
Volume 2 - Capítulo 71
A Virtude do Demônio
Silenciosamente, Eiro apenas assentiu e encarou o Cervo e seu filhote, o último ainda bastante fraco em suas pernas. Embora fosse maior do que um filhote normal, considerando o tamanho do seu pai, parecia igualmente indefeso. Lentamente, o Diabrete se levantou e olhou através do rio em direção ao Cervo. O Diabrete realmente não tinha certeza, mas sentiu que o animal estava feliz ou grato por ele, enquanto se virava.
— Você está saindo novamente? — Eiro perguntou, e o Cervo lentamente se virou, enquanto bufava um pouco de ar pelo nariz e olhava algumas vezes entre o Diabrete e a floresta atrás dele.
— Você deseja que… eu te siga? — nervosamente, o Diabrete olhou para ele, seu coração batendo tão rápido e alto que parecia que conseguia escutá-lo bombear sangue através do seu corpo, e o Cervo pareceu assentir com a cabeça antes de simplesmente se virar e empurrar o focinho contra a parte traseira de seu filhote para fazê-lo se mover.
Apesar do Cervo estar caminhando em um ritmo bastante lento, para Eiro parecia que ele estava correndo em um ritmo que o Diabrete nunca teria esperança de alcançar, mas, pelo menos, tinha que tentar. A semente ficaria bem por enquanto, Eiro tinha certeza disso, mas seus instintos estavam dizendo que tinha que seguir o cervo não importa o que, ou ele próprio não ficaria bem.
— E-espere por mim! — Ele exclamou enquanto olhara ao redor para encontrar um caminho para cruzar o rio, pois não podia simplesmente nadar através dele dessa forma. A água do rio estava se movendo insanamente rápida e era tão frio que ele poderia congelar assim que parasse de se mover.
Embora, isso poderia funcionar para seu benefício, agora que pensou sobre isso. Lentamente, ele se ajoelhou na frente da água e segurou sua mão contra ela, vagarosamente tentando empurrar sua mana pela ponta dos seus dedos diretamente na água. Agora, apenas tinha que fazer o que sempre fazia quando manipulava água…
Ele fez sua mana e a água em si se entrelaçarem e se combinarem, até que Eiro não conseguia mais diferenciá-las, como se sempre fossem parte uma da outra. E então, ele simplesmente tentou fazer a água desacelerar, apesar de nesse momento, outro pensamento passar por sua mente.
Como se canalizasse o frio que esteve absorvendo em seu corpo durante a última semana, o Demônio simplesmente desejou que a água parasse completamente. Ela deveria parar de fluir, parar de se mover e simplesmente estagnar. Assim como a flor em seu bolso, A água deveria ficar parada do mesmo jeito que ela estava, até que Eiro não precisasse mais.
Estendendo-se de lugares onde sua pele conseguia tocar a água fria, teias de gelo começaram a crescer, tomando conta de toda a área ao redor de sua mão. A água continuou fluindo sob o gelo, mas assim que chegou lá, começou a congelar também e acumulou uma pilha de gelo, até que Eiro afastou sua mão.
O Gelo que foi formado estava lentamente sendo transbordado pelo rio, e acabou sendo arrastado junto. Mas, certamente, ele havia criado gelo… E a notificação que apareceu à sua frente parecia confirmar isso.
[A Natureza está se curvando à sua vontade. Sua Magia de Água está despertando em Magia de Gelo]
[As habilidades mágicas atuais serão mantidas]
[Magia de Gelo (Iniciante) Aprendida]
Eiro levantou a mão apropriadamente e então se endireitou, passando lentamente os dedos através da notificação, enquanto um pouco de gelo ainda preso neles se desfazia.
Depois de pegar sua capa e colocá-la sobre seu corpo de novo, Eiro deu um passo em direção à água, tentando empurrar o máximo de mana que conseguia em seu pé. E então de pouco em pouco, e de passo em passo, Eiro repetiu o que havia feito.
Fora da pele dos seus pés, ele pressionou sua mana e tentou transformar a água em gelo, e lentamente ele fez isso. Entretanto, a superfície do gelo estava vacilando sob seus pés, então o Diabrete teve que ir o mais profundamente que conseguia na água, para torná-la mais estável.
Felizmente não estava sendo arrastado pelo rio, por alguma razão, mas ainda foi bastante difícil fazer isso com a água do rio fluindo sob o gelo, tornando ainda mais difícil de ficar de pé.
Mas logo, o Diabrete tinha que tentar o seu melhor, ou perderia o Cervo e seu filhote de vista, o que ele não queria que acontecesse. Decidiu segui-los, então faria isso.
Depois de se sentir seguro em um pé, ele lentamente levantou o outro e tentou se equilibrar no gelo, antes de trazer seu pé para frente e os colocar na água, imediatamente congelando-a antes que rachaduras pudessem se espalhar. E então, Eiro fez o próximo ponto de apoio para ficar de pé. E então, o próximo, e o próximo, e o próximo, até que estivesse perto suficiente do outro lado do rio para pular até lá.
Antes que percebesse, Eiro conseguiu escutar o gelo estalar sob seu corpo, enquanto tentava não colocar seu peso sobre o seu coto e, instintivamente, tentava segurar sua queda com ambas as mãos.
Mas, isso não era o importante agora. O Diabrete pulou o mais rápido que conseguia, e antes mesmo de se firmar adequadamente, correu em direção ao Cervo para segui-lo. Havia uma razão para a criatura continuar voltando até ele, um ser que era obviamente tão forte que ele conseguia sentir em cada célula do seu corpo. Esse Cervo que não era nem um espírito, nem um monstro, nem um simples animal. Era algo diferente, algo muito diferente.
Se Eiro tivesse que compará-lo a algo, então seria à Dama do Inverno. Enquanto as Filhas do Inverno pareciam algum tipo de espírito, a Dama do Inverno era algo muito além disso. A mesma coisa podia ser sentida quando o Diabrete encarava esse Cervo.
Mas, por alguma razão, ninguém mais conseguia sentir isso. Normalmente, Jura teria ao menos insinuado quando sentiu o Cervo em algum momento quando ele apareceu perto de Eiro. Algumas vezes ele pensou que estava apenas imaginando o ser, mas isso foi negado quando o animal quase foi morto pela Monstruosidade Congelada há uma semana.
Ambos, Jura e a Dama do Inverno, reagiram a ele depois de terem o visto na sua frente, e Jura parecia ter notado mesmo de dentro de casa naquele momento através dos sons que fez ou como ele cheirava, mas nenhum deles notou quão… especial, o Cervo era.
A Dama do Inverno meramente o chamou de ‘Criatura’, e Jura ficou bravo por Eiro ‘cuidar de um cervo quase morto’. Como eles poderiam não… perceber… o que ele era? Confuso, o jovem Demônio encarou a visão à sua frente. Ele não tinha ideia de quando, mas, em algum ponto, a neve despareceu de baixo dos seus pés e as plantas cresceram descontroladamente ao seu redor.
Pássaros piavam, e Eiro conseguiu escutar o uivo de lobos à distância. Logo ao lado de sua orelha uma abelhava voava e encheu sua cabeça com um som de zumbido, embora ela pareça ter voado para longe rápido demais para ele vê-la, pois não havia nada quando ele virou a cabeça por reflexo.
— O que está acontecendo? — Eiro se perguntou enquanto olhava ao redor, mas tudo isso era tão… estranho. Sempre que ele tentava olhar para algum ponto específico em particular, parecia que cenário continuava se movendo sem ele fazer nada. Isso era nauseante e fez o Diabrete ficar cada mais confuso quanto mais tentava focar.
Em vez disso, apenas fechou os olhos por um momento e levantou a mão para frente, enquanto agarrava literalmente qualquer coisa que estivesse ao seu redor. Ou pelo menos, tentava, e em vez disso caía no chão. Ele conseguia jurar que havia uma árvore logo ao seu lado.
Lentamente, ele abriu os olhos e encarou o céu e, felizmente, isso não parecia deixá-lo tonto, então imaginou que deveria continuar deitado ali por um momento. E assim que fez isso, um pequeno focinho peludo cobriu sua visão e respirou ar quente em seu rosto, logo antes que uma língua passar por sua testa.
O mais rápido que conseguiu, Eiro tentou afastar o seu corpo para longe e se virar para olhar melhor para a criatura que estava ali, e para sua surpresa, era o filhote de cervo.
— Ei…? — Eiro murmurou enquanto olhava para a jovem criatura. — Onde está o seu pai? — Ele perguntou, e logo sentiu algo cutucar o centro de suas costas. — Bem, essa é uma resposta boa o suficiente, eu acho… — Eiro disse silenciosamente e olhou para o Cervo, que o encarava. — Para onde você me trouxe?
O Diabrete perguntou, tentando olhar através de uma fenda pequena em seus olhos, para minimizar quão estranho esse lugar o fazia se sentir, e o Cervo apenas se virou e continuou andando, então o Diabrete fez o mesmo.
Por um tempo, Eiro realmente não sabia quanto, ele apenas seguiu atrás do animal… podia ter levado uma hora, um dia, uma semana, ou um ano. Ou talvez poderia ter sido um minuto, pelo que ele sabia. Era como se tudo acontecesse de uma vez, então o tempo parecia ter menos importância.
E então, de repente, o Cervo parou. Ele estava em frente à uma árvore realmente gigante. E se Eiro pensava que algo poderia ser gigante, então isso se provou. Ela ia além das nuvens, do céu e das estrelas. Ao longo de sua casca havia inúmeras estruturas, e logo à sua frente, havia um conjunto de escadas.
Lentamente, o Cervo pisou nos degraus e Eiro seguiu atrás dele como sempre, enquanto o filhote permanecia ao seu lado.
Logo, o Diabrete se encontrou em um caminho construído fora da árvore, o qual tinha uma vibração fria e congelante, apesar de estar bem quente fora. E ao redor dele, Eiro conseguia escutar vozes falando enquanto passava por essas estruturas de aparência estranhas, que estavam construídas na madeira, embora não houvesse ninguém para dizer as palavras que escutou.
— Olhe! Você pode ver toda a floresta daqui! — Uma das vozes exclamou entusiasticamente, mas outra apenas riu.
— Idiota, a vista lá de cima é muito mais legal.
— Mamãe, mamãe! Picolés! — Uma criança entrou gritou algo de algum lugar, mas a voz pertencendo à sua mão apenas riu baixinho.
— Pronto, pronto, eu te darei um se você for uma boa garota até chegarmos ao topo, okay?
— Certo! — A criança respondeu rapidamente, enquanto Eiro escutava passos passarem ao seu lado, e outra voz chamava sua atenção.
— Como muitos de vocês sabem, esse local era centro do ‘Total Solnox’, como era chamado naquela época, mas algum de vocês sabe por quanto tempo esteve assim, desde então? Eu darei uma dica, é um número muito especial! — A voz então disse, e por alguma razão, era muito mais alto do que as outras, até dolorosamente, e soava um poco diferente também. Como se alguém gritasse através da parede, embora viesse bem ao lado de Eiro.
E então, uma voz em um tom comum respondeu à questão da primeira voz.
— Eu, eu! Já faz mil anos!
— Exatamente, estamos a apenas meio ano do milésimo aniversário!
Lentamente, quanto mais a voz falava depois disso, mais ela desaparecia, até que todas as vozes desapareceram. Não apenas as vozes, mas qualquer som. Não havia passos, ou cheiro das comidas deliciosas. Nada, Eiro nem sentia mais a estranha mistura de ar frio e quente que soprava em seu rosto.
No fim, parecia que o Diabrete escutou o que tinha que escutar, e sentiu o que tinha que sentir, e então o Cervo, o filhote e o Demônio continuaram subindo a árvore, até que chegassem em um lugar esculpido no tronco da árvore gigante.
Era um salão enorme, e era um pouco difícil de ver a saída do outro lado, mas, no fim, isso não era algo que ele parecia ter que prestar atenção. Em vez disso, era a coisa bem no centro do salão, decorado com um padrão intrincado de cristais azuis sob os pés de Eiro, enquanto numerosos pilares cada um de cor diferente disparavam do centro da sala e cresciam até o teto do salão, como galhos de uma árvore.
Azul, Amarelo, Verde, e Vermelho, essas eram as quatro cores que mais podiam ser vistas, mas isso não significava que não havia outros cristais. Roxo, Laranja, Marrom, Preto e, até mesmo, Branco, e numerosos outros tons de todas essas cores estava balançando ao redor dos quatro pilares principais. E, a fonte desses pilares era um único ponto no centro da sala, embora logo abaixo dele houvesse um buraco infinitamente profundo, do qual Eiro não conseguia ver direito.
E não era como se ele não tivesse tentado, ele realmente tentou. Ele se inclinou sobre a borda, até que repentinamente perdesse o equilíbrio e caísse.
Enquanto seu corpo caía pelo buraco profundo, Eiro ainda conseguia ver o Cervo, como se ele estivesse bem à sua frente, antes que seu corpo ficasse de ponta cabeça e a escuridão o engolisse como um todo.
Antes que percebesse, Eiro… levantou o seu rosto da neve e olhou para cima, após ter caído no chão depois de pular o resto da distância entre o rio e o chão congelado. E logo na sua frente, simplesmente o encarando profundamente em seus olhos, estava o filhote de cervo de antes… mas o Cervo adulto não estava em lugar nenhum.
…