
Volume 2 - Capítulo 82
A Virtude do Demônio
Eiro se sentou em frente à estátua de madeira que ele mesmo fez, mas que foi destruída por James. Jura a reparou com plantas, mas elas murcharam logo depois que ele fez isso, então estrava de volta ao estado anterior. Lentamente atrás dele, ele conseguiu escutar algo se aproximar, e logo sentiu o focinho de um certo Cervo cutucar o seu ombro.
— Hey, aqui, Lugo… Onde você estava antes? — O Demônio perguntou enquanto se virava em direção ao seu Familiar, que deitou a cabeça ligeiramente para o lado, envergonhado. — Escondendo-se, huh? Pensou que aqueles eram os Bandidos de Cervos? — O Diabrete refletiu, e Lugo acenou com a cabeça lentamente. — Bem, estamos todos bem, então não se preocupe. — Eiro murmurou, e então olhou para frente de novo, olhando lentamente a Carta Dourada em sua mão, antes de colocá-la na sua ‘Tesouraria’ por enquanto.
Ele a ativaria mais tarde, mas Nelli disse que seria melhor esperar por uma situação em que estivesse quieto e escuro, e onde estivesse estável e confortável, pois todos os seus sentidos seriam aprimorados ao ativá-la. Essa era a habilidade dessa carta, afinal, o Cinco de Ouros.
— Agora… — Eiro disse para si mesmo, enquanto se levantava do chão e entrava pela porta da frente, embora tivesse sido impedido pelo antigo Espírito que pertencia a Jura.
— Poderia vir comigo por um instante? — Nelli perguntou, e o Demônio assentiu silenciosamente, antes de ser levado até a parte de trás da casa no porão.
— O que estamos fazendo aqui embaixo? — Eiro perguntou enquanto descia as escadas, e Nelli apenas permaneceu quieta enquanto flutuava até o fundo da sala.
— Empurre estes para o lado. — Ela disse ao Diabrete, apontando para os blocos grandes de madeira encostados contra a parede. Não era um tipo de madeira que era usada aqui. Era feia, muito macia, difícil de esculpir apropriadamente e não respondia bem aos tratamentos finais… Eiro realmente não sabia o porquê de ainda terem isso, mas, não importava, deveria haver uma razão para Nelli dizer a ele para fazer algo, então ele apenas fez o que foi pedido, e ficou ao lado dos blocos grandes com seus pés bem-posicionados no chão, para que ele não conseguisse escorregar.
Então pressionou sua mão na metade inferior da madeira e então apenas pressionou conta ela, e logo um cômodo pequeno foi revelado atrás do bloco. Não era realmente grande, talvez uma sala de 3×3 metros, e dois metros de altura, mas era suficiente para segurar as poucas coisas que tinha dentro.
Uma delas, parada no centro, era um caixão de madeira escura, apenas parado ali, pronto para ser retirado.
— Oh… Quan… Por quanto tempo isso esteve aqui? — Eiro perguntou silenciosamente, e Nelli apenas olhou para ele com um pequeno sorriso.
— Ele fez isso quando você foi para a cidade no mês passado. — Ela respondeu com uma voz clara, embora parecesse tão incomodada quanto Eiro, se não mais. — Ah, embora, haja mais algumas coisas aqui! Coisas que Jura queria entregar a você quando graduasse em seu aprendizado… Então acho que são suas agora… — Nelli apontou com um leve sorriso, e Eiro levantou as sobrancelhas surpreso, enquanto olhava ao redor da sala que era iluminada apenas pela Pedra Mágica de Luz que Eiro estava segurando.
— É mesmo? — O Demônio perguntou silenciosamente enquanto olhava ao redor, e logo encontrou sobre o que Nelli estava falando. No canto da sala, um tanto escondido, apesar da sala não ser tão grande, estava um manequim com a altura de Eiro, vestindo uma capa feita de um material incrivelmente bom e muito caro. Eiro o reconheceu isso por conta de um comerciante errante que visitou a cidade e tinha esse tipo de objeto. Na época, o comerciante chamou o tecido de ‘Sombras Tecidas’, pois era um material que aprimorava muito a habilidade ‘Furtividade’.
No rosto do manequim havia uma máscara parecida com a que Eiro usava até agora, mas era de uma qualidade muito maior e a frente parecia apenas uma placa de madeira lisa, sem nem mesmo os buracos para os olhos, mas quando Eiro a pegou em suas mãos e olhou pelo interior, notou que não era o caso.
De dentro, a madeira se tornava basicamente invisível, e Eiro conseguia olhar através dela sem problemas. Ele não tinha certeza de como isso funcionava, mas a perícia de Jura com madeira estava muito além da compreensão de Eiro. Então, tinha certeza de que foi feita com algum tipo de madeira mágica. De qualquer forma, quando a colocou em seu rosto, realmente parecia que não estava vestindo uma máscara. Nem sua visão nem sua respiração foram afetadas, e a máscara grudava em seu rosto sem nem precisar das tiras que Eiro precisava colocar ao redor da cabeça.
Quando Eiro pegou a capa do corpo do manequim e a colocou, ele logo notou que havia uma bolsa de couro ao lado. Quando passou seus dedos sobre o material, parecia quase congelante, e incrivelmente resistente, mas quando abriu a bolsa, mal conseguiu acreditar no que viu.
— Jura fez…? — Eiro perguntou baixinho, sua voz desobstruída pela máscara, e Nelli assentiu rapidamente.
— Ele fez isso há um tempo. Durante a última viagem, não fomos cuidar de um animal, mas visitamos uma cidade próxima que tinha um artesão habilidoso que conseguia lidar com tais coisas. E então, a bolsa espacial suja que você trouxe com você foi usada para criar essa peça. No total, tem a mesma quantidade de espaço que a bolsa tinha, mas é um pouco maior, então pode ser apenas uma piora, mas Jura ficou bastante feliz com isso… — Nelli disse, e Eiro apenas assentiu ligeiramente, seu sorriso escondido pela sua nova máscara.
— Está perfeito, não se preocupe. E… isso? — Eiro perguntou, enquanto enfiava a mão na bolsa. Embora realmente tenha lutado um pouco para alcançar o fundo dela com seu braço, ele logo conseguiu agarrar uma caixa pequena, que foi colocada dentro da bolsa.
E, quando a abriu, logo viu uma coleção de diferentes ferramentas à sua frente, todas gravadas com um símbolo… O símbolo que estava no centro do peito de Eiro. Há alguns anos, o Demônio aprendeu que Marcas de Benções eram sempre únicas para quem as tinha, mesmo que o doador da benção fosse o mesmo. Havia uma pequena nota na caixa descrevendo onde exatamente estava o ferreiro que as fez, embora Eiro não tivesse certeza do porquê Jura não pediu para um ferreiro de uma cidade próxima…
Bem, isso não importava muito no fim. O que importava era que todas eram coisas incríveis, que Eiro guardaria por muitos anos como tesouros, ele tinha certeza disso.
Com um leve sorriso, Eiro colocou a caixa de volta na bolsa e então, quando estava para se virar, viu algo que algo estava faltando no manequim. Ele não tinha a mão direita… Eiro tinha certeza de que Jura não faria isso apenas para ser ‘preciso’, ou para fazer uma ‘piada’ com algo do tipo. E agora que pensava sobre isso, todo o Manequim era feito do mesmo material que sua mão direita atualmente era feita…
— Entendo, então essa é a próxima tarefa, huh? — Eiro se perguntou, com um sorriso, enquanto colocava a bolsa no chão e rapidamente empurrava o corpo do manequim para dentro dela. — Muito útil, huh? — O Demônio riu ligeiramente, antes de caminhar até o caixão atrás dele, pressionando seus dedos sob a madeira, antes que Nelli olhasse para ele surpreso.
— Se precisar de ajuda, chamarei Rudy… — Ela disse, mas Eiro só balançou a cabeça.
— Está bem. Posso carregar isso por conta própria… — O Demônio murmurou baixinho, e então conseguiu empurrar o caixão apropriadamente para cima, pelo menos para colocar o seu corpo sob ele, antes de deixá-lo cair de costas enquanto empurrava seis dedos nos buracos abaixo do caixão, que costumavam mantê-lo estável, ao mesmo tempo que continuava manipulando sua Força Vital para ter certeza de que realmente conseguia carregar apropriadamente o caixão, apesar do seu peso.
E então, ele saiu da sala e carregou a peça de madeira através das escadas, cada passo que dava ficando cada vez mais pesado, antes que logo visse a luz do dia novamente, e ou outros, que estavam o esperando, rapidamente se aproximaram correndo quando notaram o que ele carregava.
— Onde você conseguiu esse caixão? — Rudy perguntou baixinho, e Eiro apenas sorriu para ele, embora ele provavelmente não tenha notado, pois o rosto de Eiro ainda estava escondido sob sua máscara.
— Jura fez para si mesmo… Há um tempo, aparentemente.
— Por que você não nos esperou? — Sammy perguntou com uma carranca, com os olhos ainda vermelhos de chorar, igual aos outros, e Eiro apenas sorriu para eles.
— Está bem. Encontraram algum lugar bom para enterrá-lo? — O Demônio perguntou enquanto olhava para Arc, o único que estava composto o suficiente para Eiro perguntar isso, e o garoto assentiu.
— Isso… No pequeno local entre as raízes onde Jura costumava se sentar todo verão. — Arc disse baixinho. — Imaginei que seria um bom lugar.
Lentamente, Eiro assentiu enquanto carregava o caixão em direção ao local que Arc sugeriu, colocando-o cuidadosamente no chão, antes que Eiro, Arc e Rudy começassem a cavar um buraco suficiente para o caixão caber, usando as pás que estavam no galpão, antes que o Diabrete fosse para dentro da casa e levantasse cuidadosamente o corpo de Jura da cama… O corpo simplesmente flácido em seus braços.
Era difícil para o Demônio ver, apesar de ter vistos tantos corpos mortos antes… Era diferente dessa vez. O corpo de Jura estava frio e pesado… muito mais pesado do que qualquer coisa que Eiro já carregou, embora Jura estivesse tão magro perto do fim.
Lá fora, Eiro colocou o corpo dele no caixão que ele fez para si mesmo, e todos apenas olharam para o caixão, enquanto ele era colocado no chão.
— Algum de vocês deseja dizer algo? — Nelli perguntou baixinho, e Arc acenou a cabeça primeiro, segurando lentamente a pá enquanto pegava um pouco de terra do pequena monte ao lado dele.
E, o que Arc disse foi gentil, e legal, e feliz, como tudo o que Arc sempre fazia e dizia. Ele era a pessoa mais feliz que Eiro já conheceu. Ele fazia piadas, para aliviar o clima, e o Demônio realmente apreciava isso, pois sabia que não conseguia fazer esse tipo de coisa.
Quando Rudy falou, ele estava sério e arrependido, e disse algumas histórias de como se recordava de Jura em seu cotidiano, para que todos pudessem relembrar dele.
Sammy foi parecida, ou pelo menos tentou ser. Ela, obviamente, estava tentando segurar as lágrimas, embora no fim, tenha parado quando apenas começou a soluçar abertamente. Clementine não foi muito melhor. Ela era normalmente muito alegre, mas definitivamente a úncia desse grupo de estranhos que mostrava suas verdadeiras emoções da forma mais direta e pura possível, então ela apenas falou quanta falta sentiria de Jura e quanto ela o amava e o apreciava. Pelo menos era isso que Eiro entendeu das palavras dela abadadas pelos seus gritos.
Nem Avalin nem Leon realmente sabiam o que dizer, era compreensível. Eles apenas seguravam com força Eiro, chorando, pois todos os outros também estavam. Provavelmente nem entediam o que a morte era ainda.
E, então, foi a vez de Eiro falar algo, mas ele realmente não sabia o que deveria dizer. Havia tanto que queria transmitir, mas havia tão poucas palavras que realmente conseguia compreender e dizer agora, como se sempre que tentasse mover sua língua elas desaparecessem de sua mente.
Então, no fim, Eiro só conseguiu resumir a frase em uma palavra, que ele esperava que pudesse dizer tudo o que queria.
— Obrigado.
…