A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 101

A Virtude do Demônio

— Lugo, fique aqui. — Eiro disse com a voz clara enquanto descia das costas do Cervo e ajudava Arc a descer também. Lugo simplesmente caiu de bunda ao lado da porta da Guilda. O demônio abriu a porta e entrou, segurando a porta para Arc.

Em resposta ao baixo tilintar do sino em cima da porta, gerado quando alguém a abria. Tom olhou e colocou a cabeça para fora da sala dos fundos para ver quem estava lá e apenas sorriu enquanto se aproximava da parte da frente do balcão.

— Eiro, bom te ver! — O homem de meia-idade sorriu enquanto esticava a mão para o Demônio, que rapidamente retribuiu o aperto de mãos.

— Igualmente. Quero te apresentar para alguém. Esse é Arc, veio comigo para se inscrever na Guilda. — Eiro explicou, e, com um sorriso brilhante, Tom estendeu a mão para Arc para apertar a mão dele também, e o jovem rapidamente retribuiu.

— É um prazer te conhecer, Arc. — Tom disse, e Arc sorriu de volta.

— O prazer é todo meu. — Ele respondeu, e Tom contornou o balcão enquanto arrastava uma de suas pernas, como sempre fazia.

— Então, você deseja se juntar à Guilda? — O recepcionista da Guilda perguntou. Arc assentiu.

— Sim, eu quero! Dessa forma, posso começar a conseguir meu próprio dinheiro. — O menino disse, presunçosamente, e Eiro riu baixinho enquanto Tom acenava com a cabeça e entregava uma folha de papel e uma caneta para Arc.

— Então, por favor, preencha essas informações. Considerando a proficiência de Eiro, tenho certeza de que consegue ler e escrever, né? — Tom perguntou enquanto olhava para o menino com um sorriso, e Arc assentiu, embora aparentasse estar um pouco desapontado.

— À mão…? As guildas não deveriam ter coisas como ferramentas mágicas que podem escanear os status por conta própria ou algo do tipo? — Arc questionou, e, com uma leve risada, Tom balançou a cabeça.

— Não aqui, receio. Claro, em cidades maiores com guildas maiores, podem ter isso, mas essas ferramentas mágicas são bastante caras. Nós mantemos tudo no papel, e uma vez por ano alguém de uma filial maior vem aqui para copiar as informações, já que não conseguimos pagar uma ferramenta mágica por conta própria. — Tom comentou. — Você notará que não possuímos nenhuma ferramenta mágica nessa cidade, na verdade. Sem Cristais de Mudança de Classe, nem Repelentes de Monstros, nada do tipo. Para mudar de classe, assim como atualizar as informações da guilda, uma vez por ano alguém da igreja vem aqui com um cristal de mudança de classe portátil para deixar aqueles que podem mudar de classe trocarem. — Tom explicou muito claramente. — Eles normalmente vêm no verão, então ainda têm um tempo até lá.

— Você quer dizer que ficarei preso sem uma classe por mais meio ano…? — Arc perguntou com um sorriso irônico, e Tom simplesmente acenou com a cabeça novamente.

— Receio que sim.

Com um suspiro profundo, Arc olhou para a folha de papel e segurou a caneta, preenchendo rapidamente as informações, levantando a cabeça logo depois.

— E o que eu coloco como minha classe aqui?

— Você pode apenas deixar em branco, atualizaremos assim que realmente receber sua primeira classe. — Tom disse com um sorriso, pegando o papel e o colocando na área atrás do balcão, onde um cliente normalmente não conseguiria olhar.

— O seu cartão da Guilda levará um tempo para ficar pronto. Que tal eu entregá-lo para Eiro ao fim do Solstício e ele te entregar em casa? — O recepcionista sugeriu, e com uma expressão desapontada, Arc assentiu.

— Está bem, eu acho. — Ele respondeu, e Eiro rapidamente olhou para o garoto parado na sua frente.

— Arc… — O demônio disse, e o menino levantou as sobrancelhas, olhando para Tom novamente.

— Oh, certo… Obrigado pela ajuda. — Arc disse, e com uma risada, o homem de meia-idade balançou a cabeça, como se não acreditasse em algo.

— Um demônio dizendo para uma criança agradecer. Em que mundo vivemos?

— O homem riu. Ele olhou para as folhas de papel que estavam ao seu lado. — Hmm, por acaso já estaria interessado em aceitar o seu primeiro pedido, Arc? — Tom perguntou, e com um sorriso brilhante, o garoto concordou.

— Eu adoraria! Que pedidos você tem? — Ele perguntou, e Tom olhou as diferentes coisas que tinha ao seu lado, encontrando uma que parecia bastante interessante.

— Há um pedido que pede para ir às compras para a Srta. Jameson. Também há um para ajudar na ferraria, o ferreiro está bastante ocupado esses dias, e o filho dele também está… — Tom explicou, e embora Arc estivesse muito desapontado com esses pedidos, Eiro parecia bastante interessado no que escutou.

— Ele está ocupado? Todos os cavalos receberam novas ferraduras no mês passado, e a temporada de colheita acabou… por que o filho do ferreiro estaria ocupado, além de ajudar o pai? Ele apenas é parte da… — Eiro refletiu e, repentinamente, percebeu o que estava ocorrendo. — O que Rumia está fazendo? — Ele perguntou, e Tom esfregou a parte de trás do pescoço e suspirou profundamente.

— Ele está sendo bastante problemático, na verdade. Embora possa não ter más intenções, ele está tentando forçar suas ideologias na cidade e está tentando transformar a milícia em um verdadeiro grupo de soldados armados, mas você conhece esses homens, a milícia é apenas uma desculpa para se encontrarem e ficarem bêbados todas as noites sem que suas esposas digam que são vagabundos. — Tom disse com um suspiro, e Eiro levantou as sobrancelhas em resposta.

— Você não é parte da milícia também, tecnicamente?

— Sim, eu sou, é por isso que posso te contar como é, mas como estou comandando a Guilda, Lorde Argenson fez uma exceção para mim, e posso continuar trabalhando aqui, além disso, tem as minhas pernas… — O recepcionista da Guilda explicou, e Eiro assentiu levemente em contemplação.

— Tentarei falar com a Dama do Inverno sobre isso, talvez ela consiga falar algo quando Rumia inevitavelmente tentar falar com ela. — Eiro sugeriu, então Tom assentiu lentamente.

— Eu apreciaria muito isso. Não consigo nem imaginar que tipo de mudanças ele tentará colocar em prática durante o próximo ano… — O homem de meia-idade murmurou, e Eiro acenou lentamente, embora ainda tivesse ficado em silêncio e depois, após um tempo, olhou para Arc, enquanto olhava para os pedidos que Tom disse para ele escolher.

— Tom, você tem algum pedido que Arc consiga fazer fora da cidade? Algum pedido simples de colher materiais, por exemplo? — Eiro perguntou, e Tom esfregou o queixo em pensamento.

— Normalmente não tenho permissão para dar a um membro completamente novo um pedido acima do rank dele, mas farei uma exceção dessa vez. — Ele disse com uma piscadela, rapidamente pegando outra folha de papel e a entregando para Arc, que parecia um pouco mais satisfeito.

Depois que Eiro teve certeza de que era algo que Arc realmente conseguia lidar, ele assentiu em concordância e finalmente pegou o dinheiro para pagar pela taxa de inscrição, e Arc aceitou oficialmente o seu primeiro pedido.

— Certo! Isso cresce perto de nossa casa, certo? Isso será muito fácil de fazer, não é? — Ele perguntou animado, e Eiro assentiu.

— Sim, exatamente, mas você terá que procurar por conta própria, senão seria trapaça. — O demônio comentou. O garoto assentiu, e ambos se despediram de Tom, saíram da Guilda e se depararam com uma visão que não os agradou.

— Vamos lá, sua besta… gorda! Mova sua bunda! — Um soldado exclamou enquanto tentava empurrar Lugo de onde ele estava sentado, e Eiro olhou para o seu Familiar com uma expressão confusa.

— Lugo, você se sentou em algo dele? — O Diabrete perguntou, confuso, e o Cervo olhou para ele em contemplação por alguns instantes antes de negar com a cabeça.

— Você fez algo para irritá-lo? — Eiro perguntou em sequência, mas, mais uma vez, Lugo apenas balançou a cabeça, então o Demônio olhou para o soldado. — Então, qual é o problema agora?

Levemente surpreso, o soldado olhou para Eiro e deu um passo para trás quando recordou quem ele era, e então começou a gaguejar.

— E-Esse Cervo é s-seu? — Ele questionou, e Eiro assentiu, esperando pelo que o soldado tentava dizer.

— Ent-então, devo dizer que nó-nós estamos o confiscando… sob o nome do R-Rei Sagrado… — O soldado falou, e Eiro olhou para ele com um suspiro e balançou a cabeça.

— Não, você não está. — O Demônio respondeu, estalando os dedos para dizer a Lugo para se levantar. Ele foi em direção à primeira loja que precisavam ir, seguido rapidamente por Arc e Lugo, enquanto o soldado levava um tempo para compreender que Eiro ignorou completamente o seu comando.

— Não é você quem decide! Estamos preparando uma festa para a Dama do Inverno que virá daqui uma semana, e precisamos da melhor das melhores comidas para essa ocasião! — O soldado exclamou. — Você é obrigado a apoiar a nossa ação!

Com uma expressão muito irritada, escondida pela sua máscara, Eiro se virou e encarou o soldado, bastante bravo com o que ele acabou de dizer, mas antes que pudesse fazer ou falar algo, Arc se adiantou e se aproximou do soldado com um sorriso brilhante.

— Meu caro, eu sou Arc, e você? — O garoto disse com um sorriso, e o soldado franziu o cenho lentamente e respondeu.

— Apesar de não ser importante, meu nome é Gerald.

— Você está certo, você é completamente insignificante, estou feliz que perceba isso. Agora escute aqui, Gerald, você está tentando dizer que estão preparando uma festa para uma Deusa da Natureza, matando um ser da natureza? — Arc questionou, rindo levemente enquanto fazia isso, e Gerald apenas acenou com a cabeça.

— Claro! — Ele exclamou, e Arc olhou para ele com um sorriso irônico.

— Essa não é a resposta que eu esperava, honestamente. Bem, companheiro, escute aqui: você é um idiota estúpido. Eu não encontrei as Damas pessoalmente, mas, pelo que escutei, elas não são grandes fãs de destruição e assassinatos sem sentido, então o que você está tentando fazer pode não ser necessariamente a melhor escolha a seguir.

— O que você está falando? Isso não é assassinato, também não é destruição sem sentido. Bestas como esse cervo existem para ajudar as pessoas a progredirem. Elas devem ser mortas, isso é a própria natureza. Seres inferiores, tais como espíritos, bestas ou monstros, todos existem apenas para o crescimento das pessoas. Esse é o ensinamento da nossa Igreja, e eu assumo que a Deusa concordaria conosco, afinal, elas devem conhecer a verdade, não deveriam? Então, obviamente não irá se importar.

— Oh, cara, que legal! — Arc exclamou, e ambos, Eiro e o soldado, olharam para ele surpresos, embora o soldado pensasse que o garoto estava sendo convencido pelos ensinamentos da Igreja.

— Ah, então você consegue ver a verdade por trás disso agora? — O soldado perguntou com uma expressão presunçosa, e Arc apenas balançou a cabeça, com um sorriso brilhante.

— Na verdade, não! Acabei de receber uma habilidade nova, é chamada de ‘Entendimento da Linguagem Idiota’! Tenho certeza de que será realmente muito útil no futuro, pois até agora não entendi nada das suas divagações imbecis!

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