A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 78

A Virtude do Demônio

— Hah… Hahah… — Eiro riu em resposta, mesmo que fosse obviamente uma risada falsa. — B-Boa piada, Jura… Eu… ajudarei Lugo agora… — Ele disse, rapidamente empurrando a porta e correndo antes que mais alguma coisa pudesse ser dita, enquanto olhava ao redor sua visão estava ficando muito tonta.

— Eu preciso me afastar daqui… — O Diabrete murmurou, apenas encarando à distância à sua frente e começou a caminhar.

Apenas… caminhou.

Eiro não sabia onde ele estava tentando ir, ou quanto tempo se passou, mas isso não importava agora. Logo, caminhar virou trotar, e ainda mais tarde, trotar virou correr, até que Eiro se encontrou na frente do rio. Era normalmente apenas uma hora de distância da casa se você caminhasse sem parar, mas parecia que agora ele havia percorrido isso muito mais rápido… Embora, ele realmente não soubesse quanto tempo havia se passado.

Ele genuinamente não pensou em nada enquanto estava correndo daquela forma. Isso o acalmou um pouco, mas Eiro ainda estava insanamente chateado com o que acabou de acontecer.

Não era que estivesse bravo com alguém, era mais como frustação bruta e pura. Afinal, como poderia não estar frustrado? Eiro pensou que, contando que alguém fosse forte, não precisaria se preocupar com coisas como morte e doenças… e Jura era das pessoas mais fortes que conhecia, mas ele ainda estava morrendo? Que merda era essa? Como ele poderia aceitar isso?

Isso significava que não importava o que você fizesse, era tudo inútil? Se você fosse morrer no fim de qualquer maneira, então qual era o ponto? Por que Eiro não deveria terminar com tudo ali mesmo, se no fim ele apenas sucumbiria à morte de qualquer modo…

Lentamente, na mão de Eiro, uma adaga decorada com uma pequena pedra vermelha no cabo apareceu, como se tivesse surgido do vazio, e o Diabrete lentamente segurou a ponta dela contra sua garante, enquanto algumas gotas de sangue escorriam pelo metal frio.

— O que diabos você está fazendo?! — Uma voz que Eiro realmente não queria ouvir acabou de gritar de trás dele. — Você é o cara de antes, certo?! Não disse que tem crianças? — Jess, a Maga do trio de antes perguntou enquanto pulava para que pudesse falar com ele mais facilmente.

Nesse instante, Eiro havia colocado o capuz na cabeça, para que seu rosto estivesse quase todo oculto, mas ainda era óbvio para qualquer rum que o visse o que ele estava para fazer com a adaga.

— Cala a boca. — Eiro rosnou um tanto irritado, mas Jess não parou e se aproximou dele. Parecia que ela estava sozinha, por alguma razão… mas o que isso importava, afinal?

— Não, eu não vou ficar quieta… Apenas abaixe a adaga e venha até aqui, certo? — Ela perguntou, mas Eiro apenas cerrou os dentes.

— O quê? Você achou que eu realmente me machucaria? — Eiro perguntou com uma leve risada, e então, Jess subitamente parou. — Você acha que eu realmente seria tão egoísta? Que eu as abandonaria sozinhas, depois de tudo que tiveram que passar? Claro, o pensamento de dar um fim a isso passou pela minha mente, mas quem é você para julgar se eu realmente faria isso? Que eu não teria parado depois dessas gotas de sangue bem aqui, que trouxeram minha mente de volta ao meu perfeito juízo? — Ele perguntou, ficando cada vez mais bravo enquanto falava.

E isso era a verdade… esse era o seu plano, mas, depois daquele momento de dor, ele acordou e percebeu quão errado isso poderia ter isso, de todas as formas possíveis.

Mas, não importava o que Eiro tinha dito, Jess simplesmente não parou.

— Isso é o que você está dizendo agora, mas pode assegurar que não teria feito isso se eu não tivesse intervindo? — Ela perguntou, continuando se aproximando, enquanto Eiro apenas continuava cerrando seus dentes. Seu braço que pendia soltou ao mesmo tempo que a lâmina da adaga que segurava apontava para o chão.

— Não posso, mas, você tem certeza de que eu teria feito? — O Demônio a questionou, ainda de costas, e Jess agora estava a apejas alguns passos de distância dele quando continuou a falar.

— Eu conheço pessoas como você, eu sei que você tem…

— Não, você não conhece pessoas como eu. — Eiro rosnou enquanto se virava e encarava a mulher à sua frente diretamente em seus olhos, enquanto abaixava o capuz, os últimos raios de sol do dia atingindo seus chifres e refletindo, enquanto o rosto Demoníaco desse homem apenas encarava Jess. — Porque eu não sou uma pessoa.

— O q- O que…? — Jess murmurou, confusa com o que estava acontecendo, — Você não é o…

—Eu sou. Eu sou o cara que você encontrou na cidade, aquele que congelou a cabeça do seu amigo em uma esfera de gelo. Eu sou um Demônio, você vê? Eu sou um monstro. Agora me diga, sabendo desse fato, teria me impedido de me suicidar de novo? — Eiro perguntou, dando um passo mais perto de Jess. — Você teria me parado, ou teria me matado por conta própria? E então venderia orgulhosamente meus chifres para alguma guilda, ou usaria partes do meu corpo para a sua pesquisa? — Ele adicionou, enquanto Jess apenas dava alguns passos para trás.

— A…. as pessoas na cidade sabem sobre você? — Ela perguntou em choque, e Eiro apenas a encarou.

— Deixe-as de fora disso. Isso não é sobre ninguém, além de mim e você. Diga-me, você realmente se importa? Você realmente se importa em me manter vivo? Ou apenas não queria ver outra pessoa morrer?

— Eu não…

— Só me responda, porra! — Eiro gritou, enquanto encarava a mulher intensamente. — Apenas me dê uma razão para odiar cada pessoa! Uma razão para não ficar mortificado com a… dele…! A MORTE DELE! — Ele gritou, sua voz ecoando pela floresta, e apenas encarou o rosto da mulher à sua frente, enquanto ela ficava ali completamente desarmada e aterrorizada, antes que Eiro estalasse a língua e passasse por ela.

— Saia da minha vista. Eu juro que se eu te ver novamente, empurrarei essa adaga contra a sua garganta em vez da minha. — Ele deu mais alguns passos e se afastou de Jess, enquanto conseguia ver Lugo a distância, lentamente se aproximando.

— Ei, garoto… — Eiro disse com um sorrio ligeiramente amargo, esticando sua mão para o Cervo, que apenas colocou o focinho contra a palma do Demônio.

— Isso, vamos para casa… — Ele murmurou, e rapidamente subiu nas costas de Lugo, antes que o Cervo corresse de volta em direção à colina. Eiro apenas olhava profundamente para a floresta ao seu redor, ao mesmo tempo que esfregava as gotas de sangue que escorriam por sua garganta.

Elas já haviam secado, então ele não precisava se preocupar com nada. Ele foi realmente tolo ali, não foi?

Jess estava provavelmente certa… ele não tinha ideia se teria, ou não, feito isso, mas ela o impediu e teve certeza de que ele não o fez. Mas… Mesmo assim, Eiro estava certo, não estava? Pessoas desprezavam monstros.

As crianças não, pois elas cresceram com Eiro… e as pessoas na cidade também o aceitavam pois elas também tinham muitos segredos.

A cidade foi construída ali, longe de qualquer outra cidade ou vila. Era uma cidade fundada por pessoas que não conseguiam encontrar um lugar em outro local. Uma cidade de pessoas que eram descendentes de pessoas, monstros, espíritos, ou outras criaturas. Era difícil dizer nesse momento, porque havia muitas pessoas de sangue puro ali, mas por exemplo: Tom, da guilda de aventureiros, tinha sangue de Sátiro, então ele tinha dois pequenos montes em forma de chifres sob seu cabelo, e suas pernas eram bastante fracas também, então ficava sentado durante a maior parte do tempo.

O ferreiro da cidade era parte ogro, e sua esposa era parte Espírito da Chama, então o filho deles tinha parte de ambos. A maioria das pessoas vestiam coisas que escondiam quaisquer partes de monstros que tivessem, mas… era inegável que eles não eram completamente humanas. Então, embora ainda tivessem dificuldade em aceitar Eiro no começo, não eram completamente hostis a ele. E depois do tempo que Eiro passou ao redor de lá, eles acabaram vendo-o como qualquer outro da cidade.

Eiro não tinha certeza se a conexão da cidade com a natureza devido aos seus sangues misturados ser a razão para as Damas aparecerem ali, mas ele não se importava muito.

De qualquer maneira, as pessoas que Eiro tinha contatado ali eram todas diferentes das pessoas normais. E pela reação de Jess, era muito óbvio que ele nunca conseguiria viver com eles, como fez com as pessoas da cidade.

Mas, por que ele precisava? Ele apenas tinha que ficar com as crianças e tudo ficaria bem, absolutamente bem. Quem se importava com pessoas? Eiro certamente não.

Enquanto o Diabrete se aproximava da casa, viu uma certa jovem parada em frente à porta, e ela parecia aliviada ao vê-lo.

— Eiro, onde você foi? Não disse que iriai checar Lugo? — Ela perguntou enquanto o Diabrete descia das costas do Cervo.

— Me desculpe, eu tinha que cuidar de outra coisa naquele momento. Vamos voltar para dentro. — Eiro sugeriu e entrou pela porta, colocando a mão nas costas de Sammy para acalmá-la antes de entrar, onde ele logou viu Jura dormindo novamente.

Com um leve suspiro, o Demônio simplesmente se sentou em sua cadeira na mesa e se inclinou contra ela, enquanto Avalin se aproximou e levantou as mãos em direção a ele. Eiro apenas sorriu levemente e se esticou para pegá-la e colocá-la em seu colo.

— Você está bem, papai? — Ela perguntou enquanto olhava para ele, e Eiro apenas assentiu em resposta.

— Estou bem, não se preocupe. — Ele disse tranquilizadoramente, enquanto passava a mão pelo cabelo da garota, tentando ignorar a leve dor que vinha com isso.

— Erm… — Arc começou enquanto olhava para Eiro, com um leve sorriso no rosto, embora fosse um sorriso mais reconfortante do que o causado por alegria genuína. — Então, a Dama do Inverno virá em breve, certo? — Ele perguntou, e Eiro se virou em sua direção e assentiu.

— Em dois meses, sim. Por que, há algo que deseje pedir para ela? — O Diabrete perguntou, e Arc apenas deu de ombros.

— Acho que seria legal encontrá-la alguma vez… — O garoto apontou, e Eiro levantou as sobrancelhas em reposta.

— Claro, duvido que ela se importe. Se for só a conhecer, claro. Embora, possa ser diferente do que liderá-la até a cidade, mas podemos pedir para ela. Há alguma razão específica para querer conhecê-la? — Eiro perguntou, tentando liderar a conversa, grato por Arc tentar distraí-lo um pouco, e o garoto lentamente acenou com a cabeça em reposta, apenas rindo ligeiramente enquanto fazia, aparentemente nervoso com que estava para dizer.

— Claro que há… você e Jura falaram muito sobre ela, então por que eu não iria querer conhecer a amiga do meu… pai? — Ele disse, esfregando sua bochecha com um sorriso irônico, e Eiro olhou para ele, surpreso.

— A amiga de seu pai? — Ele perguntou. Arc, assim como as outras crianças, não falava muito sobre seus pais, então…

— Sim, você… não é? — Clementine perguntou confusa, e Eiro apenas se voltou para ela.

— Hm, o que você quer dizer? Sim, eu gostaria de pensar que sou, mas estamos falando sobre o pai de Arc… — O Diabrete disse com uma leve carranca, e apenas escutou Sammy suspirar atrás dele.

— O que diabos você está dizendo agora? — Ela disse com um sorriso irônico, enquanto se aproximava, e Rudy olhou para ele um tanto incomodado também.

—É você quem sempre sai por aí nos chamando de suas crianças, então o que há de errado em chamá-lo de nosso pai? — O jovem disse com uma carranca, e Eiro olhou para todos eles completamente confuso, antes de encarar Arc.

— Você… você quer dizer… eu? — Ele, sentindo seu estômago um pouco tenso, e Arc apenas assentiu a cabeça sem hesitação.

— Sim… isso não era óbvio? — Ele perguntou, e Eiro apenas ficou parado por alguns instantes, antes de olhar para baixo e colocar as mãos sobre os olhos, antes de começar a rir lentamente.

— Eu sabia… não importa o que ela tenha dito, não há como eu odiar as pessoas se elas são como vocês…

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