
Volume 2 - Capítulo 81
A Virtude do Demônio
— O que você está falando…? — O Elfo da Luz perguntou, apenas encarando Eiro, completamente confuso. Era como se ambos, mente e corpo, tivessem desligado em resposta ao que estava acontecendo, o que era a única razão para Eiro conseguir realmente passar as lâminas ao redor do pescoço dele com tanta facilidade para retirar sua máscara. — Não… não há como você ser aquele monstro… Aquele pedaço de merda… — James murmurou, enquanto encarava o Demônio, embora esse apenas o encarasse de volta, cansado da visão à sua frente.
— Por que não há como? — Ele perguntou. — Por que você não quer que eu viva? Que coincidência, me sinto da mesma forma por você. — Eiro apontou, pressionado sua mão enquanto as três espadas se prendiam mais forte ao redor do pescoço de James.
— Não… Avalin, ela… morreu e você… viveu? Você deveria ter morrido no momento que ela mor…! — James gritou com irá e frustração. — Avalin e Thomas, ambos…! Eu acabei… assim, e você…? Você tem uma família feliz? Não fode! — Ele gritou o mais alto que conseguia, e Eiro acenou a cabeça.
— Eu… sou sortudo, não sou? Bem, obrigado por me deixar ser aquele que te matará, de qualquer forma. — O Demônio apontou, enquanto duas das lâminas afundam ligeiramente no lado e a terceira pressionava contra o queixo dele. — Acho que consigo compreender a raiva que sentiu ao ver a estátua. Mesmo eu mal conseguia me segurar de fazer o mesmo que você fez. — Eiro falou, e todos os outros simplesmente pararem de fazer o que estavam fazendo e olharam para os dois. Krog e Jess não conseguiam creditar no que viam. Parecia como se nunca tivessem visto o rosto de James antes, ou escutado ele falar tanto.
— Que diabos…? Vocês… vocês dois se conhecem? — Krog perguntou com um sorriso irônico, ficando insano com o ridículo dessa situação, e Eiro se virou para ele com um suspiro.
— Acho que posso contar a vocês uma pequena história, huh? Será a última que escutarão, de qualquer forma. — O Diabrete disse, e lentamente olhou de volta para James. Eu juntei isso principalmente por meio dos conhecimentos que adquiri ao longo dos anos, mas acho que foi isto que aconteceu. Seis anos atrás, eu era parte da Horda de Monstros liderada pelo <O Sol> para atacar a capital do Reino. Como havíamos parado para descansar, alguns outros Diabretes e eu nos separamos do grupo, e logo me perdi dos meus irmãos depois de me assustar com minha própria notificação. — Eiro explicou e então suspirou profundamente. — A próxima coisa que vi na minha frente eram três aventureiros. A arqueira com uma adaga descarada e cara, vestida de vermelha, Avalin. O guerreiro com espada e escudo, vestido de azul e prata, Thomas. E, claro, o ladino com duas adagas pretas, vestido de preto: James. — Eiro disse, e quanto mais falava, mais James queria tentar avançar e machucá-lo, mas quanto mais fazia isso, mais as lâminas de Eiro afundavam em sua pele.
— Ava… lin? — Rudy perguntou surpreso, olhando através da porta para a garotinha segurando a perna de Sammy, e Eiro apenas fechou os olhos por um instante antes de continuar.
— Thomas e James rapidamente começaram a zombar de Avalin com seu apelido, que ela de algum modo desprezava. E eu repeti o que eles disseram: ‘Ava’, e todos olharam apar mim com interesse, então Avalin assumiu a ‘Propriedade’ sobre mim, mas, de alguma maneira, a faixa que usaram em mim não funcionou apropriadamente. E, dentro de uma semana, conseguiria me libertar. Eu precisava de nutrição e energia para isso, e então… imediatamente me alimentei da carne, sangue e ossos dos meus irmãos. Essa foi a primeira vez que genuinamente senti ódio, por todos os meus três captores. — O Demônio explicou, com seu olhar acertando James.
— Logo, Avalin se afeiçoou por mim, e eu me afeiçoei por ela. Ela parecia realmente se importar comigo, até mesmo aprimorando minha Habilidade de Entendimento de Linguagem. E eu…
—Se importava com você? Hah, ela apenas queria dinheiro! Nós todos queríamos! — James interrompeu, e Eiro apertou seu punho para fazer as três lâminas arranharem lentamente a pele dele.
— Estou ciente disso, mas ela era gentil o suficiente para não me tratar como um ser horrendo. Ela não me tratava como um igual, eu sei, mas eu também não teria feito o mesmo. Eu mal entendia o que estava acontecendo, afinal. De qualquer forma, ela… me ajudou, pelo menos. Ela me ajudou a superar o terror que senti do monstro sob o lago abaixo de uma cidade flutuante. Ela confiou em mim para trazer comida quando você estava exausto. Ela me mostrou como ler, comer apropriadamente com as mãos e vestir roupas, mesmo que eu não quisesse a princípio. — O Demônio explicou, sorrindo ligeiramente.
— Agora só leio sobre essas coisas, e mesmo que possa soar ridículo, ela era provavelmente o mais próximo que tive de uma ‘mãe’. Mas então, para provar que era leal a ela sem o controle dela, ela enfraqueceu a propriedade sobre mim por apenas alguns minutos, o que me permitiu me libertar quando saímos da cidade naquele dia. Se lembra daquele momento? Quando eu perguntei para Avalin o que era ‘Stinehearth’? Isso foi a notificação me dizendo que não era mais propriedade dela. — O Diabrete apontou, e repentinamente, Jess fez um som de surpresa, e finalmente falou quando foi encarada.
— St- Stinehearth?! Como… Como AQUELES Stinehearths?! A Família do Duque?! — Ela perguntou, e Eiro apenas suspirou.
— Não sei, e não me importo também. Ela não queria ser uma Stinehearth mais, afinal. De qualquer modo, logo, o momento de ser vendido chegou, e os três escolheram me vender para uma coisa conhecida como ‘Zaragon’. Uma criatura horrível que nunca quero ter que enfrentar novamente. Ele ofereceu a Ás de Copas em troca por mim, mas assim que fizeram sua escolha, <O Sol> atacou a cidade, cortou a sala em que estávamos ao meio e parte do corpo de Zaragon, além de incinerar instantaneamente Thomas, sem deixar nada restante do corpo dele. Zaragon enlouqueceu e comeu Avalin viva na minha frente, tudo isso enquanto eu usava a ‘chance’ que ela me deu para usar o Ás de Copas por conta própria, e então escapar. Eu salvei uma garotinha no caminho, que mais tarde a nomeei com o nome daquela que me salvou… Então, encontrei uma carruagem cheia de pessoas que mais tarde se tornariam minha família, exceto por três adultos que matei, para o bem delas. — Eiro explicou com um tom claro, e então virou lentamente a cabeça para Krog com nada além de um leve sorriso, embora seus olhos mostrassem a fúria que estava escondendo atrás desse sorriso.
— E qualquer um que ouse duvidar quão genuíno é o meu amor por elas, sofrerá. — O Demônio disse, inclinando-se lentamente para segurar a máscara que James usava antes e sorriu. — Entendo, então isso supostamente sou eu, huh? Você teve que me fazer tão feio? Você deve realmente ter me odiado. — Eiro riu, e subitamente, uma voz que o Diabrete não esperava escutar novamente soou.
— Heh, eu acho que ele pode ter feito um favor para você. Sou grato por já estar cego, caso contrário, o seu rosto poderia ter feito isso. — Uma voz fraca e idosa falou, enquanto saía da casa, segurado por Sammy e Arc, enquanto Clementine cuidava de Leon e Avalin. — Eiro, acho que uma única morte nessa colina é suficiente por um dia, não acha? Não vamos levar essas crianças para lá ainda. — Jura sugeriu, e imediatamente as três lâminas e fios pendurados no pescoço de James desapareceu com uma luz, enquanto a carta aparecia na mão de Eiro, a qual ele fez desaparecer imediatamente.
— J-Jura, você está… — Eiro disse com um leve sorriso em seus lábios, enquanto se aproximava do velho, que assentiu em resposta.
— Por enquanto, eu estou, mas, não será por muito tempo… Eiro, por favor, me mostro produto da tarefa que dei a você. — O velho pediu, e sem hesitação, Eiro assentiu e correu até Jura para segurá-lo, rapidamente o levando até o seu projeto cortado.
— Está um pouco bagunçado agora, mas… — O Demônio disse baixinho, enquanto tentava empurrar os pedaços de madeira, que James cortou, de volta nos lugares que eram supostos estarem, mas Jura o impediu e passou seus dedos pela madeira.
— Veja, Eiro… Minha carta é do naipe de pentáculos… então eu ganhei uma afinidade com o elemento terra, adicionado a afinidade com água que eu já tina… E por conta do meu talento com esse elemento, ganhei a Magia da Natureza. — O velho disse, fechando lentamente os olhos, e a grama sob seus pés começou a brilhar lentamente e ficar maior e mais grossa, levantando os diferentes pedaços e lascas de madeira, colocando-os em seus lugares corretos.
Eles se balançavam ao redor do corpo de madeira e ficavam ali para manter tudo unido, pelo menos a cabeça foi recolocada, e enquanto um pouco de sangue escorria pela boca do velho e um pouco até começou a escorrer da cicatriz em seu rosto, ele apenas tossiu e sorriu.
— Hmm, verdadeiramente incrível. Eu criei um bom aprendiz, não é? — Jura perguntou, e Eiro sorriu levemente em retribuição, apenas olhando para as costas do trio, James, Krog e Jess, enquanto eles deixavam a colina, em silêncio e derrotados. Krog parecia bravo e Jess se sentia horrível, James simplesmente parecia… triste, mas, Jura estava certo, uma morte era suficiente, por enquanto…
— Vamos voltar para dentro, tudo bem? — Jura sugeriu, e Eiro assentiu a cabeça e rapidamente ajudou o velho a voltar para dentro da casa, levando-o em direção à cama, onde ele se deitou enquanto Nelli flutuava ao lado dele amargamente.
— Essa história, surpreendentemente intensa, não é? Eu pensei que você fosse apenas o brinquedo de uma pessoa rica, e por isso você era tão esperto… — Jura riu baixinho, e Eiro sorriu levemente enquanto se sentava diretamente ao lado da cama, na cadeira que ainda estava ali.
— Eiro… — Jura disse. — Obrigado por tudo que me ajudou nesses últimos anos. — Ele murmurou silenciosamente, sua respiração diminuindo cada vez mais.
— Claro. Eu faria tudo de novo num piscar de olhos. — O Diabrete disse com a voz clara, e Jura lentamente moveu a mão em direção à do Demônio para segurá-la em seus últimos momentos.
— Estou orgulhoso de você. Você cresceu em um homem esplêndido ao longo desses anos. Um Demônio, melhor do que a maioria dos homens que conheci. As crianças também, obviamente… você pode se orgulhar… pelo que elas se tornaram… — Jura murmurou, e parecia como se ele tivesse adormecido de novo ali mesmo, embora ele logo apenas segurasse a mão de Eiro com força, enquanto os outros, um após o outro, diziam adeus ao velho.
Nem Avalin ou Leon realmente entendiam o que estava acontecendo, então eles poderiam pensar que Jura estivesse tirando apenas um cochilo e que todos estavam agindo estranhamente sobre isso, mas todas as outras crianças realmente não conseguiram segurar suas lágrimas. Claro, com a exceção de Arc, que ainda estava um pouco amargo sobre tudo isso, mas ele era simplesmente incapaz de chorar, mesmo que quisesse.
E quando parecia que Jura realmente estava prestes a morrer, ele puxou Eiro um pouco mais perto.
— Você realizou um sonho que eu nem sabia que tinha… e na minha idade, isso pode ser um pouco tarde para se pedir… isso, em particular, mas… — Jura disse, sua voz enfraquecendo cada vez mais, até que Eiro teve que quase pressionar sua orelha contra a boca de Jura para entendê-lo, e logo levantou a cabeça com um leve sorriso.
— Não é tarde demais… Obrigado por tudo o que fez por mim… — Eiro disse, enquanto apertava a mão de Jura com força com ambas as suas mãos, sua falsa e a sua verdadeira. — Nunca te esquecerei… Pai. — O Demônio murmurou, e, depois, apenas escutou uma leve risada.
— Não é de se admirar que você goste tanto de escutar isso… — Jura disse, enquanto o aperto que Eiro sentia em retorno as suas mãos diminuía lentamente. — … com certeza… soa bem…
E com essas palavras e um leve brilho, uma única carta dourada apareceu no peito de Jura, enquanto a mão dele escorregava da de Eiro.
…