A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 75

A Virtude do Demônio

— Agora, se vocês me dão licença, tenho que cuidar de algumas coisas. Venha, Lugo. —  O Diabrete disse om uma voz clara, caminhando pela praça em direção à loja que precisava ir para comprar alguns itens. A Loja Geral, onde geralmente comprava temperos que precisavam, assim como itens como farinha e vegetais ou frutas que eram difíceis de plantar. Depois disso, precisaria ir ao costureiro e então ao sapateiro para pegar os pedidos que Eiro havia feito durante última visita à cidade.

E por último-

 — Onde você acha que está indo?! — A mulher, Jess, gritou enquanto tentava derreter o gelo ao redor do rosto de seu companheiro, embora o terceiro deles, aquele mascarado e desfigurado, não reagiu muito. — Guardas, finalmente! — Ela então gritou, e Eiro virou a cabeça para ver dois homens armados parado na rua, a pequena insígnia em seus peitos mostrava que ambos eram partes da Milícia da Vila.

Embora, um deles fosse um fazendeiro que produzia muito trigo de quem o jovem Demônio comprava, e o outro fosse o filho do ferreiro local. Em momentos de pico, ele ajudava seu pai a fazer ferraduras ou ferramentas para as pessoas da cidade, mas sua ajuda não era realmente necessária, ele usava seu tempo livre para ter certeza de que a cidade estava segura.

— Por favor, prendam esse homem! Ele atacou nosso companheiro! — Jess gritou enquanto apontava seu cajado para Eiro, e os dois olharam para ele.

— Erm, o que exatamente aconteceu aqui? — O mais velho dos dois, o fazendeiro, perguntou enquanto se aproximava do Demônio, que apenas suspirou e explicou a situação. Assim que terminou, os dois homens olharam para os três viajantes e balançaram suas cabeças.

— Hmm, então obrigado, Eiro, mas você poderia apelo menos derreter o gelo? Se ele morrer ou acabar aleijado, realmente teremos que te prender. — O fazendeiro disse com um suspiro, e Eiro se virou incomodado, levantando lentamente sua mão de madeira, antes de deixar mana fluir por dentro dela. A madeira com que sua mão era feita era uma especial, usada para fazer cajados, então era bastante útil para tais coisas.

E logo, o gelo começou a liberar vapor e simplesmente se quebrou em pedaços no rosto de Krog.

— Agora posso finalmente ir? — Eiro perguntou, então o fazendeiro lentamente assentiu a cabeça.

— Claro que pode, apenas não cause mais problemas, entendeu? — Ele comentou e então se virou para os três viajantes — Quanto a vocês…

— Vocês vão simplesmente deixá-lo ir?! — Jess perguntou confusa, praticamente perplexa, e o filho do ferreiro apenas a encarou irritado.

— Sim, nós vamos, e você deveria ser grata a ele, afinal, o que você fez é contra a lei dessa cidade. Talvez ele não devesse ter feito isso ao seu amigo, mas o conhecemos bem o suficiente para saber que ele não machucaria ninguém permanentemente.

‘Verdade,’ pensou o Diabrete, ‘se eles estivessem mortos não poderiam ser machucados, certo?’

Bem, durante os últimos anos, ele construiu uma reputação confiável nessa cidade, afinal. Depois de seis anos, seria estranho se ele não fosse conhecido por aqui.

De qualquer forma, por agora, Eiro apenas deixou a praça para finalmente fazer o que tinha que fazer. Felizmente, os lugares que tinha que ir eram bem ao lado um do outro, então ele conseguiu terminar tudo rapidamente.

Com as mochilas que agora estavam apropriadamente cheias e amarradas nas costas de Lugo, Eiro finalmente conseguiu voltar para casa.

Ele viu os viajantes novamente durante o seu caminho para sair da cidade, e Jess e Krog o encararam enquanto ele andava.

— Que incômodo… — Eiro murmurou, enquanto rolava os olhos sob a máscara, e então rapidamente subiu nas costas de Lugo, fazendo o Cervo grunhir alto em resposta.

— Não, eu também não estou gordo, você só é preguiçoso. — O Diabrete suspirou. — Apenas vá andando! — Ele adicionou, e Lugo olhou para frente e finalmente começou a caminhar, tudo enquanto Eiro voltava seus olhos e empurrou a mão para frente, fazendo o mesmo movimento como se ele estivesse puxando algo de uma prateleira, antes que um livro pequeno aparecesse em sua mão, como se tivesse usado uma magia para fazê-lo aparecer.

E tecnicamente, era isso mesmo. Um tipo de Magia. Pelo menos, custava um pouco de mana para Eiro fazer isso acontecer, então ele imaginou que era.

Essa era a habilidade racial de Eiro: A Tesouraria do Colecionador. Isso o permitia armazenar um de item de cada tipo, como um subespaço. Foi daí que ele retirou sua máscara antes. Felizmente, livros frequentemente eram vistos como coisas separadas dependendo de seus tópicos ou gêneros, então Eiro atualmente tinha seis livros que ainda não havia lido armazenados ali. E assim que os terminasse, ele apenas os colocaria na sua “Biblioteca” e pegaria o próximo livro.

Além da máscara e os livros, ele tinha a Flor de Gelo, as duas cartas e sua adaga armazena ali. Ele poderia armazenar qualquer troféu que pegasse de monstros ou animais que derrotou no passado, embora isso significasse que só poderia armazenar uma peça de qualquer monstro específico. Por exemplo, havia este tipo de monstro chamado de ‘Lobo Chifrudo’, que tinha três coisas interessantes diferentes. Suas garras, presas e chifre.

Se escolhesse armazenar o chifre, não conseguiria armazenar as garras ou as presas. Infelizmente não conseguia armazenar todo o lobo também, pois o espaço que tinha para armazenar coisas era muito limitado ao seu próprio volume físico… Aparentemente, ele não tinha certeza. Era difícil de testar, realmente. Não parecia que ele conseguiria armazenar um cadáver inteiro como esse.

De qualquer modo, essa habilidade era muito útil na maior parte do tempo, pois tornava sua vida diária muito mais fácil ao conseguir esconder sua arma e ‘tesouros’, o que significava as cartas e a flor de gelo, muito facilmente.

Também tornava o seu trabalho mais fácil, pois a maioria de suas ferramentas eram vistas como coisas separadas. Então ele poderia ter coisas como um martelo, um cinzel e faca armazenados ali, mas não em cada variações diferentes que ele precisava.

Entretanto, dependendo de quão bem ele usava essa habilidade, ele conseguiria mover as coisas de uma mão para a outra instantaneamente, então, na maior tempo do tempo, ele tinha a maioria das ferramentas ao seu lado e ele apenas trocaria para o lugar em que ele precisava naquele momento, para conseguir trocá-los quase instantaneamente.

Bem, o trabalho de Jura ainda era muito mais rápido e mais detalhado do que o seu próprio, apesar de… que ele ainda tinha problemas para fazer coisas como sua própria mão direita, membros que os animais conseguiriam usar sem preocupações.

— Hmm… Lugo, pare aqui por um momento. — O Diabrete disse com um leve suspiro, colocando o livro que quase terminou de volta à sua ‘tesouraria”, descendo lentamente das costas do Cervo. — Pare de se mover, tenho que amarrar isso com mais força. — Eiro disse enquanto pegava uma corda extra e apertava as mochilas nas costas de Lugo com bastante força, subindo nas costas dele e envolvendo a parte inferior do seu corpo com uma corda, antes de segurar firmemente na galhada de Lugo.

Enquanto o Cervo em si apenas berrava, Eiro suspirou.

— Lugo não se assuste, mas acho que que estamos sendo seguidos. Devem ser os… Bandidos de Cervos. — O Diabrete disse com um tom sério, e Lugo imediatamente virou a cabeça em direção a ele e resmungou alto.

— O quê, você nunca escutou sobre eles? Os Bandidos de Cervo, Lugo! Eles têm o objetivo de caçar cada cervo que encontrarem… e então cortar seus membros um por um, para fazê-los assistir enquanto são comidos. — Ele explicou, e os olhos do Cervo apenas giraram enquanto ele resmungava novamente, embora dessa voz o som tenha soado quase como uma gargalhada.

— Lugo, você é um cervo. — O Diabrete suspirou, e mais uma vez, a cabeça de Lugo se voltou instantaneamente para Eiro, que apenas assentiu a cabeça em confirmação, antes que o Cervo começasse a acelerar imediatamente com uma velocidade imensa, tudo enquanto Eiro murmurava silenciosamente para si mesmo.

— Eu vivo em uma floresta com numerosas criaturas, animais e alguns espíritos e até mesmo quatro Deusas da Natureza a cada ano…. E tive que escolher um idiota como meu Familiar… — O Demônio suspirou, enquanto se virava, rapidamente confirmando que os três viajantes foram deixados para trás.

Algo que Eiro tinha que admitir era o fato de Lugo ser o animal mais rápido que ele já viu, então duvidava que dois humanos e um elfo conseguiriam segui-los.

Por enquanto, eles apenas tinham que chegar em casa, e Jura conseguiria dizer se foram seguidos, então Eiro poderia apenas sair e enfrentá-los na floresta a essa altura. Ele não queria fazer isso no meio da cidade, mas não se importava em matar na floresta, onde ninguém estava olhando.

Bem, embora, tecnicamente eles só estivessem procurando ajuda para o elfo… Então talvez não devesse matá-los? Nem mesmo as pessoas na cidade sabiam exatamente onde eles viviam, então Eiro não queria que fossem seguidos, pois poderia se tornar problemático para as crianças…

Esse era um problema para pensar mais tarde, agora eles apenas tinham que chegar em casa. Era um pouco irritante que não conseguisse ler mais por conta de quão esburacada e rápida essa viagem era, mas ficaria bem se conseguissem voltar casa mais cedo.

Apenas algumas horas depois, conseguiram chegar à cabana construída, contraída em uma árvore em cima da pequena colina, e Eiro acalmou Lugo assim que começaram a subi-la. O Cervo exausto também estava muito feliz em chegar em casa, embora Eiro tivesse quase certeza de que ele havia esquecido pelo que estavam correndo.

— Venha. — Eiro disse quando finalmente chegaram na frente da cabana, e o Diabrete abriu a porta para o armazém/escritório, rapidamente carregando as diferentes coisas para dentro e as colocando no chão. Ele as separaria mais tarde, mas, por agora, tinha que limpar as pernas de Lugo, afinal, estavam complemente cobertas por lama.

— Eiro! — Uma jovem moça exclamou com um sorriso brilhante, com o cabelo loiro na altura do ombro em um rabo de cavalo. Ela estava vestindo botas altas também cobertas por lama, assim como roupas simples de cor bege que normalmente vestia quando trabalhava.

— Olá, Clem.

— Hehe, você trouxe algo para mim da cidade? — Ela perguntou com leve sorriso, e o Demônio levantou suas sobrancelhas, devolvendo a recepção, enquanto retirava sua máscara.

— Além de comida, roupas e sapatos? Não, me desculpe. — Ele riu tolamente, e Clementine apenas fez beicinho em resposta.

— Caramba! Eu limparei Lugo, Arc ainda está ordenhando as vacas de qualquer maneira. — Ela disse com um leve suspiro, então Eiro olhou para ela com um sorriso.

— Obrigado. — O Demônio disse enquanto se levantava, finalmente retirando seu capuz, ao mesmo tempo que rapidamente dava a Clementine um breve abraço, antes de ir em direção ao pequeno celeiro que foi construído para deixar os outros animais, onde bateu na porta enquanto entrava.

— Arc? Você está aqui? — Eiro perguntou, e o garoto que estava procurando lentamente levantou a cabeça sobre as costas da vaca que estava à sua frente, embora mal conseguisse.

— Oh, você está de volta! — Ele exclamou, e Eiro apenas assentiu.

— Parece que sim.

— Algo aconteceu na cidade?

— Nada.

— Você trouxe algo para mim?

— Nada.

— Finalmente posso me tornar um aventureiro?

— Não.

— Tem certeza?

— Sim.

— Merda! — Arc exclamou amargamente, mas Eiro apenas riu levemente.

— Você terá quinze anos em mais um mês. Que tal eu levá-lo para a cidade então? Nós falaremos com Sam e te inscreveremos. — O Diabrete sugeriu, fazendo o garoto sorrir brilhantemente em reposta.

— Espere, sério?! — Ele perguntou surpreso, e Eiro apenas sorriu de volta.

— Uhum. Só há pedidos para reunir plantas, mas acho que é melhor do que nada, certo? — O Diabrete aponto, mas Arc apenas balançou a cabeça.

— Isso está bom! Obrigado! — O garoto… ou melhor, o jovem respondeu, e Eiro simplesmente sorriu.

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