A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 113

A Virtude do Demônio

Com horror em seu rosto, Eiro observou o portal flamejante feito de ossos, carne e sangue desaparecer, simples se desintegrando em pó. Era como se tivesse simples colapsado por conta própria, desaparecendo sem deixar vestígios, mas deixando para trás um cheiro específico que Eiro não conseguiu reconhecer naquele momento.

De qualquer forma, o Diabrete ainda estava aterrorizado, mais do que qualquer outro momento que já experienciou nesses últimos anos. Devagar, levantou-se com as pernas trêmulas, a dor aguda que sentira momentaneamente há alguns instantes sumiu, apesar de ter sido substituída com a sensação de um objeto em seu peito. Não era doloroso, apenas desconfortável.

— Essa é a marca…? Ou a mana desconhecida? — Eiro murmurou, cambaleando para frente. Tudo o que tinha construído com sua mana ainda estava ali, pelo menos em alguma extensão. Suficiente para deixá-lo atravessar, isso era certeza.

Eiro correu pela ponte de terra, antes que a forte correnteza quebrasse a barricada de gelo e derrubasse a ponte, ou  todo o rio voltasse ao seu estado regular.

— Por que demorou tanto? — Arc perguntou com uma leve carranca, enquanto Eiro subia nas costas de Lugo, que estava parado ao lado da carruagem, e o Demônio apenas sorriu.

— Me desculpe, fiquei um pouco sobrecarregado, afinal. — Ele admitiu.

— Certo, você está bem? — O garoto perguntou a seguir, enquanto fazia os cavalos se moverem.

— Não se preocupe, estou bem. — Eiro respondeu, enquanto esfregava o seu peito e tentava se livrar da sensação desconfortável que sentia, mas ela permaneceu no lugar, sem desaparecer ou mudar.

Quando Eiro tentou descobrir o que era aquela sensação e se poderia, de alguma forma, fazer algo sobre ela, Nelli flutuou até ele. Parecia que ela havia terminado de cuidar tanto de Leon quanto de Clementine, com ele agora dormindo silencioso como sempre.

— Por que você fez aquilo? Você estava usando uma quantidade imensa de mana ali! E ainda estava puxando a mana ambiente! — Ela exclamou, aparente bastante brava pelo demônio ter feito algo tão arriscado.

— Eu sei, me desculpe, mas tudo funcionou no fim, não é? — Eiro comentou, e Nelli assentiu, olhando para a parte de cima da cabeça dele.

— Sim, tudo funcionou… Com apenas algumas repercussões menores… — Ela murmurou. Com uma expressão confusa, colocou a mão em cima de sua cabeça e a tocou, tentando descobrir se algo aconteceu.

‘Tecnicamente, as notificações disseram que seu corpo estava mudando…’

Descobriu que, de fato, algo havia mudado. Não foi muito, apenas que seus chifres aumentaram de espessura.

— É, meus chifres mudaram, não mudaram? — O Demônio perguntou, e Nelli assentiu, estreitando os olhos em resposta.

— Há um pouco mais de mana concentrada neles, eu acho… — Ela apontou. — No geral, você tem um pouco mais de mana… Espere, você aumentou os seus status? — Nelli questionou, e Eiro confirmou a cabeça.

— Sim, aqui. Inteligência e Sabedoria, ambos em 25%. — Ele explicou, e a Náiade olhou para ele com uma expressão curiosa.

— Oh, ambos estão acima de cem agora, certo? O que você conseguiu?

— Você quer dizer as habilidades que recebi…? — O Diabrete respondeu.

— Claro que sim! Há algumas opções diferentes que você pode acabar recebendo, então estou curiosa para saber quais são as suas! — Nelli comentou, e Eiro apenas esfregou leve sua bochecha e explicou.

— Processamento de Pensamentos e Aprendizado Acelerado. Embora eu devesse ter recebido a ‘Memória Perfeita’, como a habilidade da minha evolução de Diabrete Escolar é melhor, ela foi substituída pelo Aprendizado Acelerado.

— Huh… Isso significa que você está pronto para aprender o que quiser, certo? — Nelli murmurou, e Eiro apenas deu de ombros.

— Tipo isso, eu acho? — Ele respondeu com um sorriso irônico, e Nelli apenas suspirou, aparente um pouco incomodada com essa reação. Em vez de falar algo sobre isso, ela simples flutuou de volta para a carruagem.

— Vamos conversar depois, então. — Ela disse.

Com uma pequena carranca, Eiro se inclinou para frente contra a galhada de Lugo. Ele finalmente teve a chance de se acalmar depois do que acabou de acontecer com <O Diabo>, e antes disso, com Leon.

Como ele foi encontrado? Por que logo agora? E por que Eiro sabia que ele estava aqui em primeiro lugar? E o que ele disse… sobre Eiro ser uma criatura artificial, como já pensava que era.

Após pensar sobre o que <O Diabo> disse, Eiro conseguiu pelo menos ter uma compreensão básica. O motivo para ele ter sido capaz de encontrar Eiro em primeiro lugar foi porque ele soltou sua fúria na cidade. Ele era um demônio com o pecado da ‘Ira’, aparente. Pelo menos, julgando pelo que ocorreu na ‘Cidade dos Pecados’. Então talvez, como <O Diabo> já estava o observando desde antes, ele foi capaz de perceber quando ele estava se entregando ao seu pecado, o encontrou facilmente através disso. Era óbvio que <O Diabo> tinha um poder imenso, Eiro sabia disso só de estar parado na frente dele. Ele conseguiu criar um portal para o inferno, e o que quer que fosse aquela estranha criatura, que parecia uma cadeira com vida, que carregava o piromante.

Talvez por ambos serem demônios, Eiro sabia sobre a presença dele ali, ou esse era apenas outro ‘sentido’ que foi aprimorado através do Cinco de Ouros. De qualquer forma, acontece que isso foi… desnecessário. Não importava se ele continuasse pelo caminho normal em direção à ponte ou não. Desde que acabou correndo até <O Diabo> de qualquer maneira, isso foi inútil, mas, pelo menos, Eiro foi o único que percebeu sua presença dessa vez, então talvez essa tenha sido uma boa oportunidade, afinal.

Sobre essa parte ‘artificial’… Não havia nenhuma informação nova sobre isso, apenas que ele aparente tinha uma força de vontade bastante alta. Isso era algo que Eiro já esperava, mas agora, pelo menos, tinha uma confirmação apropriada para essa teoria.

‘Pelo menos algo bom veio de hoje.’ Ele pensou e olhou para frente.

Ele tinha que se concentrar agora, não importava o que aconteceu. Eiro não gostava de ter sido ‘marcado’ pelo <O Diabo>, desde que não tinha certeza do significado de ser marcado, mas não poderia fazer muito sobre isso de qualquer forma, certo?

Ele apenas precisava se encontrar no caminho mais perto. Eles tinham uma longa viagem à frente deles, uma na qual não podiam se dar ao luxo de fazer paradas longas. E precisavam passar pela pessoa que Jura mencionou nas cartas que deixou, aquela que faria armas e ferramentas de verdade para o grupo.

Com um suspiro profundo, o Demônio se concentrou no que estava acontecendo ao redor deles. Nesse instante, não estavam em um caminho apropriado, então a carruagem estava bastante lenta, já que as rodas não conseguiam girar corretamente e os cavalos carregavam uma carga muito maior.

Eiro foi gentil tentando ajudá-los, ao terraplanar o solo o máximo que conseguia com Magia de Terra, mas isso não foi tão fácil como ele pensou que seria a princípio. Sua mão-cajado, na verdade, ajudou bastante. O fato de que aumentou sua reserva de mana e seu controle sobre ela em uma quantidade considerável também ajudou.

Logo conseguiram chegar a uma área que tinha o solo um pouco mais duro e plano, e Eiro pôde final parar de usar sua magia no chão da floresta e, em vez disso, se concentrar em outras coisas. Como, por exemplo, usar sua magia e aumentar os seus sentidos para procurar um bom caminho para eles.

Com sua máscara ainda em seu rosto, já que não queria ser visto por ninguém enquanto se concentrava na distância, Eiro reuniu uma grande quantidade de ar em seus pulmões e expirou. Ele tentou gerar as mesmas reações como havia feito durante a tarefa para Percepção, ou melhor, a tarefa de ‘Furtividade’, como descobrira recente.

Eiro olhou ao redor da área, ampliando sua imagem visual aos poucos com a ajuda da audição, olfato e qualquer coisa que sua ‘Percepção Mágica’ fornecesse para ele. Não demorou muito para que o Diabrete encontrasse uma estrada adequada que conseguissem usar. Eiro esperava encontrar algum tipo de ponto de referência por aqui, ou ainda melhor, algum tipo de montanha ou árvore que se destacasse sobre as outras, para que conseguisse dar uma olhada onde estavam e qual era o melhor caminho.

Afinal, o mapa que Jura entregou para eles era bastante útil, mas apenas para mostrar coisas grandes, como estradas principais, geografia básica e, claro, várias cidades e vilas. Como muito poderia ocorrer em um ano, Eiro queria ter certeza de que escolheriam a melhor rota possível.

A primeira parada importante deles era numa cidade chamada ‘Argberg’. Ele tentou buscar informações sobre o lugar e descobriu que, na verdade, era uma cidade bastante grande. Como se tratava de uma cidade de anões especializados em artesanato, era sem dúvida o melhor local para procurar armas, armaduras ou ferramentas — disso ele tinha certeza.

Embora Eiro nunca tenha falado de verdade com um anão antes, ele recordou de vê-los no passado e ler histórias sobre eles. Supostamente, eram os melhores artesãos que você poderia encontrar, alguns até mesmo capazes de criarem ferramentas para o divino.

Então, o jovem Demônio estava animado em ver uma cidade cheia de pessoas como essas. Ou melhor, ele ficaria, se não estivesse constante preocupado com Leon. Ele precisava tomar a poção nas garrafas a cada uma semana, e tinham o suficiente para três meses consecutivos, o que significava que tinham que se apressar. Como algo terrível poderia acontecer durante uma viagem, Eiro não queria desperdiçar tempo, se fosse possível evitar.

— Eiro? — Arc perguntou com uma leve carranca, e o Diabrete levantou as sobrancelhas surpreso ao escutar seu nome ser chamado.

— Sim? — Ele perguntou, e o garoto virou a cabeça para o interior da carruagem, olhando para os outros sentados lá dentro, exaustos.

— Me pergunto se talvez devêssemos tirar uma breve pausa e comer alguma coisa. Nós saímos com pressa, então nenhum de nós comeu ainda… E você parece querer descobrir onde nós estamos em primeiro lugar, então, o que me diz? — O garoto sugeriu, e Eiro pensou sobre isso e acabou assentindo, olhando na direção do caminho à distância.

— Sim, faremos isso. Há uma clareira ali perto da estrada. — Eiro apontou, e Arc acenou com a cabeça e olhou cansado para frente. Ver isso fez Eiro se sentir muito mal, para ser honesto. Ele colocou muita pressão neles. Eles tiveram que sair do único lugar em que se sentiam seguros e começar a viajar por muitos meses dentro de uma carruagem.

Depois que o grupo parou ao lado da estrada, Rudy entregou um pouco de comida para todos. Eles comeram em silêncio, apesar de Leon ainda estar dormindo dentro da carruagem. Assim que todos ficaram pelo menos um pouco satisfeitos, eles voltaram para a carruagem, embora Eiro tenha puxado Arc para o lado. Ele queria falar para o garoto sobre algo,  antes de retornarem o caminho.

— Sente lá atrás. — Eiro disse para ele, e Arc o encarou, confuso.

— O que você quer dizer? Estou controlando bem! — Ele respondeu, mas o Diabrete recusou e balançou a cabeça negativamente.

— Você pode assumir amanhã. Você está mais cansado do que aparenta. Então, apenas durma e me deixe dirigir por enquanto… Por favor.

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