
Volume 2 - Capítulo 110
A Virtude do Demônio
Com um leve sorriso no rosto, Eiro olhou para os dois homens na sua frente, ambos aterrorizados, olhando para o que tinham acabado de testemunhar. E quando Eiro finalmente falou novamente, eles imediatamente começaram a tremer.
— Agora então, caro piromante. Que tal isso? Você lutará comigo agora? Se você me derrotar, poderá sair vivo, sabia? — Eiro comentou, e o piromante encarou o Demônio com terror, antes de sentir algo em suas costas.
Era a mão do seu superior, Rumia. A princípio, pensou que seria encorajado, mas foi muito diferente.
— Vá em frente! L-Lute com esse monstro em prol da minha vida! — Rumia exclamou, fazendo o piromante encarar o Barão, confuso e irritado, mas logo ele se virou novamente para Eiro e engoliu em seco profundamente. Ele sabia que não conseguiria sair se não matasse esse demônio aqui e agora.
Ele percebeu algo: definitivamente estava em vantagem. Manipulação de fogo através de magia tinha o benefício de ser capaz de crescer a um volume imenso com a menor faísca como base, desde que bastaria a mana do usuário para se espalhar. Embora a Magia de Água fosse bastante poderosa, especialmente assim que tivesse um Espírito contratado, a velocidade com o que o espírito poderia criar água ainda era baixa se comprada a que as chamas incrivelmente quentes que um piromante treinado poderia criar.
Soltando uma leve risada, o piromante ficou mais confiante. Quando mais alta sua confiança se tornava, mais alta sua risada ficava. Logo, apontou sua mão para frente, onde havia duas lascas feitas de um metal especial em seu polegar e em seu indicador usadas para criar a faísca inicial, encarou Eiro. O piromante parecia bastante louco ou maluco naquela situação, mas ninguém poderia culpá-lo por isso, afinal, ele deveria matar sozinho esse ser que havia eliminado uma dúzia de homens em questão de minutos, e tinha apenas a esperança de fazer isso.
Apesar disso, o piromante estava bastante confuso, pois Eiro começou a caminhar ao redor do local e tocar nos corpos de todos que havia matado, com sua mão de madeira, e ficou ainda mais confuso quando Eiro olhou para ele como se fosse um idiota.
— Vá em frente, você pode começar. Estarei pronto em um instante. — O Diabrete explicou com um sorriso gentil e continuou fazendo o que quer que fosse, enquanto o piromante estava duvidando de si mesmo.
‘Ele está procurando por algo?’ Ele se perguntou. ‘Há algo que poderia ajudá-lo a vencer uma batalha de magia?’ O piromante pensou, mas, de qualquer maneira, depois de um tempo, não conseguia mais continuar apenas pensando e teve que agir.
Ele estalou os dedos, mas falhou em criar a faísca que precisava, pois estava nervoso. Então, tentou novamente, mas falhou mais uma vez.
— Venha, venha… — Ele murmurou para si mesmo, e mais uma vez estalou os dedos para criar uma faísca que logo se transformou em chamas apropriadas acima da mão dele, que ele rapidamente moveu para o seu cajado.
Uma chama ainda maior do que Rumia flutuava sobre o piromante, e logo ele exibiu mais um sorriso grande, vendo que Eiro não havia nem começado a criar água.
— Hahah! Esta é minha vitória! — O piromante exclamou, e a chama começou a se dividir em várias menores, que, uma após a outra, voaram em direção a Eiro, que apenas sorriu enquanto se levantava.
E antes que percebessem… Eiro pegou a primeira chama.
— H-Huh…? — O piromante murmurou instintivamente ao ver isso, e o Demônio riu, enquanto desviava facilmente das outras chamas, em resposta à atenção vacilante do piromante.
— Obrigada pelo fogo, amigo. — Eiro respondeu, começou a aumentar o tamanho da chama que havia ‘pegado’. Parecia dessa forma, mas, na realidade, ele apenas assumiu o controle sobre ela. A coisa com a magia era que, embora fosse relativamente fácil controlá-la ao redor do seu corpo, era bastante difícil fazer isso à distância. Especialmente com ataques que se dividiram em muitos pedaços, como esse que o piromante acabou de usar, o fogo não estava mais sob o controle de nada.
Então Eiro, que tinha uma boa resistência física contra calor e fogo em geral, parou o movimento das chamas com o maço e assumiu o controle sobre elas com sua própria mana, tornando-as suas. Ele não atacaria dessa forma, obviamente, desde que prometeu que seria uma luta entre fogo e gelo, mas queria usar o calor desse fogo para algo mais.
E, dessa forma, finalmente conseguiu drenar o último dos cadáveres que estava ali.
— Muito bem, vamos esperar que meu Açougueiro possa me ajudar aqui… — O Demônio disse com um sorriso curioso, formou um punho com sua mão de madeira, antes que o sangue que havia retirado dos corpos se reunisse ao redor dele.
Para tornar o processo de abate um pouco mais rápido, ele tentou o seu melhor para controlar o sangue dos outros seres além dele, para que não tivessem que esperar até que terminasse de sangrar. Isso funcionou muito bem, embora apenas quando aquele a quem o sangue pertencia já estivesse morto.
E como o sangue era principalmente água e poderia ser controlado pela sua Magia de Água, Eiro também era capaz de congelá-lo da mesma maneira. Embora, aparentemente, nem todo mago de água conseguisse controlar o sangue adequadamente, Eiro não se importava com ‘cada mago de água’. Contanto que ele conseguisse, ele não se importava com os outros.
Assim que o sangue se reuniu ao seu redor, Eiro o fez subir em direção à sua mão direita para que não precisasse subir pelas suas roupas e, possivelmente, manchá-las ainda mais do que estavam. O sangue se reuniu ao redor de sua mão de madeira e formou um pilar bastante largo entre o solo e a mão. Claro, ainda havia uma quantidade considerável de sangue espalhada uniformemente pela área que Eiro também poderia controlar, desde que estava conectado à sua mão direita através do outro sangue.
Eiro pressionou as chamas de sua outra mão contra o sangue, tentando usar o calor delas para fazer o sangue ferver muito mais, fazendo com que emitisse um cheiro rançoso e sujo. Pelo menos, foi isso que o piromante e Rumia experienciaram.
— Certo, estou pronto. Hm? Por que não está atacando mais? — Eiro questionou, enquanto olhava para o piromante em confusão, embora o homem estivesse o encarando em choque com o que acabou de acontecer. Dando de ombros, o Diabrete balançou a mão para frente e fez o sangue fervendo voar em direção ao piromante, depois congelá-lo diretamente ao redor do seu corpo.
As chamas na ponta do seu cajado já estavam extintas a essa altura. Quando Eiro deu um passo em direção à pedra vermelha escura que continha o piromante, o Demônio não pôde fazer nada além de suspirar.
— Que desapontante. Eu não precisava fazer tudo isso por esse cara, precisava? — Eiro pensou com um leve suspiro, se virou e pegou uma pequena garrafa de sua bolsa, caminhou até o homem que já estava meio morto depois de ter sua garganta esfaqueada.
— Parabéns, você pode manter a sua vida agora. — Eiro disse com um sorriso, empurrando o homem enfraquecido e derramando o conteúdo da garrafa sobre sua garganta. Era água refinada que ele e Nelli haviam preparado de antemão, e agora começou a curar lentamente a garganta do homem com a ajuda de um feitiço bastante simples.
— Naiad, logris urtur krus thul orgum, jiad harr wass. Jiadis Naia. — Ele murmurou baixinho e o ferimento começou a se curar.
— Hmm, aquele cara está correndo agora, sabia? — Nelli comentou, enquanto olhava para onde Rumia estava antes, e Eiro acenou a cabeça com uma risada pequena.
— Claro que sei, mas ele não conseguirá correr de mim por muito mais, então vamos dar a ele um pouco de vantagem. — Eiro respondeu, e dentro de alguns minutos, finalmente curou completamente a garganta do homem, se inclinou sobre a orelha dele, com um sorriso, para dizer a ele a mensagem que deveria passar aos seus superiores, e se virou novamente.
Parecia que todos já haviam fugido da praça central, foi o que Eiro pensou, e nem mesmo um único homem da milícia da vila ousou se aproximar de Eiro.
Enquanto o Demônio escutava Rumia tentando correr, Eiro caminhou em direção à Dama do Outono, que estava sentada no centro das estátuas.
— Bem. — Ela disse baixinho. — Eu não esperava que as coisas fossem por esse caminho…
—Oh? Não esperava? Você não fez tudo isso para ver algo interessante acontecer enquanto ainda estivesse aqui? — Eiro respondeu com um olhar profundo, e a Dama olhou para ele com um leve sorriso.
— Garoto esperto! Claro. E não se preocupe, duvido que minhas irmãs tenham levado sua pequena ‘opinião’ a sério. Você obviamente não queria dizer isso para elas, afinal. — A Dama apontou, e Eiro assentiu.
— Obviamente, mas, falei sério quando disse isso sobre você. Você é absolutamente insuportável, e estou feliz que não terei que vê-la novamente. — O Diabrete respondeu com um leve sorriso, ao qual a Dama só acompanhou com uma risada.
— Verdadeiramente divertido até o fim. Agora então, vamos esperar que consigamos nos ver novamente durante essa pequena guerra. Não importa qual lado escolha. — A Dama disse para Eiro, que ficou completamente confuso com o que ela disse.
— O que? O que você quer dizer? Você realmente irá ajudá-los nessa guerra maluca? — Eiro perguntou, e a Dama do Outono respondeu com um sorriso.
— Claro que irei. Estou muito entediada, sabia? Quero experienciar um pouco de excitação de vez em quando. A forma perfeita para isso é uma guerra, não é? — Ela explicou, como se fosse a coisa mais normal do mundo, e Eiro rangeu os dentes e apenas a encarou.
— Ótimo, tanto faz, mas não me envolva ou as outras Damas com esse país de merda. — O Demônio rosnou, e antes mesmo que a Dama do Outono respondesse, ele começou a se mover, enquanto a Dama acenava para ele com uma risada.
— Vamos nos ver novamente, amor! — Ela exclamou, desaparecendo em uma tempestade de folhas, enquanto Eiro chamava Lugo com um assobio e montava em suas costas.
— Que irritante… — Eiro rosnou incomodado em resposta às palavras da Dama do Outono e olhou para Nelli, que olhava para ele com uma carranca. — O que foi? — Ele perguntou, e o espírito apenas suspirou.
— Não posso acreditar que você acabou de matar todos no meio da cidade. Quero dizer, a luta em si foi bastante impressionante, mas não esperava que você fosse tão apressado… — Ela explicou. — E se, por exemplo, Tom espalhar as notícias? Você e as crianças não conseguirão viver normalmente.
— Não se preocupe com isso. — Eiro disse, mas Nelli apenas olhou para ele confuso.
— Por que eu não deveria me preocupar com isso?
— Porque não há necessidade. Em meio àquele caos, Tom estava bastante calmo e até mesmo me disse que manteria o meu segredo. De longe, obviamente, mas ele sabia da minha percepção aprimorada, sobre a qual não contei a ele. Então, devia ter entendido após escutar que Jura faleceu. Se esse for o caso, então jura deve ter contado a Tom por conta própria, o que significa que Tom é confiável o suficiente.
…