A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 65

A Virtude do Demônio

— Oh? — Jura perguntou surpreso após ouvir Eiro falar sobre o que queria fazer com a semente, esboçando um leve sorriso. — Então você realmente quer sair e plantar uma semente em uma situação dessas? Você percebe que, se falhar, nunca mais terá permissão para aprender comigo? — O velho questionou, e o Diabrete apenas assentiu em resposta.

— Sim, sei disso, mas eu simplesmente quero plantar essa semente o mais rápido possível. — Eiro explicou, fazendo Jura apenas rir em resposta.

— Muito bem, mas coma algo antes. Rudy fez aquelas salsichas de que falou, e elas estão realmente boas.

Eiro concordou, enquanto se aproximava da mesa no centro da sala, tentando entender o que significava a… reação incomum de Jura. Normalmente, quando o Diabrete pensava em fazer algo extremo assim de repente, Jura gritava com ele… E agora ele estava oferecendo comida a Eiro?

Isso era realmente algo a que o jovem Demônio não estava acostumado, mas ele concluiu que não havia razão para reclamar. Afinal, era a comida de Rudy.

Então, enquanto Eiro se sentava à mesa e rapidamente recebia um prato de comida do jovem Chef, Clementine, que já havia terminado sua refeição, apoiou o queixo na mesa e esticou os braços para pegar a Flor de Gelo, observando-a atentamente.

— Bonita…! — Ela murmurou baixinho, e Eiro se virou para ela com a boca cheia de comida, enquanto Sammy também olhava para a pequena Flor de Gelo.

— Ela realmente é! Você comprou isso em algum lugar da cidade? — Ela perguntou, e Jura lentamente ergueu as sobrancelhas ao ouvir o som da flor sendo movida.

— Isso… ainda está intacto? — O velho perguntou com um suspiro, antes de se virar para o Diabrete. — Por que você fez algo tão desnecessário assim? Havia um motivo para ela não carregar nada! — Jura exclamou, obviamente ainda mais do que apenas irritado com as ações do Diabrete diante da Dama do Inverno. Eiro engoliu a salsicha na boca e rapidamente tentou explicar.

— Eu fiz isso porque… Porquê… — Ou melhor, ele tentou, mas não encontrou as palavras, então tentou usar o que parecia mais lógico. — Por que ela parecia triste?

— Eiro… — Jura começou balançando a cabeça lentamente. — Você está aqui há meio ano, e eu não vi nenhum sinal de que você se importe com alguém além dessas crianças. — E, de repente, parecia que Jura se lembrou de algo, embora parecesse improvável.

— Talvez… Você a tenha reconhecido? — Ele perguntou, e o Diabrete pensou por um momento. Ele a reconheceu? Agora que pensava nisso, parecia que sim… Como se aquela jovem garota fosse uma versão menor de Avalin, a Avalin que primeiro pegou o Diabrete, ou melhor, o aprisionou.

— Eu não sei. — Eiro respondeu com clareza, simplesmente porque não tinha certeza se era isso mesmo que estava acontecendo. Ele estava se sentindo tonto e cansado, e mesmo enquanto a carregava pela floresta, era como se estivesse apenas seguindo todo mundo em meio a uma névoa. A viagem, que normalmente levaria quase meio-dia, pareceu durar apenas algumas horas para ele.

Era estranho, para dizer o mínimo. Talvez ela apenas se parecesse um pouco com Avalin, e ele tivesse imaginado que era ela. Eiro realmente não tinha certeza sobre nada disso. No próximo ano, talvez ele pudesse vê-la novamente para confirmar.

Mas, em resposta a Eiro, Jura apenas suspirou e balançou a cabeça.

— Deixa pra lá então, parece bastante improvável. De qualquer forma, você deveria manter essa flor com você. É uma flor especial, um presente que mostrará que você é um aliado da natureza. Não é algo que se vê todo dia, de fato. — O velho admitiu com uma leve risada, e Eiro assentiu em resposta.

— Ela… não vai derreter, certo? — Diante dessa pergunta, Jura imediatamente balançou a cabeça.

— Não vai, não se preocupe. Também não vai se despedaçar, mas você pode perdê-la, então ainda assim tome cuidado. Você nunca terá algo assim de novo.

Percebendo a importância dessa ‘flor bonita’, Sammy rapidamente a empurrou de volta para o Diabrete, que apenas a colocou à sua frente para mantê-la à vista, se ela realmente era tão importante quanto Jura dizia. Por um tempo, todos ficaram em silêncio, embora Eiro tenha acabado soltando um gemido por causa das ‘dores do crescimento’ em todo o seu corpo. Literalmente, não havia um único ponto que não doesse um pouco.

Mesmo assim, e apesar de já estar escuro, Eiro ajudou a limpar a mesa após o jantar, ou melhor, o café da manhã para ele, e então se dirigiu até a porta, onde tentou calçar suas botas. No entanto…

— Elas não cabem mais. — O Diabrete disse, irritado, ao perceber que seus dedos estavam dobrados além do que considerava ‘levemente desconfortável’ e ainda assim pressionavam a parte da frente do sapato, sem mencionar a dificuldade de enfiar os pés neles.

Embora… Ele tivesse aquela nova versão de sua ‘Bênção’ agora, e não sentisse frio ontem, então talvez…

— Status.

[Você não pode abrir seu status durante a evolução]

— Ah… — O Diabrete murmurou imediatamente enquanto olhava para a notificação irritante, antes de se jogar no chão para tirar as botas dos pés, agora de mau humor.

— Está… tudo bem? — Rudy perguntou, um pouco preocupado e surpreso, e Eiro apenas balançou a cabeça.

— Não posso abrir meu status enquanto estou evoluindo… — Eiro admitiu, fazendo com que as crianças e o velho o olhassem surpresos.

— Sério? Isso não é bem irritante? Você não olha seu status religiosamente? — Arc riu, recostando-se na cadeira com um sorriso travesso, mas o Diabrete apenas lançou um olhar mortal para ele.

— Para de provocá-lo! O Eiro está de mau humor! — Clementine exclamou, mais chateada que o próprio Diabrete.

— Acho que quem está de mau humor aqui é você. Comeu demais ou algo assim? — Arc perguntou provocativamente, agora voltando sua atenção para a jovem garota.

— Não! Mas eu posso sentir que o Eiro está com dor, então meu Estômago Mágico está roncando, mas eu sei que não é algo que eu possa comer! — Ela respondeu, fazendo o garoto rir mais uma vez.

— Estômago Mágico? Eu sei que você come tanto quanto um dragão, mas isso não torna seu estômago mágico. Isso só faz de você um lagarto gordo! — Com uma risada alta, Arc se inclinou totalmente para trás na cadeira, mas Clementine não achou graça nenhuma e chutou a cadeira com toda a força, fazendo o garoto cair imediatamente de costas no chão. No entanto, isso não parecia incomodá-lo muito.

— Você sabe o que eu quis dizer! Meu… bem, meu Estômago Mágico! Aquele onde vão todos os ‘Dodóis’ que eu como! — Ela gritou, o mais sério que conseguia, embora sua escolha de palavras só fizesse Arc rir ainda mais.

— Seu grande idiota! — Clementine gritou, agora realmente chateada, e correu para as camas, escondendo-se debaixo das cobertas.

— Eita… — Arc murmurou enquanto se levantava devagar, aparentemente perdendo a vontade de rir. — O que deu nela? — Ele perguntou, e todos apenas o encararam. No entanto, o Diabrete percebeu algo que Jura também parecia ter notado, mas antes que o velho pudesse dizer algo, Eiro jogou as botas de lado e se aproximou de Arc, segurando imediatamente os lados do rosto do garoto.

— O-o que você está fazendo? — O garoto perguntou surpreso, e Sammy se aproximou de Eiro, segurando seu braço.

— Eu sei que ele irritou a Clem, mas você não deveria… fazer isso… — Ela disse, parecendo nervosa como sempre quando o assunto era ‘punição’. Mas Eiro apenas balançou a cabeça enquanto olhava fundo nos olhos de Arc, embora tentasse manter um pouco de distância.

—Não é isso. Arc se machucou agora há pouco. Eu vi a notificação vermelha pelos olhos dele. — O Diabrete explicou e, depois de confirmar, empurrou o garoto para que se sentasse na cadeira antes de examiná-lo, enquanto Sammy dava um passo para trás, surpresa.

— Do… do outro lado da sala? — Ela perguntou, e o Diabrete assentiu em resposta.

— Sim. — Ele respondeu com clareza, antes de inspecionar rapidamente qualquer lugar onde Arc pudesse ter se machucado para garantir que não fosse nada sério. Logo, notou um pequeno ponto vermelho no cabelo do garoto.

Todos eram especialmente cuidadosos com possíveis ferimentos em Arc, pois ele era o único que não sentia dor. Isso significava que eles precisavam garantir que ele realmente estava bem.

Até mesmo Clementine tinha dificuldade em encontrar cortes pequenos nele se Arc próprio não percebesse, porque a maneira como ela normalmente os ‘sentia’ era através da dor da outra pessoa. E se não houvesse dor, encontrar o ferimento era muito mais difícil.

— Jura… — Eiro chamou o velho, mas ele apenas balançou a cabeça.

— Não deve ser nada sério. Apenas um arranhão pequeno, eu acho. O sangue já deve estar secando. — Jura disse para acalmar o Diabrete, antes que Arc suspirasse irritado.

— Para de me tocar, nem foi 10 de dano… — O garoto resmungou, mas Eiro balançou a cabeça.

— Sim, mas o ferimento poderia ter piorado com o tempo. Agora, fique quieto e me deixe limpar seu cabelo

Ao dizer isso, o Diabrete foi rapidamente até o barril na cozinha onde guardavam água potável e tentou pegar um pouco dali, mas Arc suspirou mais uma vez.

— Eu posso fazer isso sozinho, tá tudo bem. — Ele disse, mas Eiro o ignorou, embora parecesse que outra pessoa também estava contra a ideia do Diabrete.

A pequena garota espiava debaixo do cobertor com os olhos cheios de lágrimas.

— P-p-posso… p-posso limpar? — Ela perguntou, tentando segurar o choro por ter machucado Arc daquele jeito. Eiro, no entanto, ficou com sentimentos mistos em relação a isso.

— Você pode prometer que não vai comer o ferimento? — O Diabrete perguntou, e Clementine assentiu lentamente com a cabeça.

Então, ele olhou para as outras crianças.

— Certifiquem-se de que ela realmente não faça isso. Esse é um bom ferimento para testar o autocontrole dela. — Eiro disse, agora completamente calmo depois de ver o lampejo da notificação vermelha nos olhos de Arc.

Em seguida, entregou a pequena tigela com água para Clementine junto com uma toalhinha para limpar corretamente o ferimento e voltou até a porta.

Pelo menos, isso o ajudou a parar de pensar na dor que sentia pelo próprio corpo.

— Cuidem-se e parem de brigar, todos vocês. Eu volto mais tarde… — O Diabrete disse enquanto abria a porta, puxando a capa sobre o corpo. Ele decidiu simplesmente não usar botas para testar se realmente não se incomodava mais com o frio, então saiu pela porta.

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