
Volume 2 - Capítulo 76
A Virtude do Demônio
— Ei, estou de volta. — Eiro exclamou enquanto entrava pela porta da frente da casa e olhava ao redor, antes que a parte inferior de seu coro ganhasse um pouco mais de peso.
— Papai! — Avalin exclamou, com a boca ainda cheia de comida, enquanto ela se pendurava nas pernas do demônio, e o próprio Diabrete se agachou e sorriu.
— Eu só estive fora pela manhã… vá e volte a comer. — Ele disse à jovem, que olhava com seus olhos atualmente amarelados. Ela rapidamente voltou para Sammy, que estava limpando a bagunça dela e de Leon.
— Bem-vindo de volta. — Ela disse com um sorriso enquanto se aproximava lentamente com brinquedos em seus braços e o Diabrete a abraçou rapidamente, antes que o Demônio olhasse ao redor da sala novamente.
— Onde estão Jura e Rudy? — Eiro perguntou curiosamente enquanto ia até as duas crianças pequenas e olhava para o que estavam comendo, ao mesmo tempo que Sammy apenas esfregava a cabeça em reposta.
— Ah, eles apenas foram caminhar um pouco. Você sabe como Jura está ultimamente… — A jovem moça de cabelos ruivos disse amargamente, e Eiro assentiu levemente.
— Então acho que eles votam logo. Vou trabalhar um pouco. — O Demônio apontou, indo até uma das prateleiras colocadas no canto e olhando para elas para ter uma ideia melhor do que deveria fazer para sua prática diária.
— Oh, alguma ideia nova hoje? — Sammy pergunto, curiosa, e Eiro lentamente balançou a cabeça em resposta. Ele não estava com vontade de fazer prática geral hoje, então pensou em fazer algo novo e único que não fez antes.
Devagar e com os olhos fechados, Eiro passou mentalmente por todas as coisas que fez até agora. Todas as 8173. A maior parte delas eram apenas estatuetas pequenas retratando monstros, animais, ou até plantas que ele encontrou. Havia algumas exceções, obviamente, embora parecesse que o número de exceções fosse ficar ainda menor.
Porque por alguma razão, Eiro recordou de algo que aconteceu há muito tempo… Há seis anos, para ser exato.
Lentamente, o Diabrete olhou ao redor das prateleiras para localizar os diferentes tipos de madeiras que queria usar… Primeiro, Ravia a Casca de Neve. Essa madeira era completamente branca, e recebeu seu nome pois usualmente crescia em áreas cobertas por neve durante a maior parte do ano e se misturava quase perfeitamente com os arredores nevados devido à sua cor.
A próxima madeira era a Raiz de Fuligem. Tinha uma cor preta como breu, e recebeu seu nome por cobrir as mãos de qualquer pessoa que a tocasse sem cuidado com uma substância preta como fuligem. Essa era a primeira parte do nome. O segundo vinha de quão específico essa madeira era, só poderia ser colhida de raízes grossas de uma árvore específica depois que ela era incendiada, e esse fogo se apagava naturalmente.
Isso significava que algumas vezes era difícil conseguir pedaços grandes, mas estava tudo bem. Eles tinham literalmente uma pequena montanha de pedaços pequenos que poderiam seu unidos em um pedaço maior, se precisasse. Embora, esse pedaço seria apenas do tamanho de suas mãos de qualquer forma…
— Mudança de planos, jovem… Eiro… — Jura disse enquanto tossia alto em seu punho de uma forma um tanto doentia, e então olhava para o Diabrete mais uma vez, enquanto ele se virava, surpreso.
— Hm? — Eiro perguntou, e o velho lentamente sentou-se em sua cadeira no canto, pegando o necessário para ajudar Rudy.
— Você estará começando… seu último grande projeto agora… antes da sua graduação como meu aprendiz… — Jura disse claramente, e Eiro o encarou como se estivesse em choque.
— Espere, o que você quer dizer? Minha habilidade de esculpir ainda está em Aprendiz 98, não estou nem perto de chegar em Intermediário… — Eiro apontou, e Jura apenas balançou a cabeça.
— Está bem. Você conseguirá fazer muito bem de qualquer maneira. Esculpir é só parte do processo, de qualquer maneira. Seja lá o que você queira fazer agora, aumente o tamanho disso para seu tamanho regular. Pelo que posso sentir de seu coração batendo, deve ser uma criatura bastante horrível. — Jura apontou, e Eiro levantou as sobrancelhas, surpreso, antes de assentir com um sorriso ligeiramente nervoso.
— Claro… mas, quanto da Raiz de Fuligem eu pos-
— Use tudo. A única vez que eu usei isso foi… eu já usei isso? — Jura se perguntou com uma leve carranca, então Eiro lentamente agarrou todos os pedaços de Raiz de Fuligem que estavam na prateleira e as colocou em um pedaço de roupa, para que não sujassem o chão, enquanto acenava a cabeça.
— Sim, você usou. Ano passado, na sua viagem em maio. Não sei para que, mas você voltou com aproximadamente metade do que tinha, e duvido que você tenha a usado para fazer fogo. — Eiro apontou, então jura riu lentamente e assentiu.
— Haha, certo, certo, eu lembro agora. De qualquer forma, vá e comece a trabalhar, seu bufão. Você tem uma semana para terminar isso. — O velho tossiu enquanto acenava com a mão em direção à porta, então Eiro apenas assentiu e saiu com as diferentes madeiras que precisava… eles tinham um pedaço bastante grande de Casca de Neve guardado no estoque de madeiras, então Eiro possivelmente usaria ele como base para o corpo.
— Rudy, você consegue descer e me ajudar um pouco? — Eiro perguntou, embora não tivesse certeza se deveria estar animado sobre esse grande projeto, ou… triste, por ser a última coisa que faria sob a tutela de Jura.
— Claro. — O jovem disse, sua voz já estava algumas oitavas mais profunda do que antes, enquanto sua figura já estava tão alta quanto Eiro. Bastante impressionante para um garoto de quatorze anos.
— Então venha. — Eiro disse, enquanto empacotava a Raiz de Fuligem que já havia reunido, e decidiu levá-las para fora. O Demônio e o jovem garoto foram até a parte de trás da casa, onde havia uma entrada que levava para o espaço oco embaixo dela, que era basicamente sustentada apenas pelas raízes grossas da árvore acima, que ainda desciam pelo teto desse espaço profundo no chão. Felizmente, era bastante seco nessa sala, então toda a madeira que ficava aqui durava anos, e não precisavam se preocupar em pegar novos tipos todas as vezes.
— Ah, aqui está. — Eiro disse enquanto apontava para um bloco grande de madeira branca, que era aproximadamente tão alto quanto o Diabrete. Isso significava que ele precisaria fazer as pernas separadamente, considerado o tamanho da coisa que estava fazendo. Como a figura que faria era bem fina, ele deveria conseguia reutilizar algumas partes do bloco de madeira também.
— Vamos apenas trazer para frente. — O Demônio sugeriu, e Rudy assentiu silenciosamente, caminhando para o outro lado do bloco de madeira enquanto Eiro se abaixava na frente dele, cavando sob a madeira com seus dedos. Esse tipo e coisa normalmente forçava bastante a sua mão de madeira, mas até agora ela aguentou muito bem, então Eiro não estava preocupado com ela quebrar.
— Certo, estou pronto. — Eiro disse, suas pernas e braços lentamente aquecendo enquanto ele levantava o rolo um pouco pesado, enquanto Rudy tinha certeza de empurrar para as costas de Eiro apropriadamente, para que ele conseguisse carregá-la em uma posição curvada.
E então, enquanto os dedos de Eiro basicamente se enterravam no pedaço de madeira branca, Rudy ajudou a manter tudo equilibrado. Com a técnica que o Diabrete estava suando, ele conseguiu ganhar um acréscimo incrível de força bruta por um curto período, mas não ajudava no equilíbrio, então não era realmente capaz de carregar esse tipo de coisa sozinho de qualquer maneira, mesmo que estivesse bem com o peso.
— Cuidado com os degraus. — Rudy disse com um tom bastante frio, embora triste, enquanto matinha suas mãos nos lados da madeira, e Eiro deu uma investida pesada com seu pé para subir no primeiro degrau. Então o segundo, e o terceiro e então finalmente chegaram na superfície.
Apesar disso, agora era um pouco mais difícil, por não haver nenhum apoio adequado, especialmente porque o chão ainda estava um pouco molhado da chuva de noite passada. Não havia muita chuva por aqui, mas chuvas rápidas os atingiam de qualquer forma.
Eiro desacelerou um pouco apenas para ficar seguro, e colocou o bloco em uma plataforma de pedra ao lado da casa, antes de respirar profundamente, finalmente capaz de relaxar.
— Escute, Eiro… — Rudy começou, embora Eiro o interrompeu rapidamente enquanto levantava seu dedo.
— Só um momento… Deixe-me terminar com isso primeiro… — O Diabrete disse e então cerrou os dentes, lentamente deixando sua Força Vital se dissipar através do seu corpo, fazendo com que o estresse que colocou em si finalmente o atingisse.
— Haaah… — Eiro suspirou profundamente enquanto se inclinava contra a madeira. A dor enchia as partes do seu corpo que ele aqueceu muito antes. Esse era o efeito negativo de manipular sua força vital… ela te permitia fortalecer certas partes do seu corpo momentaneamente, mas a reação contrária era bastante dolorosa. — Que incômodo… — O Diabrete murmurou enquanto a dor lentamente diminuía, e ele esticou o seu corpo por um tempo. — Então, o que você queria dizer? — Eiro perguntou com um sorriso no rosto, e Rudy olhou lentamente através da janela da casa, confirmando que Jura estava dormindo, como ele sempre fazia perto dessa hora do dia ultimamente, e então suspirou profundamente.
— Jura, ele… ele não está muito bem… — Rudy apontou baixinho, e Eiro levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Hm? O que você quer dizer? Claro, ele dorme muito mais ultimamente, mas é porque vocês se tronaram mais confiáveis… ele realmente não tem muito mais o que fazer. — O Diabrete respondeu enquanto ia pegar suas ferramentas, e quando voltou, Rudy estava ali, agarrando seu próprio braço com força.
— Não… não é apenas o sono… bem, o sono também, mas… você notou antes, não é? Ele está ficando mais esquecido… e não saiu em viagens por mais de quatro meses, e mal toca em suas ferramentas além de mostrar técnicas para você. Você pode não ter notado tanto, pois está saindo muito durante do dia, mas… Jura realmente, realmente não está bem. — O jovem explicou com uma expressão amarga, até mesmo limpando o que se tornaria uma lágrima em mais alguns segundos dos seus olhos.
— Ele perdeu tanto peso que eu tive que diminuir as roupas dele algumas vezes já, ele não tem mais apetite… ele sempre deixa quase toda a sua comida em seu prato… — Rudy adicionou. — Suas mãos tremem o tempo todo, e em dias especialmente ruins, tenho que repetir o que falo, pois ele não entende o que eu digo… na última semana, quando fiz ensopado, ele ficou surpreso quando eu o coloquei na mesa, porque ele não conseguiu sentir o cheiro enquanto eu estava cozinhando… Eiro, ele não consegue sentir cheiros! Jura não consegue! — Ele exclamou alto, ficando incrivelmente irritado, e a esse ponto, até Eiro percebeu que algo estava errado.
— Ele está doente? Ele foi envenenado de alguma forma? Talvez ele…? — O Diabrete sugeriu com preocupação, mas Rudy apenas o interrompeu.
— Não! Eiro, eu sei que você não viu algo assim antes… e você mesmo não mudou muito nos últimos cinco anos, mas pessoas como nós envelhecem! Não podemos viver para sempre… — Rudy disse baixo, enquanto olhava para o chão, agora realmente incapaz de segurar suas lágrimas — Eiro… acho que… Jura está morrendo…
…