A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 116

A Virtude do Demônio

Com um sorriso irônico, Felix olhou para Eiro e não sabia como reagir.

— Isso é uma piada, certo? — Felix perguntou. — Você não escutou o que eu acabei de falar? Você não pode esperar conhecê-lo assim!

— E por que não? — Eiro perguntou com uma carranca profunda. Jura o enviou até aqui, então obvia deveria haver uma forma de conhecê-lo.

E, com um suspiro incomodado, Felix cruzou os braços.

— Certo, vou ser direto. Vocês são viajantes, o que está tudo bem, mas escutem, essa cidade possui três camadas de artesãos: Armodeus tem uma loja em cada uma das camadas. A mais baixa é essa em que plebeus podem acessar. A da segunda camada é para nobres e a terceira para reis. Tentem comprar o que precisam aqui, certo? É um preço razoável. — Felix explicou, virando-se para Sammy.

— Eles até mesmo possuem alguns acessórios incríveis aqui. Colares, braceletes… anéis… — Ele apontou, agindo como se estivesse envergonhado sobre isso, insinuando algo irritante.

— Então, é difícil chegar lá em cima? — Eiro perguntou enquanto se virava, tentando ver se conseguia encontrar o lugar, e Felix acenou a cabeça, irritado.

— Sim. Agora, venha.

— Não, obrigado. Rudy, Arc, fiquem de olho nesses dois. Não os percam de vista. Clementine, por favor, cuide das crianças. E Nelli, tenha certeza de que Felix não tentará nada. Conte-me imediata, se ele tentar. — O Demônio suspirou, estalando seus punhos e se alongando enquanto fazia isso, e a Náiade apareceu no meio do ar e sorriu.

— Claro. — Ela respondeu, voltando sua atenção para Felix, que, mais uma vez, ficou surpreso ao ver um espírito aqui. E ele não foi o único.

— Isso é um espírito?

— Mamãe, tão bonita!

— Uma Náiade!

Algumas pessoas começaram a murmurar ao redor deles, e Eiro coçou a nuca enquanto olhava para Nelli com um sorriso irônico.

— Além disso, distraía essas pessoas um pouco, certo? — Ele pediu para ela, e o Espírito suspirou enquanto balançava a cabeça, desapontada.

— Oh, o que eu devo fazer com você…? Empurrando tarefas problemáticas como essas para mim… — Ela reclamou, mas Eiro sorriu para ela.

— Não finja que não gosta da atenção.

— Não sei do que você está falando. — Nelli respondeu com uma piscadela. — Agora saia, você está atrapalhando o meu show!

Com uma risada, Eiro deu um passo para o lado enquanto todos eram distraídos por Nelli, dirigindo-se até o beco mais próximo, onde retirou uma das suas três Cartas: o Ás de Copas. Obviamente, ele não o deixou mofando em sua Tesouraria durante esses últimos anos, ele experimentou o máximo que conseguiu, desde que, no momento, essa era a sua ferramenta mais poderosa. A repercussão era um pouco forte demais para ele, e foi por isso que pensou em outro método para usá-la em vez de bebê-la.

Ele inseriu sua mana na carta e fez a taça aparecer, colocando a mão sobre a borda da taça. Devagar, começou a se concentrar no líquido para extrair um pouco dele, enquanto usava Magia de Vento para transformá-lo em uma névoa leve, a qual usou para cobrir o seu corpo e roupas.

[Você se camuflou usando os poderes do Ás de Copas. Você ficará oculto, mas ainda emitirá sons em um grau menor e o efeito de evasão não estará ativo.

[Esse efeito durará 1 hora e pode ser cancelado a qualquer momento.]

Com um leve sorriso no rosto, Eiro colocou a taça meio-vazia de volta na carta, guardando-a de volta em sua tesouraria.

Esse método para usar o poder da Carta tinha vantagens e desvantagens. As desvantagens óbvias eram o baixo tempo de efeito e a potência bastante reduzida, mas, por outro lado, as vantagens eram que a taça estaria cheia de novo dentro de um dia e o efeito poderia ser cancelado a qualquer momento.

Usar a taça normalmente significaria que Eiro seria forçado a permanecer oculto e esquecido durante toda a duração, e isso não era real útil nessa situação. Então, Eiro começou a olhar ao redor. Ele tinha que se apressar.

Inspecionou a área para encontrar um bom caminho e já sabia aonde tinha que ir.

Eiro envolveu o seu corpo com Magia de Vento e a usou para ajudá-lo a pular o mais alto que conseguia, e assim que alcançou a saliência que viu antes, empurrou todo o seu corpo para cima, tentando se impulsionar.

Como a parede de pedra à sua frente ainda estava em seu estado natural, cerca de cinco metros acima da muralha de tijolos, Eiro conseguia usar Magia de Terra para criar pequenas saliências, as quais poderiam ser usadas para apoiar os seus dedos e pés para continuar escalando, até chegar ao telhado mais próximo.

De prédio em prédio, o Demônio simples continuou escalando, pulando e correndo, até que alcançasse a área de entrada da segunda camada.

Como não tinha nenhuma parede, tudo o que Eiro tinha que fazer era escalar enquanto evitava os ‘sensores’ posicionados ali. O que não foi difícil com a força de sua percepção.

O local por onde subiu tinha poucos guardas, pois ficava nos jardins logo na frente da segunda camada. Era um lugar fácil de ver de qualquer lugar da cidade, então ninguém esperaria que alguém tentasse entrar por aqui.

De dentro do jardim, Eiro conseguia perceber que o ambiente era muito diferente de antes. Os poucos guardas que estavam aqui eram mais bem equipados e vestidos do que os da camada inferior, e havia itens mágicos espalhados por todos os lados. Eles pareciam ser utilizados para iluminar as ruas, apesar de quão raros e caros eram.

Se a segunda camada já era assim, Eiro não conseguia deixar de imaginar como seria a terceira.

Não havia muitas pessoas na segunda camada, mas a maioria das que aqui estava tinha uma aura completa diferente ao redor delas. Eram mais dignas, portavam-se com mais elegância e até falavam de uma maneira completa diferente. Eiro poderia aprender algumas coisas aqui sobre como agir com etiqueta.

Essa foi sua primeira impressão, pelo menos, mas, assim que real tentou olhar para as áreas de criação nessa camada, não havia ninguém trabalhando. O único lugar que tinha algum movimento era uma loja que vendia acessórios.

Então notou uma área com bastante movimento, e era um lugar que genuinamente não esperava encontrar aqui. Era algo como um teatro móvel.

Havia algumas crianças sentadas em cadeiras de cor lavanda, as quais pareciam mais caras do que a maioria dos itens comuns na camada inferior. E as versões decoradas em ouro para seus pais também não eram motivo de riso.

O palco em si também era bastante caro. Era feito de uma base comum de madeira dura, mas as decorações ao redor dela usavam um tipo específico de madeira cultivada para aumentar o efeito das Magias de Terra.

Parecia um pouco arranhado, mas em um nível que mal seria perceptível. Eiro notou que estava em um padrão estranho, já que, de outra forma, não teria prestado atenção para isso. A parte com mais arranhões era um pilar logo atrás de onde as cortinas passavam. Era como se os arranhões estivessem se espalhando de fora para dentro.

A princípio, Eiro pensou que talvez alguém estivesse esbarrando nele sempre que caminhavam por ali, mas notou que esse não poderia ser o caso. Os arranhões percorriam quase toda a circunferência do pilar. Como se alguém estivesse as fazendo proposital, ou… alguém estivesse tentando se segurar no pilar enquanto era puxado para dentro.

Pensando que isso poderia ser bastante interessante de assistir, Eiro decidiu usar o tempo em que procurava por uma rota para também assistir ao ‘show’, e logo notou movimento atrás do palco, um homem bem-vestido apareceu.

Ele vestia um terno de cores vibrantes, do tipo que seria desagradável em qualquer situação comum, mas estranhamente adequado para esse tipo de apresentação. Com sua cartola e bengala bem decorada, davam a ele uma imagem clichê de um diretor de palco.

O homem começou a falar sobre algumas coisas aleatórias que não interessavam a Eiro, mas, logo, acenou a mão para o lado e fez um buquê de flores aparecer, todas feitas de pedra.

Pedras que logo se desfizeram e foram carregadas pelo vento, ou, assim parecia, para o alto. Na realidade, o ar permaneceu igual o tempo todo. O que aconteceu, na verdade, era um uso simples da Magia de Terra, usando rochas criadas através do mesmo tipo de magia.

E para esse elemento ser criado de tal maneira poderia significar algumas coisas. Um: essa pessoa na verdade era um dos magos mais habilidosos do mundo, que conseguia criar elementos por conta própria sem a ajuda de círculos mágicos complicados.

Dois: ele tinha uma habilidade única que o permitia ter um controle superior sobre o elemento terra.

Três: ele tinha uma Carta, apesar de Eiro conseguir confirmar que esse não era o caso, pois não havia a ‘aura’ emitida por outros Portadores de Carta aqui.

E quatro, o mais provável, ele tinha um contrato com um espírito de terra, o qual ele usava para esses truques entediantes.

E, assim que pensou nisso, recebeu sua confirmação. Era a quarta opção. Pois, depois de flutuar mais um pouco, as rochas continuaram se reunindo e se transformaram em um corpo feito de rocha bruta. Um gnomo, um tipo de espírito de terra. Era assim que ‘Golens’, espíritos comuns da terra, eram chamados quando atingiam a maturidade.

Ele era habilidoso no que fazia, já que seu controle sobre o elemento terra era como respirar para as pessoas, mas o que o surpreendeu não foi isso. Espíritos maduros eram capazes de formar contratos, pelo que foi dito por Nelli. Pelo menos, era impossível formar dois dos três tipos de contratos para ele.

Havia o contrato do tipo ‘Privilégio’. Aqueles que os Espíritos formavam normalmente, em que tinham poucas, ou nenhuma, desvantagem no contrato.

Então havia o tipo ‘Parceria’, o tipo de contrato que Nelli e Eiro formaram. No qual eram parceiros em pé de igualdade.

E o terceiro, o tipo que um Espírito não poderia iniciar. O contrato de ‘Submissão’. Esse era normal possível com Espíritos imaturos e não lhes dava nada além de dor e sofrimento. Literal. Elas receberiam o mínimo de mana que precisavam para existir, e tinham que revelar todos os seus segredos, seguir qualquer comando do contratante e, algumas vezes, até receber parte do dano físico sofrido pelo contratante.

Era muito óbvio que esse era o caso aqui, pois esse era um espírito imaturo. Espíritos maduros tinham algo semelhante à pele em algumas partes dos seus corpos, assim como marcas e acessórios únicos feitos de mana. Por outro lado, Espíritos imaturos eram apenas seu elemento transformado em uma forma aproximada humanoide.

Claro, existiam algumas exceções. Por exemplo, as Filhas do Inverno eram espíritos imaturos também, mas como eram um tipo de espírito de gelo incrível e especial, suas formas imaturas já eram bastante avançadas.

Mas isso não importava muito agora. Toda essa situação não importava muito, não para Eiro. Ele não tinha razão para ajudar o jovem espírito.

De qualquer modo, ele deveria ser pelo menos algumas dúzias de anos mais velho do que ele e deveria ser capaz de se defender sozinho. Apesar disso, Eiro escutou um barulho muito irritante na forma de uma voz.

— Senhoras e senhores, aqui está nossa atração principal! Deliciem-se com sua beleza! Os minerais naturais contidos dentro do seu corpo têm propriedades que fortalecem você e sua saúde! Por uma pequena moeda de ouro, você pode levar um pouco dele com você!

Um barulho que revelou que o homem não era um artista, afinal… Ele era um comerciante.

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