A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 83

A Virtude do Demônio

Depois que todos “discursaram” sobre Jura, adicionaram uma pá de terra sobre o caixão e Eiro escolheu terminar de cobri-lo sozinho enquanto os outros voltavam para dentro.

Não havia nenhuma razão específica para querer fazer isso sozinho, apenas não queria que as crianças tivessem que fazer isso. Eiro voltou lentamente para dentro depois de terminar, retirando silenciosamente seus sapatos e retirando a máscara velha do seu armazém, substituindo-a pela nova que estava usando, antes de esfregar a ponta do nariz entre os olhos e encarar sua bolsa, abrindo-a lentamente.

Havia outros itens dentro dela, além das ferramentas de Eiro, afinal, ele apenas não olhou para elas ainda. Era um pouco difícil tentar pegá-las debaixo do manequim que havia armazenado na bolsa, mas conseguiu tirá-los logo, e olhou para cada um deles enquanto as crianças se reuniam ao seu redor.

Esses objetos eram para elas, afinal.

Primeiro, havia uma caixa pequena e plana que, de alguma forma, notou primeiro e a abriu lentamente, então leu a nota dobrada dentro dela.

— Para esconder quem ela é. — Eiro leu em voz alta, e então olhou para os dois discos translúcidos e redondos dentro da caixa.— O que é isso? — O Demônio perguntou enquanto se virava lentamente em direção a Nelli, que apontou para Avalin, a qual estava sentada no colo de Sammy tentando ver o que estava na caixa.

— Esses são para os olhos dela. Eles o deixarão constantemente cinzas, para que não consigam notar que estão mudando de cor o tempo todo. — Nelli explicou, e Eiro levantou as sobrancelhas em resposta, enquanto esticava as mãos para segurar a garota sentada no colo de Sammy, e então tentou pressionar a ponta do seu dedo contra o exterior do primeiro disco.

— Pode explicar como funciona? — O Demônio perguntou enquanto se virava para Nelli, que assentiu. O Diabrete colocou vagarosamente os discos nas íris de Avalin, que basicamente derreteram nelas, como se fossem da cor cinza, como Nelli disse.

— E como eu as tiro? — O Demônio perguntou, e Nelli apenas sorriu.

— Apenas use os dedos para pegá-las. Talvez as guarde para quando Avalin consiga fazer isso por conta própria, embora… — O Espírito sugeriu, então Eiro acenou lentamente, enquanto ele retirava as lentes dos olhos e Avalin.

— O que foi isso? Me senti com nojo… — A jovem reclamou, antes que Eiro apenas sorrisse ligeiramente para ela e acariciasse o cabelo dela.

— É algo que faz com que consigamos sair e encontrar outras pessoas juntos, entende? — Ele explicou, antes que Avalin olhasse para ele com um sorriso alegre e grande, enquanto assentia animadamente.

— Oooh! Sim! Me dê a coisa nojenta! — Ela gritou alegre, e Eiro apenas balançou a cabeça.

— Ainda não, te deixarei as colocar outra hora, okay?

— Sim… — Avalin respondeu baixinho enquanto olhava para o chão, ao mesmo tempo que Eiro colocava a caixa com as lentes ao lado, enquanto olhava para as outras caixas e abria a próxima, apesar dessa caixa conter só alguns pedaços de papéis.

— Armas, armaduras e assim por diante podem ser encontradas aqui. Ele sabe sobre você, então não tenha medo de se revelar. Até lá, use-as para fazer armas de treinamento para elas. — O Diabrete leu, e então olhou mais atentamente para as diferentes folhas de papéis que tinham diagramas incrivelmente detalhados, que definitivamente não foram feitos por Jura, enquanto as crianças ficavam ainda mais curiosas com isso.

— Uma lâmina longa, fina e de um gume e uma versão de uma mão para Arc. Faça-as com Ovoya. — A nota dizia, dessa vez escrita à mão por Jura novamente. O papel em si retratava uma espada da qual Eiro tinha lido antes, uma espada típica do leste. Ela era aparentemente baseada em velocidade, então imaginou que era muito adequada para Arc, que mal conseguiu ficar parado. E então, Eiro entregou o papel para o menino em questão, para que ele conseguisse olhar, antes de se mover para o próximo. — Um arco longo feito de Avenos, com seda de Aranha da Floresta tecida como fios para Samantha. Tom tem um pouco de seda guardada. — O Arco registrado no papel em si não era muito complexo ou complicado, afinal, era apenas um arco de treinamento, então fazia sentido.

Com um sorriso, entregou o papel para Sammy, antes de olhar para o próximo pedaço de papel, que tinha o projeto de um grande cajado nele, cujo topo era uma esfera completamente cheia de água.

— Um cajado de Conjuração de Magia de Água, da altura do corpo, para Clementine. — O Diabrete leu, entregou a nota para a garota em questão, antes de prosseguir, olhando ligeiramente para Rudy, que parecia com um pouco de inveja dos outros receberem armas feitas pelo próprio Eiro.

— Um escudo grande focado em dano. Com alta durabilidade e alcance, conversível em uma pequena caixa. Para Rudy. Feito com Kavin. — O Demônio leu alto com um leve sorriso enquanto olhava para o papel, cujo mostrava um grande escudo quadrado com um padrão de teia de aranha na sua frente. Parecia que as teias estava se unindo para formar um buraco parecido com um vórtex no centro do escudo. Parecia cobrir uma área bastante grande, então provavelmente era o item perfeito para o fisicamente lento Rudy.

— Espere, há algo para mim…? — Rudy perguntou surpreso, e Eiro assentiu com um sorriso.

— Parece que sim. Você mesmo disse, não é? Você queria ser nosso escudo… Aparentemente, Jura já sabia disso. — Eiro sorriu enquanto entregava o pedaço de papel para ele, e então olhou para as outras mensagens dentro da caixa. Não eram mais diagramas para armas, mas instruções direcionando Eiro. Coisas que Jura deixou incompletas, as quais ele parecia esperar que Eiro terminasse, e ele lentamente as colocou para o lado, mantendo seus conteúdos em sua mente.

— Se você deseja sair, espere mais um ano e informe cada Dama uma por uma. Um substituto para você será encontrado. — Eiro leu baixinho para si mesmo, inaudível para os outros, antes que continuasse olhando para as informações, e isso foi algo que o deixou… bastante surpreso. Não havia necessidade de se preocupar com isso ainda, então olharia para o papel mais tarde quando tivesse tempo, mas, antes de tudo, deveria continuar olhando para as outras caixas.

A maior delas era simplesmente uma coleção de diferentes peças de próteses já prontas que Eiro sempre tinha preparado, como dedos substitutos, articulações e assim por diante. Como Eiro não com seguia substituir completamente as partes das próteses especiais de Jura, isso foi muito apreciado.

Apenas no caso de Eiro se deparar com alguém que Jura tratou antes, ele poderia cuidar deles agora.

E então, havia a última caixa, contendo algo com que Eiro ficou muito confuso. Elas simplesmente continham uma coleção de garrafas, cada uma com não mais do que um gole dentro, embora alguns tivessem um pouco mais do que os outros. Os menores tinham a inscrição ‘L’, e as maiores, ‘S’. E grudado entre as garrafas estava outra anotação.

— Para quando as restrições acabarem. — O Diabrete disse alto, olhando para Nelli com uma carranca. — O que isso significa? Que restrições? E quem? — Eiro perguntou, e a Náiade se virou lentamente para Sammy, que atualmente estava sentada ali com Leon no colo.

— Eles. — Ela disse claramente, e agora todos pararam de olhar para os pedaços de papéis em suas mãos e olharam para Sammy e Leon em confusão.

— Esper, você quer dizer os Selos? Os Selos de Habilidades? — Arc perguntou surpreso, e Nelli assentiu lentamente. — Isso. Os corpos deles estão crescendo constantemente, e em algum ponto os selos simplesmente não conseguiram lidar com a diferença entre o recipiente atual e o original em que foram colocados. Não vai acontecer tão cedo, mas dentro dos próximos dois anos deve começar… — Nelli admitiu, e Eiro olhou para as garrafas novamente.

— E então para que elas servem? — Eiro perguntou.

— Para prolongar o processo de quebra deles. — Ela explicou lentamente, e o Diabrete olhou para ela confuso.

— Espere, não é bom se eles quebrarem? — O Demônio perguntou, mas Nelli imediatamente balançou a cabeça.

— Se eles quebrarem em vez de serem removidos por alguém que conhece sua criação, a coisa que foi selada com eles será… quebrada com eles. — O Espírito explicou, antes que Eiro empurrasse a cadeira e continuasse olhando pela caixa, e então encontrasse rapidamente uma anotação que ele esperava que estivesse ali, um mapa mostrando onde encontrar exatamente a pessoa que conseguiu remover esses selos.

— Então vamos agora mesmo. Não devemos arriscar… — Eiro disse, pensando imediatamente sobre o que fazer, mas Nelli o impediu rapidamente.

— Mesmo de carruagem, é uma viagem de dois meses… Você não conseguirá voltar a tempo para ver a próxima Dama se sair agora. E há uma razão para Jura não ter as levada até lá ainda, Eiro.

Enquanto cerrava os dentes, Eiro olhou para ela irritado.

— E que razão é essa? — Perguntou, e Nelli olhou lentamente para as duas crianças.

— As habilidades delas são imensamente poderosas. Uma única palavra de Samantha, e um homem mentalmente fraco retirará sua vida. E Leon? Ele causará caos onde quer que vá se não conseguir controlar, de alguma forma, suas habilidades.

— Essas habilidades podem ser controladas? — Rudy perguntou subitamente, e Nelli olhou de volta para ele, com um sorriso pequeno, mas amargo.

— Me desculpe, Rudy, a sua é definitiva. ‘Dano’ é algo claramente definido, então você muito provavelmente não conseguirá controlá-la, ou sofrerá danos apenas por tentar influenciar suas habilidades… mas, certamente, Samantha consegue aprender a escolher suas palavras, ou talvez se deseja que algo tenha efeito ou não. E coisas como ‘Amor’ e ‘Medo’ são meros conceitos. Ambos têm inúmeras formas e modelos, e geralmente são a mesma coisa. E podemos nos aproveitar de um conceito. — O Espírito explicou claramente, então Eiro suspirou profundamente enquanto se sentava, apoiando o rosto nas palmas.

— Isso significa que devemos esperar até o próximo Equinócio de Outono, para que eu consiga encontrar cada Dama mais uma vez, e então um substituto para nós virá… Nesse tempo precisamos de alguma forma fazer com que Sammy seja mais cuidadosa com suas palavras ou separar diretamente o que ela quer dizer e o que ela diz… E Leon precisa aprender a transformar Medo em Amor… Ou fazer com que ambos se anulem, em vez de funcionarem ao mesmo tempo? — Eiro perguntou com um suspiro profundo, basicamente, tentando imaginar a melhor forma de abordar isso.

— Mas, ele tem apenas… seis… — Sammy disse baixinho enquanto olhava para Leon, que estava dormindo pacificamente em seu colo, e Eiro assentiu em reposta.

— Ele tem… Mas, eu gostaria de vê-lo novamente daqui a dois anos… Então, temos que fazer isso, certo? — Eiro perguntou e se impulsionou para cima com a ajuda da mesa, antes de olhar ao redor. — Embora, eu ache que por agora… — O Demônio disse enquanto olhava para a mesa. — Devemos comer. — Ele sugeriu.

Foi um dia duro e longo para todos, além do fato de estar tarde. Eiro apenas queria que eles se acalmassem um pouco… Ele cuidaria de todo o resto.

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