18LOH

Capítulo 57

18LOH

Tradutor/Revisor: JustBeIntelligent


Qiu Yinong acordou no chão.

Ela segurou a cabeça, sentindo uma dor alucinante, e rolou pelo chão. Só depois de um bom tempo aquela dor aguda finalmente diminuiu. Então, ela olhou para as próprias mãos.

‘Sangue?’

‘Alguém bateu na minha cabeça?’

‘Quem sou eu?’

‘Onde estou?’

Pensando nisso, ela bocejou enquanto levava a mão ao bolso, de onde tirou alguns chicletes.

Pegou um deles, rasgou a embalagem e colocou na boca, mastigando sem parar, mas continuava bocejando incessantemente.

Então…

Ela cuspiu o chiclete.

Com dificuldade, levantou-se do chão. Ao ver uma poltrona macia não muito longe dali, avançou até ela sem pensar duas vezes e se jogou em cima.

‘Tem alguma coisa me incomodando.’

Ela tirou da cintura o objeto rígido que a incomodava: uma pistola completamente preta, tão negra que parecia refletir cores.

Mas não conseguia apertar o gatilho.

Sem se importar, jogou a arma sobre a mesa.

Além da pistola, havia cinco livros sobre a indústria têxtil espalhados ali.

‘Não consigo lembrar quem eu sou.’

‘Isso significa que perdi a memória…’

‘Mas meu conhecimento básico ainda está intacto. Eu sei que uma pistola é uma pistola.’

‘Este lugar é uma sala fechada.’

‘Então minha prioridade deve ser escapar daqui. Numa situação assim…’

‘…normalmente existem pistas.’

‘Estranho. Por que estou deduzindo tudo isso tão facilmente? Deve ser porque… sou inteligente demais.’

Ela despejou o conteúdo da mochila sobre a mesa e descobriu apenas comida e medicamentos. Depois, esvaziou também os bolsos.

Alguns chicletes, uma esfera de vidro e um pequeno pedaço de papel amassado.

Ela abriu o papel e leu o conteúdo escrito:

‘O Bodisatva disse: “Os ensinamentos do Pequeno Veículo não podem libertar os mortos nem levá-los à ascensão; no máximo, apenas convivem em harmonia com o mundo mortal. Eu possuo as Três Coleções do Grande Veículo, capazes de elevar os mortos aos céus, salvar os aflitos do sofrimento, conceder longevidade infinita e alcançar o estado além da ida e da volta.’

‘Isso é do capítulo 12 de Jornada ao Oeste. Foi o que Guanyin disse para enganar Tang Sanzang.’

‘Mas no capítulo 13 isso já é desmentido. Tang Sanzang libertou a alma do pai do caçador.’

‘Guanyin mentiu.’

‘Então por que alguém arrancaria justamente a parte da mentira de Guanyin de Jornada ao Oeste?’

‘E ainda deixaria isso comigo… Está me alertando para tomar cuidado ao mentir?’

‘Espera.’

‘Por que eu sei que isso é Jornada ao Oeste?’

‘A menos que…’

‘…eu conhecesse muito bem essa obra antes. Tão bem que ela virou parte do meu conhecimento básico.’

‘Igual à pistola. Provavelmente eu via armas com frequência antes de perder a memória, por isso ainda reconheço uma.’

‘Tomar cuidado ao mentir?’

‘Quem precisa tomar cuidado?’

‘Eu preciso tomar cuidado!’

‘Mentir é proibido?’

‘Se eu quebrar essa regra…’

Qiu Yinong olhou para a pistola sobre a mesa. No senso comum, armas simbolizam julgamento e execução.

‘Mentir leva alguém a ser baleado?’

‘É só uma dedução. Não tenho como confirmar… mas é melhor ter cuidado e evitar mentir o máximo possível…’

Ela amassou o papel, fez pose de arremesso e o lançou num arco perfeito.

O lugar onde a bolinha caiu…

Já tinha outras quatro bolinhas de papel.

Ao ver aquilo, as pupilas de Qiu Yinong se contraíram instantaneamente. Ela encarou os cinco papéis no chão.

Percebendo que todos tinham exatamente o mesmo tamanho e as mesmas marcas de amassado.

‘Deixa eu pensar melhor…’

‘Isso quer dizer que antes de mim também houve pessoas jogando bolinhas de papel?’

‘Mas cada pessoa tem força e jeito diferentes. Como cinco pessoas poderiam lançar no exato mesmo lugar?’

‘A menos que…’

‘…todas essas cinco bolinhas tenham sido jogadas por mim!’

‘Conclusão: eu apareci cinco vezes nesta sala fechada, e perdi a memória em todas elas.’

‘Interessante.’

‘Se fui eu mesma, então, sendo tão inteligente, devo ter deixado pistas.’

Qiu Yinong se levantou lentamente e começou a procurar pelas pistas deixadas por si mesma.

Muito rápido.

Ela chegou à frente da poltrona.

Ali havia uma cadeira e um espelho de corpo inteiro.

No reflexo do espelho, Qiu Yinong viu ferimentos que sangravam em sua testa. Isso não era importante.

O importante era que…

Havia duas mensagens escritas em vermelho-sangue na superfície do espelho.

A primeira:

[ A cadeira possui o efeito da Grande Técnica de Recuperação de Memórias. Sente-se nela e suas memórias retornarão imediatamente. ]

‘Como se eu fosse acreditar nessa merda!’

‘Acha mesmo que eu não consigo deduzir de onde vieram os ferimentos na minha cabeça?’

‘Mas essa caligrafia…’

A segunda:

[ Este corpo não é meu. Este já é o quarto ciclo. Meu eu do futuro precisa descobrir por que, justamente neste quarto ciclo, apareci neste corpo. Além disso, a esfera de vidro provavelmente funciona como uma âncora de memória. ]

Qiu Yinong observou atentamente as palavras escritas com sangue no espelho.

Pensou por um instante, depois voltou até a mesa, passou o dedo no ferimento na testa e pegou um pouco de sangue.

Então copiou as duas mensagens do espelho sobre a mesa.

E descobriu…

Que a caligrafia era exatamente igual.

‘Essas palavras no espelho foram escritas por mim!’

Ela limpou o sangue da mesa com a manga da roupa e voltou diante do espelho.

‘Ou seja, eu ocupei o corpo de outra pessoa e fiquei presa nesta sala por cinco ciclos.’

‘Nas quatro vezes anteriores, deduzi as duas informações escritas no espelho.’

‘Espera.’

‘Se ocupei o corpo de outra pessoa… isso significa que outra pessoa ocupou o meu corpo original?’

‘Isso é troca de almas?’

‘Ou troca de memórias?’

‘Como perdi a memória, provavelmente é troca de memórias. Afinal, troca de almas normalmente não afeta lembranças…’

‘Ou seja, pelo menos duas pessoas passaram por uma troca de memórias.’

‘E se houver ainda mais pessoas, então fica pior. Supondo que existam cinco pessoas e que, a cada ciclo, as memórias sejam trocadas… então eu precisaria passar por cinco ciclos inteiros para voltar ao meu corpo original.’

‘Nesse caso, este não seria o quinto ciclo… mas o vigésimo quinto!!’

‘E se forem dez pessoas…’

‘…então seria o quinquagésimo ciclo!’

Pensando nisso, Qiu Yinong pegou automaticamente um chiclete da mesa. Sem sequer abrir a embalagem, segurou-o entre os dedos indicador e médio como se fosse um cigarro e levou à boca, puxando o ar profundamente.

Mas não tragou nada…

Ela olhou para o chiclete na própria mão e de repente percebeu algo. Imediatamente voltou o olhar para o chão.

‘Só existe um chiclete no chão.’

‘Não cinco.’

‘Isso significa que o chiclete não entra no ciclo, enquanto a bolinha de papel entra.’

‘Ou seja, os dois possuem propriedades diferentes. Um faz parte do ciclo; o outro, não.’

‘Nesse caso…’

Ela voltou o olhar para os objetos sobre a mesa, focando na pistola e na esfera de vidro.

A esfera tinha o número 2.

A pistola era negra de maneira absurda.

‘Esses dois objetos destoam completamente da comida e dos remédios na mesa.’

‘Será que um deles… ou talvez os dois… também fazem parte do ciclo?’

‘É a esfera de vidro!’

‘Afinal, do começo ao fim, o espelho nunca mencionou a pistola. Além disso, eu já deduzi que a arma serve para matar mentirosos.’

Qiu Yinong pegou a esfera de vidro.

‘Se isso é uma âncora de memória… como se usa?’

‘Espera.’

‘Se a esfera consegue atravessar os ciclos, por que eu só tenho uma?’

‘Não deveriam existir cinco?’

‘Duas possibilidades.’

‘Primeira: as quatro anteriores já foram usadas.’

‘Segunda: se a esfera não for usada, ela não entra no ciclo.’

‘O espelho não registra o método de uso da esfera. Então como meu eu anterior descobriu que ela era uma âncora de memória?’

‘A resposta está em…’

‘…na primeira mensagem: “A cadeira possui o efeito da Grande Técnica de Recuperação de Memórias”!!!’

‘Como eu descobri isso?’

‘A menos que, no ciclo anterior, enquanto ocupava outro corpo, eu tenha usado a esfera de vidro para armazenar minhas memórias e carregá-las para o próximo ciclo!’

‘Ou seja, eu deliberadamente não escrevi o método de uso da esfera porque queria que eu mesma… ou outra pessoa… deduzisse a resposta.’

‘Simplificando: suponha que existam quatro pessoas no ciclo: A, B, C e D.’

‘Na primeira vez, minhas memórias apareceram no corpo de A. Então usei a esfera de vidro para armazenar todas as lembranças daquele corpo. Assim, quando minhas memórias fossem transferidas para o corpo de B, eu ainda conservaria as experiências vividas no corpo de A.’

‘Já dentro do corpo de B, com as memórias do corpo de A intactas, escrevi a primeira mensagem no espelho desta sala!’

‘Mas existe um problema.’

‘Se é assim… por que desta vez eu não mantive as memórias do ciclo anterior?’

N/T Explicativa: Qiu Yinong acredita que, a cada ciclo, as memórias das pessoas trocam de corpo. Isso significa que sua consciência vai passando de um corpo para outro em sequência. Se existirem cinco pessoas no ciclo, então ela precisaria passar por cinco trocas para voltar ao mesmo corpo novamente. Por isso, mesmo que o espelho mencione apenas o “quarto ciclo”, ela percebe que o número real de ciclos pode ser muito maior. Se houver cinco pessoas trocando memórias continuamente, quatro voltas completas equivaleriam a vinte e cinco ciclos no total. Quanto mais pessoas existirem, maior será o número real de repetições.

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