
Volume 2 - Capítulo 66
A Virtude do Demônio
Para a agradável surpresa de Eiro, ele não se sentiu tão desconfortável ao pisar na neve daquela forma. Ele ainda sentia o frio, obviamente, mas isso simplesmente não o incomodava mais. Sem os sapatos, provavelmente seria muito mais fácil se agarrar ao chão, certo? Pelo menos, era o que Eiro imaginava que deveria acontecer…
Bem, ele descobriria mais tarde, por enquanto só precisava atravessar a floresta assim.
Ele tinha suas cartas, sua adaga, sua bolsa para carregar algo para beber e um pouco para comer, além da semente bem ali em sua mão esquerda. Havia um lugar que Eiro achava que seria um bom local para plantar aquilo, mas primeiro, o jovem Demônio queria verificar outro lugar, desde que conseguisse encontrá-lo novamente.
No fim, isso não era tão difícil assim, considerando que o corpo da “Monstruosidade Congelada” ainda estava lá, com algumas partes que não estavam cobertas de neve ainda visíveis aqui e ali.
Mas, infelizmente, Eiro percebeu que o Cervo não voltou para o local, então talvez ele tivesse que apenas torcer para que retornasse mais cedo ou mais tarde. Esperava que fosse mais cedo do que mais tarde, afinal, ele realmente queria saber se tinha conseguido salvá-lo ou não, e o fato de não saber o deixava extremamente desconfortável.
De qualquer forma, antes de ir até o local onde queria plantar a semente, ele se ajoelhou bem na frente da monstruosidade congelada e observou as poucas partes que ainda estavam para fora da neve, então acabou escolhendo uma de suas grandes presas como um tipo de “troféu”.
Ele não sabia exatamente o porquê, mas o seu “hábito”, que havia se formado ao longo dos últimos meses, parecia ainda mais forte agora. Talvez tivesse a ver com sua evolução, mas ele não tinha como saber disso com certeza, então apenas guardou a presa em sua bolsa depois de limpar o sangue com um pouco de neve solta, que rapidamente derreteu na mão do Diabrete.
Logo, Eiro encontrou o lugar onde queria plantar aquela semente, o local onde passava algumas horas todos os dias há um bom tempo: a pequena margem no meio do rio. O toco que estava lá não estava realmente preso ao chão, porque a maioria das raízes já estava podre.
Em determinado momento, o Diabrete ficou irritado com o fato de o toco ficar balançando o tempo todo e acabou cortando-o completamente para poder fixá-lo no lugar, pelo menos temporariamente.
Assim, depois de atravessar o tronco caído, Eiro simplesmente usou sua adaga para derreter a neve congelada ao redor da base da árvore, para que pudesse empurrá-la para longe. Provavelmente seria um pouco difícil, mas da última vez ele conseguiu empurrando um galho por baixo e tentando levantar a base, então Eiro imaginou que poderia fazer o mesmo de novo.
Para sua sorte, parecia que algumas raízes continuaram apodrecendo ainda mais desde que Eiro cortou tudo, e a única coisa segurando o toco no lugar era o gelo, então ele conseguiu chutá-lo de lado e rolá-lo para dentro da água.
Algumas gotas respingaram em suas pernas, mas o Diabrete sentiu que estava tudo bem, afinal, o frio já não o incomodava mais.
Então, a única coisa que Eiro precisava fazer era puxar o restante das raízes, o que não demorou nem de longe tanto quanto ele esperava. Ele terminou em apenas uma hora! Embora tenha tido bastante sorte de que aquela noite era de lua cheia, especialmente brilhante, e de que aquele local não estava coberto por árvores, então ele não precisava se preocupar tanto com iluminação.
Logo, Eiro tinha diante de si apenas terra fria e úmida, misturada com alguns pedaços de gelo, tornando-se lamacenta à medida que ele continuava usando sua adaga enquanto a “aquecia”.
De qualquer forma, ainda estava bom assim, então o Diabrete simplesmente colocou a semente no centro daquele solo e a cobriu com um pouco mais de terra, antes de se sentar bem em cima dela.
Uma coisa que ele percebeu durante sua constante meditação diária foi que conseguia usar sua mana com muito mais facilidade enquanto meditava. A primeira vez que ele controlou água que não vinha do próprio corpo foi, na verdade, por acaso, enquanto tentava interagir com a semente de alguma forma.
E outra coisa que o Diabrete descobriu depois disso foi que ele podia “acelerar” sua mana com bastante facilidade. Ele ainda a deixava fluir, principalmente através do sangue, mas algum tempo depois ele notou certos caminhos pelos quais sua mana podia circular, sem afetar seu corpo de maneira significativa, independentemente da velocidade com que fluísse.
Esses caminhos percorriam partes específicas do corpo, pelo menos até onde Eiro conseguia perceber, e havia um em cada um de seus membros. Se ele pressionasse os pés descalços um contra o outro, os caminhos que levavam até eles se tocavam, permitindo que sua mana passasse de um pé para o outro.
Se ele fizesse sua mana fluir do pé direito para o esquerdo, depois subir pela perna esquerda até o peito e descer pela perna direita, poderia criar algo como um “circuito” que permitia acelerar bastante sua mana.
Eiro não sabia exatamente por que isso acontecia, mas, a uma certa velocidade, ele sempre recebia a notificação de que sua regeneração de mana havia aumentado momentaneamente, embora parasse quando sua mana desacelerava.
Assim, Eiro desenvolveu um método para praticar a conexão com a semente que agora estava abaixo dele. Enquanto deixava sua mana circular pelas pernas, separava uma parte dela para fluir constantemente pelo braço esquerdo e ir direto para a semente.
Agora, o Diabrete queria fazer exatamente a mesma coisa, mas sem deixar que a mana saísse da semente. Ele apenas continuaria a preenchê-la, mesmo que ela não pudesse absorver mais. Então, passaria a encher o solo ao redor da semente com mana.
O benefício desse método era muito claro: para mover sua mana por esses “caminhos”, ele sempre precisava de uma quantidade mínima dela. Essa quantidade mínima era apenas um pouco maior do que a regeneração de mana nesse estado “acelerado”.
Isso significava que, embora ele não pudesse fazer isso indefinidamente, ainda assim poderia continuar liberando sua mana constantemente por pelo menos duas ou três horas antes de ficar completamente esgotado.
Eiro nunca testou esvaziar completamente sua mana, mas seus instintos lhe diziam que ele definitivamente não deveria sequer pensar nisso, então normalmente parava depois de aproximadamente duas horas.
Eiro estava tentando ser ainda mais cauteloso agora, já que não podia abrir seu status para verificar sua mana de tempos em tempos.
Por algumas horas, Eiro continuou despejando sua mana no solo e, embora não parecesse haver muitas mudanças, o Diabrete tinha certeza de que isso funcionária… pelo menos, esperava que sim. Caso contrário, teria cometido o maior erro possível, e Jura praticamente o teria conduzido a isso.
E se Jura estivesse apenas muito zangado com a forma como Eiro agiu no dia anterior…? Considerando que ele nunca o viu tão genuinamente irritado antes, essa poderia ser a verdade, certo? Mas agora era tarde demais… ele tinha apenas que continuar tentando fazer aquela semente crescer de alguma forma.
Ao fazer uma pausa para se alongar um pouco e verificar se estava tudo bem com a semente, Eiro percebeu algo irritante: partes de sua calça estavam congeladas por causa da água fria do rio.
Felizmente, o Diabrete conseguiu derretê-las com sua adaga e, em parte, secar o tecido dessa forma, mas ainda era bastante incômodo, pois dificultava seus movimentos.
Ele então se lembrou do que leu nos livros sobre magia.
— Magia é a representação da sua vontade no mundo físico, e a mana é a portadora dessa vontade. — Ele repetiu, cruzando as pernas e afundando os dedos na terra levemente úmida. — Se for assim… — O Diabrete murmurou, tentando seguir exatamente o que aquele livro dizia. Ele fez sua mana carregar sua vontade.
E sua vontade era fazer aquela semente crescer.
…