A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 102

A Virtude do Demônio

Embora Eiro achasse o que Arc acabou de dizer ao soldado mais do que hilário, ele também sabia que era exatamente esse tipo de coisa que Nelli o avisou anteriormente e rapidamente se virou em direção ao Espírito, que já estava o encarando com uma expressão que dizia: eu avisei.

— Não me olhe dessa forma. Se Arc não tivesse intervindo, eu poderia ter matado esse homem. — Eiro comentou, e Nelli suspirou profundamente enquanto balançava a cabeça desapontada.

— Que ótimo… — Ela suspirou, e Eiro voltou sua atenção para o soldado e Arc. O primeiro pareceu ficar muito irritado com tudo isso e apontou sua lança para Arc.

— Chega! Em nome do Rei Sagrado, estou te prendendo! — O soldado exclamou, e, na verdade, havia algumas pessoas olhando de suas próprias lojas devido à comoção.

— Haha, certo. — Arc disse com um sorriso, e então apenas fechou os olhos e balançou a cabeça. — Como se um fracote como você realmente ousasse fazer isso. — O garoto apontou, e nessa altura, até mesmo Eiro sabia que isso poderia ser provocativo demais nessa situação, e rapidamente notou que o soldado estava movendo seu corpo de forma que iria perfurar o garoto que, literalmente, não conseguia sentir dor ou nenhuma sensação tátil, além do que um simples aperto de mãos produziria.

Claro, antes que ele pudesse fazer isso, o soldado já estava com uma adaga cravada no seu cotovelo, enquanto perfurava a abertura na armadura que vestia.

— O que você acha que está fazendo? — Eiro perguntou enquanto empurrava lentamente sua mana na Pedra Mágica no cabo da adaga. Como sua afinidade com fogo e proficiência em magia de fogo em geral aumentaram muito durante os últimos anos, em vez de ficar quente apenas para derreter neve, na realidade, esquentou o suficiente para queimar a pele de uma pessoa. Então, obviamente, se a lâmina já estava dentro do seu corpo, essa sensação de queimação seria provavelmente um pouco mais extrema, e o braço do soldado tensionou imediatamente.

[Gerald Muzkins – 2187 de dano]

Enquanto Gerald gritava de dor, Eiro retirou a adaga do cotovelo do homem e o encarou.

— Fique grato que eu não quero causar problemas, pois, de outra forma, você estaria morto. Agora, mostre esse ferimentozinho para Rumia e os outros soldados, faça um curativo e reze para cada um dos seus deuses nojentos para que eu não mude de ideia e decida te matar, entendeu? — Eiro questionou, mas o soldado levantou o braço e tentou parar o sangramento, enquanto encarava a figura na sua frente.

E, apesar de não saber realmente a identidade dele como um monstro, atualmente Gerald o via como nada além de um demônio. Logo Eiro notou o som de metal batendo contra metal, enquanto uma lâmina encostava na peça que deveria manter sua bainha junta enquanto ela era desembainhada, com o som de passos daquele que desembainhou sua espada.

Parecia ser outro soldado, o que Eiro rapidamente confirmou através do cheiro fétido da cera de polimento que esses soldados pareciam usar para manter suas armaduras em forma. E, com um simples movimento, Eiro se levantou de sua posição ajoelhada e, com um chute, praticamente deslizou pela neve, usando a neve congelada como ajuda para isso, para esfaquear com a adaga em sua mão na lateral do soldado tentando atacá-lo, mais uma vez se aproveitando da brecha na armadura.

[Simon Klitz – 512 de dano]

— Ora, ora, eu estava apenas defendendo a mim e ao meu filho, e você faz isso? — Eiro perguntou com uma carranca profunda escondida sob sua máscara, e então se levantou apropriadamente enquanto batia em sua capa para se livrar da poeira e pedaços de sujeira que ficaram presos nela, enquanto o segundo soldado segurava a lateral do seu corpo, obviamente sentindo bastante dor.

— Hmm… Arc, vamos indo. Precisamos pegar tudo. Acho que não devemos demorar muito. — Eiro comentou e pegou um pedaço de pano de sua bolsa, usando-o para limpar o sangue de sua adaga, colocando-a de volta na sua tesouraria e se afastando, evitando rapidamente os poucos aldeões que testemunharam o que aconteceu.

À distância, o Demônio escutou alguém dizendo para um soldado sobre o ocorrido, mas nenhum deles parecia tão problemático de lidar.

Mais importante.

— Arc, sua voz está bem? Nenhum deles conseguiu acertar você, certo? — O Diabrete perguntou, encarando profundamente os olhos do menino para ter certeza de que não havia remanescentes de uma notificação vermelha ou da névoa vermelha que ela deixaria para trás quando desaparecesse, e Arc rapidamente balançou a cabeça.

— Nem, não se preocupe. Mas, merda… Pensar que você foi de um demônio que literalmente comia carne humana para poupar aqueles dois apenas porque não deseja problemas. Que desenvolvimento, hein? — Arc comentou com uma leve risada, e Eiro apenas deu de ombros.

— Acho que sim. — Ele disse, e Nelli apareceu na frente dele com uma expressão confusa.

— Você costumava comer pessoas? — Ela perguntou, e Eiro acenou com a cabeça, um pouco confuso.

— Sim, há algo de errado com isso? Quero dizer, entendi que pessoas não comem outras pessoas, por conta daquela coisa toda de Maldição da Heresia, mas por que eu não deveria? Pessoas comem monstros o tempo todo, e vice-versa também. Os monstros comem um ao outro também. Eu sou um monstro, então… Eu não vejo o problema. — Eiro perguntou para o Espírito, e ela apenas suspirou enquanto balançava a cabeça.

— Nada, eu entendo. Só fiquei um pouco surpresa, isso é tudo. Não esperava que você fizesse isso… e que Arc soubesse sobre. — Nelli disse com uma expressão despreocupada. Espíritos normalmente não demonstravam preocupação por tais coisas, então tecnicamente Monstros e Pessoas não tinham muita diferença do ponto de vista deles. Então, ela entendia o que Eiro estava falando. Ela simplesmente não tinha visto ele comer uma pessoa.

Eiro resmungou baixinho sobre algo e arranhou sua bochecha, recordando de algo bastante desagradável.

— Arc estava lá quando eu desmembrei uma pessoa uma vez. E eu o fiz me ajudar com isso. — O Demônio comentou, mas, antes que Nelli pudesse dizer algo, ele rapidamente se virou para ela e tentou explicar. — Foi quando nos encontramos pela primeira vez, quando eu ainda era mais monstruoso! Eu nunca o obrigaria a fazer isso novamente. — Eiro disse, e Arc aparentemente apenas deu de ombros em resposta.

— É, está bem. Foi bem horrível na época, mas ambos vocês sabem que não me incomodo com eventos passados como esse. Agora, mais importantemente, vamos até a loja geral. Esse é o primeiro lugar, certo? — Arc perguntou, e Eiro assentiu.

— Sim… exatamente. — O Diabrete disse, realmente se sentindo horrível por ter feito Arc passar por tudo isso no passado, mas incerto de como deveria vocalizar essa sensação. O garoto realmente não parecia incomodado, afinal. Talvez Eiro estivesse se incomodando desnecessariamente com isso?

Tentando esconder esses pensamentos, Eiro tentou desviá-los e olhou para frente, em direção à loja geral, fazendo Lugo esperar do lado de fora novamente enquanto ele e Arc entravam.

Depois de terminarem seus negócios ao comprar as diferentes coisas que Eiro pedia todos os meses, eles empacotaram tudo nas costas de Lugo e se prepararam para deixar a cidade novamente, foram até o portão, embora um certo homem atualmente estivesse os esperando.

Eiro sabia que ele estaria ali, era difícil não notar por conta de sua voz alta e grave e seu cheiro bastante… forte. Ele tinha um cheiro realmente falso, e Eiro não gostava particularmente disso.

— Rumia… que horrível te ver hoje. — Eiro disse com uma leve zombaria, e Rumia apenas cruzou os braços e olhou para ele, ignorando completamente o que o Demônio acabara de dizer.

— Acho que meus soldados deixaram muito claro que queriam vê-lo, não é? E então você não os permitiu pegar sua besta fedorenta e dar a ela a honra de ser o alimento da Deusa, e até mesmo feriu dois dos meus homens. Essa é a mais alta traição que alguém poderia cometer. Eu, por meio de…

— Não. — Eiro disse com um tom claro e tentou passar por Rumia, que olhou confusamente para ele e rapidamente bloqueou o caminho.

— O que você acabou de falar? — Rumia questionou, e com sua expressão e voz irritada, Eiro olhou para o homem.

— Você é surdo? Eu disse ‘Não’. — O Demônio comentou, mas Rumia cerrou os dentes e olhou de volta para ele.

— Eu não estava pedindo, ‘Não’ não é uma resposta viável. — O homem respondeu. — Tal heresia simplesmente estenderá seu-

— Eu juro por todos os deuses em que você acredita, se não calar a boca, eu te esfaquearei agora. Não me importo com você, não me importo com a sua religião de merda e não me importo com o que pensa que eu deveria estar fazendo agora. E, como eu já disse para aqueles idiotas inúteis que tentaram me atacar antes, não quero problemas, mas se você vai me causar problemas de qualquer forma, não me importo de tornar isso maior ao matar você agora. — Eiro disse com um tom claro, e então manipulou a neve ao redor para subir pelas pernas de Rumia, enquanto a congelava constantemente em uma camada cada vez mais grossa, dando a Eiro, Arc e Lugo a chance de passar por ele.

Antes que conseguissem subir nas costas do Cervo, Eiro escutou o gelo rachar enquanto Rumia virava na direção dele.

— Pare aí! — Ele exclamou, e Eiro apenas o encarou. — Ótimo, você pode continuar com a sua vida herética por mais um pouco, mas o garoto fica! — Rumia gritou, mas o demônio não conseguiu fazer nada além de encará-lo confusamente.

— Que idiotice você está gritando agora? — Eiro questionou, e Rumia olhou para Arc, que estava atrás dele.

— Estamos nos preparando para uma guerra aqui! Qualquer um que tenha capacidade física é obrigado a treinar sob minha orientação para se tornar um soldado sagrado para lutar por nosso Rei Sagrado! — Rumia exclamou, e Eiro olhou para ele com um sorriso irônico.

— Novamente, que bobagem você está falando? — Eiro questionou mais uma vez, e Rumia se livrou do resto do gelo em sua espada e caminhou alguns passos para frente, tentando agarrar Arc pelo colarinho para levá-lo de volta para a cidade.

— Rumia… — Eiro disse com um rugido profundo que fez o homem hesitar por apenas um momento. — Se eu fosse você, eu me viraria e sairia da minha visão. Ainda melhor, deixaria essa cidade, antes que eu realmente acabe te matando aqui e agora. Mesmo que alguém muito mais forte que você e eu combinados acabe aparecendo, eu deixaria isso acontecer de bom grado, se isso significar que sua vida acabou. — O demônio apontou. — Vou te dar uma última chance, certo? Porque eu não quero que essa cidade acabe tendo que pagar por minhas ações. Deixe os residentes em paz e venha a cada três meses para contar às Damas a sua história. Não haverá celebração, nem festas, nada. Não para você. Você falará com elas brevemente e respeitosamente, e então as deixará tomar suas decisões. — Eiro disse para Rumia, com sua determinação clara, e o homem alto lentamente afastou sua mão do garoto à sua frente, apenas encarando de volta Eiro.

— Veremos em uma semana se nossa posição continuará a mesma. Assim que eu falar com a Dama do Inverno, então não precisaremos mais de você. Então será julgado por seus pecados… — Rumia exclamou, e Eiro o encarou de volta, com um sorriso feliz escondido sob sua máscara.

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