você poderia saber como eu me sinto? Você acha que eu queria ser assim? Eu só não sei o que fazer! — Ele gritou com raiva, e Eiro soltou o queixo dele e, em vez disso, empurrou sua palma contra o rosto dele.

— Olhe para isso. Você acha que eu substituí minha mão por uma de madeira por diversão? Sete anos atrás, todas as minhas crianças foram sequestradas por Demônios. Enquanto eu as resgatava, meu dedo foi arrancado. Então perdi toda a sensibilidade na minha mão. Um velho me salvou e me deu uma nova. Você acha que durante tudo isso, eu era tão insuportável quanto você? Que eu morderia a mão que me alimentou, como você está fazendo agora? — Eiro questionou, pressionando a mão na nuca do jovem, forçando-o a olhar para o Rei na frente deles. — Agora olhe para todas essas marcas de mordida no seu pai. Suas roupas rasgadas, pois se prostou enquanto implorava por você. Suas bochechas fundas, porque não consegue comer há dias. As olheiras escuras sobre seus olhos devido à falta de sono. Ele é um Rei, garoto. Você tem alguém que literalmente te acha mais importante do que o estado de todo um país. — O Demônio disse. — Então, aja como tal.

Finalmente, Eiro soltou o jovem e se virou para Armodeus.

— Me desculpe por pedir isso, mas poderia me emprestar alguns materiais? O tipo de madeira que você usaria para o cajado daquele curandeiro ali seria perfeito. — Eiro explicou para o Anão Ancião, que franziu a testa e balançou a cabeça.

— Me desculpe, eu tenho esses três cajados, mas não os materiais. Embora… — Armodeus respondeu, retirando um dos cajados pendurado na parede antes de jogá-lo em direção a Eiro. — Você pode usar isso. Sem custos, claro.

Com um sorriso satisfeito, Eiro assentiu a cabeça.

— Obrigado. E me desculpe por desperdiçar o seu tempo com tudo isso. — O Diabrete disse, enquanto passava os dedos pela superfície da madeira. Ele não era feito de forma complicada, de verdade. Não havia nada nele que o tornasse um cajado, então Eiro poderia reutilizá-lo.

— Ah, eu tenho ferramentas bem aqui, se precisar delas. — Armodeus apontou, mas Eiro balançou a cabeça e fechou a mão ao redor do cabo de uma ferramenta invisível e a puxou para trás, fazendo uma pequena faca de esculpir aparecer do ar.

E apenas essa ação foi algo que chocou todos no cômodo. Habilidades como essa eram mais do que apenas raras, afinal.

‘Quem é esse homem…?’

Solomon pensou, ao mesmo tempo que Armodeus pensava algo muito similar. E isso foi antes mesmo de Eiro começar a esculpir. Com movimentos rápidos, o Demônio começou a trabalhar, trocando suas ferramentas sempre que necessário. Ele começou com a perna, criando uma perna de fantoche. Não era tão detalhado como um pé normal seria. Isso significava que, por exemplo, não teria nenhum dedo separado, mas sim apenas o formato do pé.

Então havia a articulação que deveria conectar o pé com a perna em si, assim como a parte inferior da perna. Eiro tentou copiar o máximo que conseguia do formato bruto da perna do jovem, apesar de ter a feito um pouco mais musculosa.

Eiro tinha certeza de que assim que ele tivesse uma perna adequada, ele começaria a caminhar e os músculos de sua perna esquerda, que mal foram usados, começariam a se fortalecer de novo. Ele simples não queria que ela parecesse muito diferente durante o próximo ano, até que Eiro talvez o visitasse.

E quando estava quase na metade da parte inferior da perna, ele olhou para o lado e resmunou irritado.

Com uma expressão preocupada, Solomon se aproximou, olhando para a peça de madeira na mão de Eiro.

— A-Algo deu errado? — Ele perguntou com pura preocupação em sua voz, mas o Demônio balançou a cabeça.

— Não, não se preocupe. Apenas notei que eles trouxeram alguém irritante com eles. — Ele respondeu, e Solomon voltou sua atenção para os guardas e Armodeus, confuso, antes que escutassem uma batida na porta.

 — Meu Rei, nós retornamos. — O guarda de antes exclamou, e Solomon olhou para a porta com uma leve surpresa.

— Vocês podem entrar… — O Rei disse, e o guarda abriu a porta. Um grupo de pessoas entraram, liderados por Nelli, a Náiade.

— Eiro! — Ela exclamou. — Na segunda camada, há um artista-

— Eu sei, lidaremos com isso mais tarde. Primeiro, você e Clementine, deem uma olhada nesse garoto por um segundo. Tem um cheiro rançoso nele, só preciso confirmar minha suposição.

— Claro… — Clementine disse baixinho, embora aparentasse estar muito hesitante de se aproximar do garoto, por algum motivo. E enquanto Eiro continuava esculpindo a perna, ele falou com os outros.

— Comportem-se, todos, entenderam? E com ‘Todos’, eu quero dizer você, Arc

— Ei! O que você quer dizer com isso? — O menino perguntou, incomodado, e olhou para os seus irmãos antes de dar de ombros. — Tudo bem, tudo bem.

Ao ver que Arc estava se comportando, Sammy olhou para o Rei com um pequeno sorriso.

— Lorde Skyhart, é uma honra ser capaz de ficar diante de você dessa forma. Desde já, peço desculpas por qualquer coisa que meu irmão, assim como meu pai, possa fazer ou falar durante a noite. — Ela comentou, enquanto se curvava para Solomon, que balançou a cabeça.

— Não se preocupe com isso. Não estou aqui como um Rei, mas como um pai. E como um pai, Eiro é meu benfeitor. — Solomon disse com uma leve risada, e Eiro notou que toda a existência de Felix estava sendo esquecida pela confusão.

— Hmm, essas são as crianças que Jura falou? — Armodeus murmurou baixinho, e Eiro acenou a cabeça lenta.

— Provável. Você vez fez algumas coisas para elas, certo? Poderia trazê-las e mostrá-las para eles, enquanto eu trabalho?

— Oh, claro! — O Anão Ancião exclamou, correndo para o quarto dos fundos, enquanto Avalin se aproximava de Eiro.

— Papai, eu também vou ganhar alguma coisa?

— Hmm, o que você quer? — O Demônio perguntou, e Avalin colou a mão no queixo e olhou para cima, pensativa.

— Tudo! — Ela exclamou, mas o Diabrete sorriu e passou a mão pelo cabelo dela com uma risada.

— Isso é um pouco demais, não é?

— Não! — Ela gritou. — Tudo é muito pouco! — Avalin exclamou, rindo, e Eiro olhou para ela.

— Então, eu compro tudo e mais um pouco para você quando terminar aqui, certo? — Ele perguntou e, com um sorriso animado, Avalin assentiu, apressada.

— Siiim! — Ela exclamou, então correu até Sammy, enquanto Eiro terminava a perna protética e começava a montá-la. Assim que terminou, Armodeus já havia retornado com alguns itens, assim como o segundo cajado que daria para Eiro fazer o braço, o qual o Demônio aceitou, alegre.

— Obrigado. Nelli, Clementine, como está? — Eiro perguntou, enquanto olhava para as duas, e esta olhou para ele com a pele pálida.

— Nada bem… — Ela comentou, e Nelli parecia concordar com isso.

— Com o que esses ferimentos foram feitos? — O Espírito questionou, e o Diabrete deu de ombros.

— Eles assumiram que é uma Carta com propriedades semelhantes ao Três de Espadas. Um professor enlouqueceu, mas os outros puderam ser curados, só ele não.

— Hmm, então ele deve ter sido o alvo… — Nelli comentou baixinho, e Solomon arregalou os olhos.

— Alvo? O que você quer dizer? Meu filho apenas foi azarado, e seus membros não puderam ser curados com magia… Isso funcionou para os outros que perderam seus membros, entretanto.

— Claro, ele é basicamente o oposto de Clementine quando se trata de compatibilidade com cura, mas é impossível para alguém ter uma compatibilidade tão baixa que feitiços de alto nível não funcionem. Se esse fosse o caso, os ferimentos dele também não deveriam ter se fechado. Um único corte com papel poderia tê-lo matado, pois ele sangraria até a morte. — Nelli ressaltou. — Feitiços como esse só fazem efeito após a perda do membro. Algo foi feito com essa criança para impedir isso. Algo para impedir as tentativas de cura.

— Huh, então foi isso? — Eiro perguntou com um suspiro profundo, e Solomon olhou para ele, confuso.

— O que você quer dizer? Você sabe a razão para ele não poder ser curado.

Confirmando, Eiro começou as partes para o braço.

— Minha suposição é algum tipo de maldição, mas, se for isso, não deve ser tão forte como costumava ser, pois isso não tem um cheiro tão forte. — Eiro comentou e então caminhou até Clementine, colocando a mão nas costas dela, ao ver que ela ainda se estava se sentindo mal.

— Vá lá, dê uma olhada no que Armodeus fez para você. Se precisar, pode ir lá fora por alguns minutos, mas leve alguém com você, certo? — O Diabrete disse para a garota, que apenas acenou a cabeça.

— Obrigada… — Ela respondeu, e Solomon olhou para Clementine, bastante confuso.

— Ela também é capaz de sentir maldições como você? — Ele perguntou, mas Eiro simples balançou a cabeça.

— É mais complicado do que isso. Posso explicar alguma outra hora, mas, primeiro, deixe-me terminar tudo e ajudar o seu filho. — Eiro disse para Solomon, sem querer revelar conhecimentos que ele não precisava saber.

Desse modo, Eiro continuou esculpindo o cajado para transformá-lo em um braço protético, criando mais uma vez três seções principais diferentes. A mão, a articulação e o braço em si.

Talvez duas horas depois, depois que todos deram uma olhada em seus novos itens e Solomon ficou ainda mais nervoso do que antes, embora seu filho ainda estivesse sentado ali pensando nas palavras que Eiro disse antes, o Demônio terminou e segurou as duas próteses em suas mãos.

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