A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 84

A Virtude do Demônio

Era tarde da noite, enquanto as crianças já estavam na cama dormindo para se recuperarem das tristezas do dia, e Eiro estava sentado na cadeira de balanço que Jura frequentemente se sentava durante o dia, com Nelli flutuando à sua frente.

— No caso de algo acontecer, estou aqui. Se estiver sobrecarregado, cobrirei suas orelhas e nariz com água, então respire através da sua boca se conseguir. — Nelli explicou, e Eiro acenou a cabeça lentamente enquanto olhava para a carta à sua frente. — Lembre-se, o Naipe de Ouros é diferente dos outros, você não pode se livrar das cartas, contanto que esteja vivo. — Ela pontou, então Eiro simplesmente suspirou enquanto olhava para ela.

— Eu sei, li sobre isso. — Ele respondeu, respirando lentamente o máximo de ar que seu corpo conseguia e então empurrou sua mana para a carta dourada entre os seus dedos, enquanto mantinha os olhos fechados.

Assim que fez isso, imediatamente sentiu-se mais do que sobrecarregado. Era uma sensação insana. Apesar de seus olhos estarem tão fechados como ele conseguia, ele ainda se sentia cego, embora a única luz no quarto fosse o luar brilhando através da janela atrás dele.

Imediatamente, sentiu como se centenas de pessoas gritassem em suas orelhas de uma vez, e conseguiu sentir literalmente o cheiro de tudo. Ele sentiu o cheiro de Arc, Sammy, Clementine, Rudy, Avalin e Leon, assim como de todos os animais que se mantinham com Lugo. Ele conseguia sentir o cheiro das raízes plantadas no pé da colina e então os vários cheiros que não conseguia reconhecer.

Sua boca ficou cheia com o gosto de suas últimas dez refeições, e todas tinham um gosto tão forte que Eiro quase quis vomitar.

Ele conseguiu sentir seu coração pulsar tão forte que parecia que um homem adulto estava socando repetidamente o seu peito, algo que quase consumiu toda a sua respiração. Por todo o seu corpo era como se houvesse algo o pressionando, pois notou a pressão imensa que suas roupas emitiam. Não o machucou, mas sentiu que alguém estava o empurrando de todas as direções.

— Argh… — Eiro emitiu baixinho, enquanto seu corpo ficava tenso e se sentava, mas ambos os sons de seus pés se esfregando pelo chão de madeira, as reverberações, e o grito alto de sua voz pioraram ainda mais a situação, e ele tentou pressionar as mãos contra as orelhas para fazer isso parar, mas simplesmente sentiu como se dois martelos grandes acertassem os lados de sua cabeça ao mesmo tempo, antes que suas mãos fossem empurradas para longe e os sons ficassem subitamente abafados. Ainda era desconfortavelmente alto, mas era pelo menos tolerável.

Nesse ponto, ele finalmente conseguiu se acalmar e recompôs os seus pensamentos, respirando lentamente através da boca enquanto seu nariz era coberto por água, e seus olhos eram envolvidos em um pano grosso.

O ar tinha um gosto… de terra, e de alguma forma abafou o gosto das refeições de Eiro. Por um tempo, ele não reconheceu o gosto, mas logo o conectou com o cheiro. O cheiro de madeira, a única coisa que atualmente estava ao seu redor.

De alguma forma, o sentimento de saber que ainda estava onde estava antes era muito reconfortante, então o Diabrete logo conseguiu se acalmar, e então sussurrou o mais baixo que conseguiu, embora ainda parecesse um grito para ele.

— Obrigado… — O Diabrete disse baixinho, e então conseguiu ficar ligeiramente acostumado com a sensação de pressão por todo o seu corpo, até mesmo a pressão mais forte de quando se inclinava para trás contra a cadeira.

Com respirações profundas através da boca, Eiro conseguiu se acostumar lentamente ao gosto do ar e a sensação de estar sentado. Ele se empurrou levemente contra a água ao redor de seu nariz para sinalizar a Nelli para removê-la, e então Eiro começou a respirar lentamente através do nariz.

Os cheiros de tudo ao seu redor o faziam se sentir tonto e doente, como se quisesse vomitar, mas depois de absorvê-los por um tempo, conseguiu pelo menos tornar a situação tolerável, e então bateu levemente na água ao redor de suas orelhas, antes que Nelli lentamente a fizesse desaparecer, para “acostumá-lo” lentamente ao barulho alto que vinha daquele silêncio.

A primeira coisa que Eiro fez para se acostumar com isso foi cutucar lentamente o braço de descanso da cadeira de balanço com os seus dedos de madeira, lentamente ficando cada vez mais alto para ter certeza de que conseguiria se acostumar com isso.

Isso sozinho demorou cerca de uma hora até que ele chegasse ao ponto de estar confortável para falar em um volume que Nelli conseguia pelo menos compreendê-lo.

— Me ajude a retirar minhas roupas… — O Demônio disse baixinho, e Nelli rapidamente acenou a cabeça em resposta, uma ação que Eiro notou apesar de não estar olhando para ela.

‘Então era assim que Jura vivia, huh?’

Lentamente, Eiro conseguiu sentir a pressão ao redor de sua cabeça diminuindo cada vez mais, conforme a claridade aumentava e seus olhos doíam progressivamente.

Assim que as roupas foram completamente removidas, Eiro tentou abrir seus olhos cuidadosamente, embora logo fosse dominado pela luz de suas notificações.

Assim como antes, levou mais uma hora para Eiro se acostumar com isso, e finalmente conseguiu ler o que as notificações brilhantes à frente dos seus olhos diziam.

[Você ativou e se conectou com o Cinco de Ouros. Agora você é o seu dono]

[1/14 Cartas do Naipe de Ouros adquiridas]

[3/56 Cartas do Arcano Menor adquiridas]

[Aptidão com o Elemento Terra aumentado]

[Magia de Terra (Iniciante) Aprendida]

Com um leve suspiro que quase rompeu seus tímpanos, Eiro esticou a mão para se livrar das notificações, e quando tocou a primeira, notou alto.

Ela desapareceu, claro, mas na verdade sentiu resistência quando a ponta do seu dedo encostou nela, e conseguiu sentir a névoa azul em que ela se desfez envolver o seu dedo momentaneamente.

Foi uma sensação muito sutil, como se alguém estivesse soprando contra o seu dedo. Mal perceptível, realmente, mas no fim era o que era. Isso foi muito surpreendente para Eiro, mas poderia explorar sobre isso mais tarde. Por agora, apenas queria se livrar das notificações, pois elas estavam machucando seus olhos estreitados.

Pelas próximas horas, até o sol nascer, tudo o que Eiro fez foi tentar se acostumar aos seus sentidos extraordinariamente fortes. E então, quando o sol realmente nasceu, Eiro constantemente manteve as mãos em frente aos olhos e só espiava através dos seus olhos, pois ainda era brilhante demais para ele.

— …Bom dia… — Rudy disse cansado com um bocejo profundo, enquanto se levantada da sua cama e colocava seu pé no chão, e Eiro conseguiu sentir imediatamente esses sons reverberarem pelo seu corpo e imediatamente pressionou as mãos contra suas orelhas.

— Hmm? Eiro, você está bem? — O garoto perguntou com um pouco de preocupação, e o Diabrete simplesmente assentiu lentamente enquanto Nelli voava até ele, sussurrando em sua orelha, embora Eiro conseguisse escutar até mesmo isso claramente.

— Ele usou a Carta de Jura… E agora parece que seu status de percepção são cem vezes maiores do que antes… Então tente ser o mais silencioso que conseguir. — Ela explicou, e Rudy levantou as sobrancelhas surpreso enquanto se virava para responder a Náiade, embora antes que conseguisse, Eiro tivesse se levantado, ainda pressionado as mãos contra as orelhas enquanto caminhava em direção às camas.

No fim, ele fiaria bem, não importa quão alto o som fosse. Jura ficou bem, então era improvável que Eiro ficasse realmente ferido por conta dos seus sentidos. Então talvez ele tivesse que ser um pouco drástico sobre isso, e lentamente retirou as mãos de sua cabeça, embora os olhos ainda estivessem fechados.

— Rudy… faça ensopado hoje à noite… por favor. — Eiro disse, sua própria voz ecoando através da sua cabeça de forma dolorosa, e o garoto olhou para Nelli, confuso. — Por que… Porque é mais fácil se acostumar à… essa sensação quando eu… Argh… Sinto em maior extensão… — O Demônio disse claramente, e então foi vagarosamente até a porta, com as partes inferiores dos seus pés doendo apenas por caminhar.

Em contraparte, talvez os seus sentidos aprimorados fossem realmente perigosos para ele… Mas, não havia como voltar agora, ele fez sua decisão e a manteria.

— Isso não é um pouco…. — Rudy perguntou — Insano?

Lentamente, Eiro assentiu e esticou a mão para segurar a maçaneta.

— É… estarei… no quarto porão… Aquele isolado… — Eiro explicou e abriu a porta, enquanto o cheiro da floresta o acertava diretamente, como um soco, e ele virou o rosto por um instante antes de pisar na grama.

Ele simplesmente tentou contornar a casa passando os dedos pelas paredes de madeira, e, então, virou a esquina quando não conseguia mais senti-la, antes de ir até a entrada do porão e descer por ela.

Como era bastante escuro aqui, já era maios confortável para os seus olhos, e era bastante silencioso também, então ele conseguiu soltar suas orelhas enquanto atravessava o cômodo com a ajuda de Nelli.

O cheiro era bastante forte, por conta dos muitos tipos de madeira diferentes dos inúmeros lugares diferentes, mas, mesmo assim, Eiro pensou que o cheiro de madeira era calmante, então conseguiu se acostumar a ele muito rapidamente. E então, Eiro se sentir dentro da sala em que encontrou o caixão e todas os outros objetos, antes de perceber algo interessante.

O chão abaixo do seu pé era muito macio e surpreendente confortável de caminhar sobre e, de alguma forma, mal havia cheiros aqui… A entrada estreita não deixava muita luz passar. O ar não tinha muito cheiro, não conseguia escutar nada do exterior, e quando o Demônio abriu os olhos, logo notou que seus olhos também estavam bem na sala, e apenas ficou parado no centro da sala confortável dessa forma, pegando lentamente duas ferramentas de sua tesouraria, batendo levemente uma contra a outra para gerar algum som, que soou como uma explosão para o Diabrete.

Ele teria que prosseguir e tentar se acostumar à quais coisas os seus sentidos reagiam tão forte o mais rápido que conseguisse. Isso provavelmente levaria um tempo, mas, pelo menos, ele tinha que tentar o seu máximo par chegar lá rapidamente, para começar a trabalhar nas armas de treino para as crianças.

E se conseguisse escutar o que estava ocorrendo na floresta, ele conseguiria encontrar presas ou plantas mais facilmente, algo que seria especialmente útil esse inverno, pois conseguiria usar o resto do tempo para praticar e treinar adequadamente as crianças, para levá-las ao ponto em que conseguissem se proteger adequadamente dentro do próximo ano… E então, eles sairiam para retirar os selos de Sammy e Leon.

De algum modo, embora um ano fosse um longo tempo, ainda parecia estranhamente curto. Talvez isso apenas porque Eiro estava se sentindo nervoso com tudo o que estava ocorrendo no momento… De qualquer maneira, ele tinha que fazer o seu melhor.

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