
Volume 2 - Capítulo 70
A Virtude do Demônio
— Você se ferveu? Isso aumenta a afinidade com fogo? Talvez eu devesse…?
Rudy murmurou em resposta ao que Eiro disse, mas o próprio Diabrete o interrompeu.
— Não faça isso, por favor. Nós ainda não sabemos exatamente se há coisas que podem te machucar, e, há milhões de outras formas que posso pensar de como isso pode machucá-lo além do dano direto. — O Diabrete comentou, mas Jura levou a conversa em outra direção.
— Isso não é possível. — Jura disse muito claramente, e Eiro olhou para ele surpreso.
— O que não é possível? — Ele perguntou, e o velho se virou em direção a Eiro.
— Ganhar uma afinidade dessa maneira. Obviamente, sua afinidade pode aumentar com o tempo e muito esforço através do refinamento da mana natural, benções naturais, como à quela que a ‘Náiade Solitária’ deu a você, ou através de Itens divinos, como as Cartas… simplesmente se sentar em um banheiro aquente não aumenta a sua afinidade… — O velho apontou, e Arc levantou a mão com um grande sorriso e uma ideia.
— Então, talvez seja porque ele estava evoluindo? — O garoto sugeriu, mas antes que mais alguém pudesse reagir, Nelli ofereceu uma razão possível.
— Espíritos… podem aumentar suas afinidades de tal forma. — A náiade apontou, enquanto flutuava em direção ao jovem Demônio. — Para dizer isso de forma básica, nós somos a consequência de um feitiço conjurado pelo próprio mundo. Espíritos tem um corpo feito de mana mantido unido pela Força Vital, então nós podemos até mesmo absorver subconscientemente as energias que temos uma afinidade básica e bruta, e usá-la para aumentar nossa afinidade, e com isso nossa força, com o tempo.
— Então, você está dizendo que Eiro na verdade é um Espírito? — Clementine perguntou animada, e Jura estava escutando atentamente o que seu Espírito Contratado disse, tentando compreender o que isso significava.
— Não, não, ele não é, mas…. ele pode ser algo similar… Eiro, você se recorda de como era enquanto crescia? — Nelli perguntou, mas o Diabrete apenas a olhou de volta e balançou a cabeça.
— Eu não me lembrava.
Como uma primeira resposta, o Espírito se virou em pensamentos, aparentemente tentando pensar em outra forma de falar sobre isso, antes que ela começasse a entender o que Eiro realmente disse e ficasse confusa.
— Você… não se lembrava? Você não se lembrava, mas agora você lembra? — Ela perguntou, mas Eiro balançou a cabeça. Ele havia explorado sua memória algumas vezes, e estava bastante confuso sobre si mesmo, mas, no fim, havia apenas uma coisa que tinha que aceitar.
— Eu não cresci. — O Diabrete disse claramente, mas Jura zombou instantaneamente.
— Absurdo, claro que você cresceu! Até mesmo Demônios são seres vivos, eles nascem, envelhecem e morrem! Por que você deveria ser uma exceção? — O velho perguntou, embora Eiro achasse que era um pouco estranho a forma como ele estava agindo. Como se ele tentasse negar ativamente tudo o que Eiro estava dizendo no âmago do seu próprio ser.
— Minha primeira memória é a visão de um grande salão, com outros Diabretes Inferiores à minha frente. E então, há algo…. algo obscuro. Não posso realmente vê-lo, mas sei que é uma pessoa… não, um mostro? É… é estranho. De qualquer forma, essa… coisa, falou. ‘Sol, você não se recorda do que eu disse sobre interrupções?’ Ele perguntou, e outro Monstro ficou parado na porta, como se estivesse congelado… e então a coisa olhou para mim e…” — Eiro murmurou, e quanto mais falava sobre sua memória um tanto aterrorizante, seu corpo continuava tremendo e estremecendo, como se seu próprio ser estivesse tentando rejeitar esse conhecimento.
— E… o que? — Sammy perguntou nervosamente, aparentemente afetada por como Eiro estava apertando o próprio peito, algo que o próprio Diabrete nem percebeu.
— E… e então ele disse ‘Uma Falha… mas bem, esses Demônios são forragem de qualquer maneira, então o que isso importa?’ e então me mandou embora… — Ele explicou, e apenas agora teve a realização do que tudo isso significava. Eiro não estava exatamente certo, mas parecia que sempre que pensava sobre isso antes, ele simples e subconscientemente descartava como algo sem importância, mas agora que realmente falou em voz alto, ele não conseguia fazer isso novamente.
— O… o que eu sou? — Eiro perguntou silenciosamente, enquanto encarava a pele azul em sua palma, e Jura apenas suspirou profundamente e se levantou, caminhando até o Diabrete e batendo na parte de trás da cabeça dele.
— Você só está cansado, é isso que você está. Você precisa continuar o seu trabalho assim que puder, então apenas descanse. — O velho disse em um tom de comando, e Eiro afastou desdenhosamente a notificação vermelha à sua frente, dizendo a ele sobre o dano que Jura acabou de infligir a ele.
— Certo… — O Diabrete disse, simplesmente se sentindo derrotado por alguma razão. Exausto, foi até sua cama e jogou suas coisas no chão ao lado dela e então só caiu na superfície fria e fofa.
Jura estava certo, Eiro estava simplesmente cansado, era só isso. Mais tarde quando acordasse, ele certamente se sentiria muito melhor, não iria? Sim, o Diabrete estava certo disso…
Se apenas estar certo de algo significasse que isso certamente aconteceria, seria bom. Quando o Diabrete acordou, ele realmente havia esquecido de tudo por um momento, mas logo as memórias da noite passado o alcançaram novamente e ele apenas ficou sentado por um tempo.
— Boa noi- Bom dia? Espere, o que devemos dizer se ele acorda de noite? — Arc perguntou um pouco surpreso, enquanto olhava para cima da mesa onde todos estavam atualmente reunidos para jantar, e Sammy pareceu encará-lo por alguns minutos.
— Que tal ‘Como você dormiu?’ — Ela sugeriu, e Arc estalou os dedos e assentiu em satisfação antes de se voltar para Eiro com um sorriso largo.
— Como você dormiu? — Ele perguntou, então Eiro apenas se levantou e sorriu.
— Eu dormi bem, obrigado. — O diabrete respondeu, ignorando o fato de não ser realmente o caso. Seu corpo todo estava dolorido, e sua cabeça parecia querer se abrir nesse exato momento. Eiro não sabia exatamente por que, mas era assim que se sentia.
Confuso, o Diabrete olhou para chão onde lembrava de ter deixado suas coisas, e as notou colocadas em sua mesa de cabeceira, onde alguém havia as colocado para que ele conseguisse encontrá-las adequadamente.
Com um sorriso no rosto, o Diabrete agarrou os diferentes itens pequenos, envolvendo suas cartas em um tecido para prendê-las em seu peito novamente. Isso sempre foi um pouco ineficiente, mas Eiro imaginou que era melhor do que as perder.
Enquanto Eiro se levanta e caminhava até a mesa, seminu já que ainda não tinha roupas que serviam nele, embora parecesse que isso fosse mudar logo.
— Eiro, se nós não podemos comer sem roupas, você também não pode! — Rudy reclamou, apontando em direção às algumas peças de roupas dobradas perto do pé da cama de Eiro. — Elas não são especiais, mas…. eu fiz o meu melhor. — O jovem apontou, e Eiro olhou para ele um tanto surpreso antes de pegar as roupas.
Para sus surpresa… eram roupas novas. Umas que provavelmente serviram nele. Elas realmente não pareciam muito diferentes das que Eiro vestia antes, apenas que essas roupas eram um pouco mais escuras para combinar com a cor de sua capa, mas pareciam simplesmente muito mais fortes do que suas antigas, no que tange o material usado.
— Obrigado. Elas são ótimas. — Eiro disse com um sorriso, enquanto se virava em direção a Rudy e rapidamente vestia as roupas. Elas serviam muito bem, algo que Eiro não esperava, considerado que roupas como essas deveriam levar um tempo para serem feitas, pelo que entendia pelo menos. No fim, Eiro não tinha razão para se importar com esse fato, estava simplesmente orgulhoso de Rudy por fazer algo assim.
E então, com seu humor um pouco melhor, Eiro se sentou na mesa novamente, antes de Jura se voltar para ele também.
— Se você quer sapatos novos, terá que encomendá-los em um sapateiro na cidade quando for lá na próxima vez. — O velho apontou, então o Diabrete assentiu.
— Certo. — Ele respondeu com um tom claro, e no fim, jantou com todos como o normal, embora tecnicamente fosse o café da manhã dele.
Um pouco depois, assim que terminaram, Eiro ajudou a limpar tudo e então foi até porta com sua bolsa para sair pera a noite, embora Jura tivesse o parado antes que fizesse.
— Oh, e lembre-se… não faça nada idiota agora. — O velho disse claramente, e Eiro apenas acenou com a cabeça e saiu da casa, descendo lentamente a colina pelo seu caminho regular, checando se algo caiu em suas armadilhas. Pelo menos no caminho em direção ao rio, não havia nada… Esperançosamente, Eiro teia mais sorte em seu caminho de volta.
De qualquer forma, Eito chegou ao seu pequeno local onde plantou sua semente, passando pela ponte de toras para chegar lá, e então se sentiu no chão enquanto colocava sua capa sob seu corpo, para que suas roupas novas não ficassem sujas.
Primeiro, o Diabrete tinha que começar o seu trabalho. Como Jura disse, Eiro não deveria fazer nada idiota, então o que ele estava para fazer era, na verdade, muito esperto em sua opinião. Pressionou os pés juntos e fez o ‘círculo’ ali e então adicionou outro ‘círculo’ com seus braços, pressionado sua palma contra seu toco, e então conduzindo a mana através do ‘caminho’ em seu rabo, para que conseguisse continuar assim por ainda mais tempo!
Ele realmente não entendia tidas as cosias sobre a ‘Força Vital’ ainda, e ainda não entendia o que era toda aquela ‘Coisa’ de suas memorias, mas no fim Eiro só tinha que focar no que estava fazendo agora, certo?
Não mudaria nada se ele apenas ficasse sentado, contemplando sua vida sem chegar a lugar nenhum. Se ele tivesse que saber sobre isso, ele deveria pensar sobre quando ficasse mais forte…
Embora, ainda desejasse receber algum tipo de sinal de que não era apenas uma ‘Falha’, como a coisa disse que ele era. Que ele era realmente bom, ou útil.
Assim que estava pensando sobre isso, Eiro escutou alguns galhos se quebraram, e o Diabrete abriu os olhos, interrompendo seu trabalho.
E lá estava, exatamente a mesma coisa que ele estava pedindo. O Cervo de Um Chifre estava parado do outro lado do rio, com um pequeno cervo olhando para Eiro entre suas penas.
…