A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 108

A Virtude do Demônio

— Estou saindo. — Eiro disse para todos enquanto pegava os materiais que havia coletado para a Dama do Outono durante os últimos dias, e todos rapidamente se despediram dele.

Eles estavam bastante ocupados agora, na verdade. Como as tarefas de Arc e Clementine tinham sido reduzidas severamente, estavam fazendo o seu melhor para ajudar Rudy a cozinhar e preparar provisões para a longa viagem. Coisas como carne seca da carne que não conseguiriam comer apodrecesse, ou alguns vegetais fermentados ou em conserva. Todas as coisas que poderiam precisar em algum momento durante a viagem, na verdade.

Nesse meio tempo, Sammy praticava seu controle sobre sua ‘intenção’. Como Eiro percebeu que essa intenção era um grande aspecto da habilidade única de Sammy, ‘A Verdade do Mentiroso’, ele sugeriu que ela deveria tentar controlar para que o que quisesse fosse o oposto do que estava dizendo, apenas para praticar.

Ela havia aprendido a fazer isso relativamente rápido, para falar a verdade. Desde que Eiro conseguiu escutar coisas como os batimentos de outra pessoa e conseguia ver a menor mudança em suas expressões faciais, era capaz de perceber o humor dos outros muito bem, contanto que prestasse atenção a isso. Ele precisou comprar um livro sobre isso primeiro, mas isso realmente não importava.

De qualquer forma, Sammy era capaz de dizer: ‘Obrigado’, em uma situação em que genuinamente queria dizer isso, mas exibia todos os sinais de tristeza ou fúria, por exemplo. Ou poderia reclamar sobre algumas coisas e falar para Arc parar de fazer bagunça, enquanto demonstrava sinais clássicos de alegria e felicidade.

Era algo bastante interessante de olhar. No momento, Sammy estava apenas tentando continuar com isso para estar preparada apropriadamente quando sua habilidade única fosse desbloqueada. Claro, ela também ajudou Leon a praticar um pouco para ser capaz de controlar sua própria habilidade única, mas a forma de praticar dele era um pouco mais estranha do que a dela.

Eiro não poderia ficar e observá-los mais, em vez disso, realmente tinha que ir até o lugar em que a Dama do Outono logo apareceria, para que conseguisse cumprimentá-la adequadamente.

Assim que chegou na clareira muito tempestuosa com Nelli e Lugo que, mais uma vez, ajudou Eiro a carregar os presentes como havia feito para as outras Damas. O Demônio se ajoelhou no chão e esperou pela aparição da Dama.

Algumas horas depois, o vento acelerou cada vez mais e as folhas que caíram durante as últimas semanas se reuniram no centro da clareira, criando uma tempestade vermelha, laranja, amarela e marrom. Cada uma dessas folhas subitamente começou a desacelerar e ir até um ponto específico, construindo lentamente o corpo da Dama do Outono, peça por peça.

Logo, o vestido de cores do outono estava completamente pronto e várias folhas se reuniram ao redor das penas, braços e cabeça, desapareceram em uma forte rajada, revelando os membros da Dama do Outono, que sorria para Eiro.

Assim que seus olhos se encontraram, Eiro se curvou ligeiramente e a cumprimentou apropriadamente.

— É bom vê-la novamente, minha Dama. — O Demônio exclamou, e a Dama do Outono continuou sorrindo cansadamente para ele.

— Levante sua cabeça, Eiro. — Ela disse, e subitamente pequenas figuras espiaram de trás do corpo da Dama. As Filhas do Outono.

Em vestes similares às da Dama, elas pularam rapidamente para frente e se aproximaram de Eiro, recebendo um presente após o outro, caminhando de volta até a Dama, que olhou ao redor por um tempo.

— Acredito que Jura não esteja aqui dessa vez… por que isso? — Ela perguntou curiosamente, embora Eiro soubesse que ela genuinamente não se importava tanto quanto exibia. Embora parecesse muito legal, entre as Damas, estranhamente ela era a mais fria, ainda mais do que a Dama do Inverno.

Embora isso pudesse ser o caso apenas devido ao fato de Eiro ser mais próximo da Dama do Inverno entre todas elas, então ela simplesmente não era tão fria com ele… Passar disso… se comparado com como a Dama do Outono tratava Jura, ela realmente tratava Eiro de forma relativamente calorosa.

De qualquer modo, Eiro teve que explicar. Ele disse à Dama do Outono que Jura faleceu há quase um ano, e rapidamente prosseguiu para a parte em que estaria indo embora logo, e então começou a explicar a situação com Rumia e como as outras Damas concordaram em jogar junto do plano de Eiro.

— Hmm… isso de fato parece bastante divertido. Parece que sou muito sortuda de ser a última, pois verei como tudo isso se desenrolará, não é mesmo? — A Dama perguntou, e Eiro lentamente assentiu.

— De fato. Se você desejar, devemos começar a seguir em direção à cidade? — O Demônio perguntou, e a Dama acenou com a cabeça.

— Vamos, sim! — Ela exclamou, se virando para começar a ir para a cidade, com Eiro, Lugo e Nelli seguindo-a silenciosamente. A menos que falassem com eles, eles não eram permitidos a falar, afinal. Bem, Eiro poderia fazer isso com as Damas do Inverno, Primavera e Verão, mas quase foi morto quando fez isso com a Dama do Outono, então não tentaria novamente.

Silenciosamente, foram até a cidade, onde os aldeões já os esperavam. Agora que estava ali, Eiro conseguia ver uma quantidade razoável de mudanças, se comparado à última vez que esteve aqui. E a parte mais importante dessas mudanças era que todos os soldados pareciam ter empacotadas suas coisas e se preparavam para sair quando recebessem o apoio de todas as Damas.

O que era absolutamente perfeito para Eiro.

Como disse a todas as Damas, não importava o que dissesse à Rumia depois, elas nunca deveriam apoiar o país dele contando que existissem. Ele poderia muito facilmente fingir ser a ‘escolha final’ e deixá-los acreditar que as Damas forneceriam ajuda para Rumia. E Eiro poderia finalmente ter um pouco de diversão, assim que eles não estivessem mais na cidade. Felizmente, eles acabaram não recrutando ninguém dessa cidade para o exército, o que significava que Eiro poderia matar todos sem se preocupar com o que a cidade pensaria.

Lentamente, a Dama do Outono caminhou até o centro das estátuas, que não estava ocupado por Rumia. Ele aprendeu sua lição depois de cometer o mesmo erro com a Dama da Primavera novamente e, desde então, foi pelo menos um pouco respeitoso, apesar de ainda continuar tão condescendente como sempre.

Assim que a parte básica da celebração com a Dama do Outono foi concluída, Rumia agiu rapidamente e fez o mesmo discurso que, agora, Eiro teve que escutar por um total de quatro vezes, com o mesmo conteúdo repugnante que fazia o sangue do Diabrete simplesmente ferver.

E assim que terminou, a Dama do Outono olhou para Rumia e acenou lentamente com a cabeça.

— Entendo… bem, genuinamente, tenho que concordar com você. O Rei dos Monstros é uma grande ameaça.

— Hmm…? — Eiro pensou para si, confuso. Isso não era o que haviam conversado antes.

— O que ela está fazendo? — Nelli perguntou baixinho, no espaço em que apenas Eiro conseguia perceber, mas mesmo ele não sabia a resposta.

— Acho que a escolha é clara: eu emprestarei meu poder durante essa guerra, jovem. E minhas irmãs farão o mesmo. — A Dama do Outono explicou, e Eiro a encarou em confusão, enquanto Rumia ria estrondosamente.

— Hahahah! Como eu pensei! Uma de vocês tinha que concordar comigo! — Rumia exclamou, e a Dama do Outono suspirou profundamente, como se estivesse desapontada.

— Verdadeiramente, quando Eiro veio com esse plano para te enganar e te matar, eu pensei que provavelmente seria algo com que eu não concordaria, mas, você, jovem Demônio… Por que eu não concordaria com Rumia? Apenas porque você é um monstro, e é meu guia, eu também deveria ficar ao lado desses monstros malignos? — A Dama perguntou, e Eiro apenas a encarou, enquanto o olhar de Rumia era direcionado para Eiro.

— Demônio? Monstro? O que você quer dizer? — Ele perguntou com uma expressão de ódio, com todo esse desprezo focado em Eiro, que apenas suspirou profundamente em resposta, lentamente retirando sua máscara, enquanto abaixava o capuz de sua cabeça, revelando sua face de pele vermelha, assim como seus chifres azuis e vermelhos em espirais.

— Exatamente o que ela disse. Eu sou um demônio. Um Diabrete, para ser exato. — Eiro explicou, fazendo não apenas Rumia, como Nelli, reagirem bastante surpresas.

— O que você está fazendo livre aqui fora?! Todos aqui ficaram loucos de repente? — Ele questionou, mas Eiro apenas balançou a cabeça e estalou a língua.

— Bem, eu certamente não fiquei louco, mas essa vadia aqui certamente ficou. — O Diabrete disse enquanto encarava a Dama do Outono, algo que fez todos nessa cidade olharem para Eiro com choque. Choque e desprezo, afinal, ele acabou de insultar uma das deusas deles.

Com fúria em seus olhos, a Dama encarou Eiro.

— Você, um mero guia, ousa fa-

— Cale a porra da boca. Eu não sou um ‘mero guia’! Não mais. Meu trabalho como guia acabou assim que você pisou no centro dessas estátuas. E, como essa foi minha última viagem como um guia, não sou mais alguém que você pode comandar. Agora, sou apenas aquele que sua irmã, minha Dama do Inverno, abençoou. Aquele que ela escolheu. Se eu ainda fosse o seu guia, seria uma história diferente, mas agora você não pode nem ter a esperança de me ameaçar sem sentir as repercussões de todas as suas três irmãs. — Eiro explicou com um olhar profundo, e a Dama do Outono apenas o encarou, lentamente esticando a mão em direção ao Demônio.

— O que isso me importa?! — Ela exclamou, mas Eiro apenas se afastou alguns passos dela.

— Além disso, eu sei que uma vez que você esteja aí, não consegue mais deixar o centro das estátuas. Então, prove, sua vadia. Não ache que consegue derrotar um Diabrete em trapaças e fraudes. — O Demônio comentou, e sem hesitação começou a gritar para a cidade ao redor deles, com a ajuda de sua Magia de Vento.

— Vocês escutaram bem! Eu não sou mais o guia delas! Não suporto mais esses pedaços de merda! Foi por isso que eu deixei o meu trabalho como guia! Que se fodam! — Eiro exclamou ruidosamente, continuando até que todos os moradores da cidade começaram a odiar o Demônio, embora houvesse algumas exceções. Obviamente, Trom conseguiu ver que isso era apenas um truque.

— Hahahah! — Rumia começou a rir alto, interrompendo com sucesso a tentativa de Eiro de provocar toda a cidade. — Eu sabia! Você é o mal puro! Homens, matem-no! — Ele exclamou, mas, com um suspiro, Eiro apenas olhou para todos os soldados portando suas armas em sua direção, enquanto Nelli apareceu ao redor dele e se preparava para a luta, embora ela estivesse obviamente irritada com as ações apressadas de Eiro.

Mas o Demônio não se importou muito. Como os únicos que ficariam cientes do que Eiro utilizaria logo estariam mortos, ele pegou seu Três de Espadas e o conectou à sua adaga, fazendo com que todos os soldados ao redor parassem.

Eles eram de uma cidade grande, obviamente escutaram sobre como as cartas pareciam. Portanto, sabiam que essa era real.

Eiro não se importou, e apenas puxou um dos anéis da sua mão esquerda, algo que aprendeu a fazer recentemente, e o prendeu no dedo médio da sua mão direita. Pegou o anel que se conectava à sua adaga e o colocou ao redor da ponta do seu rabo, que começou a se desenrolar rapidamente.

Os fios das lâminas se enrolaram nos membros aos quais estavam conectados, segurando apertadamente as lâminas no lugar, de modo que seus dois braços e rabo praticamente se transformaram em armas.

Seu rabo era como um ferrão de escorpião, e seus braços eram como os de harpas, que tinham garras afiadas. Embora, para isso, Eiro ainda não tivesse asas.

— Por que você teve que fazer tudo isso?! — Nelli perguntou, sem compreender por que ele escalou deliberadamente a situação, e Eiro olhou para se aproximar para que ela fosse a única que conseguisse escutá-lo.

— O que mais eu deveria fazer? Dessa forma, a cidade toda me venderá para os homens que vierem procurar por Rumia… e eles não serão punidos por minha culpa.

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