
Volume 2 - Capítulo 67
A Virtude do Demônio
Eiro continuou tentando colocar sua vontade na semente sempre que possível, até que o sol nasceu além do horizonte, significando que o Diabrete esteve fora a noite inteira.
Ele não achava que tinha que ficar ali constantemente, afinal, todas essas árvores ao seu redor também cresceram sem a ajuda de ninguém. Por agora, imaginou que deveria voltar para casa, considerando que estava realmente cansado de novo. Claro, ainda checaria as armadilhas e então levaria qualquer comida que conseguisse para casa, mas então Eiro pensou que seria uma boa ideia ir dormir novamente.
Entretanto, como parecia que nada caiu nas armadilhas do Diabrete dessa vez, o jovem Demônio fez seu caminho até a floresta de mãos vaias e, em vez disso, pegou quaisquer plantas comestíveis que pudesse encontrar, embora ainda fosse bem pouco.
E então, Eiro abriu a porta e entrou na casa novamente, seus pés cobertos na neve áspera e congelada, a qual ele teve que literalmente quebrar ao chutar seu pé contra porta, simplesmente porque havia caminhado descalço o tempo todo. Por alguma razão, enquanto o Diabrete estava lá fora no ambiente áspero, frio e nada convidativo, ele não se importava com o frio, mas quando entrava aqui, parecia que isso começava a alcançá-lo lentamente.
Ele ainda não sentia aquelas queimaduras do frio que teve algumas vezes até agora em sua pele, mas parecia que todo o seu corpo havia esfriado para a temperatura que um corpo morto tinha, e isso o fez sentir ligeiramente letárgico e provavelmente ainda mais cansado do que o normal.
Eiro escolheu rapidamente entrar no pequeno galpão adjacente à casa, onde tinha seu pequeno matadouro, biblioteca e quarto de troféu, agarrou um dos baldes parados no canto e começou a enchê-lo com neve lá fora, antes de trazê-lo de volta para dentro e derrubar a neve em uma banheira de metal. Abaixo dela ele acendeu um pequeno fogo, feito com a madeira que produzia o mínimo de fumaça possível. Claro que ainda havia uma pequena chaminé no topo.
Como Sammy e Clementine pediram por isso, elas também usavam esse lugar para tomar banho as vezes, porque nenhuma delas queria ter Jura, Rudy ou Arc lá, embora Avalin, Leon e o Diabrete pudessem ficar. Bem, Eiro tomava banho separadamente delas, usualmente, mas ainda as ajudava a se lavarem apropriadamente quando elas precisavam disso, apesar de fazer isso principalmente para Leon e Avalin para deixar Sammy relaxar um pouco.
Nesse momento, ele realmente só queria tomar banho sozinho para aquecer seu corpo novamente, e talvez se distrair da dor que sentiu o dia todo. Parecia que havia crescido alguns centímetros de largura durante essa noite.
A neve estava dentro de uma banheira de metal colocada em um canto feito de pedra, para que a casa não queimasse de alguma forma, embora fosse feita de uma madeira aparentemente resistente ao fogo, o Diabrete notou que seus chifres também cresceram um pouco e sua pele havia ficado um pouco mais pálida.
Seus chifres mudaram de cor rapidamente, conforme mudavam de um vermelho-rubi para um azul-safira. No fim eles acabaram um pouco mais grossos e compridos, e se curvaram um pouco, mas Eiro ainda sentia uma dor pungente na sua testa, ao lado de onde seus chifres já estavam.
Com um leve suspiro, sentou-se dentro da água quando ela começou a aquecer um pouco, em cima de pedaços de madeira no fundo da banheira, para que ele não se queimasse no metal, e então submergiu seu corpo o máximo que conseguiu.
Imediatamente, a temperatura retornou a Eiro. Quando sentiu que conseguia se mover um pouco mais facilmente novamente e que seus membros não estavam mais tão rígidos, ainda estava muito cansado, então deveria dormir imediatamente após o banho.
Logo, a temperatura da água aqueceu rapidamente, embora o Diabrete estivesse perdido em pensamentos sobre o que deveria fazer com sua semente.
Talvez em vez de dormir, ele deveria só retornar imediatamente e simplesmente voltar em algumas horas para chegar as crianças e se aquecer como agora? Era realmente muito bom lá fora sob o luar, naquele lugar quieto e frio, onde a única coisa que ele conseguia escutar era a água fluindo e o vento soprando pelo seu corpo.
Embora, o momento atual não fosse tão ruim também… esse calor era confortável, tão confortável quanto o frio, e ele não conseguia simplesmente sair disso. Escutou a água borbulhar ao redor de sua pele, enquanto a madeira se estalava abaixo dele, a leve fumaça subindo pelo buraco no telhado, agindo como uma chaminé.
Ele sabia que demônios como ele supostamente eram fortemente conectados ao Fogo, e no fundo de sua mente, o Diabrete imaginou que sempre foi, mas foi só agora que realmente pensou conscientemente sobre quão bom o calor era.
Era como se o calor aumentasse ligeiramente no centro do seu corpo estava se intensificando ainda mais, como se ele devesse agarrá-lo e segurá-lo com força.
Nesse instante, o Diabrete conseguiu até mesmo ignorar completamente a notificação que apareceu acima dele. Isso não o incomodava nem um pouco, então ele não se importou em lê-la também e apenas passou sua mão através dela. Ele só queria… dormir… nesse calor confortável…
A próxima coisa que o Diabrete sabia era que o calor incrível foi substituído por um frio incrível, e ele escutou a neve embaixo dele ceder. Enquanto vapor subia ao seu redor, Eiro sentiu o gelo imediatamente se fechar ao redor dos seus membros, enquanto uma pequena montanha basicamente começava a colá-lo no chão.
— Seu vagabundo, não durma durante o banho! — Jura exclamou alto e irritado, antes que o jovem Diabrete percebesse exatamente o que estava acontecendo. Parecia que… Jura esvaziou a banheira com Eiro dentro. E, isso não era impossível também, considerando a força oculta insana de Jura. Ele realmente não sabia o porquê de a água congelar tão rapidamente, mas o que mais importava agora era que tinha que se levantar antes de congelar.
Eiro pulou e foi em direção à pequena cabana para secar seu corpo e colocar roupas novas.
— Me desculpe. — O Diabrete disse ao velho em sua frente, embora ele tenha suspirado em resposta.
— Bem, vamos nos mover… você plantou a sua semente, não é? — Jura perguntou, e Eiro lentamente assentiu, enquanto desistia de tentar vestir as calças e, em vez disso, apenas puxou a capa ao redor do seu corpo. Felizmente, ainda cabia apropriadamente.
— Eu fiz. Fiz a coisa certa, certo? — Eiro respondeu um pouco nervoso e Jura apenas sorriu levemente.
— No seu caso eu teria esperado pela primavera pois as plantas crescem mais facilmente, mas você parece bem alinhado com o inverno como uma estação de qualquer forma, então não deve haver preocupações reais. Contanto que cuide apropriadamente da semente, é isso. Se você a remover agora, ela murchará e morrerá, então você não tem muita escolha de qualquer forma. — O velho explicou, então Eiro olhou de volta para ele e assentiu, incrivelmente aliviado.
— Então eu terminarei de dormir na cama agora. — Com um leve sorriso no rosto, Eiro passou pela porta com Jura atrás dele, apesar do velho parecer confuso com algo quando saíram do quarto, mas ele não tinha certeza.
De qualquer forma, depois de cumprimentar as crianças e comer um pouco de comida junto delas, o Diabrete caiu em sua cama e dormiu novamente.
Após acordar, seu corpo cresceu mais um ou dois centímetros de altura, e seus chifres também ficarem um pouco mais compridos. Parecia que eles continuariam crescendo, pois a dor ainda estava ali.
Com um grunhido profundo, Eiro vestiu suas roupas e se sentou na cadeira, com todas as coisas que precisava já em sua bolsa, para que conseguisse sair logo depois de comer algo. O sol havia acabado de se pôr, aparentemente.
— Bom dia… oh, boa noite, quero dizer. — Eiro disse a eles enquanto empurrava sua cadeira para trás, e todas as crianças olharam para ele, surpresas. Elas já estavam o encarando por conta de suas mudanças físicas, mas elas não esperavam uma mudança nessa área também.
— Sua voz está mais profunda… você passou pela puberdade durante a noite passada? — Arc perguntou com um sorriso, e Eiro apenas levantou as sobrancelhas confuso.
— Puber… o que? — O Diabrete comentou confuso, apesar de perceber agora que sua voz soava um pouco diferente, mas o jovem garoto apenas balançou a cabeça em resposta.
— Nada. Então, você sairá todas as noites em vez de todos os dias? — Ele perguntou, antes que o Diabrete olhasse pela janela e desse de ombros em resposta.
— Parece que sim. Não acho que importa se é dia ou noite, só quero passar o máximo de tempo que posso cuidando da semente.
— M-mas… — Clementine quase o interrompeu com uma expressão um pouco triste, enquanto brincava com seus próprios dedos e olhava para baixo na superfície da mesa à sua frente. — Isso significa que nós não te veremos mais, certo? Se você dorme o dia todo e sai à noite…? — Ela perguntou, e com um leve aceno, e Eiro olhou de volta para ela.
— Por agora, sim, mas não se preocupe, eu estarei aqui quando você precisar de mim. — O Diabrete comentou, ao que Clementine respondeu calmamente.
— Certo… — Ela disse, e Eiro apenas colocou a mão na cabeça dela por um tempo, pois notou que isso relaxava, especialmente ela, quando fazia isso. Embora só por esse momento, algo mais passou pela mente de Eiro enquanto levantava sua mão esquerda verdadeira e sua mão direita falsa. Considerando seu crescimento durante o último dia, sua mão esquerda cresceu também, muito claramente. Sua mão direita, no entanto, não. Ele parecia meio ridículo com uma mão de bebê de madeira, e a risada de Arc parecia ser uma confirmação para isso.
…