
Volume 2 - Capítulo 111
A Virtude do Demônio
— Lugo, continue correndo em frente. — Eiro disse para o seu Familiar, que acelerou agora que sabia que apenas tinha que seguir em frente. E enquanto Lugo fazia isso, Eiro tentava olhar ao redor da área para ver se havia bons caminhos para usar.
— Quando eu falar ‘Agora’, pare o mais rápido que conseguir, okay? E depois de parar, me siga de novo. — O Demônio disse, e o Cervo acenou com a cabeça. Lugo era um idiota, mas era esperto o suficiente para compreender comandos simples como esses.
— Três… Dois… Um… — Eiro contou, enquanto se mantinha de pé nas costas de Lugo, envolvendo o corpo com Magia de Ventos e se preparando. — Agora! — Ele exclamou e, na mesma hora, Lugo bateu seus cascos no solo e começou a deslizar. Usando a força extra, Eiro pisou na galhada de Lugo e pulou o mais longe que conseguia para frente.
O Demônio conteve a própria queda com a ajuda da Magia de Vento para desacelerar um pouco e Magia de Gelo para cobrir seus pés, para que conseguisse deslizar pelo solo enquanto mantinha sua velocidade. Depois de derreter o gelo, Eiro simples começou a perseguir Rumia. Ele já estava longe da cidade, então conseguia usar esse terreno como se fosse a palma de sua mão.
Ele pulou e alcançou um galho baixo, usando seu ímpeto para se balançar para frente, até outro galho da árvore em que estava, e então pulou por todas as árvores que estavam entre ele e Rumia.
Para a sorte de Eiro, o Barão não era a mais ágil das pessoas, e logo tropeçou na estrada irregular devido à falta de equilíbrio. Claro, Rumia tentou pular, mas, nesse ponto, Eiro já havia o alcançado. Para não deixar a diversão acabar tão cedo, o Demônio até se transformou em sua forma de sombras.
[Seu corpo está saturado em sombras. Você se tornou mais rápido, difícil de ser notado e quase totalmente silencioso.]
Eiro olhou para baixo em direção ao homem que estava tentando correr para longe, e então começou a rir, amplificando sua voz com a Magia de Vento. Isso fez Rumia ser cercado por um eco alto, cuja origem não podia ser discernida.
— Rumiaaa… — Eiro disse com uma leve risada, fazendo o Barão em questão se assustar. Ele se virou, tentando se defender com o escudo que carregava de qualquer direção que conseguisse.
— Onde você está?! Apareça, demônio!
— Oh? Mas é você quem está correndo de mim… e agora quer que eu apareça? — Eiro questionou, fazendo o rosto de Rumia tremer ainda mais do que antes. — Agora, qual é? Quer que eu apareça, ou quer continuar correndo e morrer sem ver o meu rosto de novo?
— E-eu? Morrer?! Que piada! Como eu poderia morrer para um ser tão fraco?
— Eu vi os seus status, lembra? Duvido que possa mudar tanto em um ano. Pelo menos não em uma cidade como essa. — O Diabrete apontou, ouvindo Rumia engolir em seco de nervosismo.
— Ha-Hahah… Isso deve ter sido um truque, certo?! Não há como um demônio ter tal habilidade de avaliação…
Com uma risada, Eiro concordou.
— Essa parte é verdadeira, eu não tenho Avaliação.
— Viu? En-Então-
— Mas, eu vi os seus status. Você pode dizer que eu tenho uma ótima visão. — Eiro explicou, e então pulou do galho em que estava, pousando nos ombros de Rumia, algo que fez o homem tremer muito.
Antes que conseguisse reagir de verdade, ele já estava com os fios do Três de Espadas ao redor do seu pescoço, com a ponta de uma das três lâminas afundando na sua nuca, outra em sua garganta e a última empurrando contra a boca de Rumia, arranhando levemente o céu da boca dele, sem cortá-la.
— Vou te contar um segredo agora, tudo bem? — Eiro disse para Rumia, agachando-se e ficando de pé sobre os ombros dele, enquanto colocava as duas mãos na cabeça do homem, levantando-a para que Rumia pudesse olhar para o seu rosto, depois que desativou a Forma das Sombras e colocou a Pedra Mágica das Sombras de volta em sua Tesouraria.
— Você se lembra do motivo para ter vindo pedir a ajuda das Damas em primeiro lugar? — Ele questionou. Rumia tentou acenar com a cabeça, embora tenha parado quando sentiu a ardência em sua garganta, pescoço e boca aumentar. — Não mova um músculo, entendeu? — Eiro avisou, e então continuou. — O motivo foi que o Rei dos Monstros sequestrou a Sacerdotisa Sagrada, não foi? No dia em que a capital foi atacada pelo <O Sol>? — Ele adicionou, e os olhos de Rumia começaram a vacilar em confusão e pânico, antes que Eiro prosseguisse.
— Acontece que eu estava lá nesse dia. Eu recebi minha primeira carta nesse dia, e não foi o Três de Espadas que usarei para te matar. Foi o Ás de Copas. E usando essa carta, vaguei pela capital enquanto ela era destruída e acabei em uma certa construção. Básicamente fui atraído para uma certa cesta na parte mais distante do cômodo em que entrei, e acabei pegando uma garotinha fofa com os olhos de todas as cores, sem que ninguém percebesse. Você sabe o que eu fiz com essa linda garotinha? — Eiro perguntou, removendo devagar a lâmina da boca de Rumia para que ele pudesse responder.
— N-Não me diga que…! V-Você matou a Sacerdotisa Sagrada?! — Rumia respondeu com um grito alto, mas o Demônio se inclinou sobre a cabeça dele e sorriu.
— Errado, ela ainda está viva. Ela é a garotinha mais fofa e pequena que já vi. Para ser honesto, ainda não vi muitas garotinhas, mas, por um lado, você poderia dizer que eu a matei. A ‘Sacerdotisa Sagrada’ em que vocês a transformariam não existe mais. Agora, ela é apenas minha pequena Avalin. Minha filha. — Eiro explicou com um sorriso suave, e Rumia arregalou os olhos em choque.
— V-Você está mantendo a Sacerdotisa presa?! Sua besta maligna! — Ele exclamou, e Eiro apenas riu em resposta.
— Não estou a mantendo presa, seu pedaço de merda. — Ele riu, enquanto balançava a cabeça. — Eu honestamente me considero um bom pai. Eu faria de tudo por minhas crianças. Então, escutar alguém falar sobre uma dessas crianças, dizendo que ela se tornaria uma ferramenta para a guerra… Uma em que teria que lutar pelo bem de todo um país sem poder dizer nada…
Eiro aumentou a força com que estava pressionando a cabeça de Rumia, para fazê-lo sentir mais um pouco de dor enquanto esperava pela resposta.
— S-Seu delirante… Você é um monstro! Você nunca… terá esperança de… escapar da morte…! — Rumia exclamou, e Eiro apenas deu de ombros em resposta.
— Que coincidência. Era isso que eu iria dizer. — Ele riu e, imediata, as duas lâminas ao redor do pescoço e garganta de Rumia afundaram e deceparam a cabeça dele, que foi presa rapidamente pela terceira lâmina de Eiro.
E enquanto a cabeça de Rumia ficava pendurada ali, por apenas um segundo, Eiro viu uma tempestade dentro dos olhos de Rumia.
…
[Você morreu]
[Você morreu]
[Você morreu]
[Você morreu]
[Você morreu]
[Você morreu]
[Você morreu]
[Você morreu]
[Você morreu]
…
— Uau… Que notificação útil… — Eiro zombou, enquanto olhava para a cabeça com um leve sorriso. — Obrigado por se tornar meu experimento. Pelo menos, você foi útil para algo, sim? — O Demônio disse, desviando os olhos em direção à notificação que apareceu à sua frente.
[Dano letal causado a Rumia Legios Argenson]
[Você subiu de nível!]
[50 Pontos de Status Disponíveis!]
— Hmm, no total ganhei cinco níveis com isso, huh? — Eiro murmurou para si, jogando a cabeça de Rumia para o lado, com um leve encolher de ombros, enquanto Nelli e Lugo finalmente o alcançavam.
— Então, isso acabou bastante rápido, não foi? — Nelli perguntou, enquanto olhava para o corpo de Rumia, e o Demônio apenas sorriu, subindo nas costas de Lugo.
— Eu não quero gastar muito tempo com ele, mas, por ora… Lugo, corra para frente e então vire à direita quando eu falar para você. Irei me limpar para irmos para casa. — Eiro explicou ao Cervo, e logo chegaram a um pequeno riacho com a água relativa clara, o qual Eiro usou para se livrar do sangue em sua capa e pele. Especialmente sua mão de madeira que precisava de uma boa escovada, desde que mudou de azul-claro para vermelho-escuro.
Feliz, essa madeira não era muito mais difícil de limpar do que sua pele, então ele conseguiu se livrar do sangue.
— Então, é isso mesmo? — Nelli perguntou com um tom aparente triste em sua voz.
— O que foi? — Eiro respondeu, incerto do que ela falava. E enquanto Eiro começava a secar suas roupas usando magia, a Náiade respondeu.
— É só que… desde que fui contratada por Jura, também ficava aqui pela maior parte do ano. Aqui também se tornou o meu lar. E, pela primeira vez desde então, não verei mais nenhuma das Damas… — Ela explicou, então Eiro levantou as sobrancelhas surpreso.
— Oh… não percebi que essa floresta significava tanto para você, me desculpe. — Eiro disse para ela, mas Nelli balançou a cabeça.
— Não se desculpe, não há necessidade disso. Eu não poderia ter vivido aqui para sempre, de qualquer forma. — Ela comentou, então Eiro olhou para ela com um leve sorriso.
— Entendo… Bem, então vamos esperar que consigamos encontrar um novo lar depois disso. Porque, depois do que eu acabei de fazer naquela cidade… duvido que consigamos retornar para cá.
— Muito provável que não, você está certo. — Nelli disse baixinho. — Mas, você não teve exata culpa por isso. Quero dizer… você não tinha que matar todos no meio da cidade, mas fez tudo isso para que a cidade te desprezasse, então, eu entendo… eu acho.
— Vamos voltar para as crianças. — O Diabrete disse com um suspiro profundo, vestindo de volta suas roupas secas e montando nas costas de Lugo, começando a guiar o seu Familiar em direção ao lugar que chamaram de lar durante os últimos sete anos.
Assim que chegaram de volta à colina, cerca de dez horas depois, eles se deparam com uma surpresa desagradável. Eiro escutou que algo estava acontecendo de uma distância considerável, e então tentou voltar o mais rápido que conseguia, e sem hesitação empurrou a porta da frente da casa.
E o que viu foi bastante desagradável, algo que, de verdade, ele não queria ver. Leon segurava sua barriga com uma dor profunda, enquanto sangrava dos olhos, nariz e canto da boca. Seu corpo estava praticamente sendo dilacerado pelos selos, Eiro sabia disso. E a razão para isso ter chegado tão longe era muito simples.
Ele estava com as garrafas para se livrar dos efeitos colaterais em sua bolsa. Imediatamente, retirou a caixa e pegou uma das garrafas que deveriam ser usadas por Leon. Sem esperar que mais alguém falasse algo ou reagisse, Eiro retirou a tampa da garrafa e correu até Sammy, que segurava o garoto em seus braços para confortá-lo.
O Demônio segurou o menino e o deixou sentado em seu colo, enquanto se sentava em uma cadeira próxima, apoiando a parte de trás de sua cabeça enquanto despejava o conteúdo fétido da garrafa na garganta de Leon. Claro, julgando pelo cheiro, o gosto também deveria ser horrível, então Leon começou a engasgar, mas Eiro tentou ajudar e passou os dedos pelo lado da garganta dele, forçando o líquido a descer com sua Magia de Água.
O efeito foi quase instantâneo e as reações negativas dos selos pararam.
…