
Volume 2 - Capítulo 103
A Virtude do Demônio
Eiro calçou as botas e colocou a capa sobre o seu corpo, como o habitual, pegando diferentes plantas e matérias que precisava reunir para a Dama do Inverno, virando mais uma vez para olhar para as crianças.
— Melhor ficarem dentro de casa pela maior parte do dia amanhã, a neve no Solstício é sempre muito forte. E, de novo, se algo acontecer, façam com que o manequim defenda vocês, certo? — Eiro perguntou para todos, e elas rapidamente concordaram com a cabeça.
— Claro, claro, agora vá ou se atrasará! — Sammy exclamou, e o Demônio apenas riu levemente antes de assentir.
— Certo, certo. Estarei de volta amanhã à noite. E não fiquem acordados até tarde, ok? Podem olhar para as auroras se quiserem, mas se o sol nascer-
— Nós entendemos! Agora vá! — Arc interrompeu o Diabrete, que apenas encarou de volta o garoto com uma leve carranca.
— Você não precisa ser tão malvado com isso… De qualquer forma, vejo todos vocês amanhã. — Eiro disse com um leve suspiro, atravessando a porta e pisando na neve profunda que já havia se reunido na frente dele, embora Eiro não tivesse problemas em afastá-la com sua Magia de Gelo.
Dessa forma, com Lugo logo atrás dele, ajudando a carregar alguns dos materiais que deveria colocar no lugar onde encontrariam a Dama do Inverno e suas Filhas, o Demônio, o Espírito e o Cervo caminharam até o local em que as Damas sempre apareciam.
Era uma pequena clareira, escondida entre as árvores grossas, e era difícil percebê-la de fora mesmo no inverno, quando a maioria das plantas simplesmente morria, mas, mesmo que esse fosse o caso normalmente, agora, no dia anterior ao solstício, várias plantas únicas que não apareciam normalmente estavam crescendo.
E, neste cenário de Flores do Inverno, Eiro se ajoelhou e esperou pela chegada da Dama do Inverno. Apenas algumas horas depois, notou algo acontecendo. A neve começou a cair mais rápida e intensamente, ao nível de uma nevasca densa, e tão rapidamente como apareceu, ela desapareceu, deixando para trás a figura grande da Dama do Inverno que se elevava sobre o Demônio.
Com um sorriso no rosto, Eiro esticou os braços para frente para entregar a primeira oferenda à Dama, a qual foi pega rapidamente por uma das Filhas do Inverno, antes que ele entregasse as outras, oferecendo cada uma a uma das filhas, com exceção da mais nova delas. Ao longo dos anos, as Filhas realmente pareciam ter envelhecido um pouco, crescendo e se tornando mais maduras, embora ainda parecessem apenas crianças aos olhos de Eiro.
— Faz um tempo, jovem demônio. — A Dama do Inverno disse assim que todos os presentes foram entregues. Eiro levantou a cabeça.
— De fato, minha Dama. — Ele respondeu, e logo, a Dama olhou ao redor, confusa.
— Sr. Jura não está te acompanhando esse ano? — Ela perguntou, e Eiro simplesmente olhou para baixo com uma expressão amarga.
— Jura, ele faleceu há dois meses… — Eiro explicou, e logo percebeu que a Dama parecia bastante surpresa e, até mesmo, levemente chocada com isso. O Demônio começou a contar exatamente o que aconteceu desde . E sobre como herdou a Carta de Jura, sobre como teria que ir embora em um ano e sobre os homens que queriam falar com as Damas na cidade.
— Entendo… — A Dama murmurou baixinho depois de escutar o Diabrete falar sobre tudo isso, e olhou para ele. — Entendo que deseja ir embora para o bem daquelas crianças. Entretanto, espero que essa não seja a última vez que eu te encontre. Se você me prometer isso, não me importo de liberá-lo de seu papel. Minhas irmãs devem sentir o mesmo. — A Dama do Inverno explicou, e sua expressão se contorceu um pouco, beirando à raiva e ao desgosto. — No entanto, esses homens que você falou… Eles parecem bastante convencidos, não parecem?
Com um aceno rápido, Eiro assentiu em resposta.
— Primeiro, obrigado por ser tão gentil, minha Dama. Quanto a esses homens, sim, eu também diria que são muito convencidos, mas, não importa quão convencidos eles sejam, eu gostaria de pedir um favor em relação a eles. — Eiro explicou, e a Dama olhou para ele curiosamente, com a boca escondida pelo braço e pelas vestes que pendiam dela.
— Que tipo de favor seria? Você não deseja que eu realmente os ajude, deseja? — A Dama perguntou, e o Demônio imediatamente balançou a cabeça.
— Oh, não, não se preocupe, não é nada disso. Bem, mais ou menos, agora que penso sobre isso… — Eiro começou, fazendo a Dama do Inverno ficar ainda mais curiosa com o que ele estava planejando, ele apenas sorriu um pouco e colocou as mãos atrás das costas. — O favor que eu gostaria de pedir é muito simples. Quero que você finja ajudá-los, mas só depois que eles conseguirem que as outras três Damas concordem também, ou pelo menos de forma parecida com você. Não ouso dizer que sei como vocês quatro são, mas tenho certeza de que todas apreciariam um pouco de entretenimento de vez em quando, não é? — O Demônio comentou, e a Dama começou a rir baixinho.
— Interessante, interessante… e qual seria o objetivo disso? — Ela perguntou, e Eiro explicou.
— Bem, eu quero que eles acreditem que eu posso ajudá-los para que eles não me incomodem muito enquanto eu ainda estiver aqui. E, obviamente, quero que acreditem que tudo está indo de acordo com o planejado, para que não acabem pedindo reforços. Se fizerem, será muito, muito mais difícil de matar todos eles daqui a um ano. — Eiro explicou com um sorriso, e a Dama do Inverno olhou para ele com uma expressão divertida ainda escondida pelas suas vestes e braço.
— Interessante… Eu sabia que valeria a pena dar a minha bênção para você, jovem Demônio… Eu jogarei junto, não deve ser tão difícil enganar homens tolos como esses, se eles são realmente tão simples como você disse. — Ela comentou, e olhou para ele. — Já que esse ‘favor’ parece funcionar a favor de nós dois, para a sua vitória daqui a um ano e para a minha diversão, deixe-me dar ao meu abençoado mais um pequeno presente. Um para dizer adeus, ao mesmo tempo que é uma promessa para nos encontrarmos novamente. — A Dama disse, esticando o braço para frente, segurando a palma para cima, como se esperasse que algo fosse colocado ali.
— Me dê aquela flor que você recebeu de presente. — A Dama disse, e curioso, o Demônio assentiu e a pegou da sua Tesouraria antes de colocá-la na mão da Dama.
Ela retraiu um pouco o seu braço e olhou para o Demônio com um pequeno sorriso, enquanto segurava a Flor de Gelo com as duas mãos. Uma energia fria envolveu seu corpo ao mesmo tempo que isso aconteceu, sendo direcionada para a flor no centro de suas mãos, pelo que Eiro conseguia dizer com seus novos sentidos, a Dama esticou a mão novamente.
A flor havia mudado um pouco… E com ‘um pouco’, Eiro queria dizer que não era mais uma flor. Bem, pelo menos ainda não era uma flor? Ela havia retornado ao estágio de broto, um maior do que a flor em si que ele tinha anteriormente.
— O que é isso? — Eiro perguntou enquanto segurava o botão com ambas as mãos, e a Dama do Inverno o respondeu.
— Assim que você estiver pronto, e uma das minhas filhas estiver madura o suficiente para receber tal tarefa, ela florescerá novamente e um novo Espírito nascerá nesse mundo, feito da essência dessa Filha. Um espírito que, muito parecido com a Náiade que atualmente te acompanha, esperançosamente se tornará um companheiro querido que te acompanhará. — A Dama explicou, e Eiro levantou as sobrancelhas em surpresa.
Em algum ponto, um espírito que ele poderia contratar nasceria disso? E esse espírito seria tecnicamente uma das filhas da Dama? Isso parecia algo muito incrível, mesmo que…
— Obrigado, minha dama, mas não sei se posso aceitar isso. Estou grato que você me permitiria com uma das suas filhas, porém não acho que essa seja uma escolha que você deveria fazer, mas a filha que será escolhida para se tornar esse espírito. — Eiro explicou, e com uma leve risada, a Dama do Inverno acenou com a cabeça.
— Claro, querido Eiro. Eu não teria entregado isso se não houvesse uma das minhas filhas que já desejasse se tornar sua companheira. — A dama explicou, olhando para o lado em direção à sua filha mais nova.
Quando Eiro encontrou a Dama do Inverno pela primeira vez, ele havia entregado essa mesma Flor de Gelo para ela e a recebeu como presente no fim. Parecia que ela realmente simpatizou com Eiro desde .
— É mesmo? — O Demônio perguntou. — Se uma das suas Filhas genuinamente deseja se tornar minha companheira, aceitarei com prazer esse presente, minha Dama. — O Diabrete explicou, e a Dama riu levemente em resposta ao que ele disse.
— Isso realmente me intriga… — Ela disse baixinho. — Em uma respiração, você fala sobre o assassinato de homens, e, na seguinte, demonstra tal compaixão por outro ser. — A Dama do Inverno comentou, e Eiro olhou para ela, com um sorriso no rosto.
— Bem, obviamente. Não há razão para eu tratar você ou uma das suas crianças com algo além de compaixão. Aqueles homens, no entanto, não merecem nada além do meu desgosto. — O Demônio explicou, e a Dama do Inverno assentiu lentamente.
— Me mostre esses homens agora. Devemos ir? — A Dama sugeriu, e Eiro assentiu e se virou para Lugo, dizendo a ele para se levantar, já que deveriam começar a caminhar, e começaram a ir até a cidade.
Durante o caminho, embora normalmente com a maioria dos guias apontados, a Dama do Inverno ficava próxima do silêncio, com Eiro parecia que ela conversava sobre várias coisas diferentes.
E nesse caso, essas coisas eram as crianças de Eiro, os selos de Sammy e Leon, e obviamente Jura. Quando chegou ao velho, quem falava principalmente era a Dama, já que ela o conhecia há muito mais tempo do que Eiro, apesar de ter passado tecnicamente menos tempo com ele no geral, desde que se viam apenas uma vez por ano. Parecia que, mesmo assim, a Dama do Inverno tinha algumas histórias interessantes sobre Jura, as quais o Demônio escutou com curiosidade durante todo o caminho até chegarem na cidade, momento em que tanto Eiro como a Dama ficaram em silêncio e se despediram adequadamente um do outro, desde que essa seria a última vez que se encontrariam até que Eiro voltasse em alguns anos, como prometera em troca de receber o Botão de Gelo.
E , depois disso, Eiro colocou a máscara no seu rosto para esconder o fato de ser um Demônio de Rumia e dos Soldados, e seguiu a Dama do Inverno pela cidade em direção ao mercado, onde os homens em questão esperavam, no único lugar que mostrava pura vaidade e ignorância para com a Dama do Inverno logo de cara.
No centro das quatro estátuas.
…