
Volume 2 - Capítulo 85
A Virtude do Demônio
— Um… Dois! TRÊS! — Eiro gritou o mais alto que conseguia, sozinho na sala separada do porão. Pelos últimos dias, ele esteve tentando o seu melhor para sobrecarregar continuamente os seus sentidos com o objetivo de eles se acostumarem com isso, e no processo, finalmente conseguir viver apropriadamente com seus novos sentidos.
Ainda era um pouco desconfortável, mas parecia que seu corpo havia se adaptado apropriadamente a essas novas sensações. Agora, estava simplesmente tentando ter certeza de que estava realmente bem com sua audição, e como estava, rapidamente saiu do porão. Pois hoje, finalmente começaria a trabalhar em um projeto bastante importante.
Durante os últimos dias, Eiro percebeu cada vez mais que deveria substituir sua mão direita. Essa era a razão para ele ter cuidado da semente no começo de seu aprendizado, afinal. E para isso, ele teria que atravessar a floresta enquanto praticava o seu controle sensorial, algo que achou ser uma boa ideia. Ele sempre confiou em sua visão, então imaginou que seria uma boa ideia se livrar desse sentido por agora, e prendeu algum pano ao redor dos seus olhos, o mais forte que conseguiu para que finalmente visse apenas o preto como breu que normalmente via quando fechava os olhos.
— Lugo, venha aqui. — Eiro disse baixinho, enquanto levantava a mão direita, e logo escutou o Cervo se aproximando, e o Diabrete tentou se concentrar na figura de Lugo o máximo possível. Ele sabia como ele geralmente se movia, então talvez conseguisse usar isso como referência opara imaginar como exatamente ele estava se movendo agora.
— Sua cabeça está baixa… porque você… você tem um pouco de comida das vacas em sua boca? De novo? — Eiro perguntou irritado com a visão, e então conseguiu escutar Lugo rapidamente engolir o que estava comendo. — Você tem sua própria comida… Mas, deixa pra lá… Sua respiração está rápida, mas isso é porque eu te peguei… e… você precisa de um banho… — O Demônio suspirou, antes de virar lentamente na direção que se recordava ser o caminho.
— Apenas caminhe atrás de mim, e me ajude no caso de eu estar prestes a bater em algo, ou no caso de eu cair… — Eiro disse para o seu Familiar e começou a caminhar lentamente para frente, ouvindo as lâminas de grama que pressionava sob seus passos.
Havia algo correndo à distância à sua direita… Um coelho, talvez. Alguns insetos estavam se arrastando dentro de basicamente cada árvore, criando um som estranho e desconfortável enquanto faziam isso.
Mas eles eram especialmente uma boa ajuda para imaginar onde as árvores estavam, mesmo que já soubesse de alguma foram através do olfato. Especificamente, Eiro estava tentando não se ‘recordar’ do caminho, pois, se fizesse, poderia navegar muito bem pela floresta sem nenhum de seus sentidos.
Em vez disso, estava tentando visualizar a área ao redor em sua mente. Primeiro foram os cheiros, representados por uma névoa fina e colorida, em que cada cor era algo que Eiro instintivamente conectava a cada cheiro sem nenhuma ordem. Então foram os sons, que eram como ondulações na superfície da água, apenas se espalhando para todos os lugares ao redor dele.
Eiro não estava respirando através da sua boca, então o paladar não era realmente usado nesse momento, mas seu tato sim. Ele conseguiu sentir as mudanças suaves no ar ao redor, e elas eram simples linhas brancas, movendo-se na direção do vento.
Era realmente muito difícil e se concentrar em tudo, mas todos esses sentidos, de algum modo, se misturavam tão intensamente que algumas vezes as ondulações estavam nas cores dos diferentes cheiros, e os cheiros não estavam como a névoa, mas, em vez disso, como as linhas que normalmente se conectavam ao vento.
Era difícil se concentrar em todas essas coisas de uma vez… mas, pelo menos, ajudou a aprimorar um pouco essa habilidade, mesmo que sua concentração vacilasse algumas vezes quando quase tropeçava em coisas aleatórias sobre o chão.
Era surpreendentemente difícil caminhar por aqui enquanto estava cego… E Jura fazia isso parecer tão perfeitamente bem, como se ele conseguisse ver cada detalhe única ao redor dele. Quanto tempo levaria para Eiro alcançar esse ponto?
Talvez amanhã, talvez no próximo ano, ou talvez nunca… ele realmente não sabia, mas sabia que tinha que continuar em frente e tentar o seu melhor até que soubesse.
— O rio… esse caminho… — Eiro sussurrou enquanto tentava identificar apropriadamente a direção de onde o som de água fluindo vinha, e então lentamente foi até lá, embora isso parecesse ter feito sua concentração vacilar muito, pois pisou direto na toca de um coelho ao lado do caminho em que estava indo, embora Lugo tanho o segurado rapidamente e o levantado.
— Obrigado. — O Demônio disse enquanto passava os dedos pelo focinho de Lugo, começando a sentir um leve formigamento, como se houvesse algo se movendo. Lentamente, passou os dedos através dos pelos do Cervo para seguir esse formigamento, cada vez mais seguindo como uma ‘batida’, antes que chegasse até o torso de Lugo.
— Ah… Esse era o seu… sangue? — Eiro perguntou baixinho, enquanto sentia o corpo de Lugo tremer ligeiramente, enquanto o Cervo provavelmente inclinava a cabeça para o lado, confuso. — Nada, apenas vamos…. continuar. — Eiro sugeriu e levantou a mão do torso de Lugo, virando-se de volta para onde conseguiu escutar o rio antes, e então logo estava parado bem em frente à água gelada. Agora, Eiro apenas tinha que caminhar ao longo dele, até chegar na pequena margem em que sua Árvore estava ocupando.
Nos últimos cinco anos, ela realmente cresceu muito, muito mais do uma árvore normalmente cresceria nesse período, e parecia como se já tivesse algumas décadas. Era realmente incrível, e cada vez que Eiro olhava para ela, se sentia atordoado com o que criou. E então, lentamente removeu o tecido sobre seus olhos para se sentir exatamente da mesma forma de novo, apesar de que dessa vez…. era um pouco diferente.
Como os olhos dele agora eram capazes de ver os menores detalhes em tudo, transmitiam as imagens para seu cérebro, e essas imagens se misturavam às imagens falsas que criava em sua mente para visualizar os cheios, sons e o vento ao redor, essa árvore parecia ainda mais incrível do que ele poderia ter realmente esperado, e ele pensou que ela era incrível por todo esse tempo.
Com um leve sorriso, Eiro simplesmente foi até lá e rapidamente congelou um pequeno ‘caminho’ entre esse lado do rio e o centro da margem, e caminhou até lá com um sorriso no rosto, colocando lentamente a mão na casca.
Ela parecia áspera e fria, quase congelante, mas era um objeto cheio de vida que estava profundamente conectado a Eiro em si.
— Certo… Vamos pegar o material que preciso, tudo bem? — O Demônio murmurou enquanto olhava ao redor da árvore para ver se havia um bom lugar que poderia usar como apoio, e logo encontrou uma pequena fenda na casca da qual tinha certeza que conseguia colocar o seu pé, então fez isso e escalou subiu em um dos galhos próximos, rapidamente dando uma olhada ao redor, antes que de alguma forma encontrasse o galho perfeito para usar como base, então retirou sua serra de sua Tesouraria, empurrando-a e puxando-a contra a parre de cima do galho, antes que a parte conectada se tornasse muito fina e fraca para se segurar e o galho simplesmente quebrasse.
Eiro tentou segurá-lo um pouco para que conseguisse um corte bom e limpo, mas ainda havia algumas lascas. Era irritante, mas não havia nada mais que ele realmente podia fazer sobre isso.
Assim que tinha certeza de que o galho estava deitado no chão seguramente, o Demônio desceu de volta e procedeu para cortar os pequenos ramos que ainda estavam nele, e então assentiu a cabeça em satisfação. Realmente parecia um pedaço de madeira muito comum, e Eiro o carregou de volta para o outro lado do rio, onde Lugo esperava, e então amarrou o galho nas costas do Cervo. Não era tão pesado, era apenas bem longo e desajeitado, e como Eiro voltaria para casa com seus olhos vendados novamente, queria ter certeza de que poderia fazer isso sem nenhuma obstrução desnecessária.
E felizmente, Eiro conseguiu voltar perfeitamente, dessa vez sem nem precisar da ajuda de Lugo.
Na casa, o Demônio retirou a venda e pegou o galho das costas de Lugo, antes de ser acompanhado até a cabana pelo cervo, que rapidamente se sentou no chão à direita da bancada de Eiro.
Normalmente, Eiro trabalharia do lado de fora, mas aqui, tudo era mais controlado, então ele se sentia mais confortável. Agora aproveitando a chance, Eiro rapidamente começou a descascar o galho apropriadamente e cortar qualquer parte que não parecesse utilizável, embora tivesse as deixado ao lado apenas no caso de precisar.
O Som era tão intenso para ele, e as pequenas vibrações que percorriam o seu corpo enquanto removia a casca do galho eram tão… gratificantes! Estavam se movendo através de todo o seu corpo, e, no fim, ele simplesmente sorriu enquanto acenava para o lado para fazer os pedaços da casca se reunirem em um lugar para que conseguisse mais facilmente depois. Magia de Vento era muto útil para isso.
Apesar de algumas vezes parecer… estranho conjurar magia com seus novos sentidos. Parecia que algo estava literalmente escorrendo da sua pele sempre que fazia isso… o fato de que conseguia sentir seu próprio sangue fluindo pelo seu corpo já era estanho suficiente.
De qualquer maneira, agora que o primeiro passo estava pronto, Eiro primeiro retirou sua capa e a pendurou ao lado da porta, retirando seus sapatos, e deixou seu rabo desenrolado do seu quadril, antes de se sentar de volta na cadeira e colocar seu pé esquerdo em outra, enquanto pressionava a ponta dos seus dedos dos pés contra o chão sob a cadeira. Poderia parecer uma posição estranha, mas, para Eiro, era estranhamente confortável, mesmo agora.
Lentamente, o Demônio esticou sua mão e abriu a caixa que já havia colocado na mão de antemão, e então usou suas novas ferramentas para cortar a madeira em peças de diferentes tamanhos, que esculpiria em cada parte da sua futura mão substituta.
O processo de esculpir em si era completamente igual até agora, com a exceção da mana que Eiro estava atualmente empurrando para fora de sua mão na madeira através da ponta dos seus dedos.
Eiro começou, e assim que tinha cubos de diferentes tamanhos, começou a cortá-los em diferentes partes simples de sua mão, usando sua mão esquerda como referência para isso. Da ponta dos dedos até a palma, logo, Eiro tinha todas as partes que precisava terminadas, e então passou um tempo simplesmente retrabalhando em algumas partes e peças para torná-las mais realistas.
A madeira em si tinha um cor azul-claro agora, embora a casca antes fosse relativamente escura, e surpreendentemente a cor da madeira combinou muito bom com os membros azuis de Eiro. Não era perfeito, mas era muito próximo!
E com cada peça de madeira que caía no chão, para Eiro soava como se alguém batesse uma pedra contra o vidro com força total, o Demônio simplesmente se acalmou e cada vez mais se acostumou aos seus novos sentidos. Era estranho, ele estava tentando chegar lá com muita força durante os últimos dias e nunca conseguiu realmente fazer isso completamente, mas assim que começou a trabalhar com um pouco dessa madeira, ficou completamente bem.
…