
Volume 3 - Capítulo 117
A Virtude do Demônio
Eiro estava bastante irritado com a situação. Por um lado, tinha que conhecer Armodeus assim que possível. Por outro, não poderia simples deixar que o corpo de um espírito fosse vendido. Ele sabia que os materiais que compõem o corpo de um Espírito estavam em outro nível, mas vendê-los era o mesmo que Eiro cortar o seu dedo para vendê-lo.
Com um rosnado baixo, Eiro não conseguiu mais ocultar a sua irritação. Ele desceu do telhado onde estava atual e passou pelos espectadores, alguns dos quais ficaram tentados a comprar algo desse homem, mas Eiro simples parou na frente do Espírito. Ninguém mais conseguia vê-lo, mas o Diabrete sabia que o Espírito ainda conseguia ver o fluxo de sua mana nessa forma de invisibilidade ‘inferior’. Com um sussurro, Eiro se inclinou na direção dele.
— Aguente por algumas horas, voltarei mais tarde e ainda trarei de volta cada parte do seu corpo, não se preocupe. — O Demônio disse, e gravou o rosto de cada pessoa observando essa apresentação, com o cheiro delas, claro.
Eiro se virou e se afastou. Seria muito arriscado tentar algo na frente de todas essas pessoas. Eles passariam a noite aqui, então precisava encontrar Armodeus antes.
Após caminhar pelas ruas, Eiro correu em direção à entrada da terceira camada, tendo cerca de apenas vinte minutos sobrando nesse estado, então precisava encontrar Armodeus, logo.
Foi surpreendente fácil chegar lá. Provavelmente porque era muito difícil chegar à segunda camada, e os nobres não tentariam brincar com a autoridade daqueles que podiam entrar na terceira. Eiro continuou escalando as paredes de pedra e logo pisou na grande e aberta terceira camada.
Não havia muitas construções aqui, mas as que existiam eram enormes. Parecia haver algumas lojas de alto nível com itens que Eiro não tinha esperanças de comprar, mesmo com todo o dinheiro que roubou do Lorde da Ganância, mas algo o surpreendeu.
Na verdade, havia um lugar em que conseguiu escutar alguém trabalhando. Ele conseguia escutar o som das chamas tremeluzindo, o cheiro do carvão queimando e praticamente sentia o calor irradiando dali.
Por algum motivo, sentiu que esse era o local que estava procurando, mas assim que o localizou, ficou surpreso ao ver que era a menor e mais simples estrutura de todas as que existiam na terceira camada. Claro, ainda era relativa grande, mas em um nível que uma família grande poderia viver confortável, em vez de uma mansão capaz de comportar toda uma vila.
A pequena placa de madeira acima da porta dizia ‘Armodeus’, assim como Eiro esperava. Mas, quando se aproximou da construção, começou a escutar algo mais. A voz de alguém que estava implorando por algo, em pura angústia.
— Por favor, eu imploro a você, ajude meu filho! Sei que ele não é nada além de um pirralho mimado, mas ele é meu filho! Não o condene pelo meu erro ao criá-lo! — A voz exclamou e, no instante seguinte, Eiro conseguiu escutar um suspiro profundo e a voz alta, áspera e resmungona de um homem diferente soar em resposta.
— Eu já disse antes, não é que eu não quisesse, mas eu não podia. Sou literal incapaz de te ajudar. A única pessoa que conseguia também não está mais aqui. — O homem explicou, mas a primeira voz simples continuou implorando. — Se você não pode, então quem pode? Por favor, Armodeus! Meu filho perdeu o braço e a perna! Você mesmo tem essa perna artificial, por favor!
Com um resmungo irritado, o som de um martelo sendo colocado em uma superfície de metal soou.
— Acabei de dizer a você que sou incapaz de fazer isso. Aquele que me fez essa perna não está mais vivo. E mesmo se estivesse, apenas conseguir a ajuda dele seria a maior traição, mesmo para um rei. Jura, o homem que ajudou o Rei dos Monstros. Já tenho sorte de poder trabalhar aqui dessa forma.
— O que você acabou de falar? — Eiro escutou outra voz falar, embora essa fosse muito familiar. E então, o Demônio percebeu. Essa era sua própria voz. Ele não havia percebido, mas depois de escutar o que o homem, Armodeus, disse, ele não conseguiu se conter e falou, enquanto abria a porta da frente.
Assim que Eiro apareceu ali com sua invisibilidade cancelada, os guardas que, aparente, acompanhavam o homem que implorava pela ajuda de Armodeus, apontaram suas armas para o Diabrete, mas ele não se importou muito com isso.
— Armodeus, explique o que acabou de dizer.
— Parado aí! — Um dos guardas gritou, apontando a espada para Eiro, mas o Demônio continuou encarando o outro lado da sala, enquanto Armodeus o encarou de volta, confuso.
— Baixem suas armas. — O Anão disse, parando em frente ao balcão enquanto os guardas pareciam bastante confusos. Assim que Armodeus se aproximou de Eiro, ele conseguiu dar uma olhada melhor no homem.
Ele era bastante alto para um anão, na verdade, tendo a mesma altura que Eiro, que possuía cerca de 1,80 metros no total. Armodeus tinha uma barba comprida e cinza-escura e olhos cinza-claros com leves ondas vermelhas. Seu rosto era construído para parecer bastante agressivo, mesmo enquanto sorria, mas ele não era feio de modo algum. Significava que ele era intimidador, só isso.
— Você é… — Ele murmurou baixinho. — Por alguma chance, Eiro? — O Ancião Anão perguntou, e o Demônio acenou a cabeça.
— Eu sou, mas, agora responda à minha pergunta. O que você acabou de falar sobre Ju-. — Eiro começou irritado, mas, antes de terminar, esse homem intimidador de alta posição, que tinha até mesmo reis se ajoelhando para ele, puxou o Diabrete para um abraço.
— Explicarei mais tarde, garoto, mas, primeiro, estou feliz de finalmente te conhecer. Jura era como um irmão para mim. — Ele explicou e, de alguma forma, isso acalmou um pouco a fúria de Eiro. E, assim que Armodeus parou de segurar o Demônio, ele se virou para o homem que continuava ajoelhado no chão.
— Me desculpe por isso, mas este homem é o aprendiz de Jura. Ou melhor, ele era o aprendiz de Jura. — Armodeus explicou e, na hora, o homem encarou Eiro com olhos esperançosos.
— O aprendiz de Jura…? O homem que consegue criar vida do nada? — Ele perguntou. — Por favor, ajude o meu filho! Ele perdeu dois membros em-
— Eu escutei. Você precisa de alguém para fazer membros substitutos para ele? — O Demônio questionou e o homem assentiu.
— Sim! Sim, isso! Ele sempre foi propenso a se machucar, e como não se cura fácil, nem mesmo um elixir foi capaz de ajudá-lo! Por favor, você é minha última esperança!
Encarando o homem encolhido à sua frente com um leve olhar, Eiro olhou ao redor da sala e logo avistou o jovem de quem ele parecia falar. Ele estava muito deprimido. Seus batimentos estavam lentos e fracos, estava muito abaixo do peso e pálido além da comparação.
Esse era o tipo de ser que Jura nunca hesitaria em ajudar. Então, Eiro também não o recusaria.
— Me dê algumas horas. Antes disso, preciso que alguém traga um grupo de pessoas para cá. São minhas crianças. Elas estão na camada inferior, dentro da loja de Armodeus daquela camada, acompanhadas por uma Náiade em busca de atenção. Informarei a ela que vocês estão indo buscá-las, então tragam-nas aqui, por favor. — Em resposta ao que Eiro disse, parecia que os guardas ficaram bastante irritados com toda essa ideia e um deles até mesmo o respondeu.
— Você quer trazer as suas crianças para esse lugar? Quem você pensa que é? — O guarda exclamou, mas o homem encolhido à frente de Eiro olhou para o guarda. — Deixe-me perguntar! Quem você pensa que é? Elas são as crianças dele! Tragam-nas aqui, seu tolo! — O homem exclamou e, sem hesitação, o guarda estremeceu e assentiu.
— Sim, meu Rei! — Ele exclamou e saiu do prédio com mais alguns guardas, e Eiro encarou o homem, que então se levantou com um pequeno sorriso. Ele também aparentava estar muito doente, com as bochechas afundadas em sua pele pálida. Se essa pessoa fosse mesmo o Rei, então a única razão que Eiro conseguia inferir para essa situação era que isso advinha de preocupação com seu filho.
— Permita que eu me introduza. — O homem disse com uma voz baixa e um sorriso alegre e esperançoso. — Meu nome é Solomon Sigurd Skyhart, Rei do país Skyhart. Posso perguntar quem é você? Gostaria de saber mais sobre o homem que pode acabar salvando minha criança.
Enquanto balançava a cabeça, Eiro olhou para o homem sentado em uma cadeira encostada na parede.
— Não há muito o que dizer. Meu nome é Eiro, estudei sobre a tutela de Jura por alguns anos, mas, mais importante, não devemos começar a ajudar o seu filho? — O Demônio sugeriu, e Solomon assentiu.
— Por favor! — Ele exclamou, e Eiro se aproximou do jovem. Talvez em seus dezessete, não muito mais velho do que as crianças de Eiro…
— Como isso aconteceu? — O Diabrete perguntou enquanto examinava os ferimentos, e Solomon fez uma careta ao olhar para o chão.
— No meu país, temos a Academia Skyhart. Uma escola que ensina tudo o que você pode esperar aprender, desde artesanato até magia. Meu filho frequentou essa academia, mas… um dos professores que contratarei perdeu o controle sobre uma das Cartas Divinas. Não sabemos como ele colocou as mãos nela, mas era do tipo que corrompia. Ele matou muitos estudantes e aleijou o meu filho. — Solomon explicou, triste. — Obviamente, tratamos todos que foram feridos durante esse incidente, e estamos apoiando as famílias daquelas que perderam seus entes queridos, mas meu filho foi o único que não pôde ser curado.
— Qual carta era? — Eiro questionou, com uma leve carranca, e Solomon balançou a cabeça.
— O palestrante fugiu, mas pelo seu comportamento e os ferimentos que os estudantes e outros professores receberam, achamos que talvez seja a <Fio da Marionete>, o Três de Espadas.
Obviamente surpreso, Eiro se virou e abaixou a cabeça.
— Não pode ser isso. — Eiro comentou, e Solomon ficou bastante surpreso com a resposta repentina.
— Por que não? Você sabe sobre esse incidente?
Suspirando leve, Eiro coçou sua bochecha e balançou a cabeça.
— Não ouvi nada sobre, me desculpe. Talvez eu possa explicar sobre isso após conquistar a sua confiança, e você a minha. — O Demônio disse, bastante envergonhado com o que acabou de gritar sem pensar, e apenas voltou sua atenção para o jovem na sua frente.
Ele não tinha mais os membros logo abaixo do cotovelo e joelho, então, por ora, Eiro conseguia criar uma versão mais simples das próteses. Ele não conseguia criar uma complexa, como a sua mão. Primeiro, porque ainda não era habilidoso o suficiente para manipular a Força Vital de outras pessoas. E segundo, porque não era uma boa ideia sobrecarregar um corpo enfraquecido como esse.
E então, virou-se e explicou a situação para Solomon. Ele pareceu desapontado, mas Eiro continuou a explicar.
— Não se preocupe. É como Jura me ensinou. Após o primeiro tratamento, eu te visitarei múltiplas vezes durante os próximos anos para ver a situação e aprimorar o membro… O corpo dele pode não suportar uma recuperação adequada agora, mas, em alguns anos, pode ser capaz.
…