A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 87

A Virtude do Demônio

Surpresa, Nelli se viu para o Diabrete, que acabou de fazer um pedido um tanto inesperado.

— Você quer formar um contrato comigo? — Ela perguntou, e Eiro assentiu em resposta.

— Claro, por que eu não iria querer? — Ele respondeu, e Nelli apenas sorriu levemente enquanto assentia.

— Justo… — O Espírito disse, e então flutuou até o Demônio com um sorriso.

— Tem certeza de que ficará bem comigo? Isso significa que será pelo resta da sua vida, contanto que não quebre de alguma forma as regras do contrato, você me terá por perto… sabe disso, certo? — Nelli apontou, e Eiro acenou a cabeça.

— Eu sei, li um pouco sobre isso antes. Um Espírito por Elemento com que você tem alta afinidade… e aparentemente Elementos de Nível Superior também contam de forma separada? É difícil conseguir informações específicas como essas… — O Demônio comentou com um leve suspiro, e Nelli apenas riu ligeiramente.

— Por que eu não esperava que você tivesse lido sobre isso antes? — A Náiade riu, e Eiro olhou para ela com um sorriso levemente irônico.

— O que você espera que eu faça? Tentar não imaginar que sou uma existência parecida com um Espírito? — Eiro apontou, e Nelli assentiu lentamente com um sorriso nos lábios, antes de estender a mão em direção a ele.

— Então se você tem certeza, vamos formar um contrato. É bastante simples, na verdade. Tudo o que precisamos fazer é dar parte da nossa mana para o outro. — Nelli explicou, então Eiro assentiu.

— Então, vamos começar. — Nelli sugeriu, e começou a empurrar lentamente parte de sua mana, embora no caso dela fosse parte do seu corpo, desde que Espíritos são feitos, literalmente, de mana.

E enquanto Eiro conseguia sentir a mana espessa pressionando sua pele, o Demônio retribuiu o favor e empurrou sua própria mana para fora de sua mão para o corpo de Nelli, antes que o Espírito começasse a falar.

— Que nossas almas se entrelacem e nossos corpos se conectem. Seu copo é meu, e o meu é seu, até que um deles cesse. — Ela começou, e então continuou por mais um minuto. Parecia ser o simples conteúdo de um ‘contrato’ ou algo do tipo. Eiro tentou o seu melhor para recordá-lo, apesar de ser realmente difícil com sua memória.

Durante todo o processo, ambos continuaram dando mana para o outro, e assim que Nelli terminou, Eiro viu algumas notificações à sua frente, enquanto o centro do seu corpo lentamente se aquecia.

[Você formou um Contrato com a Náiade, Nellissa Arigata]

[Magia Espiritual (Iniciante) Aprendida]

Enquanto Eiro olhava para as notificações, Nelli apenas flutuou ao lado dele e basicamente se sentou em seu ombro.

— Uhm, eu odeio ver o meu nome… — Ela murmurou silenciosamente, antes que Eiro levantasse as sobrancelhas surpreso.

— Oh? Você consegue ver minhas notificações? — Ele perguntou, e Nelli assentou.

— Uhum, pois nossas almas estão conectadas. Você consegue ver as minhas também, por conta do tipo de contrato que formamos. — Nelli explicou, antes que Eiro franzisse ligeiramente.

— Existem outros tipos? — Ele questionou, então Nelli só conseguiu sorrir ironicamente.

— Oh, certo, a maioria dos Espíritos são babacas… sim, existem múltiplos tipos de contratos. O contrato mais comum que os Espíritos e as pessoas formam são aqueles que basicamente permite que o Espírito sugue a pessoa… enquanto o Espírito precisa ser alimentado com muita mana, a pessoa recebe apenas um retorno mínimo… os Espíritos ficam sabendo de tudo sobre a pessoa, e a pessoa nada sobre o Espírito além do seu nome. — Nelli explicou com um sorriso. — Nós, por outro lado, formamos um contrato em termos iguais. Você me apoia, eu te apoio igualmente, em uma relação justa… e não há punição real se você quebrar as regras do contrato, além do contrato ser cancelado… Normalmente, resultaria na morte do contratante, embora não para você. — A Náiade apontou com um sorriso, então Eiro sorriu ligeiramente e assentiu.

— Interessante. Então, obrigado por confiar em mim. — O Demônio comentou, e o Espírito apenas sorriu de volta.

— Não se preocupe, claro que confio… como não poderia depois de seis anos? —  Nelli respondeu, antes de mergulhar lentamente no ar e desaparecer, enquanto o ar em si emitia algumas ondulações de água. Embora ela tivesse parado de ser perceptível apenas para o exterior… De alguma forma, Eiro teve dificuldade de se ajustar à sensação estranha de vê-la, e ao mesmo tempo, não a ver flutuar à sua frente.

— Este é o estado em que estarei na maior parte do tempo… algo possível apenas por causa do tipo de contrato que temos. Usualmente, Espíritos desaparecerão para plano em que normalmente vivemos, mas este é algo como um espaço intermediário. — Nelli explicou, sua voz soando estranhamente como um eco. — Não posso ser percebida por outros além de você. Nós podemos falar em particular aqui, e eu posso ficar de olho em você! Embora o último seja mais útil quando você está dormindo… porque minha percepção é muitas vezes pior do que a sua… — Nelli apontou, antes de flutuar lentamente até a mão de Eiro, enquanto sala do ‘espaço intermediário’ e rapidamente ajudava o Demônio a retirar o pano que ele usou para prender a mão de madeira ao seu braço, enquanto Eiro continuava a segurando contra o toco.

— Certo, agora o quê? — Eiro perguntou, e Nelli colocou suas mãos no braço de Eiro novamente, assim como antes.

— Continuaremos curando você. Irei pegar um pouco da sua mana para fazer isso… pode ser um pouco mais lento do que a cura de Jura, pois você não tem o talento particular para magia de cura, mas ainda deve funcionar bem o suficiente. — A Náiade explicou, então Eiro assentiu a cabeça e rapidamente sentiu água gelada escorrendo entre seu ferimento e a madeira, antes que sentisse sua carne, literalmente, crescer novamente.

Era bastante desconfortável, como a sensação do ar sendo puxada de seus pulmões, apenas muito mais forte. E logo, veio a madeira gelada que literalmente se fundiu com a sua carne. Isso foi ainda mais desconfortável do que quando ele cortou sua pele mais cedo.

Mas depois de um tempo, e após sua mana ser drenada um pouco, algumas notificações apareceram, dizendo que sua Magia Espiritual subiu alguns níveis, e Nelli parou de curar o seu braço.

— Terminamos! — Ela exclamou, então Eiro acenou com a cabeça com um sorriso, enquanto a mão e madeira pendia frouxamente.

— Então vamos tentar o nosso melhor… — O Demônio suspirou levemente, colocando lentamente o seu braço dolorido na mesa, enquanto começava a manipular a sua Força Vital.

A Força Vital era basicamente outro tipo de energia que existia em conjunto com a Mana, então o método para controlá-la era parecido de algumas formas, embora muito mais difícil e com muito mais limites para prestar atenção, já que a Força Vital tinha que ser fornecida constantemente à cada parte do seu corpo, para que você realmente conseguisse viver sem perder nenhum membro.

Lentamente, Eiro mudou sua Força Vital ao redor e começou a inseri-la em sua prótese. Era bem difícil, mas normalmente os tipos de madeiras especiais que eles usavam para as próteses eram muito receptivas à Força Vital. Nem todos os tipos podiam ser usados, afinal. Alguns não aceitavam Força Vital externa, outros simplesmente não seriam reconhecidas como parte do corpo de uma pessoa, e outros não seriam capazes de serem movidos.

Eiro estava realmente preocupado que esse madeira não aceitaria sua Força Vital, pois não parecia certo agora, mas logo pareceu que o Demônio conseguiu ultrapassar e a mão de madeira ficou tensa, enquanto Eiro sentia bastante… dor.

Era como se seus ossos estivessem quebrando e seus músculos rasgando, enquanto os dedos começavam a se curvar de formas anormais, e o Diabrete imediatamente segurou seu braço.

— O que… — Eiro murmurou, enquanto a dor sumia e sua mão se “acalmava” novamente, ao mesmo tempo que duas notificações apareciam.

[Seu corpo foi conectado à <Mão da Geada Demoníaca>, pois ela carrega sua essência]

[Taxa de conexão: 0,1%]

Eiro se virou para Nelli e apontou para as notificações.

— Isso é… normal? — Ele perguntou, considerando que Nelli tinha muita mais experiência com essas coisas considerando o longo tempo que ela passou com Jura, e o Espírito balançou a cabeça.

— Acho que não… isso aconteceu quando você recebeu sua outra prótese? — Nelli respondeu, mas o Demônio balançou a cabeça.

— Definitivamente não… mas, a <Mão da Geada Demoníaca>? Isso faz sentido considerando que a árvore cresceu através de mim e da minha mana… — Eiro murmurou baixinho enquanto olhava para a mão de madeira azul-claro e tentou mover lentamente os dedos. Ele conseguiu fazer muito bem, embora em uma extensão menor do que a mão que tinha antes, que recebeu de Jura há cinco anos, então se sentiu um pouco desapontado.

— Hmm… — Eiro suspirou, mas Nelli apenas flutuou para a frente dele e sorriu.

— Não se preocupe, a ‘Taxa de Conexão’ está muito baixa… Talvez você consiga movê-la mais facilmente quando isso aumentar? — Ela sugeriu, então Eiro sorriu levemente para ela.

— Vamos esperar que sim. Por agora, vamos mostrar para as crianças. — Eiro disse, e então voltou lentamente para fora e caminhou para a porta da frente da casa, estendendo sua mão direita para frente, imaginando que se isso conseguia aumentar, então deveria tentar usá-la o máximo possível.

Estava um pouco barulhento lá dentro, mas Eiro conseguia lidar melhor com isso, e conseguia controlar levemente com o nível de força dos seus sentidos, pelo menos era isso que parecia para o próprio Eiro.

— Ei, aqui… — Rudy disse com um sussurro, tentando ser o mais atencioso que podia com o Diabrete.

— Não se preocupe, fale normalmente. Apenas não grite. — O Demônio disse com um sorriso enquanto olhava para os outros, que estavam todos reunidos agora. — Então, há duas coisas que eu, ou melhor, nós, gostaríamos de contar a vocês. Primeiro, terminei minha mão nova, mas não está funcionando perfeitamente ainda, então suas armas de treinamento talvez precisem esperar mais algum dias. — Eiro explicou para elas. As crianças pareciam bastantes compreensivas com isso e apenas assentiram.

— Parece maneira. — Arc comentou, então Eiro sorriu de volta.

— Obrigado. Eu também acho. De qualquer forma, o mais importante é outra coisa, eu só queria resolver isso primeiro. — Ele explicou enquanto se virava para Nelli.

— Nós dois formamos um contrato, então parece que não deixarei vocês por um tempo, é o que parece. — O Espírito apontou com um sorriso largo, e Clementine foi a primeira a pular alegremente.

— Nossa! Isso é legal! — Ela exclamou. — Estou feliz que você não tem que nós deixar! — Clementine disse com um sorriso amplo, e Eiro levantou as sobrancelhas surpreso.

— Espere, você teria nos deixado se não tivéssemos formado um contrato? — Ele perguntou, e Nelli olhou para ele com um sorriso levemente triste e amargo.

— Sim… espíritos não podem existir por muito tempo sem uma fonte de mana apropriada. E se não for um contratante, que é um lugar rico em mana… eles são bastante raros. — Ela explicou, então Eiro assentiu levemente.

— Entendo… Então estou feliz que tomei essa decisão. — O Demônio comentou, e então olhou de volta para as crianças. — Então… tentem não fazer bagunça enquanto estou dormindo, tenho alguém que pode ficar de olho em vocês agora. — Eiro disse com um leve sorrio, e Nelli riu ligeiramente em resposta.

— E se for eu fazendo bagunça com você? — Ela perguntou, então Eiro apenas a encarou com uma expressão vazia.

— Eu não pensei nisso…

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