
Volume 2 - Capítulo 86
A Virtude do Demônio
A pequena pilha de lascas de madeira que Eiro esculpiu dos pedaços de madeira lentamente foram se acumulando, enquanto ele continuava com seu trabalho. Isso tinha que ser absolutamente perfeito… afinal, era algo que poderia ser visto como uma prova do fato de que Eiro foi o estudante de Jura pelos últimos cinco anos.
O Demônio havia reunido um conhecimento incrível sobre anatomia de diferentes seres ao longo dos últimos anos, e quando se tratava de maços, ele conhecia tudo sobre a mão de um Diabrete, afinal, ele tinha uma. Cafa retração dos seus músculos quando tensionava as diferentes partes da sua mão, cada osso que se torcia de diferentes maneiras dependendo de como você movia sua mão, tudo isso era algo que Eiro queria levar em consideração.
Ele havia visto Jura trabalhar em projetos como esse duas ou três vezes antes, e foram os únicos projetos que ele realmente trabalhou em casa. Claro, além dos trabalhos que ele fez de exemplos para Eiro enquanto o ensinava.
Isso seria uma cópia exata de como seria uma mão. De como uma mão deveria ser. Era algo que permitia um controle incrível sobre um membro artificial. Era parecida com a mão atual de Eiro. Não era completamente sólida como ele pensou que seria no começo, mas o interior da palma era parcialmente oco e cheio de peças que permitiram Eiro mover seus dedos individualmente.
Não tinha uma fonte de poder especial, ela era simplesmente ‘preenchida’ com a mana que havia em seus corpos, significando que o membro como esse naturalmente pegaria um pedaço da quantidade total da regeneração de mana, o que era um preço que Eiro não se importava de pagar, já que a de Jura sempre foi bastante eficiente.
De qualquer forma, logo Eiro parecia ter terminado as peças que precisaria para a mão, e então expirou lentamente o ar que estava mantendo nos pulmões pelos últimos minutos, enquanto terminava a última parte de sua futura mão.
Suas mãos estavam doendo estranhamente, especialmente suas articulações. Provavelmente era porque ele era mais sensível a tais coisas agora, com sua nova carta. Com um leve suspiro, Eiro simplesmente se inclinou para trás na cadeira e olhou para as peças à sua frente, simplesmente escolhendo fazer uma pequena pausa.
Embora, de repente, conseguiu escutar o barulho de água fervendo do cômodo ao lado… Assim como os passos de Avalin e Leon, que estavam dando trabalho para Sammy. Ele conseguiu sentir o cheiro da carne crua que Rudy estava preparando atualmente, e escutou Clementine e Arc, que conversavam sobre quanta comida tinha para cada animal.
Isso foi um pouco… surpreendente. Ele de alguma forma não notou nada disso enquanto trabalhava, e então, tudo isso veio de uma vez quando ele parou de se concentrar nessa única ação. Talvez ele estivesse apenas notando tudo tão fortemente porque sabia que estava ali naquele exato momento, ou porque ele não estava pensando sobre as outras coisas além do que estava percebendo.
— Será que pode ser isso…? — Eiro murmurou, enquanto escolhia lentamente mudar exatamente o que estava prestando atenção agora. Ele deixou todo o resto se dissipar, e então escutou apenas o som da água fervendo, e sentiu o cheiro do metal que a panela era feita. Ele havia realmente afastado tudo, e em vez disso, essa única coisa se tornou muito mais forte.
— Hmm… — O Demônio sussurrou, antes de se virar para olhar a janela ao lado da porta. Ele já conseguia ver cada acúmulo de sujeira e partículas de poderia que estava cobrindo os painéis de vidro. Era um tanto distrativo, se ele tivesse que ser honesto. Então, Eiro lentamente tentou ignorar essa sujeira e poeira, e, em vez disso, se concentrar na coroa de uma árvore à distância.
E logo, como se a árvore fosse a única coisa a sua frente. Parecia até que sua visão havia… se estreitado. Ele estava vendo apenas aquela árvore, como se estivesse parado bem na frente dela. Isso acabou manchando levemente os seus olhos, então ele rapidamente voltou à sua visão ‘normal’, mas esse já foi um progresso imenso.
Imaginou que sua habilidade ‘Concentração’ ser um dos principais motivos para conseguir controlá-la tão bem quando realmente tentou o método correto, então Eiro ficou muito feliz com isso.
E com um sorriso no rosto, estranhamente animado, o Diabrete voltou ao trabalho, e apenas tentou colocar toda a sua concentração nisso novamente, dessa vez conscientemente. De novo, parecia como se tudo o que existisse nesse instante fossem as partes da mão de madeira que estava para criar, e esticou lentamente sua mão para frente e segurou e primeira peça.
De alguma forma, parecia que essa pequena peça tinha uma quantidade razoável de peso, embora Eiro não conseguisse realmente descrever as razões para pensar assim. Apenas era assim que parecia para ele. Ele sabia que ela não era nada pesada, mas essa estranheza deixou mais fácil de manusear.
E então, Eiro lentamente começou a juntar a mão de madeira, peça por peça, até que tivesse uma ‘estrutura’ bruta em sua frente. Fazia algumas gotas desde que começou a juntar tudo, mas, agora, faltava apenas um passo… colocar as partes ‘externas’ juntas. E essas partes ‘externas’ eram os painéis que ele usaria para cobrir tudo,
Primeiro, Eiro adicionou a parte da palma e depois as costas da mão. Ele tentou o seu melhor para conectar tudo o mais apertado possível, sem influenciar a mobilidade das partes internas da mão, mas isso foi um pouco mais difícil de fazer do que ele pensou. De qualquer modo, logo depois de mexer um pouco, conseguiu terminar isso apropriadamente e então se moveu para os dedos.
Com apenas um pouco de cola, ele conseguiu conectar à parte ‘interna’ arredondada dos dedos com a parte ‘exterior’ plana, e até adicionou unhas como peças extras, embora isso tivesse apenas uma razão. Desa forma, se quisesse, talvez poderia adicionar algumas garras de metal nos dedos de madeira, as quais poderia utilizar para lutar.
E depois de criar também as articulações, e preencher quaisquer aberturas com a substância viscosa e levemente emborrachada, que secaria e daria a certeza de que as coisas dentro da mão não influenciassem a mobilidade dos dedos e da mão em si.
Desse modo… Eiro tinha uma mão de madeira azul-claro à sua frente. Com essa nova visão, ele rapidamente olhou para a superfície da madeira para ter certeza de que tudo estava realmente perfeito, pois seria um pouco chato tirá-la novamente mais tarde.
Lentamente, o Demônio se sentou na cadeira enquanto praticamente empurrava o seu corpo para cima dela com seus pés, enquanto eles se envolviam ao redor das pernas da cadeira, antes de agarrar perto da base da sua mão de madeira.
Esses membros tinham um truque para serem removidos, e isso não era necessariamente confortável. A razão para esses membros falsos funcionarem tão bem é porque eles tinham parte da Força Vital da pessoa neles, então podiam ser vistos como uma parte real do corpo. Quando se tratava de outros seres, como animais, monstros ou pessoas, isso só poderia ser feito se você realmente tivesse a habilidade de controlar a Força Vital deles. Isso também significa que Eiro ainda não conseguiu fazer membro móveis como esses… Ele conseguia fazer próteses incríveis, mas elas não seriam ‘especiais’ ou ‘mágicas’ até que conseguisse usar a Força Vital nessa extensão.
Mas, felizmente, como conseguiu controlar sua própria Força Vital muito bem, isso não seria um problema. Infelizmente, não era possível para Eiro ir além do formato de sua mão, e dar a ela algo como uma super mão com vinte dedos… A única razão para isso funcionar era porque a ‘Alma’ do ser ainda reconhecia o membro faltante como algo que deveria estar ali, motivo pelo qual coisas como a dor fantasma existir, então, com o membro protético adequado, era possível enganar a alma para acreditar que o membro era real… De outra forma, Eiro já teria criado um par de asas gigantes para si mesmo, ou um par de braços extras ou algo do tipo.
Bem, ele provavelmente conseguiria conectar tudo isso ao seu corpo, apenas não conseguiria usá-los.
De qualquer forma, por agora, Eiro tinha que desconectar sua mão atual do seu braço, o que ele fez puxando-a lentamente enquanto retirava qualquer Força Vital que estivesse na prótese.
Fazer algo assim com um membro real normalmente teria o matado quase instantaneamente, mas um membro falso como esse apenas pararia de ser visto como um substituto… E então, poderia ser cortado.
Afinal, não era porque havia um pouco de Força Vital na prótese que ela flutuaria magicamente do toco. Não, a madeira precisava basicamente se fundir com a carne de Eiro, e algo assim não poderia ser desfeio facilmente, significando que a escolha mais simples era apenas cortá-la.
Embora, com o senso de dor do Demônio aprimorado… Isso era um pouco assustador até para ele, então, lentamente mordeu um pedaço de madeira que havia colocado ao seu lado e então colocou sua mão de madeira, agora flácida, na mesa, cortando lentamente através de sua pele o mais perto que conseguiu da madeira.
Foi incrivelmente doloroso, mas felizmente ele conseguiu controlar apropriadamente seu sangue usando Magia de Água, e assim poderia ter certeza de que não estava perdendo muito Vida.
Logo, a mão de madeira caiu e Eiro se sentou na cadeira com olhos lacrimejantes e um toco sangrento. Ele suspirou profundamente enquanto continuava segurando seu braço e agarrou sua nova mão, ao mesmo tempo que saía da cabana e ia até a parte principal da casa, abrindo ligeiramente a porta par chamar a atenção de Nelli, antes que ela flutuasse até ele para perguntar o que ele precisava.
— Tudo certo? Por que você… Santo Rei e Rainha, onde está a sua mão?! — Ela perguntou em choque, e Eiro apenas olhou para ela com um sorriso irônico.
— Por favor, não grite muito, apenas preciso que cure meu ferimento enquanto eu seguro a maço de madeira contra ele, certo?
— Tsk, certo, eu já fiz isso um milhão de vezes antes, mas… Você precisava cortar sua mão dessa forma antes de me contar? — Ela perguntou com um suspiro, enquanto seguia Eiro de volta para a cabana, onde o Demônio se virou ligeiramente para ela e deu de ombros.
— Me desculpe, parece que fiquei um pouco animado. — E então, como disse antes, segurou a base da mão de madeira contra o seu toco, antes que Nelli colocasse uma das suas mãozinhas contra a pele de Eiro, a outra na madeira azul-claro, e água começou a escorrer do corpo dela enquanto ela murmurava algum feitiço, e o ferimento lentamente se fechou, enquanto se conectava à mão de madeira que Eiro fez.
— Minha cura é muito mais fraca sem ser contratada… Me desculpe. Por agora não a conecte ao seu corpo e me deixe tentar curar isso pelos próximos dias, okay? — O Espírito sugeriu, e embora Eiro estivesse um pouco hesitante, acenou lentamente a cabeça, enquanto agarrava algumas bandagens que tinha prontas na prateleira, amarrando-as rapidamente ao redor da mão e dos dedos apropriadamente antes de amarrá-la ao seu braço, apenas para mantê-la no lugar enquanto estava sendo curado, e então olhou para o Espírito com um leve sorriso.
— Na verdade, sobre isso… Nelli, quer formar um contrato comigo?
…