
Volume 2 - Capítulo 64
A Virtude do Demônio
Lentamente, Eiro deu um passo para trás em relação à Filha do Inverno e, em seguida, olhou para a Dama do Inverno, enquanto Jura se aproximava e agarrava seu braço com força.
— Seu idiota! Como-
— Está tudo bem, Jura. — A Dama o interrompeu, antes que o aperto do velho afrouxasse imediatamente, como se Jura tivesse soltado em choque.
— Os homens não devem ferir essas flores por razões egoístas, isso é verdade, mas este Demônio aqui fez isso pela pequena. Eu posso chamar isso de egoísmo? — A Dama apontou enquanto se ajoelhava diante do Diabrete e lentamente estendia o dedo em direção ao seu peito, tocando-o apenas uma vez, antes que um frio que o Diabrete não havia sentido, mesmo depois de ficar sentado ali por horas, fosse infligido ao seu corpo.
— Considere isso um pequeno presente. — A Dama disse, enquanto uma notificação apareceu bem diante do Diabrete.
[A ‘Bênção da Náiade Solitária’ foi transformada na ‘Bênção da Náiade Solitária do Inverno’]
Logo, esse frio penetrante desapareceu novamente, enquanto Eiro lia a notificação e a fazia desaparecer estendendo a mão em sua direção.
— Obrigado. — O Diabrete disse em voz baixa, enquanto qualquer resquício de frio ao seu redor simplesmente desaparecia, como se ele sempre tivesse vivido nesse ambiente.
— Vamos? — A Dama sugeriu com um sorriso caloroso, e o Diabrete lentamente se virou para o Cervo. A galhada no lado esquerdo de sua cabeça, que havia sido quebrada na base, estava agora substituída por cipós de gelo, e sua pelagem estava coberta por diferentes flores e plantas, assim como aquela que Eiro acabara de colocar no cabelo da Filha do Inverno.
— Eu… eu não posso deixá-lo aqui… Ele não vai morrer? — Eiro perguntou, e enquanto Jura se irritava novamente com ele, a Dama do Inverno simplesmente balançou a cabeça.
— Não se preocupe, jovem. A vida do seu amigo não está mais em perigo, graças a você. — Ela explicou, e o Diabrete olhou para o cervo com uma expressão nervosa antes de acenar com a cabeça.
— Certo. — Ele respondeu e então se virou para a Dama, que simplesmente sorriu levemente e começou a caminhar na direção da cidade, seguida pelas Filhas do Inverno. No entanto, uma em particular parecia não querer andar sozinha e correu até Eiro, levantando as mãos para ele, exatamente como Leon ou a pequena Avalin faziam quando queriam que ele os pegasse no colo.
Então, ele fez exatamente isso, pegando-a nos braços, segurando-a pelas pernas para que ela pudesse se sentar e ainda olhar para frente, antes de começar a seguir todos os outros.
Eles passaram por aquela floresta, que logo começou a se iluminar em inúmeras cores, à medida que flores de gelo brilhante surgiam por onde a Dama do Inverno pisava.
Em pouco tempo, muito antes do que o Diabrete esperava, eles chegaram à cidade, que aparentemente havia preparado algo parecido com um festival. Todos estavam se divertindo, barracas estavam espalhadas por toda parte e as pessoas admiravam a Dama do Inverno. Alguns pareciam notar, mas ninguém se importava com o fato de que Eiro obviamente não era uma pessoa, considerando que ainda era o acompanhante da Dama.
Depois de caminhar pela cidade por um tempo, eles chegaram à praça central, onde haviam sido construídas estátuas de quatro mulheres, uma delas representando a Dama do Inverno. Ela ficou em frente à sua própria estátua por um momento e então retornou ao centro da praça formada pelas estátuas.
Sem dizer uma palavra, simplesmente se ajoelhou ali, enquanto um após o outro, diferentes pessoas se aproximavam para lhe fazer uma ‘Oferenda’. Crianças pequenas ou velhos, não importava. Parecia que todos queriam lhe dar algo, qualquer coisa que pudessem oferecer.
Isso levou um tempo para terminar, mas logo aconteceu quando o sol nasceu novamente. E assim que a primeira luz do dia tocou o corpo silencioso da Dama, as Filhas do Inverno foram até sua mãe. Enquanto seus corpos canalizavam completamente a luz da manhã, elas logo desapareceram, e a neve começou a cair do céu.
Diante de Eiro, a cabeça de uma pequena flor desceu, como se tentasse se empurrar para sua mão. Então, ele a pegou devagar e apenas a segurou. De alguma forma, embora ainda estivesse fria, o gelo que formava a flor não parecia derreter ao toque, diferente de todas as outras flores de gelo que haviam surgido, as quais desapareceram depois de um tempo.
Enquanto Eiro olhava para a flor, logo sentiu algo duro atingir a parte de trás de sua cabeça. E esse ‘algo duro’ era a mão de Jura.
— Seu completo e absoluto idiota! Você teve sorte de que a Dama estava de bom humor, ou estaria morto agora! E o que você está fazendo, se preocupando com um cervo meio morto em vez de seguir as ordens dela? O que há de tão especial nessa coisa para que você quisesse salvá-la desse jeito?! — Ele perguntou, furioso, enquanto se afastava pisando forte, claramente esperando que Eiro o seguisse.
— Você… não sentiu isso? — Eiro perguntou, mas Jura apenas suspirou e virou-se levemente para o Diabrete.
— Sentir o quê? Meu coração parando toda vez que você agia de forma tão idiota?
O Diabrete apenas balançou a cabeça lentamente.
— Deixa pra lá… — Ele disse, ainda segurando a flor de gelo na mão. — Me desculpe. Fui muito desrespeitoso? — Ele perguntou, e Jura imediatamente assentiu.
— Claro que foi! — O velho respondeu, e nas horas seguintes, enquanto ele e Eiro voltavam para casa, ele deu uma longa bronca no Diabrete sobre porque suas ações estavam erradas.
Durante a noite, antes de dormir, Eiro aceitou sua próxima evolução.
[Iniciando Evolução. Evolução será concluída em 6 dias, 23 horas, 59 minutos, 59 segundos]
[Você não pode acessar seu status durante a evolução]
Enquanto ele dormia, o gelo em sua marca azul começou a brilhar e se modificar. Antes de perceber, ele cresceu, suas roupas já não serviam direito.
Jura percebeu a mudança imediatamente na manhã seguinte.
— Você começou sua evolução, não foi? Só faz o que quer o tempo todo… Então, qual evolução você escolheu?
— Não sei. Foi uma Evolução Única por causa das minhas Cartas. — Eiro respondeu, e Jura suspirou.
— Uma Evolução Única? Interessante… Bem, isso não importa agora. Ah, e como você não saiu ontem, terá que ficar lá fora o dobro do tempo amanhã. Você ainda precisa descobrir como fazer sua semente crescer.
Eiro olhou para a flor de gelo em sua mão e sorriu.
— Se algo assim pode crescer lá fora… Então não importa onde ela cresce. O que importa é quem cuida dela… E eu vou cuidar dessa semente. Vou plantá-la agora.
…