
Volume 2 - Capítulo 107
A Virtude do Demônio
O vento fazia as folhas secas e caídas farfalharem, e o cheiro das flores do outono, que cresciam por conta da chegada da Dama do Outono, tomava conta da manhã. O suor que escorria pelo seu corpo era por causa das duas lutas que teve em sequência. Nesse instante, Eiro estava se concentrando para conseguir perceber tudo o que conseguisse.
A coisa que aprendeu a usar especialmente foi sua Magia de Terra. Em algum ponto, durante seu treinamento para tentar encontrar o manequim, Eiro recordou do método de prática básico para Magia de Terra, no qual a pessoa deveria tentar encontrar coisas pequenas e simples ao redor delas usando o próprio solo.
No começo, Eiro pensou que isso seria algo de que não precisaria, considerando que normalmente era capaz de encontrar tudo ao seu redor com os seus cinco sentidos, mas, agora que não conseguia mais fazer isso, esse sentido extra se mostrou muito útil, e se tornou surpreendentemente forte quanto mais alta a Magia de Terra de Eiro se tornava. Parecia que o status de percepção até mesmo aumentava esse tipo de percepção mágica, o que significava que sua Carta também ajudava com isso. Ele nunca percebeu isso, desde que não tinha a base para perceber algo dessa maneira, em primeiro lugar.
De qualquer forma, agora, com sua mana espalhada pela terra em um raio de aproximadamente dez metros ao redor dele, o Diabrete era capaz de usar isso como uma base adequada para detecção em larga escala.
Como a percepção com base na Magia de Terra funciona detectando as vibrações no solo, movimentos comuns poderiam ser encontrados com relativa facilidade, mas isso não era tudo, já que esse passo poderia ser levado além.
Era possível gerar pequenos tremores através da magia, e ele seria capaz de usar a forma como esses tremores viajavam pelo solo para detectar muito mais longe do que Eiro esperava inicialmente, como onde estavam coisas estacionárias, quão pesado algo era, do que era feito, e ajudava especialmente a encontrar coisas que não estavam na superfície ou que estavam ‘trancadas’ de modo que sua percepção regular não seria capaz de alcançar.
E com isso, Eiro pôde expandir algo em que começou a trabalhar há um ano, quando recebeu sua primeira habilidade de percepção superior: O mapa mental do mundo criado utilizando outros sentidos além da visão.
Agora, isso tinha uma nova camada de base, que era o mundo mostrado através de sua percepção baseada na Magia de Terra. Por ora, era basicamente apenas uma recriação mental bruta do que isso poderia ser na realidade. Tudo seria colorido de uma forma que correspondesse ao cheiro que emitia. E, por fim, os sons que eram criados por qualquer tipo de movimento eram exibidos através de ondulações no ar.
Essas três partes da percepção já criavam um mapa bastante detalhado dos arredores de Eiro, e quando descobria tudo o que poderia com apenas esses três sentidos, mais uma coisa era adicionada em cima disso, algo em que Eiro esteve trabalhando recentemente.
Considerando que era possível com o solo, assim como com a água, pois o Demônio já havia testado, perceber as coisas ao seu redor, por que não deveria ser possível com o ar? Claro, o ‘Ar’ não costumava ser um instrumento para tais coisas, mas Eiro já sabia que conseguia perceber a mais leve respiração de alguém que estava a dúzias de metros de distância, mesmo normalmente apenas pela sensação em sua pele.
Ao combinar com a Magia de Vento, Eiro conseguiu fortalecer a reação que o evento mostrava quando atingia superfícies para que ele conseguisse notá-las, mesmo que fosse uma mudança que outros não conseguiriam notar.
Dessa forma, Eiro era capaz de perceber partes que nem mesmo a magia de Terra conseguia alcançar, enquanto aumentava ainda mais os detalhes das partes que já havia percebido.
Embora isso drenasse uma quantidade considerável de mana, parecia que valeria a pena dessa vez, especialmente desde que o Demônio finalmente tentaria adicionar o sentido mais importante nessa mistura: a visão.
E mesmo que isso não parecesse tão difícil de fazer, se ele realmente tentasse visualizar algo em sua mente enquanto olhava ativamente para o mundo ao redor, era bastante difícil. Obviamente, como estava imaginando o que estava vendo, era um pouco mais fácil, mas ele também estava, ao mesmo tempo, tentando manter as partes que não conseguia ver corretamente visualizadas.
Foi isso que Eiro passou cada segundo livre que tinha praticado durante as últimas semanas e, finalmente, conseguiu ter uma noção aproximada. Enquanto era capaz de ver o mundo normalmente, também conseguia ver as cores que designou para cada cheiro, assim como as ondulações que o som criava para ele.
E claro, ele também conseguiu dizer instintivamente o que estava por trás do que quer que estivesse bloqueando sua visão, enquanto sua imagem mental era lentamente preenchida com detalhes incríveis que correspondiam aos visuais que foram adicionados.
Lentamente, assim que Eiro conseguiu dar início a tudo, ele ficou de pé e levantou o seu pé, equilibrando o próprio peso em seu pé esquerdo. Apenas esse movimento isolado criou pequenas ondulações através do som que suas roupas fizeram.
Com sua Força Vital concentrada principalmente na parte inferior de suas costas, quadril e perna esquerda, Eiro preparou a sua mana para ser empurrada para fora do seu corpo o mais rápido possível e respirou fundo para inspirar o máximo de ar que conseguia.
E, com um único movimento que levou apenas uma fração de segundos, Eiro empurrou o seu pé direito no solo com o máximo de força que conseguiu reunir, enquanto empurrava a sua mana no solo por meio do seu pé para criar fortes tremores e utilizá-los como uma base perceptiva, ao mesmo tempo que gritava o mais alto que conseguia e expirava todo o ar que inspirou de antemão.
Isso machucou levemente suas orelhas, mas, pelo menos, tudo pareceu funcionar corretamente para ele. O alcance de sua percepção aumentou em uma área incrivelmente grande, e os detalhes que sua imagem mental tinha também estavam em um novo nível.
O Diabrete conseguiu encontrar algo que aprecia ligeiramente fora de lugar. Se misturava perfeitamente no local em que estava escondido, em uma brecha estreita entre uma rocha e o solo. Parecia ter mana ao redor, o que permitia confundir as habilidades perceptivas que Eiro estava tentando usar, mas, agora, ele finalmente conseguiu encontrá-lo.
Finalmente sabia onde o manequim estava. Com passos determinados, Eiro começou a correr pela floresta, direto para onde notou o fantoche, mas, agora que ele estava parado à sua frente, mesmo seus olhos não eram capazes de ver o boneco, não importa com quanta atenção olhasse.
Mesmo quando colocou suas mãos onde sabia definitivamente que o manequim estava, ele apenas sentiu uma rocha suja, molhada e coberta por musgos, embora isso tenha passado logo e Eiro tenha conseguido empurrar sua mão através disso, enquanto a imagem falsa sumia de sua visão e agora conseguia ver o fantoche, enquanto ele saía de baixo da pedra.
— Como…? — Eiro se perguntou baixinho, completamente confuso com o que estava acontecendo.
‘Como o manequim consegue fazer isso? Essa tarefa foi criada por Jura, não foi? Como…’
— Nelli! — O Demônio gritou quando correu de volta para casa, seguindo rapidamente pelo fantoche, e o Espírito já o esperava, olhando para ele com um sorriso brilhante.
— Oh? Você o encontrou dessa vez, Hein? — Ela perguntou com um sorriso, e Eiro assentiu com uma ligeira careta.
— Sim… Mas essa tarefa não foi feita por Jura, foi? — Ele questionou sem hesitação, e Nelli rapidamente balançou a cabeça.
— Não completamente. — Ela comentou, e Eiro a encarou com uma expressão confusa.
— O que? Por que você me disse que foi?
— Porque você é muito convencido. — Ela explicou, mas o Diabrete apenas olhou para ela com uma carranca profunda.
— O que você quer dizer? Como eu sou convencido? — Ele respondeu, e Nelli suspirou profundamente.
— Escute, não quero te insultar, mas, tecnicamente, você é realmente jovem e ainda não tem tantas experiências como as outras pessoas. Você tem habilidades incríveis, mas elas estão longe de serem as melhores do mundo. Bem, talvez sua percepção esteja próxima disso agora, mas certamente há pessoas que conseguiriam alcançar um estado similar ao seu por meio de treinamento. Você conseguiu por sorte. Como Jura sabia que você não pensaria muito da tarefa de percepção devido às suas capacidades aprimoradas por meio da Carta, ele me fez explicar que a ficha foi feita através de sua habilidade. — Nelli explicou, e Eiro olhou para ela com uma expressão surpresa, apenas escutando. Ele queria reclamar, mas não era como se conseguisse falar algo que realmente negasse o que ela disse.
— Essa ficha foi feita com uma habilidade de Furtividade no grau Mestre imbuída nela. Jura ajudou um pouco, e isso foi ajustando as coisas para deixá-lo mais difícil de ser notado. — O espírito disse, e o Diabrete apenas suspirou lentamente enquanto acenava com a cabeça.
— Certo… entendi. Bem, pelo menos eu sei onde a minha habilidade de Furtividade alcançará se eu continuar a aprimorá-la. — Eiro comentou. Ele sentiu um estranho senso de desapontamento após descobrir repentinamente que a ficha não foi feita por Jura. Ele não conseguia realmente explicar isso, apenas se sentia assim.
De qualquer modo, ele sabia que era uma forma tola de se sentir, se moveu rapidamente e virou-se para aceitar a ficha do manequim.
Naquele momento, algo bastante estranho aconteceu: em vez de apenas a última ficha, ele também segurava a ficha em branco em sua mão, fazendo Eiro desviar seus olhos para o peito do fantoche.
E ali encontrou um segundo lugar para a ficha ser adicionada, fazendo-o sorrir ironicamente em resposta.
— Espere, isso quer dizer que eu devo passar nas tarefas com mais de um modo habilitado? — Eiro perguntou para o fantoche, que rapidamente assentiu a cabeça em resposta, e Eiro começou a esfregar a ponta do seu nariz.
— O que é possível com isso agora? Combate avançado usando chutes, arremessos, agarrões, facadas e cortes… Depois combate corpo a corpo, móvel e com adagas… Aqueles tipos de combate em que você fica completamente escondido de mim… e versão de pega-pega em que eu não sei onde você está? — Eiro questionou com um leve resmungo e apenas suspirou profundamente. — Existem mais espaços para as fichas se eu completar tudo isso? — Eiro perguntou a seguir, fazendo o fantoche simplesmente acenar a cabeça mais uma vez, e o Demônio lentamente balançou a cabeça enquanto colocava a ficha de esconde-esconde em sua Tesouraria, ao mesmo tempo que colocava a ficha em branco em seu bolso, e olhava para os outros.
— Parece que eu terei coisas para fazer por um bom tempo a partir de agora. — O Demônio disse para todos, e até mesmo Nelli parecia levemente perplexa com a revelação dos espaços de fichas extras. Aparentemente, nem mesmo ela sabia sobre isso.
— Essa coisa é muito mais versátil do que você pensa, né? — Arc perguntou com uma risada alta. Eiro simplesmente assentiu.
— Infelizmente, meu maior rival é um boneco… — Eiro comentou desapontado.
…