
Volume 2 - Capítulo 74
A Virtude do Demônio
— Bom dia, Eiro. Essa época do mês de novo, huh? — um homem de meia idade baixo peguinhou com um sorriso grande, enquanto olhava por cima do balcão, vendo um jovem Demônio abrir a porta.
— Bom dia. — Eiro comentou, lentamente colocando sua mochila em cima do balcão. — Terminei os pedidos que peguei na última vez. Cinco bolsas de Sombra da Lua, dez bolsas de Sulfunarum e cinco litros de água de bétula. — O Diabrete comentou, e tirou quinze bolsas no total, assim como cinco garrafas de metal de sua mochila.
— Ah, que grandioso! Eu não sei o que faria sem você! — O homem respondeu, e rapidamente guardou tudo o que Eiro entregou para ele, sem nem mesmo checar. — Oh, mas só um aviso, há alguns viajantes na cidade… eles chegaram bem tarde, então ainda devem estar dormindo, mas vista a sua máscara e capuz pelo resto do dia, certo? — Ele sugeriu, então Eiro rapidamente assentiu, já seguindo a última parte do conselho, colocando o capuz por cima de seus chifres.
— Obrigada pelo aviso. Alguma nov-
— Já está resolvido, não se preocupe. Foi um mês lento, então há apenas três novamente… — O homem interrompeu Eiro, enquanto colocava três folhas de papel na frente dele no balcão, embora ele tivesse um sorriso grande no rosto. E assim que Eiro os checou, ele sabia o que significava o sorriso.
— Hmm, faz um tempo desde que eu vejo um pedido de caça, mas, Tim, isso não é um pouco estranho? Dez pernas de coelho, seis línguas de sapo e dois olhos de águia? — Eiro levantou as sobrancelhas, e o homem, Tim, assentiu e deu de ombros.
— É, mas o que você pode fazer? Não há muitos monstros ao redor, então a maioria dos pedidos de caça são como esses. Um dos viajantes que eu disse fez o pedido, mas deixe isso de lado, a recompensa é muito boa, não é? — Tim perguntou com um sorriso no rosto, e Eiro olhou para a parte interior do papel.
— Uma prata pequena? Isso é muito estranho… — Eiro disse com uma carranca, mas Tin apenas riu alto.
— Hahah, amigo, esse tipo de pedido normalmente daria apenas um ou dois cobres grandes no máximo! É um ótimo negócio!
— Justo… de qualquer forma, estou com pouca carne de coelho. Obrigado, Tim. Sobre a recom- — Eiro disse, mas rapidamente foi interrompido pelo som de algo batendo contra a porta de madeira atrás dele, e o Diabrete nem precisou se virar para ver de onde vinha o som.
— Virei pegar o dinheiro quando eu cuidar de tudo mais… — Ele suspirou, tentando ignorar as batidas contínuas, enquanto Tim simplesmente ria.
— Haha, entendi o que você quer dizer. O Inverno está chegando, e essas crianças devem estar crescendo como ervas daninha, não é? Pegue algumas roupas novas para elas! — Tim riu alto, e Eiro apenas suspirou profundamente com um aceno.
— Você pode dizer isso de novo? Especialmente agora que Clem e Sammy estão ficando exigentes com o que vestem…
— Crianças, não é mesmo? — Tim perguntou com um sorriso, e Eiro apenas respondeu com outro.
— As suas são iguais… — Assim que estava para falar, um dos sons de batida foi especialmente alto e o Diabrete se virou irritado.
— Lugo, pare já com isso! Já estou indo! — Ele gritou, e então olhou de volta para Tim, que ria lentamente e assentia com a cabeça.
— Está bem. Vá e eu te vejo mais tarde, quando vier pegar o seu dinheiro. — O homem de meia idade o tranquilizou, então Eiro sorriu em retribuição.
— Obrigado. — O Demônio respondeu e pegou sua mochila quase vazia e a colocou sobre o ombro, antes de esticar os dedos na frente do seu rosto, fazendo uma máscara um tanto simples e sem graça de madeira aparecer em sua palma, a qual rapidamente foi colocado contra a sua face, antes de puxar os fios sobre sua cabeça para deixá-la fixa.
— Lugo, o que você está fazendo? Você sabe que não cabe mais na porta. — Eiro suspirou enquanto empurrava o Cervo para longe da porta, antes que a criatura irritada berrasse em resposta.
— Não estou te chamando de gordo, Lugo, é a sua galhada. — O Demônio respondeu, revirando os olhos sob sua máscara, enquanto Lugo levantava a cabeça para tentar ver essas malditas coisa de quem todos estavam falando, mas, elas eram simplesmente rápidas demais para ele, sempre se escondendo de sua visão.
— Apenas venha, ainda temos alguns lugares em que precisamos ir. — Eiro suspirou e rapidamente começou a caminhar pela estrada, para longe do pequeno prédio com uma placa representando uma espada e um cajado cruzados em frente à um escudo.
O símbolo universal da Guilda dos Aventureiros.
Eiro realmente não sabia realmente o que havia de aventureiro nisso, nos dois anos em que esteve inscrito, a única coisa que esteve fazendo era reunir algumas plantas aleatórias para as pessoas da cidade. Pelo menos ele recebia algum dinheiro extra, não que precisasse necessariamente disso, considerando quanto ele dinheiro ele pegou do Lorde da Ganância… por que exatamente ele se inscreveu?
Assim que estava se perguntando sobre isso, o Demônio escolheu ignorar e rapidamente entrou na praça central, onde as estátuas das quatro Damas estavam reunidas. Fazia apenas dois meses que ele e Jura lideraram a Dama do Outono aqui, e em mais um mês, a Dama do inverno voltaria.
Era um trabalho bastante relaxado, e as Damas eram sempre muito divertidas de conversar, especialmente depois que as outras, além da Dama do Inverno, animaram-se um pouco com ele. E, felizmente, Jura também desistiu de dar sermões nele por falar casualmente com as Damas.
— Eh? Isso realmente é o lugar onde as Quatro Deusas da Natureza vão todos os anos? Realmente? — Uma voz desconhecida perguntou alto, soando bem no centro das quatro estátuas, algo que era visto como mais do que desrespeitoso nessa cidade. Isso era totalmente insultuoso.
E, embora Eiro não se importasse muito, ele não queria que as coisas escalassem mais quando alguns devotos das Damas vissem as três pessoas paradas ali, portanto se aproximou da área de entrada para a pequena área literalmente cercada.
— Com licença, mas não acho que vocês deveriam estar aí. — Eiro disse com uma voz clara, e assim que as três figuras se viraram, elas viram uma figura mascarada e encapuzada, o mais alto e mais fisicamente definido deles, um guerreiro com uma espaga grande presas nas costas, se virou para ele e se inclinou para frente com o objetivo de olhar diretamente no rosto de Eiro.
— É mesmo? — Ele perguntou, obviamente infeliz ao ser informado sobre o que não deveria fazer, e Eiro rapidamente notou que foi esse homem que gritou rudemente antes.
— Sim. — O Diabrete respondeu simplesmente, deixando o homem perplexo, enquanto seus companheiros, uma mulher com cabelos loiros traçados na altura dos quadris e um chapéu pontudo riu alto, embora o terceiro deles apenas continuasse parado em silêncio.
A figura desse homem se destacou especialmente entre os três. Um pedaço inteiro do seu corpo estava faltando, todo o seu braço, incluindo até mesmo seu ombro. Ele vestia uma máscara retratando um demônio simples, feio e bravo. Ele tinha duas adagas escuras e serrilhadas em seus quadris, e seus membros restantes estavam cobertos por ferimentos de queimadura bastantes sérios e cicatrizes profundas.
Eiro achou estranhou que ele mostrasse esses fatos tão abertamente, mas, no fim, não se importou muito e apenas olhou de volta para o homem alto à sua frente, que parecia bastante irritado.
— Não dê uma de espertinho, seu merdinha. — O homem disse e agarrou a gola de Eiro, mas Eiro apenas suspirou.
— Você pode se considerar sortudo por ter acabado de chover. — O Diabrete disse enquanto passava o pé pelo chão e congelava toda a área ao redor e dentro das quatro estátuas. Usando isso, ele agarrou o braço do homem e deu um passo para trás.
Claro, como não esperava que isso acontecesse subitamente, ele perdeu o equilíbrio, então caiu no chão quando Eiro finalmente manipulou o gelo para ficar ligeiramente inclinado.
Uma vez no chão, o Diabrete apenas agarrou o homem pelo pé e o puxou para longe das estátuas.
— Agora, vocês querem vir por conta própria? — Eiro perguntou, e atrás dele, o Demônio conseguiu escutar o som de metal arranhando contra rochas, enquanto o homem empurrava sua espada contra o solo, através do gelo.
— Não mexa comigo! — Ele exclamou, encarando sua companheira. — Jess, exploda-o! — O homem gritou, e a mulher estava para levantar seu cajado, antes que o homem mascarado balançasse a cabeça, revelando as orelhas pontudas que estavam escondidas sob seu cabelo até agora.
— O quê?! Cara, ele me atacou! — O homem gritou em seguida, mas Eiro se virou para ele irritado.
— Eu te ataquei? Eu apenas te tirei do lugar que é visto como sagrado nessa cidade, antes que as pessoas erradas te vejam lá. Fique feliz que eu não te ataquei.
Rapidamente, ambos, o homem mascarado e a mulher com o cajado, saíram do centro das estátuas, com a moça olhando para Eiro com uma expressão de desculpas.
— Me desculpe! Nós não sabíamos que esse lugar era tão especial! Parecia que você deveria entrar ali, com o grande portão e tudo… — A mulher se desculpou, e Eiro apenas balançou a cabeça em reposta.
— Esse portão é apenas para as quatro Damas. Nós não somos permitidos fechá-lo completamente, então o portão é deixado aberto. — Ele explicou, e então se virou e foi até o Cervo presunçosamente parado atrás dele, antes que o Diabrete rapidamente esticasse a mão e pegasse a mochila que havia colocado logo ao lado de Lugo antes, apesar de que, assim que fez isso, a mulher emitiu um som surpreso.
Lentamente, Eiro se virou para ela novamente.
— Há algo errado? — Ele questionou, mas a mulher imediatamente balançou a cabeça.
— Nada! Está tudo bem! Mas, onde exatamente você conseguiu essa… erm, mão? — Ela perguntou, e logo notou quão insensível isso soou, embora Eiro apenas tivesse dado de ombros.
— Um viajante veio aqui e fez para mim. — O Diabrete apontou e jogou a mochila sobre o obro, sem querer escutar o que mais eles tinham para perguntar.
— Você talvez saiba onde esse viajante está agora? — A mulher, Jess, perguntou, e Eiro apenas balançou a cabeça e se virou em direção a Lugo, gesticulando para ele segui-lo, mas o homem alto e fisicamente forte à sua frente não parecia exatamente feliz com essa reposta.
— Ei, você não pode pelo menos responder apropriadamente? Nós só queremos ajuda. Você viu o estado do nosso amigo, não viu? Então pare de ser um babaca e nos diga onde podemos encontrar esse ‘Viajante’. Estamos procurando por ele há anos. — O homem apontou e colocou a mão no ombro de Eiro, mas o Diabrete apenas se virou para encará-lo.
— Ei, você não consegue usar os seus olhos adequadamente? Eu acabei de balançar minha cabeça. Não vê que estou com pressa? Então pare de ser um babaca e me deixe em paz. Minhas crianças estão me esperando em casa. — Eiro disse, retribuindo a coisa rude que o homem disse para ele.
— Heh, um fodido como você, tem filhos? Que tipo de vadia triste se casou com você? Aposto que suas crianças prefeririam ficar sozinhas sem você, então você pode aproveitar o seu tempo. — O homem disse com um sorriso amplo, obviamente tentando provocar Eiro.
—K-Krog, o que você está dizendo? Pare com isso! — Jess exclamou, aparentemente brava por Eiro, e o jovem Demônio apenas sorriu com isso e encarou o homem à sua frente, enquanto o gelo ao redor deles lentamente começava a derreter e se mover em sua direção.
— Isso não é algo legal de se dizer, sabia? — O Diabrete apontou, e o homem apenas começou a rir.
— Hahaha, não é uma coisa legal de se dizer? Lá fora não é um mundo legal, cara, mas eu acho que um vagabundo qualquer nessa cidade, como você, não saberia disso, estando escondido nessa cidadezinha de merda e tudo mais. — O homem disse, pensando que tinha Eiro bem onde queria, enquanto a água da chuva lentamente subia pelo corpo de Eiro, reunindo-se na mão dele em uma bolha grade
— Oh? Você deseja me atacar com Magia de Gelo novamente? Cara, uma merda lenta como essa não fará nada com- — O homem disse, mas Eiro o interrompeu.
— É melhor guardar seu fôlego. — Ele comentou, enquanto a bolha de água lentamente começava a emitir vapor, ao mesmo tempo que ficava cada vez mais aquecida. Sem demora, começou a ferver. — Você vai precisar de qualquer um que tenha sobrado. — O Diabrete disse, e simplesmente empurrou a bolha de água fervente para frente. Ele não queria ferir seriamente o homem, apenas incapacitá-lo. Essa não era a razão para essa água fervente.
Afinal, o homem, Krog, estava certo. Normalmente, Magia de Gelo era bastante lenta se comparado aos outros tipos. Então, Eiro estava fazendo uso de uma lei da natureza para compensar isso.
E, antes que o homem pudesse ser ferido pela água quente, ela começou a congelar quando encostou em sua pele, rapidamente formando uma esfera de gelo ao redor de sua cabeça.
…