
Volume 2 - Capítulo 100
A Virtude do Demônio
— Fique… parado… já! — Eiro exclamou alto enquanto levava um certo manequim de madeira pela floresta. Por pouco mais de um mês, ele esteve tentando derrotar o boneco em uma luta, pegá-lo ou encontrá-lo para a tarefa da última ficha, a qual se baseava em encontrar o fantoche enquanto ele se escondia na floresta em uma localização aleatória a cada vez.
Ele, pelo menos, conseguiu analisar os movimentos do manequim para mal conseguir desviar durante cinco minutos, antes de ser derrotado na luta de Maestria com Adagas, e conseguia durar um único minuto em combate corpo a corpo. Felizmente, aprendeu a habilidade e agora conseguiu subir o nível dela consideravelmente para alcançar um nível relativamente alto no Grau Iniciante.
Mas a tarefa que mais o incomodava era a tarefa relacionada à Corrida Livre. Claro, era irritante e frustrante que, de alguma forma, não conseguia nem mesmo perceber o manequim na última tarefa, ou que não conseguia derrotá-lo nas duas tarefas de maestria de combate, mas, de algum modo, o fato de que não conseguia alcançá-lo o irritava ainda mais.
Ele usava caminhos pela floresta que Eiro normalmente evitaria, por conta do terreno problemático, e andava por eles como se estivesse em um terreno plano, escalava árvores e paredes de rochas como se fosse nada, e acabava deixando o Demônio para trás. E o pior de tudo, desde que estava treinando sua percepção para encontrar o boneco para a tarefa de percepção, era ele que realmente estava emitindo sons. Eiro sabia exatamente onde ele estava, mas ainda não conseguia pegá-lo e ele não parecia ter nenhum tipo de melhoria depois do último mês em que esteve treinando com o manequim.
Claro, como recebeu a habilidade de ‘Corrida Livre’, conseguiu controlar o seu corpo ligeiramente melhor quando corria através de florestas, mas a distância entre ele e o fantoche nunca diminuiu.
Ao ver que hoje, mais uma vez, não conseguiu pegá-lo, o Diabrete gritou.
— Eu desisto! — O que rapidamente fez o manequim parar e voltar para Eiro, que apenas o olhou irritado. — Seu desgraçado… — Ele murmurou, e então ficou ereto enquanto tentava controlar sua respiração. — Vamos, estamos voltando para casa. — Eiro disse para o manequim e então se virou, caminhando lentamente, esmagando a neve sobre seus pés enquanto fazia isso. Ele tinha que se preparar de qualquer forma, já que iria para a cidade essa noite.
De volta em casa, o Demônio conseguiu ver as crianças praticando com as tarefas que deu para elas, enquanto Avalin e Leon brincavam juntos como o normal. Ao ver que ele retornou, Sammy olhou para ele com um leve sorriso.
— Então, teve sorte dessa vez? — Ela perguntou, e o Diabrete apenas balançou a cabeça enquanto substituía a ficha no peito do manequim pela ficha em branco, para que ele ficasse em modo de ‘espera’, e então olhou para as crianças.
— E vocês, como estão indo? — O demônio perguntou, e elas apenas deram os ombros levemente.
— Bem, não há muito progresso, na verdade… Nossas habilidades aumentaram um pouco, como você disse que iriam, então conseguimos nos controlar melhor, mas… — Rudy comentou. Eiro apenas acenou a cabeça em resposta.
— Eu sei, não se preocupe. Pedi para Tom tentar procurar livros sobre as técnicas que estou tentando ensinar para vocês. Mostrei-as para ele quando estive lá mês passado, então ele deve ter conseguido entender. Os trarei amanhã para que possamos começar apropriadamente. — Eiro explicou, e Arc assentiu animado.
— Certo, nós vamos trazê-los de volta conosco. — Ele exclamou, e Eiro olhou para o garoto com as sobrancelhas levantadas.
— Nós? — Ele questionou, e Arc olhou para ele com um pequeno sorriso.
— Isso, nós. Você prometeu que iria me levar assim que eu tivesse 15 anos, certo? Para me registrar na Guilda? — Ele disse, e então, a lembrança voltou para a mente do Demônio.
— Oh, certo… Me desculpe, muito aconteceu, então eu realmente me esqueci. — Eiro admitiu, e então assentiu. — Certo, então comece a se preparar e talvez dormir um pouco antes de irmos, pois não teremos muitas chances para descansar no caminho. — O Diabrete explicou, e Arc acenou a cabeça animadamente.
— Certo! — Ele gritou, e então entrou rapidamente em casa para fazer o que o Demônio sugeriu. Eiro suspirou ligeiramente e olhou para as outras crianças.
— Vocês vão em frente e finalizem o dia por aqui também. — Eiro sugeriu, e todos fizeram o que ele disse, entrando em casa, enquanto Nelli flutuava ao seu lado, com uma leve carranca na face.
— Você realmente quer levar Arc para a cidade agora? Com todos aqueles soldados correndo por aí? — Nelli questionou, e Eiro assentiu.
— Sim, por que não? Ocorreu tudo bem quando fui até lá mês passado, e a maioria dos soldados não parecia ser tão idiota como Rumia. Então, por agora, tudo deve ficar bem. O Solstício de Inverno acontecerá daqui a uma semana, então também devem estar cautelosos com suas ações. — Eiro apontou, e a Náiade olhou para ele com um sorriso irônico.
— Eu estava mais preocupada com Arc do que com os soldados, sabia? — Ela disse, e Eiro olhou para ela, confuso, quando ela disse isso.
— O que você quer dizer? Ele é um bom garoto, não é?
— Claro, ele é esperto, bonito, alto para sua idade e bem-humorado, mas ele não conhece nenhuma restrição, pois não é afetado por nada. Então, ele pode acabar falando algo que irrite os soldados… — Nelli apontou, mas Eiro apenas balançou a cabeça em resposta.
— Não se preocupe, tenho certeza de que tudo ficará bem. Falaremos com ele sobre isso, e tudo deve ficar bem.
Com essas palavras em mente, apesar de Nelli estar incerta se conversar com ele sobre o assunto seria suficiente, o Demônio começou a preparar tudo para a viagem, enquanto levava em consideração o fato de que Arc também montaria nas costas de Lugo. O Cervo parecia um pouco incomodado com o fato de que teria que carregar duas pessoas de uma vez, mas depois que Eiro fez o seu melhor para convencê-lo pacificamente, Lugo parou de reclamar e deixou o garoto subir em suas costas quando era hora de sair.
Antes que o próprio Eiro montasse nas costas de Lugo, ele olhou para Rudy, que era o mais perto dele naquele momento.
— Se algo acontecer, como um monstro ou pessoa aparecer perto daqui, coloque a Ficha de Maestria com Adagas no manequim. Ele tem aquela adaga antiga ao lado dele para isso. Portanto, deve ser capaz de defender vocês, se chegar a isso.
Com um aceno lento, Rudy respondeu.
— Claro, faremos isso, mas não se preocupe, nada acontecerá conosco. — O garoto respondeu, então Eiro sorriu levemente para ele, um pouco nervoso.
— Certo. Então tenha certeza de praticar apropriadamente, estaremos de volta amanhã à noite. — Eiro disse para ele, e Rudy simplesmente sorriu de volta.
— Tenha uma viagem segura. Te vejo amanhã. — Ele respondeu, então Eiro disse para Lugo começar a se mover e depois acenou para Rudy.
E apenas alguns minutos depois, Arc olhou para Eiro, curiosamente.
— Então, o que faremos durante o caminho? — O garoto questionou, mas o Diabrete levantou as sobrancelhas e olhou para ele com uma leve caravana.
— Eu normalmente leio… Não há muito que realmente possamos fazer, sabe? — Eiro comentou, e Arc olhou para ele surpreso.
— O quê, nós não faremos nada esse tempo todo?
— Eu acabei de dizer que leio, não é? — O Demônio respondeu com uma pequena risada, e Arc apenas resmungou alto.
— Certo… Então, pode me emprestar um dos livros que não está lendo agora?
Com um aceno, o Demônio esticou a mão para frente, pronto para retirar um dos seus livros da prateleira invisível.
— Claro, qual você quer? Agora estou lendo ‘Geografia, História e Atualidades do Continente’, mas também tenho ‘Teoria Avançada da Desconstrução e Construção Espacial’, ‘Crescimento Ilimitado da Vida Vegetal’ e ‘Existencialismo dos Monstros’. Você já leu o de Crescimento Ilimitado, certo? — Eiro perguntou, e Arc assentiu lentamente.
—Sim. Na verdade, foi bastante interessante, falava sobre a possibilidade de diferentes espécies vegetais crescerem para uma extensão imensurável através de magia. Por exemplo, uma maçã poderia ser tão grande como nossa casa, ou um melão poderia ser do tamanho de um castelo. Também havia algumas partes sobre como isso poderia acabar com a fome em Arengard, apesar da seca e das guerras. — Arc apontou. — No geral, muito interessante. Poderia me dar o de Teoria Avançada? Desconstrução e Construção Espacial… Essa é a teoria que fala sobre como toda a matéria é reinventada em algum modo, formato ou forma, e que nada é perdido ou recebido, certo? — Arc perguntou, e Eiro assentiu.
— Uhum, já folheei um pouco antes, é principalmente sobre como a magia consegue criar matéria, e teorizar sobre como isso influencia nosso mundo a longo prazo. — Ele explicou enquanto retirava o livro de sua tesouraria e o entregava para o garoto sentado atrás dele, que rapidamente o folheou.
— Legal. Quero dizer, é magia, certo? Não há necessariamente um motivo por trás de como isso cria as coisas. Certo, Nelli? — Arc perguntou, o espírito apareceu na frente dele.
— Quero dizer… Eu não sei exatamente sobre esse tipo de coisa, apenas faço água. Como se transformasse a mana que tenho nela, é como se colorisse uma folha de papel, tipo isso. De uma forma estranha… — Nelli explicou, antes que Eiro risse ligeiramente.
— Ótima explicação. — Ele disse, e a Náiade flutuou na frente do seu contratante com uma cara profunda.
— Hey, é uma explicação melhor do que todos aqueles ‘analistas’ dizendo que retiramos água de outro reino, o que não fazemos.
— Os Espíritos não poderiam ir à frente e apenas falar isso para esses ‘analistas’? — Arc questionou, e Nelli assentiu.
— Quero dizer, eu pessoalmente gostaria, mas já expliquei para Eiro muitas vezes, Espí-
— Abre aspas: Espíritos são uns babacas. Fecha aspas. — O Demônio interrompeu, e com uma risada, Arc abriu o livro em suas mãos e começou a lê-lo, enquanto Nelli desaparecia de volta para o espaço ‘intermediário’ e continuava importunando Eiro sobre todo tipo de coisa que ele tentou ignorar. Ela apenas queria irritá-lo, então ele não prestou atenção no que ela fazia.
A viagem continuou pelas próximas dez horas até chegarem à cidade ao nascer do sol, e Eiro rapidamente retirou sua máscara da Tesouraria, guardou os dois livros que ele e Arc estavam lendo e se preparou para entrar na cidade. Embora, para sua surpresa, agora houvesse um guarda estacionado no portão, e era um dos soldados que Rumia trouxe com ele, que rapidamente o impediu de entrar.
— Você, senhor, tem que se reportar ao Lorde Argenson antes de entrar na cidade. — O soldado disse, mas Eiro suspirou em resposta e balançou a cabeça.
— Sabe… não, não tenho. — Ele apontou e apenas disse para Lugo continuar se movendo, embora o soldado tenha levantado sua lança na frente do Cervo.
— Eu… eu disse que precisa se reportar para o Lorde Argenson. — O soldado disse nervosamente, e Eiro franziu a testa.
— E eu disse muito claramente que não tenho, não é mesmo? Você percebe que estou em uma posição de poder sobre ele, e não o contrário, certo? Então vá em frente e diga para Rumia que ele pode se reportar a mim, se realmente quiser falar comigo. — O Demônio disse com um olhar profundo, fazendo o soldado abaixar sua lança, enquanto Lugo entrava na cidade, e Arc apenas se virou para o soldado enquanto saíam e sorriu amplamente para ele, esticando a mão para mostrar para ele o seu dedo do meio.
…