
Volume 2 - Capítulo 72
A Virtude do Demônio
— O que… O que aconteceu…? — Eiro perguntou silenciosamente, encarando o filhote de cervo à sua frente, embora ele apenas olhasse confuso para o Demônio e inclinasse sua cabeça para o lado. Com um suspiro profundo, o Diabrete empurrou seu corpo para longe do chão e balançou a cabeça, enquanto tentava se livrar da neve presa em suas roupas.
— Deixe pra lá. Vá, volte de onde você veio, carinha. Tenho certeza de que o Cervo está preocupado. — O Diabrete apontou, enquanto se virava lentamente e olhava para o rio à sua frente, percebendo que, de alguma forma0 teria que atravessá-lo novamente agora que perdeu completamente a localização do Cervo. Não tinha mais vontade de segui-lo de qualquer forma, mesmo que conseguisse vê-lo.
De repente, assim que Eiro estava para dor mais um passo em frente e repetir o processo de antes o filhote pressionou sua testa contra a mão do Diabrete.
— O que você está fazendo? — Ele perguntou, surpreso, e o filhote simplesmente olhou para ele, enquanto Eiro notava algo. — Hmm, você não era maior antes? Tenho certeza de que chegava pelo menos até o meu peito, mas agora… — Agora a altura do filhote alcançava apenas os seus quadris. Não era muita diferença, mas era mais do que o suficiente. — Bem, quem liga… — Eiro suspirou.
Obviamente, ele estava curioso, mas, mais importante, ele tinha que chegar ao outro lado do rio novamente. Lentamente, pisou na superfície do rio para congelá-lo, deixando-o em um tamanho que o permitia ficar em pé.
Um tamanho que o permitia ficar de pé. Ele. Apenas ele.
Não o filhote que imediatamente pulou atrás do Diabrete e colocou o seu pé na pequena superfície de gelo.
— Pare, você vai…
E, quando percebeu, suas roupas estavam mais pesadas, pois estavam encharcadas de água fria, e ondulações de gelo se formaram ao redor dos seus pés, antes de impedir o fluxo de mana sair por eles.
— Me fazer cair… — O Diabrete suspirou incomodado apenas olhou para o céu. De alguma forma, isso não parecia tão ruim também. Era parecido com a banheira fervente. Talvez… pudesse ser um exagero, mas talvez Eiro conseguisse tentar algo.
Por agora, ele ainda tinha que sair dali. O seu corpo atual conseguia lidar com isso, mas ele não queria que suas roupas congelassem depois de usá-las por pouco tempo, então saiu rapidamente da água pelo outro lado da margem do rio e pegou alguns galhos e gravetos, porque suas roupas já estavam endurecidas. O Diabrete olhou para o filhote de cervo que ainda estava parado dentro da água.
— Venha aqui, isso irá te aquecer também.
Rapidamente, Eiro empurrou um pouco de neve para o lado, com seu pé, e então pegou uma das Pedras Mágicas de Fofo da sua bolsa e a usou para acender um fogo pequeno. O poder da Pedra Mágica de Fogo era um pouco maior do que o normal, mas isso parecia ser devido ao aumento de sua afinidade.
De qualquer forma, muito rapidamente Eiro conseguiu acender uma fogueira e colocou suas roupas sobre uma pedra grande, a qual estava ao lado do fogo, para secá-las. E enquanto isso, o filhote também havia saído da água e se deitou lentamente ao lado da fogueira, enquanto Eiro ia até o rio congelante, agora completamente pelado.
O rio não era tão grande e, como tinha um formato crescente, Eiro conseguia sentar-se dentro da água e ainda alcançar o lugar em que plantou a semente com sua cauda.
Se a água que foi aquecida artificialmente aumentou sua afinidade com o Elemento Fogo, então essa água que foi esfriada pela própria natureza deveria ser uma boa ajuda para sua nova afinidade com o Elemento Gelo. Ou era uma nova afinidade? Foi dito que o Elemento Água despertou no Elemento Gelo… então, substituiu sua Afinidade com o Elemento Água? Não parecia ser isso… coisas específicas como essas normalmente não eram discutidas nos livros que Eiro lia, e se fossem, era muito brevemente.
Era como se quisessem evitar o sistema de status e sistema de habilidades, então… Não havia muito que ele realmente sabia sobre isso.
De qualquer modo, por agora… Ele só tinha que fazer o que tinha que fazer, certo? Eiro tinha que continuar nutrindo a semente com sua mana para fazê-la germinar. Seria bom se ela se tornasse tão grande como a árvore naquela… Visão? Ilusão? Fantasia? Qualquer que seja, era o que ele havia visto há alguns momentos. Bem, essa esperança não era realista de qualquer maneira, e Eiro ficaria feliz se ela alcançasse o mínimo necessário para que Jura o aceitasse como aprendiz.
E então, o Diabrete continuou com isso. Ele continuou e, de alguma forma, embora o fluxo de mana tenha diminuído consideravelmente, a taxa de recuperação se tornou maior e a quantidade que ele conseguia mover de uma vez também aumentou.
Lentamente, a mana do Diabrete fluía para a semente enquanto o Demônio em si usava um novo método para lidar com isso.
Horas depois, quando Eiro finalmente terminou, ele saiu da água, embora suas pernas estivessem incrivelmente pesadas, como se fossem feitas de metal. Ele deu passos lentos e chegou até as chamas, então simplesmente ficou na frente delas por um tempo, olhando para o filhote de cervo que estava dormindo até agora, mas então se levantou, esticou seu corpo apropriadamente e caminhou até Eiro para esfregar seu rosto contra a perna dele.
— O que você está fazendo…? — Ele perguntou, mas o filhote apenas continuou fazendo isso sem parar. Com um leve suspiro, o Diabrete simplesmente olhou para baixo com uma leve carranca e empurrou o animal, enquanto se aproximava de suas roupas e as vestia, antes de cobrir o fogo com um monte de neve para apagá-lo.
E, enquanto vapor subia da pequena fogueira temporária, Eiro começou a caminhar pela floresta em direção à sua casa. Embora, um certo rapazinho simplesmente não parasse de segui-lo.
— Você não precisa voltar para o Cervo? Vai, saia. — O Diabrete disse muito claramente, mas o filhote simplesmente permaneceu ali e começou a encará-lo antes de inclinar a cabeça para o lado, e Eiro só suspirou profundamente.
— … Certo… — Eiro suspirou e se virou antes de continuar caminhando. — Eu não espero que Jura te deixe ficar de qualquer forma, mas você pode tentar a sorte, eu acho.
—
— Claro, deixe-o ficar. —Jura disse com um leve sorriso, enquanto esticava a mão para acariciar a cabeça do filhote de cervo, e Eiro levantou as sobrancelhas em confusão. Ele nem tinha perguntado nada ainda…
— Seria demais pedir para você não escutar conversas privadas que eu tenho comigo mesmo? — O Diabrete questionou, e Jura apenas começou a rir em resposta.
— Haha, o que você está perguntando? Claro que eu iria escutar. Mas fique feliz, eu nem perguntei por que você cruzou o rio para chegar a esse cervo e então foi embora imediatamente sem querer levá-lo com você. — Jura apontou com um leve sorriso, como se dissesse “peguei você”, apesar de Eiro apenas olhar para ele surpreso.
Ele… não notou o Cervo adulto?’ Ele estava realmente ali, ou Eiro apenas o imaginou?
— Vamos lá, para de fazer esse rosto! Criaturas da floresta dessa idade são ótimos familiares. Eu costumava ter um também, uma jovem Loba Albina, ela era bastante agressiva. — O velho riu, e Eiro levantou as sobrancelhas curiosamente.
— Familiares? Elas não precisam ser algum tipo de criatura ou raça especial? — O Demônio perguntou, mas Jura apenas suspirou e balançou a cabeça, enquanto se virava e pegava uma toalha, a qual rapidamente arremessou no Diabrete.
— Seque os pés quando voltar mais tarde, mas leve-o com você quando tomar banho no outro quarto. As crianças acordarão logo. — Jura disse, e Eiro olhou para ele com uma carranca.
— Certo. — Ele disse e apenas se virou, antes que Jura simplesmente se sentasse em sua cadeira.
— A maioria só consegue tornar tais seres em familiares, pois eles não conhecem os métodos corretos. Qualquer ser pode ser um familiar, contanto que você deseje isso.
Com uma expressão satisfeita, Eiro saiu da parte principal da casa e rapidamente foi para a estrutura adjacente, onde rapidamente começou a preparar o seu banho. E assim que a água começou a ferver, o Diabrete se sentou dela e olhou para o filhote de cervo com uma expressão séria.
— Deite-se por ali. — O Diabrete disse. Afinal, a água nessa banheira acabava escorrendo pelas bordas, então não queria que o jovem animal se machucasse. Era estranho, mas parecia que embora fosse o filho do Cervo, ele não emitia a mesma sensação.
Apenas parecia um cervo pequeno, jovem e normal. E apesar de não estar escutando diretamente a cada comando do Diabrete, ele parecia muito dócil e gentil. Lentamente o Cervo se aproximou da mão de Eiro para se aconchegar contra ele novamente, mas o Diabrete afastou o braço.
— Pare, não. Eu disse para você ficar ali. A água está quente. — Eiro disse com um tom estrito, enquanto apontava para o outro lado do cômodo. Enquanto o filhote olhava entre o Demônio e o canto, em que ele estava apontando, ele repetiu mais uma vez. — Vá.
Ele adicionou, fazendo a pequena criatura da floresta lentamente se virar e ir até, ignorando o fato de ele parecer ter feito um beicinho. Eiro estava ciente de que o animal não conseguia realmente fazer isso, mas ainda parecia que sim.
De qualquer maneira… por enquanto, Eiro não pode deixar de tentar comparar a sensação do rio gelado com a banheira de água fervente. Talvez ele devesse tentar deixar sua mana fluir também?
Lentamente, o Diabrete se sentou na banheira e pressionou seus pés um contra o outro, antes de envolver seu coto com sua palma, tentando fazer com que sua mana fluísse apropriadamente em círculos. E… Definitivamente houve uma mudança.
Sua regeneração aumentou ainda mais se comparado ao normal, mesmo quando se comparado ao ‘normal’ aumentado de quando fazia isso na frente da semente. Essa parte foi a mesma de quando ele estava sentado dentro do rio gelado. Entretanto, o resto era basicamente o oposto. Sua mana estava fluindo de um modo mais rápido do que o normal, e ele conseguiu mover muito menos do que estava acostumado. Bem, o mínimo de mana que ele tinha que mover também diminuiu desse modo, enquanto na água fria se tornava um pouco mais.
Isso fez Eiro chegar à uma conclusão relativamente simples. Se em algum ponto precisasse usar feitiços adequadros, então conjurá-los enquanto estava em seu estado ‘Congelado’, eles seriam mais fortes, mas mais lentos. Em contrapartida, feitiços enquanto estava em seu estado ‘Fervente’ seriam mais fracos, mas mais rápidos. Pelo menos era essa a conclusão em que ele chegou. No fim, não estava completamente certo disso, então não havia motivo para pensar sobre, até que realmente conhecesse um feitiço apropriado para testar.
Afinal, até agora ele esteve buscando apenas uma manipulação bruta. E na verdade, isso deu a Eiro uma ideia de algo que queria tentar.
Lentamente, bateu na superfície da água com seu dedo e tentou fazer o mesmo que fez no rio. Em sua cabeça, não fazia muto sentido… mas, agora, quando tentou congelar a água… o gelo se espalhou quase instantaneamente pela superfície da água.
Claro, ele derreteu quase imediatamente, depois de ser quebrado pelas bolhas, mas, no fim, parecia que esse princípio da natureza que ele já havia observado também se aplicava quando se tratava de magia.
…