
Volume 2 - Capítulo 73
A Virtude do Demônio
Após terminar o seu banho, Eiro saiu da banheira e rapidamente se secou, antes de olhar para o filhote de cervo. O próprio Eiro não estava tão sujo para começar, considerando que ficou sentado no rio por cerca de quatro horas, e isso limpou qualquer sujeira que havia nele. Não que houvesse muita sujeira de qualquer forma, considerando seus banhos diários.
Por outro lado, o filhote tinha muita sujeira entrelaçada com o seu pelo, e ele estava bastante fedido também…
— Venha aqui. — Eiro disse enquanto a água parecia ficar em uma temperatura regular, embora um pouco morna, depois que ele apagou o fogo. Após tirar um pouco da água com um balde, ele tentou fazer com que a jovem criatura entrasse na banheira. — Apenas entre, você queria antes… — O Diabrete murmurou com um suspiro profundo, antes de colocar seus braços sob o corpo do cervo, tentando levantá-lo.
Felizmente não era tão grande quanto Eiro pensava que era quando o viu antes junto ao Cervo grande no rio, agora ele era apenas um cervo normal.
Então, na verdade, não era muito mais pesado do que Arc ou Sammy, e ele era um pouco mais leve do que Rudy, então não foi tão difícil colocá-lo na banheira, embora fosse contra a vontade dele.
— Pare já com isso! — Eiro exclamou quando o filhote, sem sucesso, tentou sair da banheira pela quinta vez após ser colocado dentro dela, e então, ao que parece, se acalmou um pouco. — Bom. Agora fique parado, certo? — O Demônio pediu enquanto agarrava uma tigela que estava ao seu lado e rapidamente colocou um pouco de água dentro dela, antes de derrubar nas costas do cervo para limpá-lo um pouco.
Antes que Eiro percebesse, a água ficou levemente turva e marrom devido à terra e pequenas rochas finalmente serem lavadas.
— Hmm, me pergunto, posso pegar emprestado a escova de cavalo de Arc e Clementine? — O Diabrete se perguntou, mas no fim apenas deu de ombro. — Acho que devo pedir para eles mais tarde… — Eiro murmurou, enquanto continuava derrubando água sobre o cervo, antes de esfregar os pelos dele e tentar limpar o máximo que conseguia.
E então, assim que o Diabrete terminou com usos, ele rapidamente se levantou para pegar uma toalha para limpar o cervo, embora antes que conseguisse fazer isso, o jovem animal pulou para fora da banheira e começou a chacoalhar o seu corpo para se secar, e algumas gotas voaram longe suficiente para alcançar a mesa de Eiro, onde ele tentava melhorar o seu entendimento de linguagem ao escrever várias coisas diferentes.
O cervo fez gotas parecidas com névoa voarem ao redor, então o papel não ficou completamente molhado, mas um pouco da tinta começou a escorrer.
— Não seria cruel se eu o fizesse parar ao congelar o seu pelo molhado…? — Eiro se perguntou com um sorriso irônico e incomodado, e simplesmente suspirou enquanto se aproximava com a toalha. Ele a usou para secar o pequeno animal.
— Pare já com isso! — O Diabrete exclamou enquanto tentava segurar o cervo no lugar, embora parecesse que o cervo juvenil lutava contra ele, como se estivesse tentando salvar a sua própria vida. — Pronto! Terminamos. — Eiro suspirou quando finalmente terminou de secar o cervo, colocando a tolha que usou sobre o suporte de toalhas, antes de jogar a água suja e limpar a banheira, se vestindo apropriadamente de novo.
— Venha comigo. — Ele adicionou e acenou com a cabeça em direção à porta, fazendo com que o filhote o seguisse rapidamente até a parte principal da casa, onde Eiro abriu a porta e rapidamente deixou que o filhote entrasse, antes que ele olhasse curiosamente para as novas pessoas que estavam ali.
— O q- o que é isso? — Sammy perguntou surpresa quando viu o cervo, e Eiro apenas olhou para ele antes de voltar para a jovem garota.
— Um filhote de Cervo. — Ele apontou, apesar de Sammy ainda estar nervosa. Ambos, Arc e Clementine, entretanto, pareciam incrivelmente animados com isso.
—Whoa! Tão fofooo! — Clementine exclamou enquanto tentava estender a mão para acariciar o animal pequeno, que rapidamente respondeu ao empurrar a cabeça contra a palma dela. Ao mesmo tempo, Arc começou a acariciar as costas dele.
— De onde ele veio? — Ele perguntou com um sorriso brilhante, e Eiro apenas deu de ombros.
— Ele começou a me seguir na floresta, então eu o trouxe comigo. Jura disse que ele seria um bom Familiar, então… estou pensando em mantê-lo. — O Demônio disse enquanto olhava para o animal pequeno e inocente à sua frente. E sim, obviamente ele esconderia o que mais aconteceu, não era como se estivesse tentando mentir. Tecnicamente, foi isso que aconteceu, então ele não teve escrúpulos sobre o que disse.
— Ooh! É um garoto?! Como você consegue dizer? — Clementine perguntou, e Eiro olhou para ela com suas sobrancelhas levantadas.
— Bem, eu acabei de limpá-lo, então eu sei. — Ele comentou, e a garota olhou para o Demônio com uma expressão envergonhada.
— Hehe, certo… — ela murmurou enquanto esfregava sua bochecha, ao mesmo tempo que Eiro sorria ligeiramente para ela e acariciava sua cabeça.
— De qualquer forma, estou indo para a cama. Foi uma noite longa. — Eiro disse com uma leve risada, enquanto ia lentamente em direção à sua cama e simplesmente caia em cima dela, depois de se despir, enquanto o jovem cervo subia em cima dele, embora os outros tivessem outras preocupações no momento.
— O que… o que foi isso…? — Arc perguntou, com uma expressão mais aterrorizada do que já mostrou antes, e Clementine olhou para as outras crianças confusas com o que aconteceu. Rudy quase derrubou a panela em que estava cozinhando, e Sammy não notou como Avalin roubava a comida do prato do adormecido Leon… apenas Jura estava sorrindo levemente.
— Ele…. Eiro acabou de rir — Sammy perguntou em descrença, embora o Demônio em questão já tivesse cochilado com a bolsa de pelos dormindo em cima dele.
—
Desde então, a vida mais uma vez voltou a uma rotina bastante regular. Durante a noite, Eiro ia até o rio e cuidava da semente junto do cervo, que logo foi chamado de ‘Lugo’, em homenagem à palavra lua da ‘Linguagem Antiga’, uma das poucas palavras cujo significado era conhecido atualmente. A razão para ele pensar que era um nome muito bom era que os dois só acordavam quando a lua já estava brilhando.
Pele menos no começo.
Eles ainda estavam acordados durante o dia quando Eiro ia até a cidade a cada algumas semanas, nas quais Lugo simplesmente ia junto dele. E então, a próxima exceção veio quando a primavera chegou e os dias começaram a ficar mais longos, significando que eles agora iam para a floresta antes do pôr do sol, e voltavam depois do nascer dele, mesmo assim, eles sempre ficavam fora durante a noite toda.
De alguma forma, embora pudesse ter começado a ir durante o dia quando tinha a chance, ele pensava que deveria continuar tentando fazê-la crescer durante a noite.
Apenas parecia certo para ele.
E logo, ele descobriu que isso pode ter isso uma boa escolha, pois uma vez que toda a neve congelou e as outras plantas cresceram, a semente também começou a brotar e se tornou em uma pequena muda,
De algum modo, ela estava sempre cercada por uma névoa fria, mas isso não era algo com que Eiro realmente se importasse. Isso parecia bastante legal, na verdade.
Durante os próximos meses, enquanto Eiro permaneceu praticamente o mesmo, com exceção de conseguir levar sua Magia de Fogo para o nível Aprendiz, os outros continuaram mudando cada vez mais. A velocidade com que as habilidades das outras crianças subiram de nível era bastante alta, significando que elas estavam lentamente deixando de serem ‘crianças’. Todas elas tinham agora dez anos, e eram um pouco mais altos também. Não muito, pois ainda eram menores do que Eiro, mas ainda cresceram um pouco.
Tanto Leon como Avalin começaram a falar um pouco mais, e logo após falarem suas primeiras palavras, eles começaram a caminhar também, e a essa altura eles estavam simplesmente correndo pela casa sempre que tinham a chance, o que significava que o estresse de Sammy aumentou um pouco.
Mas, uma coisa que ambos os bebês faziam era… chamar Eiro de pai.
Elas ainda não conseguiam conversar bem, então ainda era uma versão quebrada de ‘Papai’, mas era obvio que ambos, de alguma forma, viam Eiro como um tipo de figura paterna. E não era como se ele se importasse, ele apenas se sentia um pouco estranho as vezes, considerado quem e o que o Diabrete era.
Não apenas as crianças cresceram: o cervo também cresceu um pouco, embora não muito. No entanto… cresceu sua primeira galhada! Ou melhor, era mais como dois espinhos sozinhos nesse estágio, então talvez chamá-los de ‘galhada’ fosse um pouco exagerado.
De qualquer forma, eles pareciam muito legais!
De alguma maneira, foi apenas depois da evolução de Eiro que ele realmente começou a apreciar a beleza de tais coisas. Chifres eram muito legais, não eram? Pelo menos era o que Eiro pensava.
Mais tarde, o Equinócio de Primavera veio. Era basicamente o mesmo que o solstício de Inverno, pois a Dama da Primavera apareceria. Mais uma vez, Eiro ajudou Jura a reunir as diferentes plantas e animais, entretanto… quando a Dama realmente apareceu, ela parecia mostrar uma carranca para Eiro sempre que o via.
Até mesmo as ‘Filhas da Primavera’, os jovens espíritos que seguiam a Dama da Primavera, não ficaram tão felizes com a presença de Eiro. Era por conta que ele tinha a benção da Dama do Inverno? Talvez elas não estivessem em bons termos uma com a outra?
O Demônio queria pergunta a Jura, mas parecia que ele realmente não queria falar sobre isso.
Quando o verão chegou… Jura finalmente disse a Eiro exatamente o que o Diabrete queria escutar.
— Você passou. Agora você pode começar a estudar sob minha tutela, como meu aprendiz, Eiro. — Jura disse com um tom claro, e de alguma forma, o entusiasmo de Eiro mal pode ser contido.
Ele esteve trabalhando por isso por um ano inteiro afinal! No enanto… ainda havia algo que preocupava o Demônio.
— Mas… eu terei tempo para continuar cuidando da árvore? — Eiro perguntou, e Jura lentamente balançou a cabeça. — Não terá, mas, isso não importa, devido ao fato de sua infusão constante de mana na semente, a natureza dela mudou. É muito mais resistente do que uma árvore normal. Você ainda deve dar a ela um pouco de sua mana de vez em quando, mas ela continuará crescendo em uma árvore esplêndida a partir de agora. — O velho disse, aliviando as preocupações de Eiro, antes que o jovem Diabrete assentisse em satisfação.
— Entendo… — Ele murmurou. Jura sentou-se logo à frente de Eiro e começou a esculpir um pouco de madeira, rapidamente dando a ela um formato de algo que Eiro viveu sem pelo último semestre. Uma não mão de madeira, mas essa era muito diferente daquela de antes.
— Veja, essa mão se destruirá daqui a exatos cinco anos. A essa altura, seu aprendizado comigo terá terminado, e você esculpirá para si mesmo uma nova mão de um galho da árvore que você plantou e cuidou por conta própria. — Jura disse, e Eiro apenas ficou ali sentado, enquanto o velho colocava a nova mão de madeira no seu toco.
E, enquanto Eiro, pela primeira vez desde o incidento com a cidade dos Demônios, conseguiu mover os dedos de sua própria mão individualmente, o Demônio apenas sorriu de volta para Jura.
— Entendido.
…