
Volume 2 - Capítulo 104
A Virtude do Demônio
Eiro conseguia sentir o ar ao redor dele esfriar a cada momento que a Dama do Inverno olhava para o homem no centro das quatro estátuas, com algumas pessoas paradas na entrada para tentar retirar Rumia de lá, mas ele não tinha certeza do que fazer.
Considerando como Rumia e seus soldados agiram até agora, ele não ficaria surpreso se as pessoas do Reino Sagrado tentassem atacar as quatro Damas, se a Dama do Inverno matasse o homem diante deles, praticamente transformando essa cidade e essa floresta em um palco para a guerra.
O Demônio escolheu fazer algo que ele não gostaria de ter feito, imaginou que poderia dar um toque pessoal e satisfatório nessa situação. Com movimentos rápidos, Eiro ficou na frente da Dama do Inverno, algo que normalmente não teria feito nessa situação, pois era algo desrespeitoso de se fazer, e falou com a voz clara para que a Dama irada realmente o escutasse.
— Minha dama, esse é o homem de quem falei antes. Se me permitir, posso assumir o papel de removê-lo desse lugar sem o custo de sua vida? — Eiro perguntou, e a Dama voltou seus olhos lentamente para o Diabrete e assentiu com a cabeça, aparentemente se contendo.
— Faça como quiser. Tentarei jogar com você mesmo depois desse desrespeito, jovem Demônio. Permito que entre naquele espaço, mas, não o suje, entendeu? — Ela questionou ao Diabrete, que apenas sorriu debaixo de sua máscara e se virou.
— Como quiser, minha Dama. — Eiro respondeu, se virando caminhando em direção às quatro estátuas, enquanto a Dama do Inverno esperava na entrada da praça central, algo que nenhum dos aldeões já testemunhou em suas vidas. Embora alguém ficar parado no centro das estátuas fosse algo que nenhum deles tenha esperado também.
E assim que o Demônio atravessou o portão em frente às estátuas, a risada de Rumia pôde ser ouvida.
— Que visão dolorosa! Ela é uma deusa de corpo e alma! Me desculpe por duvidar de você, jovem, parece que você realmente é um guia! Agora-
— Pode calar a boca por um segundo? — Eiro questionou, interrompendo o discurso presunçoso de Rumia, enquanto o Demônio aparentemente preparava alguma coisa.
— O que você está fazendo aqui? Isso é parte do Ritual do Solstício? — Rumia perguntou curiosamente, antes que Eiro esticasse o braço para frente, fazendo o homem pensar que essa era apenas mais uma parte desse ‘ritual’, embora o Demônio estivesse apenas murmurando para si.
— Bem, eu não me importaria se isso se tornasse um, para falar a verdade. — Eiro disse, e torceu o seu corpo, para que ele e Rumia estivessem olhando para a mesma direção, com as costas do Diabrete de frente para o estômago e peito de Rumia, enquanto Rumia olhava para ele, confuso.
— Isso é algum tipo de dança? O que eu preciso fazer? — Se perguntou, e ficou ainda mais surpreso quando a resposta de Eiro veio.
— Sugiro que se prepare. Agora , como era esse passo mesmo…? — Eiro respondeu, e recordou dos movimentos do manequim quando estava no modo de combate corpo a corpo, tentando replicar um dos movimentos que ele usava repetidamente para derrotar Eiro nos treinos. Claro, como Rumia era muito mais pesado do que ele, o Demônio teve que manipular sua Força Vital com astúcia, mas assim que isso foi feito, o corpo de Rumia foi virado de ponta cabeça e arremessado pelo ar diretamente para fora do portão, fazendo o homem pousar de costas e escorregar pelo chão congelado e coberto de neve, enquanto Eiro se preparava para a dor excruciante causada pela manipulação da sua Força Vital.
Mas, como isso não era tudo o que queria fazer com Rumia, e desde que tinha a chance, o Demônio passou pelos soldados, que seguraram suas armas prontos para atacar Eiro, e segurou as costas da armadura de Rumia. Com a ajuda de sua Força Vital manipulada, mudando consideravelmente a distribuição de força física, assim como um pouco de Magia de Água e de Gelo para manipular na neve e a água cobrindo o corpo de Rumia, Eiro começou a arrastar Rumia pelo chão, como se ele não fosse nada além de um pedaço de pano, levando-o até a Dama do Inverno e virando o corpo dele, pressionando o rosto de Rumia na neve na frente da Dama.
— Desculpe o comportamento rude desse tolo, minha dama. Por favor, continue considerando o pedido dele mesmo assim. — Eiro disse, fazendo o seu melhor para segurar a cabeça de Rumia na neve, para ter certeza de que ele não falasse nenhum absurdo na frente da Dama, e ela assentiu.
— Como você se esforçou para pedir, farei como pediu. O escutarei depois que a celebração terminar. — A Dama do Inverno explicou e, junto das suas Filhas, passou por Eiro e Rumia indo em direção às quatro estátuas, enquanto o Demônio finalmente soltava Rumia, que apenas o encarou e obviamente estava para gritar ‘Heresia’ ou algum absurdo, mas Eiro colocou sua adaga na garganta do homem antes que ele pudesse falar.
— Cale a boca. Você a escutou, você falará com ela depois que a celebração terminar, o que deve levar algumas horas. Fique feliz que ela não te matou pela sua completa estupidez. — O Diabrete disse, afastando sua adaga, simplesmente se afastando para a lateral, esperando que o evento começasse, embora parecesse que Rumia ainda não tivesse compreendido o que ele tinha dito, pois começou a se aproximar da Dama, ou pelo menos tentou. Felizmente, Eiro conseguiu derrubá-lo facilmente com uma simples Magia de Gelo, antes de arrastá-lo de volta.
— Fique. — Eiro falou, cruzando os braços e se inclinando contra a parede, mas parecia que Rumia ainda não estava feliz. O Demônio escolheu recorrer ao seu método favorito de coerção: ameaças de agressão física. Segurando sua adaga mais uma vez, Eiro continuou segurando a arma diretamente na garganta de Rumia, com a lâmina realmente encostando na pele dele, e olhou para frente.
— Agora, espero que fique um pouco mais feliz em me escutar por enquanto. — Eiro disse com um sorriso largo, escondido sob sua máscara, enquanto a celebração se desenrolava na frente deles. E durante todo o tempo que a celebração acontecia, Eiro continuou segurando a adaga na garganta de Rumia, sem retirá-la por um instante sequer, sem se importar com o que Rumia pedisse para ele.
Finalmente, era hora de a celebração terminar, pelo menos para a Dama do Inverno, que olhou para Eiro e acenou, o Demônio removeu a lâmina antes de se virar para Rumia.
— Vamos. — O Diabrete ordenou, enquanto se aproximava e deixava a adaga em sua mão cair na Tesouraria, e Rumia, bastante irritado, o seguiu em direção à Dama.
— Finalmente temos a chance de conversar depois que esse herege me impediu de me aproximar de você.
— Eu literalmente salvei sua vida. — Eiro suspirou, e pensou para si.
‘Bem, por mais nove meses…’
Rumia praticamente o ignorou enquanto a Dama começava a falar.
— Não permitirei que fale do meu Abençoado dessa forma. Eu repensaria sua abordagem, se deseja receber minha ajuda. — A Dama apontou, e Rumia encarou Eiro, confuso, enquanto o Demônio ficava ao lado da Dama, já que não queria que ninguém pensasse que ele estava do lado de Rumia.
— Claro, me desculpe se a ofendi, cara Dama… e me perdoe, mas você acabou de dizer que abençoou esse homem? — Rumia perguntou, e a Dama acenou a cabeça imediatamente em resposta.
— Isso não é importante para você. Agora, fale, antes que eu retire sua capacidade de fazer isso. — Ela disse para Rumia, que apenas começou a sorrir brilhantemente, apesar de estar obviamente irritado com o fato de um ‘Herege’ ter recebido a bênção de uma Deusa da Natureza.
De qualquer forma, por ora, Rumia começou a explicar a situação. Parecia que realmente estava se preparando para uma grande guerra, ou melhor, um ataque contra o Rei dos Monstros. Isso em si provavelmente teria sido um bom motivo para pedir ajuda de alguém, mas Eiro ficou muito enojado com a forma como Rumia expressava tudo.
Ele continuava falando sobre como seria uma honra para a Dama do Inverno ajudá-los a lutar contra aqueles monstros malignos, sobre como eles tinham que derrotar aqueles que desafiavam o deus deles e aqueles que ‘roubaram’ a Sacerdotisa Sagrada.
Especialmente a última parte foi muito irritante para Eiro.
A Sacerdotisa Sagrada foi um título dado à Avalin. Aquela criança pequena, alegre, embora levemente travessa. E Rumia estava falando dela apenas como uma ferramenta, como um objeto a ser usado na guerra. Ele estava literalmente falando sobre como ela deveria ser o maior patrimônio deles na guerra.
Uma criança que literalmente tropeçava a cada segundo por quão desajeitada era, com um corpo fraco que provavelmente era tão fácil de cortar como a água. Uma criança dessa deveria ser um ‘Bem’, se não tivesse sido ‘Roubada’?
Depois desse discurso, Eiro se decidiu completamente. Ele suportaria seu ódio por Rumia pelos próximos nove meses e, depois do Equinócio de Outono, mataria Rumia e seus homens da forma mais terrível e macabra que conseguisse pensar. Alguém assim não merecia viver sob o mesmo céu que suas crianças.
Felizmente, antes que Eiro acabasse se perdendo completamente em suas fantasias e acabasse o matando aqui e agora, a Dama do Inverno falou e o despertou.
— Entendo… vocês precisam de ajuda para defender o seu povo do ataque do Rei dos Monstros? — A Dama questionou, para resumir um pouco o longo discurso, e Rumia balançou a cabeça.
— Muito pelo contrário! Nosso Rei Sagrado utilizará sua assistência na ofensiva contra o Rei dos Monstros! — Rumia exclamou, e Eiro mal conseguiu se conter, antes que a Dama falasse mais uma vez.
— Ah, é assim? Pessoalmente, eu não me oponho nem tenho vontade de começar uma guerra, mas, se você pedir para todas as minhas irmãs e todas concordarem, ou, pelo menos, forem neutras, como eu, eu não me importaria de ajudá-los quando for necessário. — A Dama disse com a mão e vestes escondendo a metade inferior do seu rosto, fazendo parecer que ela estava levemente interessada com a ideia, para alguém como Rumia, mas de sua posição, Eiro conseguia dizer que o rosto da Dama do Inverno era um de puro desgosto e fúria. Ela estava se contendo, para o bem de Eiro.
— Entendo, obviamente você concordaria comigo! Duvido que suas irmãs se importem de nos ajudar também! — Rumia exclamou, encarando Eiro com um olhar que parecia querer mostrar sua superioridade, mas a Dama o colocou em seu devido lugar.
— Oh, mas não entenda errado, presunçoso. Você nunca teria recebido a chance de fazer esse pedido se não fosse pelo meu querido Eiro. Se minhas irmãs adotarem a mesma postura que eu, a escolha final recai sobre ele, então sugiro que você não faça nada que o irrite… — A Dama exclamou. — De outro modo, você se arrependerá de ter pisado na minha frente.
…