A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 114

A Virtude do Demônio

Com um suspiro profundo e um resmungo característico, Eiro abriu os olhos assim que o sol os atingiu. O Demônio se levantou do chão e deu uma olhada ao seu redor.

Tudo ainda estava em ordem e as mudanças estavam em uma quantidade que você esperaria que acontecesse naturalmente durante a noite.

As crianças ainda estavam na carruagem, então o Demônio relaxou mais uma vez. Ou melhor, relaxou o máximo que conseguia nessa situação. Nessa tarde, o grupo chegaria à primeira grande cidade que visitariam. Uma que não era apenas uma cidade pequena ou uma vila, como aquelas por onde passaram durante as duas últimas semanas.

Na realidade, Eiro estava um pouco nervoso com isso. Fazia um tempo desde que esteve cercado por tantas pessoas, afinal, e não estava certo de como as coisas funcionavam em um lugar como esse. Ele escutou rumores, mas aparente nem sempre eram verdade, pelo que ouviu. Então, mesmo que Argberg fosse dita como um lugar pacífico e sem muita pobreza, poderia ser o exato o oposto: um lugar onde as pessoas se matavam durante o dia e sobreviviam durante a noite.

Embora isso possa ser um pouco exagerado, agora que pensou melhor sobre. De qualquer forma, Eiro não queria ser colocado em situações perigosas, então precisava estar bem preparado, Ou pelo menos o mais preparado possível. Ele tinha tudo o que poderia precisar em uma emergência em sua tesouraria e todo o resto estava ao seu alcance dentro de sua bolsa, incluindo algumas peças de reposição para sua própria mão.

Apenas no caso, Eiro trouxe consigo um pouco mais de madeira da árvore para que pudesse transformá-la no que precisasse. apenas para estar preparado para qualquer situação que pudesse surgir no futuro.

— Bom dia… — Rudy bocejou, cansado, e Eiro olhou para o garoto com um sorriso.

— Bom dia.

— O que você está fazendo? — O garoto perguntou a seguir, mas o Demônio apenas deu de ombros e arranhou a sua nuca.

— Nada, acabei de acordar.

— Então, por que você não vai treinar com o fantoche novamente? Já faz alguns dias, certo? Você parecia bastante sério sobre isso… — Rudy apontou, e Eiro assentiu, expirando pelo nariz enquanto sorria.

— Prefiro esperar um pouco mais, até sabermos que estamos no caminho certo. Não quero desperdiçar muito tempo. — Eiro explicou, mas Rudy olhou para ele com uma ligeira carranca.

— Não pense apenas em nós, pense em você mesmo em alguns momentos. Nós ficaremos bem. Já estamos uma semana adiantados no cronograma, certo?

— Eu sei, ainda assim… — O Diabrete começou. — Não quero arriscar. Então, vamos apenas comer e continuar, certo? Dependendo de como as coisas forem, podemos… passear em Argberg. — Eiro sugeriu, mesmo que se sentisse bastante inseguro sobre isso.

— Sério?! Isso seria muito legal! — Rudy exclamou, e Eiro cruzou os braços.

— Na verdade, acho que podemos aproveitar essa chance para conseguirmos as classes de vocês. — Ele adicionou e, imediatamente, de dentro da carruagem, escutou alguma comoção.

— Classes? Finalmente vamos tê-las?! — Arc perguntou, olhando para Eiro com um sorriso amplo que era impossível de conter naquele momento.

Com um leve sorriso, Eiro apenas assentiu.

— Melhor enquanto estamos adiantados no cronograma do que quando estivermos atrasados… certo? — O Diabrete comentou e, com as mãos cerradas, Arc as levantou alto no ar, animado.

— Sim! — Ele gritou, e Eiro o encarou com uma carranca profunda e então cruzou os braços.

— Idiota. — Ele disse, e Arc inclinou ligeira a cabeça para o lado, com uma expressão confusa.

— Ei? O que você-

Antes mesmo que Arc conseguisse terminar a sentença, ele perdeu o equilíbrio ao ficar na beira da porta, depois de ser atingido na cabeça por um travesseiro.

— Cale a boca, seu maníaco! — Sammy exclamou, brava, enquanto Arc se virava com uma leve risada.

— Hahah! Pelo menos agora, nós podemos partir mais cedo, certo? — Arc apontou. — Nós conseguiremos nossas classes hoje! — Ele exclamou para Sammy, mas demorou um tempo para que a garota ainda sonolenta compreendesse o que Arc acabara de falar.

— E daí, por que… Espere, nós conseguiremos o quê? — Sammy perguntou, pensando sobre o que acabou de ouvir. — Conseguiremos nossas classes? — Ela questionou animada, e Eiro sorriu para ela.

— Se tudo correr bem, sim.

— Incrível! — Sammy exclamou, de forma semelhante ao Arc, e Eiro apenas sorriu e começou a ajudar Rudy a preparar o café da manhã.

Assim que todos terminaram de comer, Arc assumiu a tarefa de dirigir a carruagem, enquanto Eiro subiu nas costas de Lugo para estar preparado para tudo.

Demorou algumas horas, mas logo Eiro conseguiu avistar a cidade à distância, mesmo que todos os outros conseguissem ver apenas um pequeno ponto.

Esse ponto se transformou em uma mancha, e essa mancha na imagem de uma cidade ficou cada vez maior enquanto se aproximavam.

Toda a cidade foi construída em alguns penhascos na encosta de uma montanha com um formato peculiar. Em um lado, ela parecia ter o formato padrão que uma montanha deveria ter. Do outro, entretanto, não passava de um penhasco. Um penhasco sobre o qual a cidade foi construída.

Na frente dessa cidade havia uma muralha espessa, apesar de cobrir apenas a ‘camada’ mais baixa da cidade. As partes mais altas ficavam bem acima da base da muralha, desde que já eram protegidas o suficiente.

Assim que começaram a se aproximar da cidade, Eiro começou a sentir um pouco de desconforto, que demorou para ele compreender. Após pensar sobre isso com mais afinco, descobriu a sua origem e conseguiu se acalmar.

A fonte não era nada além de um repelente de monstros. Era forte, mas nada com que Eiro tivesse que se preocupar. Poderia ser um pouco irritante quando ele tentasse relaxar, mas o Diabrete duvidava que faria isso tão cedo.

Ao ver que já estavam tão perto, Eiro pediu para Arc parar ao lado da estrada por um tempo.

— Hm? Aconteceu alguma coisa? — O garoto perguntou, e Eiro assentiu a cabeça em resposta.

— Precisamos colocar as lentes de contato de Avalin. — Ele comentou, e Arc arregalou os olhos com um leve sorriso.

— Certo, esqueci disso.

Com um puxão rápido, Eiro abriu a porta da carruagem e entrou, pegando Avalin enquanto entrava e a colocando na borda de uma caixa baixa, se ajoelhando na frente dela.

Ele retirou a pequena caixa de sua bolsa e olhou para a jovem.

— Certo, quer tentar colocar por conta própria dessa vez? — O Demônio perguntou, e a garota imediatamente assentiu.

— Sim, por favor! — Ela exclamou. Avalin vinha usando essas lentes de contato com maior frequência durante as últimas semanas, sempre que entravam nas proximidades de alguma vila ou cidade, não importava quão pequena ela fosse.

Durante todas essas vezes, Eiro as colocou, mas ele queria que ela tentasse colocá-las por conta própria. Ele não poderia fazer isso sempre para ela, afinal. E, destemida, Avalin pressionou a ponta do dedo na lente, assim como Eiro mostrou para ela, e a colocou em seu olho, piscando algumas vezes depois disso.

— Urgh… — Ela murmurou baixinho, então repetiu o mesmo para o outro olho. E agora, Avalin parecia ter olhos cinza-claro e seria mais difícil descobrir quem ela real era.

— Okay! Estou bonita agora? — Avalin perguntou com um sorriso largo no rosto, e Eiro afagou lenta a cabeça dela.

— Você sempre está bonita, não se preocupe. — O Demônio disse para ela, e Avalin apenas sorriu ainda mais brilhante do que antes.

— Heheh! Papai me chamou de bonita! — Ela riu e se sentou novamente ao lado de Sammy, enquanto Eiro saía da carruagem.

Ele saiu dali e olhou para a mão esquerda, aquela que usou para acariciar a cabeça de Avalin.

Provavelmente não teria notado isso se fosse o mesmo de um ano atrás, mas agora Eiro sabia. A energia sagrada que Avalin emitia estava se tornando cada vez mais forte. Isso foi tranquilo por um tempo, mas agora sua mão estava um pouco queimada e irritada em reação à energia.

Talvez ele pudesse, de alguma forma, obter algo que emitisse energia sagrada para que Eiro conseguisse aumentar sua resistência à ela, afinal, não queria que em algum momento tivesse que se afastar da garotinha.

Por ora, Eiro apenas deixou como estava, montando de novo nas costas de Lugo, deixando a leve irritação sumir aos poucos. O grupo começou a se mover, chegando à cidade dentro da meia hora seguinte.

Ou melhor, eles chegaram ao fim da fila para entrar na cidade. Parecia que havia muitas pessoas diferentes paradas na fila. Comerciantes, aventureiros, viajantes, todos os tipos de pessoas, na verdade. Algumas eram capazes de entrar na cidade, mas essas pareciam ser aquelas que viviam e trabalhavam aqui.

Com um leve suspiro, Eiro desceu de Lugo e se aproximou da carruagem para olhar para dentro.

— Parece que teremos que esperar por um tempo. Vocês podem sair e se alongar um pouco. — O Demônio sugeriu. — Você também, Leon. — Ele adicionou, e o garotinho lenta levantou a cabeça.

— Mas, estou cansado… — Leon respondeu, e Eiro suspirou em resposta.

— Você está sempre casado, carinha. Venha, a vista daqui é bem bonita. — Eiro explicou, e Leon se levantou, devagar e esfregando os olhos, enquanto aceitava a ajuda de Eiro para descer da carruagem. E imediatamente, o garotinho e as outras crianças viram a vista muito linda, embora assustadora, à frente deles.

Não dava para ver direito de antemão, mas, na verdade, havia outro cânion íngreme cercando a cidade do lado de fora da muralha. Havia um rio furioso abaixo dele, e o único caminho pelo qual parecia possível entrar na cidade era essa única ponte central, aquela em que estavam nesse exato momento, assim como quatro pontes menores espalhadas pelo restante do perímetro da cidade.

De onde estavam, eles conseguiam ver o cânion escuro. Nesse momento, estavam todos mais altos do que nunca. Bem… tecnicamente, não, mas pelo que Leon e Avalin conseguiam se lembrar, esse era o caso. Rudy era o único que estava perto da carruagem.

Depois do que aconteceu há sete anos, ele desenvolveu um medo bastante intenso de altura, então não era fã de olhar para o precipício daquele jeito. Ele sabia que ficaria bem mesmo que caísse, por conta daquela experiência traumática, mas, mesmo assim, ainda foi demais para ele suportar naquele momento.

Então, enquanto os outros apreciavam a vista, Rudy apenas se inclinou contra a carruagem, tentando se certificar de que os cavalos não iriam surtar ou algo assim.

E enquanto o Demônio estava ali, gostando de ver o mundo daquela forma, notou alguém se aproximando dele pelo lado. Não era apenas alguém caminhando em sua direção, mas muitas pessoas, desde que havia uma fila diferente para as pessoas sem carruagem. Entretanto, esse estava seguindo em direção ao Demônio.

Com um pouco de curiosidade, Eiro decidiu esperar para ver. E, como esperava, o homem caminhou logo atrás do grupo, e, com um único movimento rápido, o homem pegou a pequena bolsa pendurada ao lado de Sammy.

Ele parecia bastante habilidoso no que estava fazendo, desde que ninguém além de Eiro notou o que aconteceu, mas, por outro lado, não era habilidoso o suficiente para perceber que a bolsa que roubou era apenas um chamariz óbvio, preenchido apenas com pedras e pedaços de metal para torná-la crível.

Normalmente, Eiro teria deixado o homem ir, mas ele fez algo que o Diabrete não apreciava. Depois de sair, ele voltou com uma bolsa acima de sua palma, enquanto se aproximava de Sammy com um sorriso envergonhado.

— Ei? Acho que você deixou isso cair.

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